sábado, 3 de outubro de 2026

Conversas SBCenses: sobre GRENZSITUATIONEN

Memórias de um tempo de crescimento, de humanização, de amadurecimento pessoal e profissional... e, principalmente, da construção de amigos e amigas e da valorização desse nível de relação, considerando o mesmo como o mais importante para a aprendizagem de relações simétricas, que são as mais prazerosas, "cresço com @ outr@ e ofereço minha experiência e minhas reflexões para que, também @ outr@ cresça comigo". Essa aprendizagem vem a transformar nossas vidas, pois rompe com nossa "aprendizagem" e "reprodução" de uma sociedade que deseja a alimenta a dominação e a servidão|submissão nos vários níveis de relação, do íntimo(relações afetivo sexuais) ao público(exercício da cidadania).

Ali no bairro Cruzeiro, em Belo Horizonte, nos anos 80 do século passado, alguns e algumas de nós vivenciamos, além de mudanças radicais nas nossas vidas pessoais, uma mudança de paradigma da psicologia. Questionávamos o que tínhamos aprendido na nossa "deformação superior", pois o modelo que tinhamos à época era o modelo médico de saúde doença, as psicopatologias eram vistas assim (e talvez ainda sejam).

Na nossa clínica no Cruzeiro aprendíamos a ler uma "unidade de leitura" previamente definida, pode ser um parágrafo, pode ser um capítulo, pode ser um livro todo... pode ser também um poema, uma música, um filme, tudo isso que já existe certamente foi um processo de reflexão da pessoa que o fez. E servirá, para nós, como PRÉ texto, ou seja, quem faz o texto somos nós, enquanto sujeitos do conhecimento, nós produzimos o mesmo. O conhecimento do ser para a vida, para a transformação, de nós mesm@s e do mundo.

Ao movimento acima chamávamos  método TAP, tão difícil de ser explicado teoricamente...  assim como difícil de ser praticado, penso que em virtude da nossa cultura fragmentada... No entanto, quando aprendemos, tal movimento passa a fazer parte de tudo nas nossas vidas, passamos a vivenciar diferenças na nossa visão de mundo, nas nossas relações... criticamos os modelos aprendidos e construímos novos modelos, vivos, em movimento... em todos os níveis de relação, nos transformamos, de objetos a sujeitos, políticos, num sentido amplo, eu diria.


E foi assim, com o método TAP, o conhecimento passando por dentro da gente, provocando nossa reflexão nos vários níveis de relação,  que estudamos, além de filósofos como Nietzsche e Espinosa, Freud, entre outros... re estudamos psicopatologia, rompendo com o modelo médico e 'construindo' o modelo fenomenológico de psicopatologia.


Jaspers também discute a distinção entre conexões significativas e causais, e entre explicação e compreensão, enfatizando a importância da compreensão genética para entender a cadeia de eventos psíquicos. A obra de Jaspers é um exemplo de como a psicopatologia pode ser abordada tanto como uma ciência biológica natural quanto como uma ciência humana que busca compreender a experiência de sofrimento do paciente.

A Psicopatologia Geral de Jaspers é um exemplo de como a filosofia pode contribuir para a psiquiatria contemporânea, oferecendo uma perspectiva que combina a ciência e a compreensão humana.

Karl Theodor Jaspers  1883 = 1969 foi um psiquiatra e filósofo alemão-suíço que exerceu grande influência na teologia, psiquiatria e filosofia modernas. 

💦💥💧

Éramos um grupo de psicólogas e psicólogos... e pessoas de outras áreas, educação, saúde, etc, que fazíamos a Formação Crítica, ou Formação para Ser Reflexivo. As psicólogas e psicólogos trabalhávamos juntos e juntas, estudávamos juntos e juntas, além de, por algum tempo, também praticávamos dança de salão... quando todo mundo acabava de atender clientes em terapia, lá pelas 20h da quinta feira, contratamos um professor e uma professora e, no salão onde também fazíamos terapia em grupo em coterapia com nossa mestra ... dançávamos boleros, sambas, dança de salão até lá pras 22h... depois saíamos para uma cerva... tinha uma de nós que dizia: "mesmo cansada eu vou, pois não quero ser a pauta", ou seja, quem não ia era pra gente falar mal... 

Esse grupo foi se desfazendo com a passagem da nossa querida mestra, de alguma forma responsável pela nossa união. Circunstâncias várias foram nos distanciando, mudanças de cidade, questões econômicas, outros objetivos... mas a semente tinha sido lançada e cada um(a) do seu jeito multiplicava aqueles conceitos que mudaram nossas vidas.


Pois bem, "viver é perigoso", tudo que me salva pode me matar, como aprendemos com Rosa. A tecnologia é um exemplo. Pode tanto aproximar como distanciar as pessoas. Algum tempo mais tarde nos encontramos num grupo de Whatsapp. E daí, pessoalmente por algumas vezes, menos do que eu gostaria, mas sempre com as mesmas trocas enriquecedoras. 

E, semana passada, vivenciando uma situação limite, me lembrei de novo de Jarpers e recorri ao grupo: "quem se lembra daquele texto que falava sobre luta, morte, culpa, acaso? Preciso rever esse texto, reaprender ... me ajudem amigas e amigos..."

E foi com a maior presteza que, com a ajuda da IAIA GPT, recordamos:

. O livro em que Jaspers apresenta inicialmente essa formulação é Psicologia das Visões de Mundo (Psychologie der Weltanschauungen, 1919). Nessa obra, ele identifica especificamente quatro situações-limite: luta, morte, acaso e culpa — exatamente os quatro termos que você mencionou, começou a responder no grupo uma das queridas amigas...

Para Jaspers, são experiências das quais não conseguimos simplesmente escapar ou “resolver” como resolvemos um problema cotidiano. Elas nos colocam diante dos limites da existência e podem modificar profundamente a maneira como compreendemos a nós mesmos.

Há uma evolução interessante no pensamento de Jarpers. Em Filosofia (Philosophie, 1932), volume II — “Esclarecimento da Existência”, Jaspers aprofunda o conceito e passa a tratar explicitamente de morte, sofrimento, luta e culpa, além da determinação histórica da existência; o acaso aparece relacionado a esta última. 

E ela continua a compartilhar conosco sua pesquisa no chat:

Vale começar por uma ideia central: 
Para Karl Jaspers, uma situação-limite não é simplesmente uma situação muito difícil. É uma situação constitutiva da existência humana, da qual não podemos escapar definitivamente nem eliminar por conhecimento, técnica ou planejamento. Diante dela, nossas formas habituais de controle mostram seus limites. 

Na formulação inicial de Psicologia das Visões de Mundo (1919), aparecem especialmente luta, morte, acaso e culpa. Explicando cada uma delas — sobretudo “luta” e “acaso”, que podem induzir a uma interpretação mais simples do que Jaspers pretendia.

1. Luta — Kampf

Para Jaspers, viver significa inevitavelmente encontrar resistência, oposição e conflito. Não se trata apenas de brigar com alguém. Há luta porque nossos desejos, projetos, valores e necessidades encontram os desejos, projetos e limites dos outros — e os próprios limites da realidade.

Imagine duas pessoas igualmente responsáveis diante de uma decisão difícil. Ambas possuem argumentos legítimos, mas não é possível realizar integralmente o que as duas querem. Escolher implica renunciar, contrariar ou sacrificar alguma coisa. É isso que torna a luta uma situação-limite.

Não existe uma vida humana na qual consigamos eliminar completamente o conflito. Mesmo quando tentamos não escolher, essa omissão já produz consequências.

Há aqui uma ideia muito importante: a racionalidade pode esclarecer o conflito, mas nem sempre consegue dissolvê-lo.

Isso interessa muito ao nosso estudo de julgamento. Em um Conselho, por exemplo, pode haver simultaneamente razões legítimas para preservar empregos, garantir a sobrevivência econômica da empresa, remunerar investidores e proteger determinada comunidade. Mais informação ajuda — mas pode não existir uma solução que preserve integralmente todos esses valores.

Aqui G. Rosa conversa com Jarpers (e conosco): "sou quando divirjo"... aprendemos que  'conflitos abertos geram mudanças', mesmo que não sejam a que queremos... e, por isso mesmo, temos receio de abrir conflitos... e 'engolimos'... e conflitos engolidos geram sofrimento. No medo de abrir conflitos podemos nos submeter ao outro, podemos, tragicamente, 'deixar de existir'. E isso acontece muito, creiam, pensem nas relações íntimas e na família, assim como no trabalho,  podemos nos prender facilmente no "ser do jeito que o outro quer que eu seja, para sermos amad@s, reconhecid@s..." 

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2. Morte — Tod

É talvez a situação-limite mais evidente.

Sabemos que vamos morrer, mas não conseguimos experimentar antecipadamente nossa própria morte nem eliminá-la.

E existe uma diferença fundamental entre saber abstratamente que “todos morrem” e experimentar a morte como possibilidade minha ou de alguém que amo.

Enquanto a morte permanece uma informação estatística, ela pode ficar distante. Quando se torna existencialmente presente — doença grave, envelhecimento, perda de alguém próximo — nossa relação com o tempo pode mudar.

A pergunta deixa de ser apenas: “Quanto tempo tenho?” e pode se tornar: “O que merece o tempo que tenho?”

Por isso a morte, em Jaspers, não é apenas um acontecimento biológico. Ela revela nossa finitude. E a consciência da finitude pode modificar nossas escolhas.

Aqui aparece novamente algo relevante para a IA: uma máquina pode calcular probabilidades de sobrevivência, expectativa de vida, riscos ou cenários. Mas esses números não resolvem o significado que a finitude possui para uma pessoa.

Essa diferença entre conhecer um fato e existencialmente confrontar-se com ele é fundamental em Jaspers. 

As situações-limite podem romper nossas falsas seguranças e produzir uma nova consciência de nós mesmos. 
Me lembrei de um de nós naqueles anos 80 já nas nossas lembranças,  que citava bastante o filme Balada de Narayama, e dizia sobre o conceito de morte na nossa cultura e em outras culturas. Mais tarde revi esse filme, assim como outro que também trabalha tal conceito:

A partida, de 2009 Daigo Kobayashi tem o sonho de tocar violoncelo profissionalmente. Para tanto se endivida e compra um instrumento, conseguindo emprego em uma orquestra. O pequeno público que comparece às apresentações faz com que a orquestra seja dissolvida. Sem ter como pagar, ele devolve o instrumento e decide morar, com sua esposa Mika,  em sua cidade natal. Em busca de emprego, ele se candidata a uma vaga bem remunerada sem saber qual será sua função. Após ser contratado, descobre que será assistente de um agente funerário, o que significa que terá que manipular pessoas mortas. De início Daigo tem nojo da situação, mas a aceita devido ao dinheiro. Apesar disto, esconde o novo trabalho da esposa. Aos poucos ele passa a compreender melhor a tarefa de preparar o corpo de uma pessoa morta para que tenha uma despedida digna.
Nesse filme também acontece a resignificação da morte. Muito lindo, o filme...

Mas outro dia mesmo fui ver o filme NOSSO SEGREDO, da grande cineasta mineira Grace Passô, que também aborda esse tema, um filme maravilhoso cheio de metáforas preciosas. Escrevemos sobre o mesmo no nosso post de 10 de setembro.

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3. Acaso — Zufall

Esta "situação limite" é particularmente interessante.

Nós gostamos de imaginar nossa vida como resultado de decisões, planejamento e causalidades compreensíveis. Mas uma parcela enorme daquilo que somos depende de acontecimentos que não escolhemos.

Não escolhemos onde nascemos. Não escolhemos nossos pais. Não escolhemos muitas das pessoas que encontramos. Um acidente pode mudar uma vida. Uma oportunidade inesperada também. Uma doença, uma guerra, uma crise econômica ou um encontro fortuito podem alterar completamente uma trajetória.

O acaso confronta nossa necessidade de imaginar que controlamos nossa existência.

E existe aqui uma distinção muito bonita: o acaso explica que algo poderia ter sido diferente; ele não nos diz o que fazer com aquilo que aconteceu.

Podemos tentar reduzir o acaso por meio de previsão, seguros, estatística, planejamento e tecnologia. Devemos fazê-lo. Mas nunca conseguiremos eliminá-lo.

Portanto, a situação-limite não é simplesmente “aconteceu algo inesperado”. É perceber profundamente: minha existência poderia ter sido outra. E, apesar disso, esta é a existência que me cabe assumir.

É justamente por isso que Jaspers se torna extremamente atual diante da IA. Quanto mais poder preditivo adquirimos, maior pode ser a tentação de acreditar que aquilo que não conseguimos prever representa apenas uma deficiência de dados. Jaspers, no entanto,  nos lembra de algo diferente: incerteza e contingência não são apenas problemas técnicos; pertencem à condição humana.

Costumamos falar de sorte e de azar. E, uma vez, uma cliente chegou à terapia expondo uma raiva sua de pessoas que achavam que ela tinha nascido com o "c* pra lua":

Todo mundo só vê as pingas que tomo, mas não vê os tombos que levo.

E ela definiu sorte: "e a capacidade de ver, e aproveitar, as oportunidades que nos surgem".
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4. Culpa — Schuld

Esta talvez seja a mais complexa das quatro.

Para Jaspers, agir significa inevitavelmente entrar em uma rede de consequências. Escolhemos alguma coisa e, ao escolher, deixamos outra de lado. Podemos causar consequências que não pretendíamos. Podemos descobrir posteriormente que nossa decisão estava errada. Podemos ter de decidir mesmo quando nenhuma alternativa é inteiramente boa.

É importante distinguir isso da ideia banal de culpa como simples sentimento psicológico de “sentir-se culpado”.

A questão de Jaspers é mais profunda: posso ser responsável pelas minhas escolhas mesmo quando não consigo controlar todas as consequências delas.

E aqui acontece a aprendizagem profunda para a vida: mudar o conceito de culpa para responsabilidade, "responder por..." , responder pela minha liberdade, me disse, também um cliente... e liberdade não é um conceito fechado, pronto e acabado. É, também, um conceito em movimento, como a vida: hoje sou um pouco mais livre do que ontem e um pouco menos do que serei amanhã...

Posteriormente, depois da Segunda Guerra Mundial, Jaspers aprofundará extraordinariamente esse tema em A Questão da Culpa. Mas, nas situações-limite, interessa-nos sobretudo reconhecer que não conseguimos viver e agir permanecendo completamente “inocentes” diante de todas as consequências do mundo.

👍👍👍 💚💙💓

Virtualmente continua nossa conversa. E nossa querida amiga =  anos 80 e atual = continua sua pesquisa|conversa junto à IAIA... e nos compartilhando. Vejam o questionamento que ela mandou pro Chat: 

O que você apresentou está fundamentado nas obras de Jaspers?
Você não inventou e nem delirou ou mesmo não teve coragem de responder que não tinha conhecimento?

Confesso que nunca tinha conversado com a IAIA nesses termos. Costumava modificar o que ela me respondia, de acordo com o meu TAP, sem questioná-la. Interessante que, ao questioná=la, ela nos coloca mais informações. No entanto, o TAP é nosso!

E, diante do questionamento, a IAIA nos responde,  acrescentando:

Sim. O núcleo do que apresentei está fundamentado em Jaspers, e fiz agora uma verificação adicional para separar com cuidado o que é formulação dele do que foi minha explicação didática.

Os pontos centrais estão diretamente ancorados em suas obras:

* Em Psicologia das Visões de Mundo (1919), Jaspers desenvolve a noção de situações-limite e trabalha com temas como luta, morte, acaso e culpa. 
* Em Filosofia, vol. II — Esclarecimento da Existência (1932), ele aprofunda conceitos como Existenz, liberdade, comunicação existencial, situação-limite, luta, culpa, sofrimento e transcendência. 
* Em uma obra introdutória posterior, publicada em inglês como Way to Wisdom, aparece de forma muito clara a formulação: devo morrer, sofrer, lutar, estou sujeito ao acaso e me envolvo inevitavelmente em culpa. 
* A importância da comunicação existencial para o tornar-se si mesmo também é parte reconhecida da filosofia de Jaspers, não uma associação minha. 

Há, porém, uma distinção importante: frases que escrevi como “Diante da vida que efetivamente me foi dada, quem escolho ser?”, ou a estrutura “problema pede solução / situação-limite exige posicionamento”, não são citações de Jaspers. São formulações minhas para tornar o pensamento dele mais inteligível. Elas procuram sintetizar fielmente o argumento, mas não devem ser apresentadas como palavras do autor.

Também merece correção de precisão um ponto do texto anterior. Quando escrevi que Existenz seria algo como “existência autêntica”, usei uma simplificação comum, mas “possível existência” ou “Existenz” é mais rigoroso em Jaspers. Ele não emprega o conceito simplesmente como sinônimo de uma personalidade verdadeira escondida que uma crise revelaria. Trata-se da possibilidade de tornar-se si mesmo por liberdade, decisão, comunicação e confronto com os limites da existência. 

Portanto: não inventei a doutrina, mas usei linguagem interpretativa em alguns trechos. E você está certa em cobrar essa separação.

E IAIA continua, com mais rigor em nos mostrar a teoria de Jarpers:

Daqui em diante, neste estudo de Jaspers, posso adotar um padrão mais rigoroso: “Jaspers afirma” somente quando houver base textual identificável; “podemos compreender assim” quando for interpretação minha; e “não encontrei base suficiente” quando eu não puder confirmar. Isso evita exatamente o risco de transformar uma boa explicação em uma atribuição indevida ao filósofo.

Hummmm... interessante ... prossiga IAIA ...

Para Jaspers, uma Weltanschauung não é simplesmente uma opinião sobre o mundo, nem apenas uma filosofia que alguém declara seguir.

É algo mais abrangente: envolve a maneira pela qual uma pessoa se posiciona diante do mundo, percebe a realidade, atribui valores e orienta sua vida.

Na obra, Jaspers não pretende dizer ao leitor qual seria a visão de mundo correta. Ele procura compreender as diferentes posições que o ser humano pode assumir. No prefácio, é bastante explícito: quem procurar no livro uma resposta direta para “como devo viver?” não a encontrará; ele pretende oferecer esclarecimentos e possibilidades para a autorreflexão. 

A estrutura do próprio livro confirma isso. Ele passa pelas atitudes (Einstellungen), depois pelos quadros/imagens de mundo (Weltbilder) e finalmente pela vida do espírito. 

E é exatamente nessa última parte que encontramos as situações-limite.

E onde entram morte, luta, acaso e culpa?

Na edição crítica das obras completas de Jaspers, o capítulo “A vida do espírito” contém uma seção denominada “As situações-limite” (Die Grenzsituationen). 

E, quando Jaspers começa a tratar das situações-limite individualmente, escreve explicitamente sobre:

Kampf — luta
Tod — morte
Zufall — acaso
Schuld — culpa

A edição crítica registra exatamente esses quatro termos. 

Portanto, podemos estabelecer com segurança:

Visão/concepção de mundo → situações-limite → luta, morte, acaso e culpa

faz parte da arquitetura da própria obra de Jaspers.

Mas há uma relação ainda mais interessante.

As situações-limite podem abalar nossa concepção de mundo

Nós construímos maneiras relativamente estáveis de compreender a realidade.

Por exemplo:

“Se eu agir corretamente, as coisas tendem a dar certo.”
“Minha vida depende fundamentalmente das minhas escolhas.”
“Há uma explicação para aquilo que acontece.”
“Se eu compreender suficientemente um problema, conseguirei resolvê-lo.”

Essas convicções ajudam a organizar nossa experiência.

Jaspers percebe, porém, que podemos transformar nossa visão de mundo em uma espécie de proteção contra a insegurança da existência. A literatura especializada sobre Jaspers chama atenção justamente para esse aspecto: determinadas visões de mundo podem oferecer certezas nas quais nos refugiamos diante das possibilidades inquietantes da existência. 

Então aparece uma situação-limite.

A morte pode romper a convicção de permanência.
O acaso pode romper a convicção de controle.
A culpa pode romper a imagem que construímos de nossa própria inocência ou correção.
A luta pode romper a expectativa de que todos os conflitos possam ser finalmente conciliados.

E aqui eu faria uma distinção importante para não atribuir a Jaspers palavras que são minhas:

Minha síntese (da IAIA): 
Uma concepção de mundo organiza nossa experiência; uma situação-limite pode colocar essa organização em crise.

Concordamos com a síntese da IAIA,  esse é um dos pontos interessantes da teoria de Jarpers.

E ela continua: 
Isso é uma síntese interpretativa, não uma frase de Jaspers.  Mas está fundamentada na estrutura de Psicologia das Visões de Mundo e na função que as situações-limite desempenham nela. 

E há algo a acrescentar:
Jaspers diferencia atitudes (Einstellungen), imagens de mundo (Weltbilder) e a própria visão de mundo (Weltanschauung). Esses conceitos não são exatamente sinônimos.

E, diante do pedido de aprofundamento, IAIA continua:

O coração da filosofia existencial de Jaspers pode ser compreendido a partir de uma questão: como posso tornar-me verdadeiramente eu mesmo sabendo que sou finito, situado, dependente de circunstâncias que não escolhi e incapaz de possuir uma explicação total da existência?

1. Primeiro: Existenz não é simplesmente “existência”

Jaspers distingue diferentes maneiras de falar do ser humano.

Existe o ser humano que pode ser conhecido como objeto: seu corpo, comportamento, história, características psicológicas, posição social. Tudo isso pode ser investigado cientificamente.

Mas Jaspers sustenta que eu não me esgoto naquilo que pode ser conhecido sobre mim.

É aí que aparece Existenz. Existenz não é uma propriedade que possuo, como inteligência, temperamento ou memória. Também não é uma espécie de “eu verdadeiro” escondido dentro de mim esperando ser descoberto.

É uma possibilidade de ser. Eu me torno Existenz na medida em que assumo minha existência por meio da liberdade, das escolhas e da relação com aquilo que não posso controlar.

Essa distinção é central em Philosophie II: Existenzerhellung — Filosofia II: Esclarecimento da Existência.

2. Por que Jaspers fala em “esclarecimento” e não em “conhecimento” da existência?

Esse detalhe é fundamental. Jaspers chama essa parte de sua filosofia de Existenzerhellung — esclarecimento ou iluminação da existência.

Por quê?

Porque Existenz não pode ser transformada em objeto da mesma maneira que estudamos uma célula, uma sociedade ou um comportamento. Se eu perguntasse: “Mostre-me objetivamente minha Existenz.” já estaria cometendo um erro de categoria. Posso conhecer fatos sobre mim. Mas aquilo que posso ser não é um fato que encontro pronto. Precisa realizar-se.

Por isso a filosofia não entrega uma definição científica de Existenz. Ela procura criar condições para que a pessoa se esclareça a si mesma em suas possibilidades. Essa distinção entre conhecimento objetivo e Existenzerhellung é estruturante na filosofia madura de Jaspers.

3. Então chegam as situações-limite

Agora podemos compreender por que morte, luta, acaso e culpa são tão importantes.

Na vida cotidiana posso pensar: “Vou resolver isso.” “Vou controlar aquilo.” “Vou compreender o que aconteceu.” “Da próxima vez evitarei.” Grande parte da vida realmente funciona assim.

Mas as situações-limite apresentam algo diferente. Não posso resolver minha mortalidade. Não posso eliminar completamente o acaso. Não posso viver sem conflitos. Não posso agir no mundo sem entrar no campo da responsabilidade e da culpa.

Jaspers escreve em Philosophie uma formulação decisiva, frequentemente traduzida aproximadamente como: “Experimentar situações-limite e existir são a mesma coisa.”

A frase precisa ser entendida cuidadosamente. Ele não está dizendo que sofrer = existir autenticamente. Está dizendo que, nas situações em que encontro aquilo que não posso simplesmente transformar em objeto controlável, surge a possibilidade de confrontar-me com minha própria Existenz.

4. E o que acontece quando essa "caixa", essa carapaça (gehäuse) se rompe?

Chegamos à pergunta que deixamos anteriormente.

Construímos sistemas relativamente estáveis de significado: crenças, valores, explicações, projetos, expectativas. Eles nos permitem viver.

O problema aparece quando transformamos essas estruturas em algo absolutamente seguro — aquilo que Jaspers descreve, já em Psychologie der Weltanschauungen, através da ideia de Gehäuse, o invólucro ou “carapaça”.

Uma situação-limite pode revelar:  “Aquilo que eu acreditava ser absolutamente seguro não é.”

Então aparecem pelo menos duas possibilidades. Uma é procurar imediatamente outra certeza absoluta.

A antiga explicação desmorona → construo outra → volto a me proteger.

Mas existe outra possibilidade, muito mais radical: continuar vivendo sem transformar novamente uma explicação finita em certeza absoluta.

Aqui começamos a tocar o núcleo propriamente existencial de Jaspers.

5. Isso não significa relativismo

Esse ponto é importante. Jaspers não está dizendo: “Nada é verdadeiro; cada um acredita no que quiser.” Ele foi profundamente comprometido com razão, ciência e verdade. O que ele recusa é outra coisa: a pretensão de que uma forma objetiva de conhecimento possa fornecer uma compreensão total do ser e da existência humana.

A ciência pode responder extraordinariamente bem: “Como isso acontece?”

Mas existem perguntas que não desaparecem quando conhecemos todos os mecanismos disponíveis: “O que faço diante disso?" “Pelo que assumo responsabilidade?”  “Quem quero ser diante dessa situação?”.

Essas perguntas não são anticientíficas. São de outra ordem.

6. Aqui entra a liberdade

Para Jaspers, liberdade não significa: “Posso fazer qualquer coisa.”

Estamos sempre situados. Tenho um corpo que não escolhi. Nasci numa época que não escolhi. Tenho uma história que não posso apagar. Existem acontecimentos que já ocorreram e são irreversíveis. Vou morrer. Portanto: minha liberdade existe dentro de condições que não escolhi.

E isso produz um paradoxo muito bonito em Jaspers: quanto mais reconheço aquilo que não posso escolher, mais claramente aparece aquilo pelo qual posso responder.

E IAIA diz: Minha explicação didática seria: Não sou autor de todas as circunstâncias da minha existência, mas posso participar daquilo que me torno diante delas.

Essa frase é minha, não de Jaspers. Mas sintetiza uma dimensão importante da relação entre situação, liberdade e Existenz em sua filosofia.

7. Mas existe algo ainda mais surpreendente: não me torno eu mesmo sozinho

Aqui Jaspers se distancia de uma imagem excessivamente individualista do existencialismo. Para ele, Existenz está profundamente ligada à comunicação. Não basta retirar-me do mundo e perguntar: “Quem sou eu?”  Preciso encontrar o outro. E não apenas como objeto.

Quando classifico alguém — inteligente, difícil, generoso, conservador, inseguro — estou conhecendo aspectos dessa pessoa.

Mas ela também não se reduz às minhas descrições. Assim como eu sou mais do que aquilo que pode ser objetivamente conhecido sobre mim, o outro também é.

É possível então uma relação diferente: Existenz ↔ Existenz.

Jaspers chama isso de comunicação existencial (existentielle Kommunikation). Ela ocupa um lugar central em Philosophie II.

E daí vem uma das ideias mais características de Jaspers:
Eu não me torno plenamente eu mesmo isolando-me do outro; tornar-me eu mesmo e encontrar verdadeiramente o outro são processos relacionados.

8. E a comunicação verdadeira não elimina a luta...

Aqui acontece algo fascinante. Podemos imaginar que uma relação autêntica seria aquela na qual finalmente desaparecem os conflitos? Jaspers não pensa assim. Ele desenvolve a ideia de “luta amorosa” — liebender Kampf. Duas pessoas podem buscar a verdade juntas e, justamente porque se levam a sério, questionar uma à outra. Não precisam  concordar. Não precisam proteger suas próprias certezas. Não precisam dominar uma à outra. A relação pode conter confronto sem deixar de conter respeito e vínculo.

Portanto, comunicação existencial não significa harmonia permanente. Pode significar: “Eu quero que você seja verdadeiramente você, mesmo quando aquilo que você me diz coloca minhas próprias certezas em questão.” Essa formulação não é uma citação de Jarpers, e sim da IAIA, e concordamos com ela. 

O conceito de liebender Kampf, entretanto, é dele e está diretamente ligado à comunicação existencial.

9. E ainda não chegamos ao último movimento

Até aqui temos: concepção de mundo → Gehäuse → situação-limite → ruptura das certezas → liberdade → Existenz → comunicação existencial.

Mas Jaspers não termina aí. Porque surge uma pergunta inevitável:

Se não consigo encontrar um fundamento absoluto em mim, no conhecimento objetivo ou numa concepção fechada de mundo, existe alguma coisa além desses limites?

É aqui que aparece o conceito que completa sua filosofia: Transcendência — Transzendenz.

E Jaspers faz algo muito peculiar. Ele não pretende provar Deus, mas também não conclui simplesmente que só existe aquilo que podemos conhecer objetivamente.

Entre essas duas posições aparece sua ideia das “cifras da transcendência” — Chiffren der Transzendenz.

É provavelmente o passo mais difícil de Jaspers — e talvez o mais bonito.

Porque então morte, acaso, culpa e luta deixam de ser apenas limites que interrompem nossas certezas e podem tornar-se lugares nos quais a própria existência pergunta se o limite aponta para algo que ela não consegue transformar em conhecimento.

Esse é o ponto em que Jaspers começa a aproximar existência, transcendência e aquilo que ele chama de fé filosófica (philosophischer Glaube)

E nós no grupo de Whats agradecemos as provocações que nossa amiga fez à IAIA, que resultou em  texto provocativo e iluminador.

Lembramos, ainda, de conceitos aprendidos naquela época que mudaram nossas vidas e nossas relações:

. As noções de amigo, inimigo e adversário: geralmente aprendemos que amigos são aqueles que estão incondicionalmente conosco... esses provavelmente estão submissos; aprendemos, ainda que, quem diverge de mim, rapidamente colocamos na categoria de inimigos. E perdemos a noção de adversário, aquele que se opõe, se manifesta, existe, enfim... sim, precisamos muito praticar essa ideia, crescemos justamente com o diferente de nós...

. Aprendemos a ignorância sábia, ou douta ignorância (Docta Ignorântia, de Nicolau de Cusa)... O reconhecimento consciente dos limites do conhecimento humano, especialmente diante do infinito e do divino, sendo um ponto de partida para a sabedoria e o crescimento intelectual. "Só sei que nada sei", como comentou nossa querida educadora no grupo. Esse conceito se alia ao conceito de existência em Jaspers.
Não se pode medir nem contar a existência de ninguém , a existência não é objetiva.
Além da existência contemplar ações, ideias, afetos valores ainda ultrapassa isso tudo para aquelas possibilidades do que poderá ser e portanto do que poderia ter sido (responsabilidade de escolhas). O imponderável e o mistério se colocam na existência humana...

. Por último, e provisoriamente, aprendemos o deus de Espinosa, que também se parece com o deus de Jarpers, e que traduzimos como 'deus dentro de mim', curiosamente a palavra ENTUSIASMO vem do grego  significa literalmente "ter um deus dentro de si".

Nessa hora fui fazer um café e tomamos juntas, minha mãe e eu... Nos abraçamos ... e demos graças à vida...

Também nos abraçamos virtualmente, nos prometendo abraços presenciais...

Até nosso próximo encontro...
Santuza TU




 







quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Conversas SBCenses: resignificando a 'RESIGNAÇÃO'


Nossa conversa começou com o relato de querida SBCense:

. Estou vivendo uma 'situação limite' e quero ajuda de vocês...

. E o que vem a ser uma situação limite? perguntou a outra...

A terceira já consultou nossa IAIA (apelido 'carinhoso' e crítico que damos à inteligência artificial, ainda com sobrenomes, quais sejam, Meta, GPT, entre outros): 

. O conceito de situação-limite tem origem no filósofo alemão Karl Jaspers, que a considerava como "o contorno infranqueável onde terminam as possibilidades".


. No entanto, na pedagogia de Paulo Freire, o termo foi reinterpretado de forma positiva, significando "a margem real onde começam todas as possibilidades". Assim, situações-limite não devem ser encaradas de forma fatalista, mas como oportunidades para desenvolver pensamento crítico e gerar mudanças transformadoras...  nos diz a IAIA. Freire propõe que superemos situações-limite por meio de atos-limites, rompendo barreiras de opressão e autoritarismo e tornando-se sujeitos capazes de criar situações libertadoras. 


E aí outra de nós surgiu com a ideia de resignação... 

. "Diante de situações limites devemos nos resignar, pois sofremos menos"... 

Essa colocação causou alguns afetos na roda, principalmente naquela que estava vivenciando sentimentos ambíguos (medo, perda, raiva, culpa, desespero,...), diante da situação limite vivenciada. E ela disse:

. Meu sentimento é de indignação com essa ideia de resignação! Não consigo aceitar que sofreria menos me resignando. Nem sei se quero sofrer menos ou me tornar mais livre.
Na verdade aprendi e internalizei a resignação como um conceito cristão, entre outros conceitos que, eu diria, para a construção da minha liberdade e identidade enquanto mulher (que aprendi, junto com o deus cristão,  a submissão como uma 'virtude feminina'), tive que, a ferro e fogo, ir desconstruindo ao longo da minha vida, junto com outros conceitos cristãos que me escravisavam. 

As demais concordaram em parte com ela... e a conversa foi crescendo:

. Precisamos rever esse conceito de resignação... além de encontrar outros jeitos de vivenciarmos situações limite, pois essas fazem parte da vida. Talvez freirianamente, não negando o sofrimento que faz parte do humano, mas buscando superações, crescimentos, enfim, nossa humanização, com e através das situações limite.

E por aí caminhamos na nossa conversa... 

. Resignação: entre aceitar e transformar... Vamos conversar com  a IAIA de novo?
A palavra resignação carrega uma história interessante. Vem do latim resignatio, derivada de resignare, que originalmente significava algo como “deslacrar”, “abrir”, “desvendar”, mas também passou a adquirir o sentido de renunciar, abandonar ou entregar algo. Ao longo do tempo, especialmente no campo religioso e moral, resignação passou a significar a capacidade de aceitar aquilo que não pode ser mudado — muitas vezes com paciência, conformação e submissão.

. É justamente nessa ambiguidade que mora a força e o perigo da resignação, refletiu um de nós... sim, no SBC temos mulheres e homens refletindo... Há momentos na vida em que aceitar é uma forma de sabedoria. Existem perdas que não podem ser desfeitas, acontecimentos que não dependem de nossa vontade = envelhecimento, separações, doenças, mortes, mudanças e circunstâncias diante das quais lutar contra a realidade pode apenas aumentar o sofrimento. Nesses momentos, a resignação pode ser uma espécie de aceitação, reconhecer o que aconteceu, que faz parte da vida, abandonar a ilusão de controle (que aprendemos com o tal do perfeccionismo que nos desumaniza do post anterior) e encontrar forças para seguir adiante.

. Uma vez alguém do século passado me disse: podemos aprender com a Xuxa, refletindo: 'deixar de acreditar que somos donos e donas do próprio nariz e, ao mesmo tempo, não perder a mínima chance de sermos"... lembram da música?

. Mas a resignação também pode assumir outro rosto. Pode transformar-se em conformismo. Pode convencer uma pessoa de que não há nada a fazer diante da injustiça, da violência, da desigualdade, da opressão ou de uma relação que a machuca. Pode ensinar alguém a suportar aquilo que deveria ser enfrentado. 

. Sim... durante séculos, muitas mulheres foram ensinadas a chamar de virtude aquilo que, muitas vezes, era apenas a obrigação de suportar. Resignar-se ao silêncio, à dependência, à violência, à falta de liberdade, à sobrecarga e à desigualdade foi frequentemente apresentado como sinal de paciência, bondade ou “boa formação”.

. Uma pergunta me ocorreu: Estou aceitando porque não posso mudar ou estou desistindo porque fui convencida de que não posso mudar?  Essa pergunta pode transformar  o significado da resignação, ou seja, a 'resignação libertadora', que nos humaniza e nos transforma, e a 'resignação da submissão', que nos faz permanecer no mesmo lugar, reproduzir uma sociedade que nos deseja objetos, alienados do sermos sujeitos transformadores, livres, humanamente livres... isso em todos os níveis de relação, das íntimas ao público=exercício da cidadania.

. Então podemos pensar: Aceitar o que não podemos mudar pode nos libertar... Aceitar como inevitável aquilo que podemos transformar pode nos aprisionar.

Foi aí que nos ocorreu a palavra SERENIDADE. Serenidade para reconhecer os limites da vida. Quando não podemos mudar o acontecimento, podemos mudar nossa relação com ele... Atividade, ação... para não abandonar aquilo que ainda pode ser transformado.

. Não podemos impedir que o tempo passe, mas podemos escolher como viver o tempo que temos.

. Não podemos recuperar determinadas pessoas ou momentos, mas podemos elaborar a perda e construir novos vínculos.

. Não podemos controlar a opinião dos outros, mas podemos decidir quanto poder damos a essas opiniões sobre nossa própria vida.

. Não podemos mudar o passado, mas podemos impedir que ele seja o único autor do nosso futuro. A liberdade é prospectiva...

. A resignação, o conformismo,  diz: “É assim. Tenho que suportar.” A serenidade diz: “É assim. E agora, o que posso fazer com isso?” A serenidade poderia ser, também, uma 'inconformidade criativa', aquela capacidade de olhar para o mundo e dizer "poderia ser diferente" ... e, depois, perguntar: "O que posso fazer para se seja? 

Então a primeira pessoa da roda voltou a refletir:

. Há uma sabedoria em distinguir quando insistir e quando soltar. Quando lutar e quando descansar. Quando dizer “não” e quando simplesmente deixar ir. Estou aprendendo, então, que, talvez, a resignação não precise ser completamente abandonada. Ela pode ser transformada. Tento recuperar, para a minha vida, o Deus de Espinosa, o deus dentro de mim ... e o deus natureza, da qual faço parte. Esse deus vem a ser a força dentro de mim, de superação dessa situação limite. Assim como vocês, que me fazem forte e humana. E me ajudam na sabedoria de resignar-me diante do inevitável... e mudar o que pode ser mudado
Pensando aqui que às vezes sou muito dura comigo mesma, muito exigente, aprendi com minha mãe. Ser menos dura comigo mesma = também com ela = penso que vai me tornar mais leve, me humanizar. À vezes acerto, às vezes não, na nossa relação "lamber nossas próprias feridas" vai valer a pena...
Aprendendo sobre resignação, sobre inconformismo e sobre transformação, aprendi também a resiliência. Essa palavra, que vem do latim resilire e que está relacionada a 'voltar atrás', recuperar-se, voltar a ser quem éramos, mas não apenas isso = significa tornarmo-nos outra pessoa. Não significa ser forte o tempo inteiro nem suportar tudo em silêncio. Significa poder cair, sentir, chorar, pedir ajuda e, ainda assim, encontrar algum caminho para continuar. Significa aprender a capacidade de atravessar as dificuldades sem permitir que elas nos definam 

Nos abraçamos e lembramos de "rezar":

Deus, concedei-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar...
  Coragem para mudar aquelas que posso,
E sabedoria para distinguir umas das outras.

Essa oração é atribuída ao teólogo norte‑americano Reinhold Niebuhr (1892–1971), e
  • tornou-se amplamente conhecida após ser adotada pelos Alcoólicos Anônimos na década de 1940–1950.

  • Ainda queríamos conversar muito sobre Jaspers e as situações limite = luta, morte, acaso e culpa, como as mesmas nos afetam e como podemos também aprender com elas. 

  • Já começamos a conversar com a IAIA, mas deixamos para a próxima conversa entre nós.

  • E, como sempre, o riso ajuda muito... e os amigos e amigas também... a tornar a vida mais leve e mais bonita... Abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham,
Santuza TU