sábado, 1 de agosto de 2026

NOSSOS DESTAQUES DO FESTIVALE 2016

Botumirim está no norte de Minas, na Cordilheira do Espinhaço, a cerca de 575 km de Belo Horizonte. Significa "serra pequena" ou "pedra pequena" em tupi.

Rolinha do Planalto–Foto: Wilson Santos

A cidade fica próxima ao Parque Nacional das Sempre Vivas e abriga o Parque Estadual de Botumirim. Na entrada, as casinhas coloridas... e as casinhas de passarinhos, pois a cidade - e a região - é conhecida como o "recanto dos passarinhos", especialmente a Rolinha do Planalto: cor de canela, mais clara no ventre, olhos e manchas azuis nas asas, uma das aves mais raras do planeta, que passou 75 anos julgada extinta, até ser reencontrada naquela região em 2015. “Passarinho pintadinho, o tenor da laranjeira”, canta Déa Trancoso. 

E o 41º Festivale em Botumirim, promovido pela FECAJE Federação das Entidades Culturais e Artísticas do Vale do Jequitinhonha e o Instituto Sócio Cultural Bruta Flor, celebra a resistência das mulheres do Vale. O evento homenageia a atriz e diretora de teatro Cristina Gonçalves (Mostra de Teatro); a narradora, compositora, cantora e pesquisadora Déa Trancoso (Festival da Canção); a tecelã Marlice Machado (Feira de Artesanato); a mestra da Folia de Reis Jovença Pereira Costa (Mostra de Cultura Popular); e a poetisa Vilma Baracho, in memoriam (Noite Literária).  As homenageadas são mulheres que tecem, cada uma à sua maneira, a trama da resistência cultural do Vale, inclusive contra a misoginia do meio artístico. 

Ficamos conhecendo um pouco mais da Déa: Em 1995, na décima edição do Festivale, em Rubim, ela subiu ao palco como concorrente e venceu ao interpretar “Tuíra, Índia Guerreira”, de Si Amaral e Celi Márcio — levando o primeiro lugar e o prêmio de melhor intérprete. Trinta e um anos depois, retorna ao festival como homenageada. A escolha daquela canção, hoje, ganha outra camada: Tuíra, liderança indígena que enfrentou a Eletronorte em 1989, era símbolo de resistência. Déa a cantou antes mesmo de reconhecer que carregava, ela própria, uma descendência indígena — uma sincronia que só o tempo despertou. “Eu me reconheci Borum”. 

Em entrevista à BdF - Brasil de Fato, ela diz: “Eu não imaginei, nem nos meus melhores sonhos, que um dia eu seria homenageada no Festivale“. Ela pensava que sua música não tivesse “o substrato do sertão”. “Tem, mas não é explícito. Meu texto conversa com o Oriente, conversa com espiritualidades que não são só caboclas”, diz. 

Déa fala do Festivale como quem fala de um organismo vivo — e de um tempo que não é o dos relógios. “Nós estamos vivendo crises homéricas. De como ser, de como estar. O capitalismo é um sistema ultra inteligente. Quando ele cai aqui, ele se levanta ali. Ele tem o fascismo como aliado histórico milenar. O fascismo é tudo que é contra a vida”, afirma. 

Ao falar da nova direção da FECAJE, ela levanta a questão que considera central: como fazer o Festivale criar permanência — política, cultural, artística, formativa, de resistência? E reflete sem a presunção de saber a resposta: “Não sei se ele tá dando conta desse redemoinho. “Ele faz uma festa itinerante, mas e as outras ações? Como a gente pode estar fora da itinerância de julho fazendo resistência? Qual é a nossa resposta para essa região?”.

E a mesma matéria da BdF Brasil de Fato que fala da Déa e das mulheres homenageadas, nos conta a história de Minas e do Brasil à época do surgimento do FESTIVALE:

Do 'falso milagre econômico da ditadora' - o PIB (produto interno bruto) cresceu, mas o salário mínimo perdeu metade do valor, a dívida externa quadruplicou, a desigualdade disparou — vieram políticas de ocupação para o Vale: uma delas, o eucalipto.

Criado em 1967, o Projeto Rondon levou universitários a regiões isoladas do país. A Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) instalou em Araçuaí um campus avançado vinculado ao programa, que centralizava as ações sociais da universidade no Vale. Mas foi nesse mesmo chão que a resistência brotou pela cultura. Na mesma época, chegou em Araçuaí um frade holandês, Frei Chico. Três anos depois, ouviu a cozinheira da paróquia cantar e disse: “Bonito, Filó!” — “Ah, é bobagem.” (veja o conceito SBCense de bobagem! - coisa boa pra vida). Daquela bobagem nasceu o Coral Trovadores do Vale (1970). Lira Marques entrou no coral e, com Frei Chico, percorreu o Vale com um gravador velho, registrando cantos que ninguém mais cantava. No mesmo período, o Campus Avançado do Vale do Jequitinhonha (CAVJ) - extensão da PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica — aproximou a universidade das artesãs, apoiou a associação, organizou feiras. Frei Chico e o CAVJ não eram a mesma coisa, mas aconteciam no mesmo lugar e no mesmo tempo.

Foi nos anos 70 que Tadeu Martins, Aurélio Silby, Carlos Figueiredo e George Abner — dentro de um ônibus vindo de Belo Horizonte — pensaram em ter um jornal que desse voz e vez à região. Como disse Tadeu, “naquele período da ditadura militar, era preciso buscar formas de organização.” Nasceu o Jornal Geraes (1978).

A partir da rede que o Geraes formou, organizaram o 1º Encontro de Compositores do Vale (3/11/1979, Itaobim). Para divulgá-lo, criaram um cartaz que parodiava os cartazes de “procurados” da ditadura — com as fotos dos músicos e o título “Procurados” em letras garrafais.

O cartaz deu rebuliço: Globo, Alterosa e Band bateram na porta. Foram três entrevistas em TV e mais duas emissoras de rádio — Guarani, Rural e Inconfidência. Lotou o 1º Encontro de Compositores. Foi a base sólida para se criar o Festivale, que nasceu em julho de 1980, em Itaobim.

Antes de ser celebrado, o Vale foi extraído — mineração de diamantes e ouro que partiu, monocultura do eucalipto que não partiu. Pesquisadores da UFMG documentam que a população “assistiu atônita à tomada de terras comunais e ao escasseamento crescente de água”; o eucalipto, até hoje, seca mananciais nas chapadas.

Agora o discurso do "lítio verde" chega como nova promessa — o mesmo falso milagre, a mesma roupagem. O Vale reconhece o ciclo: a extração muda de nome, a prática é a mesma.

É nesse cenário que o Festivale chega à 41ª edição. 

A Feira de Artesanato deste ano leva o nome de Marlice Machado, tecelã de Roça Grande, distrito de Berilo, onde a tradição têxtil é ancestral. Filha de Dona Leontina Amaral, que lhe ensinou o tear aos 9 anos, ela mantém o legado da mãe: a sobreposição de fios, o tear tradicional. Marlice fala de resistência com as palavras de quem ficou. “Hoje vejo o quanto fui persistência e resistente a esse ofício. Nenhum dos meus sete irmãos conseguiu resistir — procuraram outras fontes de renda. Mas outros parentes e vizinhos resistiram também como eu, e sou muito grata por eles terem escolhido seguir até aqui. Creio que não vai acabar nunca”, conta. Sobre ser homenageada no Festivale, ela revela: “Hoje não sou rica financeiramente, mas milionária de cultura ancestral. É uma gratidão imensa para mim e para todos da minha comunidade e principalmente para minha mãe, que não perdia nenhum Festivale.”

Aprendi com uma amiga SBCense: porque falamos|distinguimos ARTE e ARTESANATO?     Diz ela que essa distinção coloca o que chamamos de arte como uma coisa de elite, sendo que artesanato é uma produção 'pobre', de menos valor, porque de uma classe social 'baixa'... tem todo sentido! Conversando com querida produtora de licores de Taiobeiras, além de poeta, Marileide, ela também concordou inteiramente e disse que já não usava a palavra artesã ou artesão, e sim a 'obra' ou o 'trabalho' de fulana ou cicrano... Pois eles e elas são artistas! Adorei, não uso mais...

Na mesma linha de reconhecimento às guardiãs do Vale, a Mostra de Cultura Popular recebe o nome de Dona Jovença Pereira Costa, mestra da cultura popular e batuqueira. Além de pioneira, ela é considerada uma das principais guardiãs das tradições do Batuque e da Folia de Santos Reis de Comercinho. Aprendeu a manifestação com sua mãe, Maria de Aprígio, e dedicou a vida à preservação e transmissão desse saber. No vídeo o Grupo de Catopês de Montes Claros - Marujada, Caboclinhos, lindíssimo... entre outros também lindíssimos. E um jovem simpático do grupo nos conta a história e os valores do mesmo, além de nos dar a honra da foto:

A Noite Literária homenageia Vilma Baracho (in memoriam), poetisa natural de São Gonçalo de Rio das Pedras, distrito de Serro — sua poesia, enraizada na vida do Vale, permanece como legado. O Vale do Jequitinhonha encontrou nela uma guardiã da poesia. Com generosidade, ela acolheu vozes, uniu gerações de poetas e fez da palavra um gesto de amor. Em Diamantina ficou carinhosamente conhecida como "madrinha dos poetas". Por onde passava, sempre levava consigo os livros de autoria da própria mãe, Virgínia Baracho, fazendo sempre questão de declamá-los, mantendo-os vivos. E suas filhas, emocionadas, fizeram o mesmo. 

Na foto temos nosso querido Cláudio Bento, grande poeta da ALVA Academia Literária do Vale, sendo homenageado. E, do lado, querida Marli Fróes, também acadêmica da ALVA, apresentando a Noite Literária.

Tive a honra de ser jurada nessa noite, juri presidido pela querida Tida Carvalho. Nem vou falar sobre nosso bi-campeão, querido Guguzinho Fofinho, com seu poema 'Velho Jequitinhonha'... Farmou aura, arrasou ...

Nosso destaque é para o poema a seguir, que muito nos emocionou:

Da terra, do Vale

As casas são da terra

e as mulheres

que habitam as casas

são mulheres

como as árvores da caatinga

resistentes

como as mulheres

de raízes profundas

em busca de água

as árvores perdem as folhas totalmente

e as mulheres nunca perdem totalmente as esperanças

elas as cultivam

em antigas cantigas

que perduram no tempo

e ecoam com o vento

eternamente

reúnem memórias

nas rodas de ciranda

na língua do barro

no forno do sol

nas cores da terra

e o que se sabe

é que muito se guarda

e também muito se espera

a liberdade é uma imagem

das roupas brancas presas ao varal

o corpo aguenta o baque do sol

como vasilhas no jirau

a cabeça é um leito de chão rachado

por onde a água viaja

em uma lata

para saciar a sede

dos que também têm fome

a farinha torrada

o vaso de barro

o algodão fiado

a vida torneada

a coragem faz morada

no olhar de mulheres enraizadas

todos os tesouros estão enterrados

minha avó conhecia todos os segredos

água-marinha

diamante, ouro

lítio, rubelita

quanto vale o Vale?

mais vale levar um rosário na mão

mais vale viver com devoção

ter a faca e o queijo na mão

mais vale espetar o dedo na roca

do que não fiar a vida com o coração

mais vale mesmo é viver

mas de que vale viver

sem pisar nesse chão?

as mulheres...

as mulheres e suas raízes

raízes da terra

raízes do Vale

💜💛💙💓

Já a abertura da Mostra de Teatro celebra Cristina Gonçalves, atriz e diretora de arte de Medina e presidente da Associação dos Grupos de Teatro do Jequitinhonha (Agrutevaje). Ela destaca que sua formação artística foi profundamente marcada pelas oficinas do Festivale, onde teve acesso a cursos que, segundo ela, não teria condições de realizar fora dali. Ao receber a homenagem Cristina Gonçalves diz ter ficado “muito feliz, lisonjeada demais da conta”, lembrando que sua relação com o teatro e com o grupo Ícaros do Vale  começou ainda na juventude, quando viu pela primeira vez uma cena na rua ser demarcada com fubá e decidiu que aquela seria sua vida. Para ela, aceitar estar no cartaz ao lado de mulheres como Déa Trancoso e Jovença não é sobre ego, mas sobre representar tantas outras trabalhadoras da cultura que seguem invisibilizadas, atacadas e silenciadas.

Nossa querida Deyse Magalhães fez um apanhado excelente desses dias no FESTIVALE. Obrigada Deyse:

Enfim, escrevendo esse texto no sábado, ainda não acabou o FESTIVALE e essa 'resenha' não é um décimo de apenas um dia e duas noite de FESTIVALE. Até agora são apenas nossos destaques desse período. Hoje e amanhã teremos o resultado do festival das canções, o ponto alto do FESTIVALE, infelizmente não estaremos lá. Mas acompanharemos de longe, certeza que a Deyse nos contará sobre as lindas canções e outras coisas que perdemos. 

Por exemplo, a Bênção das Águas, que será realizada às margens do Rio do Peixe, reúne o Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, de Bocaiúva; o Terreiro São Rafael, de Medina; os Tamborzeiros de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, de Virgem da Lapa; e o Congado de Nossa Senhora da Conceição — fé, ancestralidade e sincretismo encontrando o rio.

Cachoeira do Bananal em Botumirim – Foto: Wilson Santos

Enfim, aguardamos resenha da nossa querida Deyse, especialista em registros maravilhosos da arte e da cultura - além de grande escritora e poeta. 

Abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham.

Santuza TU