O primeiro filme que vimos, Honestino, retrata o Brasil desde princípio dos anos 60, a criação da Universidade de Brasília, o golpe militar de 64... as várias invasões armadas da PM à Universidade... até início de anos 70... e a história de Honestino.
Direção de Aurelio Michiles, fusão entre documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração 68, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e é uma das centenas de desaparecidos da ditadura militar. Baseado em cartas, poemas e imagens de arquivo, dezenas de depoimentos de familiares, amigos e militantes e cenas interpretadas por Bruno Gagliasso.
Honestino foi uma das vítimas da Ditadura Militar. Brutalmente assassinado aos 26 anos, o Estado apenas reconheceu a culpa do homicídio após vinte anos, ainda assim, é possível relatar os traumas deixados para os estudantes de Brasília. Com o intuito de tornar a história inspiradora de Honestino Guimarães atual outra vez, o longa reúne uma série de arquivos inéditos sobre a trajetória dele, incluindo a sua luta e legado para - ao menos tentar - construir uma história melhor para o Brasil do que aquela que ele pode viver.
Foto Leo Lara
O segundo filme, dirigido por Anita Leandro (na foto), Anistia 79 é um documentário que traz cenas inéditas sobre um dos momentos mais importantes para a história moderna do povo brasileiro. Em 1979, na cidade de Roma, Itália, é realizada a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, que até hoje é considerada por muitos como o maior encontro da esquerda brasileira realizado fora do país. Quase meio século depois, cenas resgatadas retornam no momento ótimo para entendermos a construção da memória da ditadura militar.
Em junho de 1979, centenas de exilados e militantes pela anistia no Brasil chegam em Roma, provenientes de vários países. É preciso uma intervenção efetiva no processo de abertura política, pois a ditadura militar não quer libertar os presos políticos e articula, nas sombras, a extensão do benefício da anistia aos torturadores. Um jovem exilado filma o evento e guarda os negativos num porão, em Paris, por quase 50 anos. Confrontado a alguns participantes da Conferência de Roma, este material mostra que o passado, no Brasil, ainda não passou.
Cineasta e historiadora, Anita Leandro, mineira de Belo Horizonte, ao receber o prêmio de Juri Popular da Mostra de Tiradentes deste ano, deu uma aula de democracia, chamando a atenção para a atualidade do debate da impunidade da tortura e dos desaparecimentos forçados, uma vez que falta ao Brasil a justiça de transição e a ditadura não acabou em lugares como as favelas e periferias. Ela destacou a importância da Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil e a sensibilidade de Hamilton Lopes dos Santos, que teve a iniciativa de registrar aquelas imagens e sons para o futuro. O filme traz diferentes gerações de exilados em um reencontro com as gravações feitas há quase 50 anos.
Sabiam que, geralmente, os filmes brasileiros independentes têm dificuldade para se manter em cartaz? Por isso, é importantíssimo ter um público expressivo na primeira semana, para garantir a continuidade de exibição do mesmo.
E as conversas SBCenses depois de cada um dos filmes:
. Toda vez que vejo um filme brasileiro da segunda metade do século passado me pergunto onde eu estava, como estava, como era a minha vida, em 'que mundo' (ou Brasil...) eu vivia na época retratada pelo filme. Nos anos 60 eu = branca classe média = estava saindo de colégio de freira e indo fazer o curso normal na Instituto de Educação. Foi uma "libertação" pra mim... comecei a entender um pouco mais de mundo, para além do próprio umbigo. No Instituto tínhamos várias classes sociais e essa convivência foi muito importante pra mim. Depois passei no vestibular em universidade particular, a Católica de MG. Estudava a noite e trabalhava para pagar meu curso.
. Nos anos 70 nas universidades não podíamos falar de política. No entanto fazíamos política, muitas de nós casamos e descasamos (naquela época era 'desquite' e não 'divórcio'), fomos cobaias das primeiras pílulas anticoncepcionais e isso nos fez apropriarmos do nosso corpo e da nossa liberdade sexual = como disse nossa feminista Rose Marie Muraro, "conquistamos o direito ao orgasmo".
. Líamos e comentávamos sobre o Pasquim, semanário alternativo da história da imprensa brasileira que circulava no período mais rigoroso da ditadura militar, pós AI 5, realizando resistência através do humor e reunindo ícones da cultura nacional, Henfil, Laerte, Sérgio Cabral, Chico Buarque, entre outros.
. Nos movimentos feministas daquela época, começava a onda do feminismo negro, começávamos e reconhecer e criticar Simone de Beauvoir, dizendo que nós, feministas brancas, nos permitíamos entrar no mercado de trabalho às custas de colocarmos nossas irmãs negras cuidando dos nossos filhos.
. Líamos "A morte da Família", de David Cooper; "A Contracultura", livros de Gaiarsa e de Wilhelm Reich, de Muraro, Lélia Gonzalez e Sônia Viegas, entre outros e outras... e continuávamos lendo Simone.
. E acompanhávamos os primórdios da criação do MST, final dos anos 70. Assim como os resgates de movimentos negros, como o MNU Movimento Negro Unificado.
. O surgimento do movimento "Quem Ama não Mata" em Belo Horizonte, luta feminina que surgiu em resposta ao assassinato de Ângela Diniz em 1976. O movimento começou a se organizar em 80 e é uma das primeiras movimentações do Brasil a se manifestar contra a impunidade dos crimes de violência contra a mulher.
. Nos tocou por demais, entre outras coisas, o Gregório Bezerra no filme Anistia 79 falando dos 'verdadeiros terroristas', aqueles que prendiam, torturavam e matavam...
. E nossa querida Heloisa Greco, além de resgatar potente discurso da sua mãe Helena Grego, nos fala da atualidade do extermínio... nosso, de nós, brasileiros e brasileiras, nós os indígenas, nós os negros e negras periféricas.
. Enfim, a anistia que se propunha ampla geral e irrestrita, tornou=se "lenta, gradual e segura"... e nos perguntamos: segura pra quem? provavelmente segura para os "torturadores" que se viram anistiados, livres.
. Não tivemos como não resgatar linda canção de Gonzaguinha, aqui interpretada pela grande Elza, faixa 10 do álbum "Planeta Fome":
Abraços carinhosos às pessoas que nos acompanham... e não percam o filme!
A cerca de 180 km de Belo Horizonte, Itapecerica, em Tupi-guarani, “penha escorregadia ou penhasco de encosta lisa”. Itapecerica é linda... como um poema... e lá está uma grande poeta:
Aline Tavares, idealizadora do @ocafeconverso: Arte em goles, poesia em conversa:
E essa mulher potente eu tive a alegria de conhecer na nossa viagem a Cuba em maio deste ano. "Sorte é a capacidade de ver e de agarrar as oportunidades" e eu treino muito essa capacidade. Não deixo passar a oportunidade de fazer uma amiga.
E essa linda amiga viu nosso poema PARA CLÁUDIO ... outro grande amigo ... e "gravou" sua declamação do mesmo. Me emocionou por demais... e não posso deixar de compartilhar com pessoas amantes da poesia... e da vida:
Obrigada querida amiga. Breve nos encontraremos. Bora fazer uma FEIRA LITERÁRIA em Itapecerica? Depois da FLIGH PRIMEIRA FEIRA LITERÁRIA DE GUANHÃES, mês que vem, setembro...
Continuando, hoje recebi um texto da jornalista Kika Gama Lobo ... sobre a nossa "tendência" à romantização do envelhecer. Vale a pena um trecho do mesmo:
Porque existe uma indústria poderosa vendendo a ideia de que envelhecer bem é uma questão de atitude. Tome colágeno. Faça exercício. Medite. Coma proteína. Tenha propósito. Faça terapia. Viaje. Ame. Dance.
Ótimo.
Mas quem paga?
Quem prepara a comida?
Quem leva ao hospital?
Quem fica quando a autonomia começa a escorrer pelas frestas?
A romantização da velhice pode ser tão cruel quanto o próprio preconceito contra os velhos.
Porque ela transforma uma questão coletiva em responsabilidade individual.
Se você envelhecer mal, a culpa será sua.
Não se cuidou.
Não guardou dinheiro.
Não fez terapia.
Não se exercitou.
Não teve propósito.
Ora, façam-me o favor.
É claro que escolhas individuais importam. Autocuidado importa. Saúde mental importa. Educação financeira importa. Resiliência importa.
Mas sorte também importa.
Genética importa.
Classe social importa.
Acesso à saúde importa.
Políticas públicas importam.
O problema é que não estamos preparados para essa vida.
Precisamos urgentemente de uma nova cartilha do bem viver. E ela deveria começar na adolescência.
Não para ensinar adolescentes a “envelhecer”, mas para ensinar que o tempo tem consequências.
Educação financeira deveria falar de longevidade.
Educação emocional deveria falar de perdas, solidão e dependência.
A escola deveria discutir cuidado.
A sociedade deveria discutir moradia para idosos.
As cidades deveriam ser pensadas para quem tem mobilidade reduzida.
O mercado de trabalho deveria considerar carreiras mais longas.
O sistema de saúde deveria se preparar para uma população que viverá décadas depois da aposentadoria.
E as famílias deveriam conversar sobre dinheiro, cuidado, herança, moradia e decisões de fim de vida antes da emergência.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas: “Como viver mais?”
Essa pergunta já está velha.
A pergunta que precisamos fazer agora é:
“Como vamos sustentar os anos que conquistamos?”
Porque chegar aos 100 pode ser maravilhoso.
Mas chegar aos 100 sem dinheiro, sem vínculos, sem assistência, sem saúde mental e sem uma rede de cuidado pode transformar o tão celebrado presente da longevidade em uma longa travessia de abandono.
Não quero uma sociedade obcecada por acrescentar anos à vida.
Quero uma sociedade preparada para sustentar a vida que esses anos acrescentaram.
Até quando vamos romantizar envelhecer sem discutir o preço de continuar vivo?
Porque viver muito é maravilhoso.
Desde que a gente consiga viver — e não apenas durar.
Nesse trecho a Kika nos escancara nossa sociedade individualista, onde "perdemos" a noção do coletivo, da luta por direitos... inclusive nos culpando quando as "idealizações românticas" não acontecem no real.
Enfim, consciência, olhar para 'além do próprio umbigo' ... e participação, engajamento nas lutas por direitos = nossos e para além de nós = vem a ser a 'cura' para muitas 'doenças'. Doenças essas 'fabricadas' pela mesma sociedade que nos deseja alienados e reprodutores de tudo do mesmo jeito, e não sujeitos e sujeitas construtoras de um "mundo mais bonito", mais justo, mais distributivo ... com arte, alegria, e amigos...
Assim tentamos construir=ser no SBC, agradecendo sempre quem nos lê e nos acompanha.
O SBC, no nosso sarau de ontem, se transformou em RBC - Rapper Bobagem e Cerveja... e tudo bem, estamos confirmando nossa tradição inclusiva, anárquica, feminista... e intergeracional.
Já na entrada do nosso querido ANDU DE DOIS, six seven... farmando aura!!! Olha só nosso 'estandarte', maravilhoso...
O mesmo estandarte na parte de trás o SBC... e nossas duas lindas, atrás delas nosso já famoso projeto SEBO DA MAITÊ, circularidade de livros, 'bombando'.
Nossa queridíssima Paloma, direto de Brasília... no Instagram LADY CALI, seu nome artístico, sigam essa artista maravilhosa!
A seguir dois vídeos da sua apresentação, só uma 'palinha', no nosso YOUTUBE, vale a pena dar uma olhada... e aproveitem para se inscrever🙏🙏🙏
Depois da lindíssima apresentação da Lady, querida SBCense Deyse Magalhães nos apresentou nossa primeira homenageada: Neusa Santos Magalhães. Foi emocionante, pois a Deyse trouxe reflexões importantíssimas sobre a vida de mulheres negras no nosso país.
Com carinho ela compartilha conosco sua pesquisa e seu texto:
Neusa Santos Souza: tornar-se negro é um ato de liberdade
Neusa Santos Souza é uma mulher que transformou a maneira como pensamos o racismo no Brasil. Falar de Neusa Santos Souza é falar de coragem intelectual, mas também de coragem humana.
Neusa nasceu em 1948, na Bahia. Tornou-se médica, psiquiatra e psicanalista em uma época em que havia pouquíssimas mulheres negras ocupando esses espaços. Sua simples presença já desafiava estruturas históricas de exclusão.
Mas Neusa não queria apenas ocupar um lugar. Ela queria compreender o sofrimento produzido pelo racismo e oferecer caminhos para a liberdade.
Em 1983 publicou aquele que se tornaria um clássico do pensamento brasileiro: Tornar-se Negro. O próprio título é provocador. Afinal, ninguém nasce compreendendo plenamente o que significa ser negro em uma sociedade racista. Para Neusa, tornar-se negro é um processo de consciência, de reconhecimento e de afirmação.
Ela mostra que o racismo não atua apenas nas oportunidades sociais. Ele invade a subjetividade. Faz com que muitas pessoas negras cresçam acreditando que precisam negar sua origem, seus traços, sua cultura e sua história para serem aceitas.
Esse talvez seja um dos conceitos mais importantes de sua obra: o sofrimento psíquico causado pelo racismo.
Ela afirma que o ideal de beleza, de inteligência, de sucesso e de humanidade foi construído tendo a branquitude como modelo. Muitas pessoas negras passam então a viver um conflito permanente entre quem são e quem aprenderam que deveriam ser.
Mas Neusa não escreveu para alimentar a dor. Ela escreveu para mostrar que existe um caminho de reconstrução.
Tornar-se negro significa romper com esse padrão imposto. Significa reconhecer a própria história, valorizar a ancestralidade e construir uma identidade baseada no orgulho e não na vergonha.
Essa reflexão permanece profundamente atual.
Ainda hoje observamos desigualdades no acesso à educação, ao mercado de trabalho, à saúde e à representação política. Ainda hoje crianças negras crescem vendo poucas referências positivas parecidas consigo.
Por isso Neusa continua sendo tão necessária.
Ela nos ensina que combater o racismo não é apenas criar leis ou políticas públicas. É também cuidar das pessoas. É compreender que a discriminação deixa marcas emocionais profundas e que a saúde mental também é uma questão de justiça social.
O racismo tenta convencer uma pessoa de que ela vale menos. A consciência racial faz exatamente o contrário: devolve a dignidade, a memória e a possibilidade de existir plenamente.
💝💝💝
Em seguida nossa querida Ana Luiza Apgaua nos trouxe a segunda homenageada: Flora Maia Matos.
E nos emprestou seu texto de apresentação para compartilharmos:
Boa noite, mulheres de luta, de samba e de cerveja!
Hoje o nosso palco pede passagem para uma força da natureza.
Uma mulher que não pede licença, ela chega e 'dropa' o verso.
Direto de Brasília para o mundo, ela é o terror dos pretensiosos e a voz de quem tem atitude.
Se o rap fosse um tabuleiro de xadrez, ela já teria dado xeque-mate faz tempo.
Dizem por aí que ela é polêmica...
Mas a verdade é que mulher com opinião própria e que não abaixa a cabeça assusta quem está acostumado com o silêncio!
Flora Matos é a linha de frente.
É o "Pretin" que grudou na nossa mente e não sai mais.
É a prova viva de que a sensibilidade e a resposta afiada andam de mãos dadas.
Ela resiste rimando, vence existindo e bota ritmo na nossa caminhada.
Santuza Fernandes criou este espaço no SBC, para homenagear quem faz história.
E a Flora faz história a cada compasso, quebrando as barreiras de um mundo que insiste em tentar calar as mulheres.
Com vocês, a força, a poesia e o som de Flora Matos!
As obras marcantes de Flora Matos, como "Pretin" e "Piloto", misturam romantismo e vivência urbana com temas de autonomia feminina e resistência. Faixas como "Ser Sua", "Teia" e "Preta de Quebrada" reforçam seu estilo empoderado e autêntico.
E nossa querida Lady voltou ao palco e interpretou uma música da Flora. Infelizmente não temos o vídeo. Então vamos da original, Flora, para vocês conhecerem:
Eita que foi bonito, sô...
A seguir a entrega de certificado de Participação Especial à nossa querida Lady Cali... e mais algumas fotos compartilhadas por amigas e amigos:
E ao final queríamos fazer uma foto do pessoal da cozinha, que prepara com o maior carinho pratos deliciosos das geraes... ainda não conseguimos ... ficou pro nosso próximo sarau, primeira quinta de setembro. Mas o Peixe já "vestiu nosso estandarte":
Obrigada todos e todas do ANDU, obrigada amigos e amigas presentes ao nosso sarau
Filme já visto por algumas pessoas presentes, desde 2017, várias vezes, cada vez discutimos um ponto do mesmo. Post de 15 de dezembro de 2021 fala sobre o mesmo, refletindo sobre nosso raciocínio maniqueísta e os danos relacionais decorrentes, fazendo ligações com o fascismo e o nazismo - o diferente deve ser 'exterminado'.
Desta vez, no nosso sarau de ontem, sempre a partir da nossa metodologia TAP Teoria Afeto Prática - que nos faz sujeitos do conhecimento e construtores(as) do mundo que queremos, para além de meros reprodutores das coisas como estão - muitos assuntos foram abordados dentro dos afetos de cada um(uma) dos(as) participantes: a 'desumanização' do outro usada como pretexto para a aniquilação; o 'ideal' de pureza que nos desumaniza; o genocídio - que não foi somente de judeus - os ciganos, os homossexuais e os diferentes em geral foram exterminados; além do número de russos mortos, que foi enorme. Trazendo para a atualidade, o genocídio na Palestina; e, trazendo para o Brasil, o genocídio dos nossos povos originários!
Uma pergunta - curiosidade - foi colocada: quem são os judeus? Daí foi prometido um texto e filmes sobre tal assunto, sugeridos para nosso próximo cineclube, além da sugestão de filmes sobre a Palestina e oriente em geral, para que conheçamos mais essa região e sua cultura.
E concluimos nosso debate, trazendo para a atualidade e o nosso Brasil, refletindo sobre três palavras chave:
HISTÓRIA
POLÍTICA
MEMÓRIA
Três conceitos diferentes e que guardam relações entre eles:
. Memória não é passado, é a 'reconstrução mediada do passado'. Mediada por instituições, religião, escola, família, estado), ou seja, são construções (sociais, psicológicas) do passado.
. Corroborando afirmação anterior, "lembrar e esquecer são atos produzidos".
. Estado, Memória e Nacionalismo: o filme nos mostra muito bem como a "destruição" de manifestações artísticas e o culto à "arte pura" tinha interesses claros: a construção da raça pura, o ódio ao diferente. Ou seja, o que o Estado 'apaga' e 'realça', a partir de interesses, de maneira a construir a base do Nacionalismo.
E aqui no nosso país? "O povo brasileiro não tem memória", afirmação errônea... e comum tanto no campo conservador (direita) quanto no campo democrático (esquerda). Na verdade, a memória é manipulada a partir dos interesses - o que lembrar e o que esquecer - e aí se faz política.
. Os campos de direita e esquerda estão em disputas de memória, melhor dizendo, disputas sobre a percepção do passado. Exemplos: a pandemia, mais de 700 mil mortes, o 8 de janeiro...
. E nossa conclusão é que precisamos, urgentemente, de uma 'política de memória no Brasil'. Para isso precisamos eleger pessoas, em todos os níveis, presidência, senado, deputados(as) federais e estaduais, sintonizados com essa demanda necessária à construção de um Brasil soberano, distributivo e mais justo.
Obrigada aos participantes do nosso cineclube, até o próximo, primeira terça feira de setembro.
Botumirim está no norte de Minas, na Cordilheira do Espinhaço, a cerca de 575 km de Belo Horizonte. Significa "serra pequena" ou "pedra pequena" em tupi.
Rolinha do Planalto–Foto: Wilson Santos
A cidade fica próxima ao Parque Nacional das Sempre Vivas e abriga o Parque Estadual de Botumirim. Na entrada, as casinhas coloridas... e as casinhas de passarinhos, pois a cidade - e a região - é conhecida como o "recanto dos passarinhos", especialmente a Rolinha do Planalto: cor de canela, mais clara no ventre, olhos e manchas azuis nas asas, uma das aves mais raras do planeta, que passou 75 anos julgada extinta, até ser reencontrada naquela região em 2015. “Passarinho pintadinho, o tenor da laranjeira”, canta Déa Trancoso.
E o 41º Festivale em Botumirim, promovido pela FECAJE Federação das Entidades Culturais e Artísticas do Vale do Jequitinhonha e o Instituto Sócio Cultural Bruta Flor, celebra a resistência das mulheres do Vale. O evento homenageia a atriz e diretora de teatro Cristina Gonçalves (Mostra de Teatro); a narradora, compositora, cantora e pesquisadora Déa Trancoso (Festival da Canção); a tecelã Marlice Machado (Feira de Artesanato); a mestra da Folia de Reis Jovença Pereira Costa (Mostra de Cultura Popular); e a poetisa Vilma Baracho, in memoriam (Noite Literária). As homenageadas são mulheres que tecem, cada uma à sua maneira, a trama da resistência cultural do Vale, inclusive contra a misoginia do meio artístico.
Ficamos conhecendo um pouco mais da Déa: Em 1995, na décima edição do Festivale, em Rubim, ela subiu ao palco como concorrente e venceu ao interpretar “Tuíra, Índia Guerreira”, de Si Amaral e Celi Márcio — levando o primeiro lugar e o prêmio de melhor intérprete. Trinta e um anos depois, retorna ao festival como homenageada. A escolha daquela canção, hoje, ganha outra camada: Tuíra, liderança indígena que enfrentou a Eletronorte em 1989, era símbolo de resistência. Déa a cantou antes mesmo de reconhecer que carregava, ela própria, uma descendência indígena — uma sincronia que só o tempo despertou. “Eu me reconheci Borum”.
Em entrevista à BdF - Brasil de Fato, ela diz: “Eu não imaginei, nem nos meus melhores sonhos, que um dia eu seria homenageada no Festivale“. Ela pensava que sua música não tivesse “o substrato do sertão”. “Tem, mas não é explícito. Meu texto conversa com o Oriente, conversa com espiritualidades que não são só caboclas”, diz.
Déa fala do Festivale como quem fala de um organismo vivo — e de um tempo que não é o dos relógios. “Nós estamos vivendo crises homéricas. De como ser, de como estar. O capitalismo é um sistema ultra inteligente. Quando ele cai aqui, ele se levanta ali. Ele tem o fascismo como aliado histórico milenar. O fascismo é tudo que é contra a vida”, afirma.
Ao falar da nova direção da FECAJE, ela levanta a questão que considera central: como fazer o Festivale criar permanência — política, cultural, artística, formativa, de resistência? E reflete sem a presunção de saber a resposta: “Não sei se ele tá dando conta desse redemoinho. “Ele faz uma festa itinerante, mas e as outras ações? Como a gente pode estar fora da itinerância de julho fazendo resistência? Qual é a nossa resposta para essa região?”.
E a mesma matéria da BdF Brasil de Fato que fala da Déa e das mulheres homenageadas, nos conta a história de Minas e do Brasil à época do surgimento do FESTIVALE:
Do 'falso milagre econômico da ditadora' - o PIB (produto interno bruto) cresceu, mas o salário mínimo perdeu metade do valor, a dívida externa quadruplicou, a desigualdade disparou — vieram políticas de ocupação para o Vale: uma delas, o eucalipto.
Criado em 1967, o Projeto Rondon levou universitários a regiões isoladas do país. A Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) instalou em Araçuaí um campus avançado vinculado ao programa, que centralizava as ações sociais da universidade no Vale. Mas foi nesse mesmo chão que a resistência brotou pela cultura. Na mesma época, chegou em Araçuaí um frade holandês, Frei Chico. Três anos depois, ouviu a cozinheira da paróquia cantar e disse: “Bonito, Filó!” — “Ah, é bobagem.” (veja o conceito SBCense de bobagem! - coisa boa pra vida). Daquela bobagem nasceu o Coral Trovadores do Vale (1970). Lira Marques entrou no coral e, com Frei Chico, percorreu o Vale com um gravador velho, registrando cantos que ninguém mais cantava. No mesmo período, o Campus Avançado do Vale do Jequitinhonha (CAVJ) - extensão da PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica — aproximou a universidade das artesãs, apoiou a associação, organizou feiras. Frei Chico e o CAVJ não eram a mesma coisa, mas aconteciam no mesmo lugar e no mesmo tempo.
Foi nos anos 70 que Tadeu Martins, Aurélio Silby, Carlos Figueiredo e George Abner — dentro de um ônibus vindo de Belo Horizonte — pensaram em ter um jornal que desse voz e vez à região. Como disse Tadeu, “naquele período da ditadura militar, era preciso buscar formas de organização.” Nasceu o Jornal Geraes (1978).
A partir da rede que o Geraes formou, organizaram o 1º Encontro de Compositores do Vale (3/11/1979, Itaobim). Para divulgá-lo, criaram um cartaz que parodiava os cartazes de “procurados” da ditadura — com as fotos dos músicos e o título “Procurados” em letras garrafais.
O cartaz deu rebuliço: Globo, Alterosa e Band bateram na porta. Foram três entrevistas em TV e mais duas emissoras de rádio — Guarani, Rural e Inconfidência. Lotou o 1º Encontro de Compositores. Foi a base sólida para se criar o Festivale, que nasceu em julho de 1980, em Itaobim.
Antes de ser celebrado, o Vale foi extraído — mineração de diamantes e ouro que partiu, monocultura do eucalipto que não partiu. Pesquisadores da UFMG documentam que a população “assistiu atônita à tomada de terras comunais e ao escasseamento crescente de água”; o eucalipto, até hoje, seca mananciais nas chapadas.
Agora o discurso do "lítio verde" chega como nova promessa — o mesmo falso milagre, a mesma roupagem. O Vale reconhece o ciclo: a extração muda de nome, a prática é a mesma.
É nesse cenário que o Festivale chega à 41ª edição.
A Feira de Artesanato deste ano leva o nome de Marlice Machado, tecelã de Roça Grande, distrito de Berilo, onde a tradição têxtil é ancestral. Filha de Dona Leontina Amaral, que lhe ensinou o tear aos 9 anos, ela mantém o legado da mãe: a sobreposição de fios, o tear tradicional. Marlice fala de resistência com as palavras de quem ficou. “Hoje vejo o quanto fui persistência e resistente a esse ofício. Nenhum dos meus sete irmãos conseguiu resistir — procuraram outras fontes de renda. Mas outros parentes e vizinhos resistiram também como eu, e sou muito grata por eles terem escolhido seguir até aqui. Creio que não vai acabar nunca”, conta. Sobre ser homenageada no Festivale, ela revela: “Hoje não sou rica financeiramente, mas milionária de cultura ancestral. É uma gratidão imensa para mim e para todos da minha comunidade e principalmente para minha mãe, que não perdia nenhum Festivale.”
Aprendi com uma amiga SBCense: porque falamos|distinguimos ARTE e ARTESANATO? Diz ela que essa distinção coloca o que chamamos de arte como uma coisa de elite, sendo que artesanato é uma produção 'pobre', de menos valor, porque de uma classe social 'baixa'... tem todo sentido! Conversando com querida produtora de licores de Taiobeiras, além de poeta, Marileide, ela também concordou inteiramente e disse que já não usava a palavra artesã ou artesão, e sim a 'obra' ou o 'trabalho' de fulana ou cicrano... Pois eles e elas são artistas! Adorei, não uso mais...
Na mesma linha de reconhecimento às guardiãs do Vale, a Mostra de Cultura Popular recebe o nome de Dona Jovença Pereira Costa, mestra da cultura popular e batuqueira. Além de pioneira, ela é considerada uma das principais guardiãs das tradições do Batuque e da Folia de Santos Reis de Comercinho. Aprendeu a manifestação com sua mãe, Maria de Aprígio, e dedicou a vida à preservação e transmissão desse saber. No vídeo o Grupo de Catopês de Montes Claros - Marujada, Caboclinhos, lindíssimo... entre outros também lindíssimos. E um jovem simpático do grupo nos conta a história e os valores do mesmo, além de nos dar a honra da foto:
A Noite Literária homenageia Vilma Baracho (in memoriam), poetisa natural de São Gonçalo de Rio das Pedras, distrito de Serro — sua poesia, enraizada na vida do Vale, permanece como legado. O Vale do Jequitinhonha encontrou nela uma guardiã da poesia. Com generosidade, ela acolheu vozes, uniu gerações de poetas e fez da palavra um gesto de amor. Em Diamantina ficou carinhosamente conhecida como "madrinha dos poetas". Por onde passava, sempre levava consigo os livros de autoria da própria mãe, Virgínia Baracho, fazendo sempre questão de declamá-los, mantendo-os vivos. E suas filhas, emocionadas, fizeram o mesmo.
Na foto temos nosso querido Cláudio Bento, grande poeta da ALVA Academia Literária do Vale, sendo homenageado. E, do lado, querida Marli Fróes, também acadêmica da ALVA, apresentando a Noite Literária.
Tive a honra de ser jurada nessa noite, juri presidido pela querida Tida Carvalho. Nem vou falar sobre nosso bi-campeão, querido Guguzinho Fofinho, com seu poema 'Velho Jequitinhonha'... Farmou aura, arrasou ...
Nosso destaque é para o poema a seguir, que muito nos emocionou:
Da terra, do Vale
As casas são da terra
e as mulheres
que habitam as casas
são mulheres
como as árvores da caatinga
resistentes
como as mulheres
de raízes profundas
em busca de água
as árvores perdem as folhas totalmente
e as mulheres nunca perdem totalmente as esperanças
elas as cultivam
em antigas cantigas
que perduram no tempo
e ecoam com o vento
eternamente
reúnem memórias
nas rodas de ciranda
na língua do barro
no forno do sol
nas cores da terra
e o que se sabe
é que muito se guarda
e também muito se espera
a liberdade é uma imagem
das roupas brancas presas ao varal
o corpo aguenta o baque do sol
como vasilhas no jirau
a cabeça é um leito de chão rachado
por onde a água viaja
em uma lata
para saciar a sede
dos que também têm fome
a farinha torrada
o vaso de barro
o algodão fiado
a vida torneada
a coragem faz morada
no olhar de mulheres enraizadas
todos os tesouros estão enterrados
minha avó conhecia todos os segredos
água-marinha
diamante, ouro
lítio, rubelita
quanto vale o Vale?
mais vale levar um rosário na mão
mais vale viver com devoção
ter a faca e o queijo na mão
mais vale espetar o dedo na roca
do que não fiar a vida com o coração
mais vale mesmo é viver
mas de que vale viver
sem pisar nesse chão?
as mulheres...
as mulheres e suas raízes
raízes da terra
raízes do Vale
💜💛💙💓
Já a abertura da Mostra de Teatro celebra Cristina Gonçalves, atriz e diretora de arte de Medina e presidente da Associação dos Grupos de Teatro do Jequitinhonha (Agrutevaje). Ela destaca que sua formação artística foi profundamente marcada pelas oficinas do Festivale, onde teve acesso a cursos que, segundo ela, não teria condições de realizar fora dali. Ao receber a homenagem Cristina Gonçalves diz ter ficado “muito feliz, lisonjeada demais da conta”, lembrando que sua relação com o teatro e com o grupo Ícaros do Vale começou ainda na juventude, quando viu pela primeira vez uma cena na rua ser demarcada com fubá e decidiu que aquela seria sua vida. Para ela, aceitar estar no cartaz ao lado de mulheres como Déa Trancoso e Jovença não é sobre ego, mas sobre representar tantas outras trabalhadoras da cultura que seguem invisibilizadas, atacadas e silenciadas.
Nossa querida Deyse Magalhães fez um apanhado excelente desses dias no FESTIVALE. Obrigada Deyse:
Enfim, escrevendo esse texto no sábado, ainda não acabou o FESTIVALE e essa 'resenha' não é um décimo de apenas um dia e duas noite de FESTIVALE. Até agora são apenas nossos destaques desse período. Hoje e amanhã teremos o resultado do festival das canções, o ponto alto do FESTIVALE, infelizmente não estaremos lá. Mas acompanharemos de longe, certeza que a Deyse nos contará sobre as lindas canções e outras coisas que perdemos.
Por exemplo, a Bênção das Águas, que será realizada às margens do Rio do Peixe, reúne o Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, de Bocaiúva; o Terreiro São Rafael, de Medina; os Tamborzeiros de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, de Virgem da Lapa; e o Congado de Nossa Senhora da Conceição — fé, ancestralidade e sincretismo encontrando o rio.
Cachoeira do Bananal em Botumirim – Foto: Wilson Santos
Enfim, aguardamos resenha da nossa querida Deyse, especialista em registros maravilhosos da arte e da cultura - além de grande escritora e poeta.
Abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham.