Nossa conversa começou com o relato de querida SBCense:
. Estou vivendo uma 'situação limite' e quero ajuda de vocês...
. E o que vem a ser uma situação limite? perguntou a outra...
A terceira já consultou nossa IAIA (apelido 'carinhoso' e crítico que damos à inteligência artificial, ainda com sobrenomes, quais sejam, Meta, GPT, entre outros):. O conceito de situação-limite tem origem no filósofo alemão Karl Jaspers, que a considerava como "o contorno infranqueável onde terminam as possibilidades".
. No entanto, na pedagogia de Paulo Freire, o termo foi reinterpretado de forma positiva, significando "a margem real onde começam todas as possibilidades". Assim, situações-limite não devem ser encaradas de forma fatalista, mas como oportunidades para desenvolver pensamento crítico e gerar mudanças transformadoras... nos diz a IAIA. Freire propõe que superemos situações-limite por meio de atos-limites, rompendo barreiras de opressão e autoritarismo e tornando-se sujeitos capazes de criar situações libertadoras.
E aí outra de nós surgiu com a ideia de resignação...
. "Diante de situações limites devemos nos resignar, pois sofremos menos"...
Essa colocação causou alguns afetos na roda, principalmente naquela que estava vivenciando sentimentos ambíguos (medo, perda, raiva, culpa, desespero,...), diante da situação limite vivenciada. E ela disse:
. Meu sentimento é de indignação com essa ideia de resignação! Não consigo aceitar que sofreria menos me resignando. Nem sei se quero sofrer menos ou me tornar mais livre.
Na verdade aprendi e internalizei a resignação como um conceito cristão, entre outros conceitos que, eu diria, para a construção da minha liberdade e identidade enquanto mulher (que aprendi, junto com o deus cristão, a submissão como uma 'virtude feminina'), tive que, a ferro e fogo, ir desconstruindo ao longo da minha vida, junto com outros conceitos cristãos que me escravisavam.
As demais concordaram em parte com ela... e a conversa foi crescendo:
. Precisamos rever esse conceito de resignação... além de encontrar outros jeitos de vivenciarmos situações limite, pois essas fazem parte da vida. Talvez freirianamente, não negando o sofrimento que faz parte do humano, mas buscando superações, crescimentos, enfim, nossa humanização, com e através das situações limite.
E por aí caminhamos na nossa conversa...
. Resignação: entre aceitar e transformar... Vamos conversar com a IAIA de novo?
A palavra resignação carrega uma história interessante. Vem do latim resignatio, derivada de resignare, que originalmente significava algo como “deslacrar”, “abrir”, “desvendar”, mas também passou a adquirir o sentido de renunciar, abandonar ou entregar algo. Ao longo do tempo, especialmente no campo religioso e moral, resignação passou a significar a capacidade de aceitar aquilo que não pode ser mudado — muitas vezes com paciência, conformação e submissão.
. É justamente nessa ambiguidade que mora a força e o perigo da resignação, refletiu um de nós... sim, no SBC temos mulheres e homens refletindo... Há momentos na vida em que aceitar é uma forma de sabedoria. Existem perdas que não podem ser desfeitas, acontecimentos que não dependem de nossa vontade = envelhecimento, separações, doenças, mortes, mudanças e circunstâncias diante das quais lutar contra a realidade pode apenas aumentar o sofrimento. Nesses momentos, a resignação pode ser uma espécie de aceitação, reconhecer o que aconteceu, que faz parte da vida, abandonar a ilusão de controle (que aprendemos com o tal do perfeccionismo que nos desumaniza do post anterior) e encontrar forças para seguir adiante.
. Uma vez alguém do século passado me disse: podemos aprender com a Xuxa, refletindo: 'deixar de acreditar que somos donos e donas do próprio nariz e, ao mesmo tempo, não perder a mínima chance de sermos"... lembram da música?
. Mas a resignação também pode assumir outro rosto. Pode transformar-se em conformismo. Pode convencer uma pessoa de que não há nada a fazer diante da injustiça, da violência, da desigualdade, da opressão ou de uma relação que a machuca. Pode ensinar alguém a suportar aquilo que deveria ser enfrentado.
. Sim... durante séculos, muitas mulheres foram ensinadas a chamar de virtude aquilo que, muitas vezes, era apenas a obrigação de suportar. Resignar-se ao silêncio, à dependência, à violência, à falta de liberdade, à sobrecarga e à desigualdade foi frequentemente apresentado como sinal de paciência, bondade ou “boa formação”.
. Uma pergunta me ocorreu: Estou aceitando porque não posso mudar ou estou desistindo porque fui convencida de que não posso mudar? Essa pergunta pode transformar o significado da resignação, ou seja, a 'resignação libertadora', que nos humaniza e nos transforma, e a 'resignação da submissão', que nos faz permanecer no mesmo lugar, reproduzir uma sociedade que nos deseja objetos, alienados do sermos sujeitos transformadores, livres, humanamente livres... isso em todos os níveis de relação, das íntimas ao público=exercício da cidadania.
. Então podemos pensar: Aceitar o que não podemos mudar pode nos libertar... Aceitar como inevitável aquilo que podemos transformar pode nos aprisionar.
Foi aí que nos ocorreu a palavra SERENIDADE. Serenidade para reconhecer os limites da vida. Quando não podemos mudar o acontecimento, podemos mudar nossa relação com ele... Atividade, ação... para não abandonar aquilo que ainda pode ser transformado.
. Não podemos impedir que o tempo passe, mas podemos escolher como viver o tempo que temos.
. Não podemos recuperar determinadas pessoas ou momentos, mas podemos elaborar a perda e construir novos vínculos.
. Não podemos controlar a opinião dos outros, mas podemos decidir quanto poder damos a essas opiniões sobre nossa própria vida.
. Não podemos mudar o passado, mas podemos impedir que ele seja o único autor do nosso futuro. A liberdade é prospectiva...
. A resignação, o conformismo, diz: “É assim. Tenho que suportar.” A serenidade diz: “É assim. E agora, o que posso fazer com isso?” A serenidade poderia ser, também, uma 'inconformidade criativa', aquela capacidade de olhar para o mundo e dizer "poderia ser diferente" ... e, depois, perguntar: "O que posso fazer para se seja?
Então a primeira pessoa da roda voltou a refletir:
. Há uma sabedoria em distinguir quando insistir e quando soltar. Quando lutar e quando descansar. Quando dizer “não” e quando simplesmente deixar ir. Estou aprendendo, então, que, talvez, a resignação não precise ser completamente abandonada. Ela pode ser transformada. Tento recuperar, para a minha vida, o Deus de Espinosa, o deus dentro de mim ... e o deus natureza, da qual faço parte. Esse deus vem a ser a força dentro de mim, de superação dessa situação limite. Assim como vocês, que me fazem forte e humana. E me ajudam na sabedoria de resignar-me diante do inevitável... e mudar o que pode ser mudado
Pensando aqui que às vezes sou muito dura comigo mesma, muito exigente, aprendi com minha mãe. Ser menos dura comigo mesma = também com ela = penso que vai me tornar mais leve, me humanizar. À vezes acerto, às vezes não, na nossa relação "lamber nossas próprias feridas" vai valer a pena...
Aprendendo sobre resignação, sobre inconformismo e sobre transformação, aprendi também a resiliência. Essa palavra, que vem do latim resilire e que está relacionada a 'voltar atrás', recuperar-se, voltar a ser quem éramos, mas não apenas isso = significa tornarmo-nos outra pessoa. Não significa ser forte o tempo inteiro nem suportar tudo em silêncio. Significa poder cair, sentir, chorar, pedir ajuda e, ainda assim, encontrar algum caminho para continuar. Significa aprender a capacidade de atravessar as dificuldades sem permitir que elas nos definam
Nos abraçamos e lembramos de "rezar":
Deus, concedei-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar...
Coragem para mudar aquelas que posso,
E sabedoria para distinguir umas das outras.
Essa oração é atribuída ao teólogo norte‑americano Reinhold Niebuhr (1892–1971), e
- tornou-se amplamente conhecida após ser adotada pelos Alcoólicos Anônimos na década de 1940–1950.
- Ainda queríamos conversar muito sobre Jaspers e as situações limite = luta, morte, acaso e culpa, como as mesmas nos afetam e como podemos também aprender com elas.
- Já começamos a conversar com a IAIA, mas deixamos para a próxima conversa entre nós.
- E, como sempre, o riso ajuda muito... e os amigos e amigas também... a tornar a vida mais leve e mais bonita... Abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham,
Santuza TU



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