Dia 4, primeira quinta de junho, no nosso querido Andu de Dois. Obrigada Hernane, Ana, Peixe, Kelly, Vitória...
Assim começou nosso sarau.
Ausências sentidas... presenças valorizadas... como de praxe, o hino do SBC, a apresentação do nosso coletivo (aberto, inclusivo, anárquico, democrático, ecológico, intergeracional... e feminista ... não necessariamente nessa ordem) e dos nossos valores fundamentais (o riso, as amizades e o sentido estético).
E apresentação das Cachorras, especialmente nossas queridas Cida e Dirce, convidadas especiais, que abrilhantaram nosso sarau.
Cida nos apresentou As Cachorras (todas nós), falou sobre a Lagoinha e nos apresentou sua personagem GENI. Vejam o vídeo e deem o "joinha".
Dirce, junto com alguns poemas lindos, falou sobre o processo de gentrificação. Já tínhamos pesquisado anteriormente e a sua fala parece com o artigo a seguir, publicado em 2021 na Revista PUC Minas
Imagine um bairro periférico ou, até mesmo, central, porém desvalorizado e habitado por pessoas de baixa renda. Agora imagine que, por algum motivo, pessoas com poder aquisitivo elevado passem a se mudar para essa região. Com a chegada de uma classe mais favorecida economicamente, esse bairro começa, pouco a pouco, a atrair comércio, infraestrutura, investimento e desenvolvimento, proporcionando uma transformação do espaço com diversos benefícios que antes não existiam ali. De repente, esse bairro já não tem mais as características de um espaço popular, mas, sim, um bairro nobre. Com toda a alteração na paisagem urbana, muda-se também o custo de vida na região. Esse novo orçamento é condizente com o padrão de vida desses novos moradores, mas, os antigos já não conseguem mais se sustentar ali. Com renda incompatível com o custo de viver naquela região, a solução é se mudar. Você está diante de um fenômeno sócio espacial chamado gentrificação.
A palavra vem da expressão inglesa gentrification, que, por sua vez, vem de gentry, que quer dizer nobreza. Gentrificação, portanto, pode ser definido como enobrecimento do espaço: um conjunto de transformações que ocorre, com ou sem intervenção governamental, e provoca o êxodo da população local por fatores socioeconômicos. A expressão foi utilizada pela primeira vez na década de 1960, pela socióloga britânica Ruth Glass, ao analisar as transformações imobiliárias em determinados distritos londrinos, quando pessoas de status mais elevados começaram a se mudar para locais onde antes só moravam trabalhadores. Esse processo elevou o preço imobiliário do local e acabou expulsando os antigos moradores: a classe operária.
Esse fenômeno, no entanto, não é exclusivo de Londres e nem das capitais europeias. O conceito foi ganhando em cada local significados e aplicações diferentes, e acontece no mundo todo, inclusive no Brasil.
Há, no entanto, um bairro tradicional que resiste a essa tendência: o Santa Tereza. Reduto do Clube da Esquina e da boemia, o local é considerado o berço cultural da capital mineira e carrega em suas ruas e praças o tradicionalismo e o saudosismo de uma Belo Horizonte cantada por Milton Nascimento, Lô Borges e Flávio Venturini. O charmoso bairro da zona Leste resiste ao crescimento imobiliário – e, consequentemente, à gentrificação – sofrido pelos demais bairros centrais e/ou nobres da cidade.
Em Santa Tereza, o processo de gentrificação foi barrado, muito em parte, pela mobilização dos moradores, que pressionaram o poder público para a proteção do bairro, o que resultou na aprovação como Área de Diretrizes Especiais (ADE), em 1996, e, em 2015, no processo de Tombamento pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte de cerca de 300 imóveis entre casas, igrejas, praças e estabelecimentos, o que rendeu ao bairro o título de patrimônio da cidade, e que impõe diversas restrições para evitar a verticalização do espaço e descaracterização da região. “Essas políticas conseguiram fazer com que o bairro se mantivesse como ele é. É emblemático porque a população se organizou para que o bairro não fosse transformado. E aí conseguiram barrar essa entrada do capital imobiliário”, afirma Luciana. A socióloga também pontua que não foi observada mudança significativa nem de entrada de grupos com maior status e nem expulsão de grupos de menor status. “Quem entra tem o status muito parecido com o status das pessoas que predominam lá. Então, não pode falar que houve processo de gentrificação”, conclui.
Luciana Andrade observa que a história de Belo Horizonte é marcada pela segregação sócio espacial, com a expulsão da população com menores recursos para regiões cada vez mais longínquas. Essa é uma característica do desenvolvimento das cidades latino-americanas que, de modo geral, se baseiam no modelo centro-periferia de segregação sócio espacial. A socióloga observa, porém, que essa mobilidade forçada rompe com elos sociais e espaciais e, consequentemente, com parte da memória afetiva das pessoas. “É um processo perverso que priva um grupo, à medida em que ele tem que sair de onde residia, de toda uma vida social construída naquele lugar. Vida que é feita de relações de vizinhança, de apropriação do espaço, ou seja, de parte da identidade que construímos com a nossa cidade”, pontua. Ela também critica os discursos contrários, que argumentam que as políticas anti gentrificadoras congelam a cidade. “Não se trata disso. A cidade é obviamente algo em constante transformação. O problema é quando essa transformação tem como objetivo o lucro de alguns, os empreendedores imobiliários, e o bem-estar de outros, os novos moradores, em prejuízo dos menos favorecidos economicamente”, analisa.
Embora a gentrificação seja, conceitualmente, um processo residencial, esse fenômeno afeta outros aspectos, como o comercial, já que interfere na economia local, e nos usos dos espaços públicos que, por definição, são espaços abertos a todos. Luciana ressalta, porém, que na prática essa abertura não se efetiva. “Essas ocupações têm relação direta com o poder de certos grupos, mas também com determinadas políticas públicas que não levam em conta os hábitos e costumes de um grupo social. Por isso sempre falamos que o espaço público é um lugar de conflitos e de poder. Se um grupo passa a predominar em um espaço ele pode gerar constrangimentos para as práticas e usos de outros grupos, assim como pode exigir do poder público medidas gentrificadoras do espaço público, proibindo ou dificultando certos usos que têm relação com o outro grupo”, explica.
Entendemos então que, com a fala de 'revitalização' do bairro ou da região, como o que acontece atualmente com o Projeto de Lei 574 de 2025, aprovado em primeiro turno pela Câmara Municipal - que propõe incentivos à construção civil para 'dinamizar' a região - no fundo trata-se da permissão para a construção de edifícios altos para uma classe média, com a 'expulsão' das pessoas que moram na região. Como aconteceu há pouco mais de cem anos, na construção da cidade de Belo Horizonte, planejada "dentro" da av. do Contorno. Os moradores do 'em torno', que trouxeram as pedras para a construção dos edifícios estilo francês da época, foram em seguida expulsos para fora da contorno - Santa Tereza, Lagoinha, Serra, entre outros bairros. Este é o sistema cruel e excludente que vivemos, que também nos faz acreditar que "direitos são dados e que não precisamos lutar por eles", ou seja, alimentam nossa passividade e alienação. E é sobre combatermos essa alienação e lutarmos por nossos direitos que falamos... e nos juntamos para essa luta.
E se falamos em luta, não tinha pessoa melhor, para nossa homenageada, do que a maravilhosa Elza Soares. Apresentada lindamente pela querida Juliana que nos distribui alfinetes, simbolizando "nos juntar"... Elza era muito magra e não tinha dinheiro para comprar roupas para usar nos shows, então ela usava alfinete para prender e ajustar a roupa no corpo.
Palco aberto, mais apresentações maravilhosas, querida Deyse fazendo paralelo da 'ocupação' da Lagoinha com a questão territorial de Palmares, símbolo da resistência negra à escravidão.
E a participação da nossa querida Professora Das Dores, com seu poema Pássaro Amarelo.
E assim nos despedimos... ainda, ganhando mudas de presente das Cachorras, que também administram o coletivo HORTELÕES DA LAGOINHA, busquem no instagram.
O SBC agradece as lindas cachorras... e até nosso próximo sarau, primeira quinta de julho.
Abraços carinhosos,
Santuza TU
A seguir mais fotos gentilmente feitas pela querida Deyse e por mim:
Fizemos nosso cineclube na terça passada, dia 12.maio, com o filme CABRA MARCADO PARA MORRER. Bastante impactante. Na verdade são dois filmes, o primeiro deles em preto e branco, de 1964, foram resgatados pequenos trechos desse filme. E em 84, o diretor Eduardo Coutinho retoma o documentário, incluindo aqueles trechos de 64.
O filme é sobre a vida de João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba, assassinado em 62.
Em razão do golpe militar, as filmagens foram interrompidas em 64. O engenho da cidade de Galileia foi cercado por forças policiais. Parte da equipe foi presa sob a alegação de "comunismo", e o restante dispersou-se.
O trabalho foi retomado 17 anos depois, recolhendo-se depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens e também da viúva de João Pedro, Elizabeth Altino Teixeira, que desde dezembro de 1964 vivera na clandestinidade, separada dos filhos. Reconstruiu-se assim a história de João Pedro e das Ligas camponesas de Galiléia e de Sapê. Ou seja, Vinte anos depois foram reunidos os mesmos técnicos, locais e personagens reais para contar - ou recontar - esta história.
Na conversa sobre o filme, coisas que nos afetaram:
. Galiléia, o nome da cidade! e os filhos do João Pedro e da Elizabeth, são nomes bíblicos. Isso chamou muito a atenção da nossa participante que conhece muitíssimo sobre a Palestina, sua história e a situação atual dessa região tão "cruelmente disseminada";
. A história do Brasil na década de 60: João Goulart, Presidente no início dessa década, falava sobre a reforma agrária. Foi deposto por golpe militar em 64. Ainda hoje pouco se fala sobre reforma agrária no Brasil.
. Por último, não menos importante, as 'mulheres invisibilidadas', quase sempre, quase todas nós... No caso A Elizabeth Teixeira, que já foi nossa homenageada no sarau NOSSAS MULHERES. Mulheres brasileiras, conhecemos tão pouco, como construímos nossa identidade, 'quem somos nós', se não nos conhecermos e, por consequência, nos admirarmos?
Elizabeth Altino Teixeira nasceu em Sapé em 13 de fevereiro de 1925, está agora com 101 anos.
Enfrentou a família de pequenos proprietários ao se casar com João Pedro Teixeira, trabalhador sem terra e negro. Ao lado dele, militou nas Ligas Camponesas na Paraíba. Em 1962, após o assassinato do companheiro, assumiu a liderança da organização no município de Sapé. Em diversas ocasiões foi presa. Numa de suas voltas para casa, descobriu que a filha mais velha, Marluce, havia cometido suicídio, acreditando que a mãe havia sofrido o mesmo destino que o pai. Com o golpe militar de 1964, teve que passar para a clandestinidade, adotando o nome de Marta Maria Costa e se refugiou em São Rafael (Rio Grande do Norte), com o filho Carlos.
Permaneceu clandestina até 1981, quando foi encontrada pelo cineasta Eduardo Coutinho, que retomou as filmagens de seu documentário Cabra Marcado para Morrer. Foi morar em João Pessoa, numa casa que ganhou de Coutinho.
Foi homenageada com o Diploma Bertha Lutz e a Medalha Epitácio Pessoa.
A casa onde viveu com João Pedro, em Sapé, foi tombada e destinada a abrigar o Memorial das Ligas Camponesas, em 2011.
E assim terminamos nosso encontro, já pedindo licença para, no nosso próximo cineclube, exibir um filme sobre mulheres cubanas... e aprender com elas o valor do coletivo ... e da luta por direitos e por igualdade.
Muitíssimo bem recebido pelo querido Peixe (sobrenome Frito... já eleito nosso DJ) e querida Vitória, que nos ajudaram a colocar nossos varais de mulheres maravilhosas, inclusive nós... E o estandarte NOSSAS MULHERES ficou na porta, recebendo as pessoas... foi lindo...
Começamos pedindo licença para apresentar uma música que não é de mulher brasileira, pois o sarau NOSSAS MULHERES seria somente de mulheres brasileiras. Porém a Nina Simone merece estar entre nós com a música Ain't Got No, I Got Life. Trata-se de um hino de resiliência que contrasta a falta de bons materiais com a celebração da vida e da liberdade. Essa música de 1968, celebra a identidade e a força interior. E é a música de HAIR, musical que todas as pessoas dessa época assistiram - e se inspiraram - pelo menos as de espírito transgressor.
Eu Não Tenho / Eu Tenho Vida
Não tenho casa, não tenho sapatos Ain't got no home, ain't got no shoes
Não tenho dinheiro, não tenho classe Ain't got no money, ain't got no class
Não tenho saias, não tenho casacos Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Não tenho perfume, não tenho amor Ain't got no perfume, ain't got no love
Não tenho fé Ain't got no faith
Não tenho cultura Ain't got no culture
Não tenho mãe, não tenho pai Ain't got no mother, ain't got no father
Não tenho irmão, não tenho filhos Ain't got no brother, ain't got no children
Não tenho tias, não tenho tios Ain't got no aunts, ain't got no uncles
Não tenho amor, não tenho importância Ain't got no love, ain't got no mind
Não tenho país, não tenho escolaridade Ain't got no country, ain't got no schooling
Não tenho amigos, não tenho nada Ain't got no friends, ain't got no nothing
Não tenho água, não tenho ar Ain't got no water, ain't got no air
Não tenho cigarros, não tenho um franguinho Ain't got no smokes, ain't got no chicken
Eu não tenho Ain't got no
Não tenho água Ain't got no water
Não tenho amor Ain't got no love
Não tenho ar Ain't got no air
Não tenho Deus Ain't got no God
Não tenho vinho Ain't got no wine
Não tenho dinheiro Ain't got no money
Não tenho fé Ain't got no faith
Não tenho Deus Ain't got no God
Não tenho amor Ain't got no love
Então o que eu tenho? Then what have I got
Por que mesmo eu estou viva? Why am I alive anyway?
Sim, inferno Yeah, hell
O que eu tenho What have I got
Ninguém pode tirar de mim Nobody can take away
Tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça I got my hair, got my head
Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas Got my brains, got my ears
Tenho meus olhos, tenho meu nariz Got my eyes, got my nose
Tenho minha boca Got my mouth
Eu tenho I got my
Eu tenho a mim mesma I got myself
Tenho meus braços, minhas mãos I got my arms, got my hands
Tenho meus dedos, tenho minhas pernas Got my fingers, got my legs
Tenho meus pés, tenho dedos nos pés Got my feet, got my toes
Tenho meu fígado Got my liver
Tenho meu sangue Got my blood
Eu tenho uma vida I've got life
Eu tenho vidas! I've got lives
Tenho dores de cabeça, e de dente I've got headaches, and toothaches
E tenho horas ruins, assim como você And bad times too like you
Tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça I got my hair, got my head
Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas Got my brains, got my ears
Tenho meus olhos, tenho meu nariz Got my eyes, got my nose
Tenho minha boca Got my mouth
Eu tenho o meu sorriso I got my smile
Eu tenho a minha língua, meu queixo I got my tongue, got my chin
Meu pescoço e meus seios Got my neck, got my boobs
Meu coração, minha alma Got my heart, got my soul
E minhas costas Got my back
Tenho meu sexo I got my sex
Tenho meus braços, minhas mãos I got my arms, got my hands
Meus dedos, minhas pernas Got my fingers, got my legs
Tenho meus pés, tenho dedos nos pés Got my feet, got my toes
Tenho meu fígado Got my liver
Tenho o meu sangue Got my blood
Eu tenho vida I've got life
Eu tenho minha liberdade I've got my freedom
Ohhh Ohhh
Eu tenho a vida! I've got life!
E nossa querida Antonieta, organizadora deste sarau junto com a querida Luciana, apresentou a convidada especial desse evento, grande Edvalda. Ela falou de si mesma, da sua vida, da sua luta, da sua caminhada... E lembramos - e cantamos - Geraldo Vandré
Chegou a vez da nossa querida Luciana.
E ela apresentou a Dalva Maria Soares:
Mineira de Baldim, Doutora em antropologia social, pela UFSC, é autora de 'para diminuir a
febre de sentir('2020), 'do menino' ( 2021), 'Me ajuda a olhar' ( 2023) e 'tempo das águas' ( 2025), todos pela editora
Popular. E por que ela escreve?
ESCREVO PARA RESPIRAR MELHOR
Acima um pedacinho da crônica A JANTA ESTÁ PRONTA, do livro PARA DIMINUIR A FEBRE DE SENTIR. Dalva fala das pequenas
narrativas do cotidiano, as crônicas, presentes em "Para diminuir a febre
de sentir", primeiro livro publicado pela autora. Os temas abordados são
família, amizade, sororidade, mulheres que inspiram sua escrita, vida no
interior, e muito mais.
Dalva diz: "Virginia Woolf escreveu um teto todo seu, onde
ela fala: "Uma mulher precisa de um teto todo seu e quinhentas livras para
escrever ficção". Mas Anzaldua fala o contrario, esqueça o quarto só pra si, escreva no
banheiro, escreve enquanto você lava roupa, escreve enquanto lava a casa, sinta
as palavras ecoando no seu corpo”. Virginia Woolf tem razão. Mas lembro que meu
lugar social, que minha historia está muito mais próximo de uma Anzaldua, de
uma Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, do que de uma mulher branca,
britânica, europeia."
Teve mais Dalva, só quem estava lá pôde assistir... e terminamos Dalva com Emicida e Vanessa da Mata, pois toda a escrita da Dalva é sobre família, particularmente MÃE... e estamos perto do dia das mães, não é? Já começamos nossas homenagens...
Não me lembro a ordem das homenageadas, portanto vou citar agora a grande Conceição Evaristo. Nossa querida Lu (ou teria sido Antonieta😕😏) falou muito bem dessa mineira maravilhosa. Aqui um resumo
E, segundo opiniões do SBC, o mais bonito poema da Conceição foi interpretado pelas queridas Ana e Angela, mais novas SBCenses, pois como falamos nossa seleção para ser incluída no SBC é "quando o olho brilha".
Ana Luiza Apgaua, grande escritora, levou um livro seu para sorteio. Obrigada pela presença, querida!
Angela Maria, grande artista, estará no Teatro Marília no dia 13 de maio próximo das 15 as 17h com a peça RUA DO POVO DA RUA. Sigam @companhiadeteatrobh
E nossa ultima homenageada, Cristiane Sobral...
é uma multiartista, atriz, escritora, dramaturga e poeta brasileira.
Estudou teatro no SESC do Rio de Janeiro, em 1989. Um ano depois chega a Brasília e começa a atuar em grupos de teatro no ambiente estudantil e monta a peça Acorda Brasil. Foi a primeira atriz negra graduada em Interpretação Teatral pela Universidade de Brasília. Atuou no curta A dança da Espera, e em diversos espetáculos teatrais; Protagonizou e concebeu os espetáculos: Uma Boneca no Lixo, premiado em 1999 pelo Governo do Distrito Federal e dirigido por Hugo Rodas; Dra. Sida, premiada pelo Ministério da Saúde em 2000 e no I, II e III Ciclo de Dramaturgia Negra realizado em Brasília e Porto Alegre.
Estreou na literatura em 2000, publicando textos nos Cadernos Negros; e Cadernos Negros “Black Notebooks”, edição bilíngue com volumes em prosa e poesia editados nos Estados Unidos. A seguir, participa da antologia crítica Literatura e afrodescendência no Brasil (2011), ao lado de 99 outras autoras e autores negros brasileiros dos séculos XVIII, XIX, XX e XXI. Por fim, em 2018, integra a coletânea Encontros com a poesia do mundo. Foi crítica teatral da revista Tablado, de Brasília. Mestre em Artes (UnB) com pesquisa sobre as estéticas nos teatros negros brasileiros e ênfase no ensino de artes. Membro da Academia de Letras do Brasil seção DF onde ocupa a cadeira 34 e do Sindicato dos Escritores do DF.
Em 2010, lança sua primeira publicação individual, Não vou mais lavar os pratos. Seu segundo livro – Espelhos, miradouros, dialéticas da percepção, de 2014, apresenta narrativas curtas voltadas para os dramas cotidianos da juventude negra e periférica. Em 2014, a autora publica Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, em que retoma seu projeto de uma poesia afro-brasileira empenhada em tocar nas mazelas do racismo estrutural presente entre nós. Em 2016, retoma sua veia narrativa com os contos de O tapete voador, para, no ano seguinte, brindar seus leitores com mais um volume de poesia – Terra negra. Este último tem destacada sua "cadência cênica" pela prefaciadora Elisa Lucinda, para quem "tem cor esse livro, tem batuque na elegância rítmica deste falar."
Temas da sua escrita: Os modos de ser e de viver da população negra, suas tradições, sua subjetividade, a sexualidade, o erotismo, a relação com as religiões de matriz africanae afro-brasileiras. O homem, a mulher, a infância, a maternidade, os paradoxos sociais, as possibilidades de ruptura de padrões e modelos estabelecidos, o corpo negro.
"Para pensar sobre o corpo negro, é preciso se lembrar dos corpos não negros. De que corpo negro estamos falando? O corpo negro surge como uma criação do colonizador, é um corpo desumano, desprovido de alma. Ora, o corpo é uma manifestação da consciência, não existe fora das relações com outros corpos. Um corpo se cria a partir da construção do outro, do que significa para o outro. A cultura patrimonial brasileira decreta que negros não têm a posse dos seus corpos, podem ser violentados, explorados, subalternizados. As relações sociais e a visão que o homem e a mulher negra têm de si mesmo nascem contaminadas por essa genética social.".
Foi a última homenageada da programação. Mas já no PALCO ABERTO pedi licença para apresentar uma outra mulher negra maravilhosa, que acabei de conhecer:
Luiza Mahin
Africana guerreira, teve importante papel na Revolta dos Malês, na Bahia. Além de sua herança de luta, deixou-nos seu filho, Luiz Gama, poeta e abolicionista. Pertencia à etnia jeje, sendo transportada para o Brasil, como escrava. Outros se referem a ela como sendo natural da Bahia e tendo nascido livre por volta de 1812. Em 1830 deu à luz um filho que mais tarde se tornaria poeta e abolicionista. O pai de Luiz Gama era português e vendeu o próprio filho, por dívida, aos 10 anos de idade, a um traficante de escravos, que levou para Santos.
Luiza Mahin foi uma mulher inteligente e rebelde. Sua casa tornou-se quartel general das principais revoltas negras que ocorreram em Salvador em meados do século XIX. Participou da Grande Insurreição, a Revolta dos Malês, última grande revolta de escravos ocorrida na Capital baiana em 1835. Luiza conseguiu escapar da violenta repressão desencadeada pelo Governo da Província e partiu para o Rio de Janeiro, onde também parece ter participado de outras rebeliões negras, sendo por isso presa e, possivelmente, deportada para a África. Luiz Gama escreveu sobre sua mãe: “Sou filho natural de uma negra africana, livre da nação nagô, de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa, magra, bonita, a cor de um preto retinto, sem lustro, os dentes eram alvíssimos, como a neve. Altiva, generosa, sofrida e vingativa. Era quitandeira e laboriosa”.
E continuou o PALCO ABERTO, com poemas da nossa querida Ana - Ana Luiza Apgaua, mais homenagens à nossa convidada especial, que transbordava alegria, obrigada querida Edvalda... e muita coisa mais. Além de ótimas conversas, tudo que o SBC adora... terminamos com o Peixe e nossos agradecimentos aos queridos Ernane e Clara, que não puderam estar presentes - quinto mês de gravidez, uma menina!!!
Nosso próximo sarau já marcado no Andu, dia 4 de junho, feriado Corpus Christi, conversaremos sobre a nossa cidade e suas mulheres, o processo de gentrificação - . sabem de que se trata? - nos bairros, especialmente a região da Lagoinha ... e também em Santa Tereza.
Até lá, abraços carinhosos às pessoas que nos seguem
Santuza TU
Depois de pronto nosso post recebemos dois vídeos do sarau. Vale a pena vê-los, apesar de serem bastante amadores mostram a essência do SBC, ou seja, anárquico... aberto, inclusivo, democrático, ecológico, intergeracional... e feminista...