Botumirim está no norte de Minas, na Cordilheira do Espinhaço, a cerca de 575 km de Belo Horizonte. Significa "serra pequena" ou "pedra pequena" em tupi.

Rolinha do Planalto–Foto: Wilson Santos
A cidade fica próxima ao Parque Nacional das Sempre Vivas e abriga o Parque Estadual de Botumirim. Na entrada, as casinhas coloridas... e as casinhas de passarinhos, pois a cidade - e a região - é conhecida como o "recanto dos passarinhos", especialmente a Rolinha do Planalto: cor de canela, mais clara no ventre, olhos e manchas azuis nas asas, uma das aves mais raras do planeta, que passou 75 anos julgada extinta, até ser reencontrada naquela região em 2015. “Passarinho pintadinho, o tenor da laranjeira”, canta Déa Trancoso.
E o 41º Festivale em Botumirim, promovido pela FECAJE Federação das Entidades Culturais e Artísticas do Vale do Jequitinhonha e o Instituto Sócio Cultural Bruta Flor, celebra a resistência das mulheres do Vale. O evento homenageia a atriz e diretora de teatro Cristina Gonçalves (Mostra de Teatro); a narradora, compositora, cantora e pesquisadora Déa Trancoso (Festival da Canção); a tecelã Marlice Machado (Feira de Artesanato); a mestra da Folia de Reis Jovença Pereira Costa (Mostra de Cultura Popular); e a poetisa Vilma Baracho, in memoriam (Noite Literária). As homenageadas são mulheres que tecem, cada uma à sua maneira, a trama da resistência cultural do Vale, inclusive contra a misoginia do meio artístico.
Ficamos conhecendo um pouco mais da Déa: Em 1995, na décima edição do Festivale, em Rubim, ela subiu ao palco como concorrente e venceu ao interpretar “Tuíra, Índia Guerreira”, de Si Amaral e Celi Márcio — levando o primeiro lugar e o prêmio de melhor intérprete. Trinta e um anos depois, retorna ao festival como homenageada. A escolha daquela canção, hoje, ganha outra camada: Tuíra, liderança indígena que enfrentou a Eletronorte em 1989, era símbolo de resistência. Déa a cantou antes mesmo de reconhecer que carregava, ela própria, uma descendência indígena — uma sincronia que só o tempo despertou. “Eu me reconheci Borum”.
Em entrevista à BdF - Brasil de Fato, ela diz: “Eu não imaginei, nem nos meus melhores sonhos, que um dia eu seria homenageada no Festivale“. Ela pensava que sua música não tivesse “o substrato do sertão”. “Tem, mas não é explícito. Meu texto conversa com o Oriente, conversa com espiritualidades que não são só caboclas”, diz.
Déa fala do Festivale como quem fala de um organismo vivo — e de um tempo que não é o dos relógios. “Nós estamos vivendo crises homéricas. De como ser, de como estar. O capitalismo é um sistema ultra inteligente. Quando ele cai aqui, ele se levanta ali. Ele tem o fascismo como aliado histórico milenar. O fascismo é tudo que é contra a vida”, afirma.
Ao falar da nova direção da FECAJE, ela levanta a questão que considera central: como fazer o Festivale criar permanência — política, cultural, artística, formativa, de resistência? E reflete sem a presunção de saber a resposta: “Não sei se ele tá dando conta desse redemoinho. “Ele faz uma festa itinerante, mas e as outras ações? Como a gente pode estar fora da itinerância de julho fazendo resistência? Qual é a nossa resposta para essa região?”.
E a mesma matéria da BdF Brasil de Fato que fala da Déa e das mulheres homenageadas, nos conta a história de Minas e do Brasil à época do surgimento do FESTIVALE:
Do 'falso milagre econômico da ditadora' - o PIB (produto interno bruto) cresceu, mas o salário mínimo perdeu metade do valor, a dívida externa quadruplicou, a desigualdade disparou — vieram políticas de ocupação para o Vale: uma delas, o eucalipto.
Criado em 1967, o Projeto Rondon levou universitários a regiões isoladas do país. A Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) instalou em Araçuaí um campus avançado vinculado ao programa, que centralizava as ações sociais da universidade no Vale. Mas foi nesse mesmo chão que a resistência brotou pela cultura. Na mesma época, chegou em Araçuaí um frade holandês, Frei Chico. Três anos depois, ouviu a cozinheira da paróquia cantar e disse: “Bonito, Filó!” — “Ah, é bobagem.” (veja o conceito SBCense de bobagem! - coisa boa pra vida). Daquela bobagem nasceu o Coral Trovadores do Vale (1970). Lira Marques entrou no coral e, com Frei Chico, percorreu o Vale com um gravador velho, registrando cantos que ninguém mais cantava. No mesmo período, o Campus Avançado do Vale do Jequitinhonha (CAVJ) - extensão da PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica — aproximou a universidade das artesãs, apoiou a associação, organizou feiras. Frei Chico e o CAVJ não eram a mesma coisa, mas aconteciam no mesmo lugar e no mesmo tempo.
Foi nos anos 70 que Tadeu Martins, Aurélio Silby, Carlos Figueiredo e George Abner — dentro de um ônibus vindo de Belo Horizonte — pensaram em ter um jornal que desse voz e vez à região. Como disse Tadeu, “naquele período da ditadura militar, era preciso buscar formas de organização.” Nasceu o Jornal Geraes (1978).
A partir da rede que o Geraes formou, organizaram o 1º Encontro de Compositores do Vale (3/11/1979, Itaobim). Para divulgá-lo, criaram um cartaz que parodiava os cartazes de “procurados” da ditadura — com as fotos dos músicos e o título “Procurados” em letras garrafais.
O cartaz deu rebuliço: Globo, Alterosa e Band bateram na porta. Foram três entrevistas em TV e mais duas emissoras de rádio — Guarani, Rural e Inconfidência. Lotou o 1º Encontro de Compositores. Foi a base sólida para se criar o Festivale, que nasceu em julho de 1980, em Itaobim.
Antes de ser celebrado, o Vale foi extraído — mineração de diamantes e ouro que partiu, monocultura do eucalipto que não partiu. Pesquisadores da UFMG documentam que a população “assistiu atônita à tomada de terras comunais e ao escasseamento crescente de água”; o eucalipto, até hoje, seca mananciais nas chapadas.
Agora o discurso do "lítio verde" chega como nova promessa — o mesmo falso milagre, a mesma roupagem. O Vale reconhece o ciclo: a extração muda de nome, a prática é a mesma.
É nesse cenário que o Festivale chega à 41ª edição.
A Noite Literária homenageia Vilma Baracho (in memoriam), poetisa natural de São Gonçalo de Rio das Pedras, distrito de Serro — sua poesia, enraizada na vida do Vale, permanece como legado. O Vale do Jequitinhonha encontrou nela uma guardiã da poesia. Com generosidade, ela acolheu vozes, uniu gerações de poetas e fez da palavra um gesto de amor. Em Diamantina ficou carinhosamente conhecida como "madrinha dos poetas". Por onde passava, sempre levava consigo os livros de autoria da própria mãe, Virgínia Baracho, fazendo sempre questão de declamá-los, mantendo-os vivos. E suas filhas, emocionadas, fizeram o mesmo.
Na foto temos nosso querido Cláudio Bento, grande poeta da ALVA Academia Literária do Vale, sendo homenageado. E, do lado, querida Marli Fróes, também acadêmica da ALVA, apresentando a Noite Literária.
Tive a honra de ser jurada nessa noite, juri presidido pela querida Tida Carvalho. Nem vou falar sobre nosso bi-campeão, querido Guguzinho Fofinho, com seu poema 'Velho Jequitinhonha'... Farmou aura, arrasou ...
Nosso destaque é para o poema a seguir, que muito nos emocionou:
Da terra, do Vale
As casas são da terra
e as mulheres
que habitam as casas
são mulheres
como as árvores da caatinga
resistentes
como as mulheres
de raízes profundas
em busca de água
as árvores perdem as folhas totalmente
e as mulheres nunca perdem totalmente as esperanças
elas as cultivam
em antigas cantigas
que perduram no tempo
e ecoam com o vento
eternamente
reúnem memórias
nas rodas de ciranda
na língua do barro
no forno do sol
nas cores da terra
e o que se sabe
é que muito se guarda
e também muito se espera
a liberdade é uma imagem
das roupas brancas presas ao varal
o corpo aguenta o baque do sol
como vasilhas no jirau
a cabeça é um leito de chão rachado
por onde a água viaja
em uma lata
para saciar a sede
dos que também têm fome
a farinha torrada
o vaso de barro
o algodão fiado
a vida torneada
a coragem faz morada
no olhar de mulheres enraizadas
todos os tesouros estão enterrados
minha avó conhecia todos os segredos
água-marinha
diamante, ouro
lítio, rubelita
quanto vale o Vale?
mais vale levar um rosário na mão
mais vale viver com devoção
ter a faca e o queijo na mão
mais vale espetar o dedo na roca
do que não fiar a vida com o coração
mais vale mesmo é viver
mas de que vale viver
sem pisar nesse chão?
as mulheres...
as mulheres e suas raízes
raízes da terra
raízes do Vale
💜💛💙💓
Já a abertura da Mostra de Teatro celebra Cristina Gonçalves, atriz e diretora de arte de Medina e presidente da Associação dos Grupos de Teatro do Jequitinhonha (Agrutevaje). Ela destaca que sua formação artística foi profundamente marcada pelas oficinas do Festivale, onde teve acesso a cursos que, segundo ela, não teria condições de realizar fora dali. Ao receber a homenagem Cristina Gonçalves diz ter ficado “muito feliz, lisonjeada demais da conta”, lembrando que sua relação com o teatro e com o grupo Ícaros do Vale começou ainda na juventude, quando viu pela primeira vez uma cena na rua ser demarcada com fubá e decidiu que aquela seria sua vida. Para ela, aceitar estar no cartaz ao lado de mulheres como Déa Trancoso e Jovença não é sobre ego, mas sobre representar tantas outras trabalhadoras da cultura que seguem invisibilizadas, atacadas e silenciadas.
Nossa querida Deyse Magalhães fez um apanhado excelente desses dias no FESTIVALE. Obrigada Deyse:
Enfim, escrevendo esse texto no sábado, ainda não acabou o FESTIVALE e essa 'resenha' não é um décimo de apenas um dia e duas noite de FESTIVALE. Até agora são apenas nossos destaques desse período. Hoje e amanhã teremos o resultado do festival das canções, o ponto alto do FESTIVALE, infelizmente não estaremos lá. Mas acompanharemos de longe, certeza que a Deyse nos contará sobre as lindas canções e outras coisas que perdemos.
Por exemplo, a Bênção das Águas, que será realizada às margens do Rio do Peixe, reúne o Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, de Bocaiúva; o Terreiro São Rafael, de Medina; os Tamborzeiros de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, de Virgem da Lapa; e o Congado de Nossa Senhora da Conceição — fé, ancestralidade e sincretismo encontrando o rio.
Cachoeira do Bananal em Botumirim – Foto: Wilson SantosEnfim, aguardamos resenha da nossa querida Deyse, especialista em registros maravilhosos da arte e da cultura - além de grande escritora e poeta.
Abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham.
Santuza TU





















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