segunda-feira, 22 de junho de 2026

Conversas SBCenses: sobre DIGNIDADE



  1. Sinônimo de Dignidade

  2. Antônimo de Dignidade

  3. A palavra 'dignidade' tem sua origem no latim 'dignitas', que significa 'mérito' ou 'valor'. Inicialmente, era usada para se referir ao status social ou político de uma pessoa. Com o tempo, seu significado evoluiu para abranger conceitos mais amplos de valor intrínseco e respeito devido a todos os seres humanos. Na filosofia e no direito, o conceito de dignidade humana ganhou destaque especialmente após a Segunda Guerra Mundial, tornando-se um princípio fundamental em muitas constituições e declarações de direitos humanos.

A dignidade humana é um princípio filosófico, ético e jurídico que reconhece o valor inerente de todo ser humano, independentemente de sua origem, raça, gênero, religião, etc...

No Brasil, a dignidade da pessoa humana está prevista no artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal de 1988, sendo um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito . 

Dimensões e Aplicações

A dignidade humana envolve múltiplas dimensões, incluindo: Respeito à integridade física e moral; Liberdade de expressão e auto determinação; Igualdade de oportunidades e acesso a  direitos básicos; Proteção contra discriminação e violência;

Importância Social e Jurídica

A dignidade humana é a base de todos os direitos humanos universais, sendo essencial para combater desigualdades, preconceitos e violações de direitos  Ela também estabelece um mínimo existencial, assegurando que todos tenham condições de viver com respeito e segurança, e serve como referência para políticas públicas e legislação que promovam justiça e inclusão social 

Perspectiva Filosófica

A noção de dignidade possui raízes antigas, remontando às civilizações antigas que, mesmo de formas variadas, já refletiam sobre a importância do respeito ao ser humano. Na Grécia Antiga, por exemplo, as ideias de respeito à virtude e à condição humana começaram a delinear um conceito precursor de dignidade, embora ainda estivesse restrito a certas classes sociais. 

O conceito moderno de dignidade foi influenciado pelo pensamento iluminista e por filósofos como Immanuel Kant, que defendia que os seres humanos devem ser tratados como fins em si mesmos, e não como meios  A dignidade é, portanto, um valor moral e espiritual que transcende a lei, sendo incorporada ao ordenamento jurídico para garantir proteção efetiva a todos os indivíduos.

Em resumo, a dignidade humana é um princípio central que sustenta a justiça, a igualdade e o respeito aos direitos fundamentais, sendo indispensável para a construção de uma sociedade ética, inclusiva e democrática.

A dignidade não é apenas um conceito abstrato, mas um princípio que permeia nossas interações, dizendo respeito ao valor intrínseco de cada pessoa. Como podemos garantir o reconhecimento dessa dignidade em um mundo marcado por desigualdades, preconceitos e violências? Será que a dignidade deve ser universal, ou suas manifestações variam conforme o contexto cultural e social? A compreensão aprofundada desse conceito torna-se imprescindível para promover uma sociedade mais justa, plena de respeito e equidade.

Na atualidade, a dignidade é entendida como o reconhecimento do valor inalienável de cada pessoa, independentemente de suas condições sociais, culturais ou econômicas. Ela envolve o direito de ser tratado com respeito, liberdade e igualdade. Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a dignidade é um aspecto inerente à condição humana, que deve ser protegido por leis e políticas públicas. Além disso, ela é uma base para combater discriminações, desigualdades e violações de direitos, promovendo uma sociedade mais justa e plural.

Pesquisas nos IAs e Googles da vida nos serviram para começar o caso SBCense sobre essa palavra muito usada e pouco entendida, às vezes até mesmo entendida e usada de maneira distorcida e errônea:

Estávamos numa reunião de solidariedade à Palestina- e ao Irã. São imensamente produtivas essas reuniões, ampliamos nossa compreensão dessa parte oriental do mundo, que nos foi - e continua sendo - mostrada de forma distorcida pelo marketing estadunidense principalmente da segunda metade do século passado, lembram nos filmes de Indiana Jones? Os personagens daquele lado do mundo são pessoas más, feias, barbudas, que empunhavam espadas de uma maneira meio ridícula e  que o Indiana Jones exterminava com apenas um tiro de revolver...

Pois nessa reunião um companheiro, estudioso da cultura do Irã, nos conta que as mulheres no Irã, ao contrário do que temos de informações que moldam nossa imagem sobre elas, têm muito mais dignidade do que nós, mulheres brasileiros. Quando ele disse isso eu percebi várias de nós se remexendo na cadeira, inclusive eu. A que dignidade ele estava se referindo??? Percebi que o sentimento foi de indignação das mulheres presentes. 

Pois bem, calmamente ele explicou sua afirmação, nos dando dados estatísticos sobre a violência contra as mulheres no Irá, bem menor do que por aqui; assim como a ocupação, pelas mulheres iranianas, de cargos de poder tanto no nível público como privado, universidades e empresas, em índices bem mais amplos do que os nossos. E esses dados nos surpreenderam enormemente... 

Saímos dali direto pra "resenha", manifestando nossa perplexidade... e, entre conversas e cervas, concluimos algo que me pareceu bastante interessante: a definição, o conceito vivenciado, aqui pra nós, de dignidade, é a mesma para o homem e a mulher? Uma mulher digna é uma mulher honesta... um homem digno é um homem honesto também. No entanto, até bem pouco tempo, nosso código civil definia a mulher honesta no privado - fiel, cumpridora dos deveres de esposa e mãe -, enquanto o homem honesto era definido no público - cumpridor dos deveres de honra, das dívidas, etc... E concluimos (provisoriamente) que a nossa 'indignação' com o companheiro que disse sobre a dignidade da mulher, sua fala nos tocou na nossa subjetividade, no nosso conceito enraizado culturalmente de "mulher honesta", "mulher digna", ou seja, dignidade definida no sentido privado.

Pensando mais amplamente sobre o conceito de dignidade, vemos sua ligação íntima com a questão de direitos... 

Apesar da compreensão clara do valor da dignidade, ainda enfrentamos obstáculos significativos, como a desigualdade social, discriminações e violações de direitos. No Brasil, por exemplo, há uma luta constante contra o racismo, a violência de gênero e a pobreza, fatores que ameaçam a dignidade de milhões de cidadãos.

Outro desafio é garantir que leis e políticas públicas realmente se traduzam em ações concretas de proteção. Muitas vezes, há uma desconexão entre o que é legislado e o que de fato acontece na prática, dificultando a universalização da dignidade. 

Pesquisamos um pouco mais sobre dignidade:

Significado prático da dignidade no cotidiano


PráticaImpacto na Dignidade
Respeitar opiniões diferentesPromove convivência harmoniosa e valoriza a diversidade
Oferecer acesso a direitos básicosGarante igualdade e proteção social
Qualificar ambientes de trabalhoValoriza o trabalhador e reduz humilhações
Combater preconceitosResgata a dignidade de grupos marginalizados

Benefícios de promover uma cultura de respeito e dignidade

– Fortalece a convivência social e o sentimento de justiça
– Reduz conflitos e violações de direitos
– Promove inclusão de grupos vulneráveis
– Incentiva o desenvolvimento de uma sociedade mais igualitária
– Fomenta o sentimento de pertencimento e segurança para todos

Dicas práticas podemos seguir para promover a dignidade no dia a dia

– Ouça atentamente as pessoas ao seu redor
– Respeite diferenças culturais, religiosas e de opinião
– Pratique empatia em suas ações e palavras
– Denuncie violações de direitos quando presencia-las
– Incentive ambientes de trabalho inclusivos e respeitosos

"Ao compreender e valorizar o conceito de dignidade, estamos dando passos concretos rumo a um mundo onde o respeito aos direitos de cada pessoa seja prioridade. Investir em educação, conscientização e políticas públicas eficazes é essencial para que essa dignidade seja verdadeiramente assegurada para todos, independentemente de origem, condições ou crenças".

"Entender o conceito de dignidade é fundamental para promover uma convivência mais justa, ética e respeitosa. Desde suas raízes históricas até sua aplicação prática no dia a dia, essa noção revela-se como um valor universal que deve ser defendido e cultivado por cada um de nós. Ao reconhecer a dignidade alheia e atuar para protegê-la, contribuímos para um mundo mais humano, onde o respeito é a base de todas as relações. Afinal, cada pessoa merece ser tratada com o valor e a consideração que representam sua essência mais verdadeira".

Violência: negação de direitos 

E outro caso sobre dignidade: depois desse encontro sobre as mulheres no Irã, mais recentemente, dia 15 de junho, fomos e evento da OAB Barro Preto "Envelhecer com Dignidade: Procedimentos legais para combater a violência contra a pessoa idosa". 

O Dia Mundial da Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa é celebrado em 15 de junho e visa combater e conscientizar sobre a violência sofrida por idosos em todo o mundo. Foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2011, após solicitação da Rede Internacional de Prevenção ao Abuso de Idosos (INPEA). A data foi estabelecida para chamar a atenção para as violações dos direitos das pessoas idosas e promover ações de combate à violência.

E durante todo o evento se falou muito sobre nossa dignidade e a luta por nossos direitos. E não pude deixar de falar sobre o principal deles: o direito ao SONHO! O direito de sonhar!


Filme imperdível, de 2025, na Netflix. Tereza, de 77 anos, viveu toda a sua vida em uma pequena cidade industrializada na Amazônia, até o dia em que recebe uma ordem oficial do governo para se mudar para uma colônia de moradias para idosos. O filme, direção de Gabriel Mascaro, se passa num Brasil distópico onde o governo decreta o exílio forçado dos idosos para colônias habitacionais remotas, sob a justificativa de liberar os jovens para produzir. A protagonista, Tereza (Denise Weinberg) recusa-se a ir e foge em uma jornada mágica pelos rios da Amazônia, encontrando aliados como o personagem de Rodrigo Santoro.

No nosso entendimento, esse filme fala essencialmente sobre sonhos, desejos, e quando isso nos é interditado. Ou seja, a pior das violências vem a ser a interdição dos sonhos, dos desejos.  E essa interdição pode ser tanto feita de fora - pelos outros, pela sociedade, pela cultura que nos quer "envelhecer" - como nós mesmos a fazemos conosco - e precisamos estar atentos e atentas a isso - pois se perdemos o desejar, o sonhar, perdemos a vida, envelhecemos no sentido péssimo da palavra. 

Da maneira oposta, não envelhecemos quando temos sonhos, desejos, dos mais miudinhos - tomar um sorvete - até os maiores - construir um mundo mais bonito, mais justo, mais equânime. Ai somos todas e todos pessoas dignas...

Abraços carinhosos,

Santuza TU 


quarta-feira, 10 de junho de 2026

CINECLUBE JUNHO: BRASIL E CUBA

 Ontem, dia 09 de junho 2026, nosso cineclube... no espaço do nosso partido, Av. Amazonas, centro de Belo Horizonte, espaço pequeno, para mais ou menos vinte pessoas, espaço aberto, suprapartidário. Ontem  já tivemos dez pessoas, metade do espaço já contemplado... Como diz uma amiga, quando oferecemos arte e cultura -  a oportunidade de bons debates e ampliação de visão de mundo - a frequência é "de grão em grão"... Mas 'arregaçamos as mangas' e vamos em frente...

Com presenças de amigos e amigas, pessoas novas que se encantam e abraçam a proposta, e isso também nos fortalece e nos envolve.

Já tínhamos planejado o  documentário CUBANAS - MULHERES EM REVOLUÇÃO. Disponível no YouTube, esse filme de Maria Torrellas  trata das mulheres cubanas que atuaram tanto na luta guerrilheira como com a chegada da Revolução até a atualidade. 

Pelo documentário desfilam testemunhos e vivências de heroínas como Vilma Espin, Celia Sánchez e Haydée Santamaria que foram fundamentais na Revolução. O documentário faz um percurso que chega até o presente  resgatando mulheres de diversas áreas e idades para colher seus testemunhos de vida e expor novamente quanto significou para elas se alimentarem dos valores criados a partir do final da década de 1950.

Assim surgem vozes e imagens de trabalhadoras, médicas, cientistas, artistas e militantes sociais e políticas . Através de todas elas vão surgindo temas históricos e atuais que vão desde a alfabetização nos anos 60 ao desenvolvimento da educação em todas as épocas, a tenaz resistência ao bloqueio, a solidariedade, a intensa batalha cultural e até o alvoroço das marchas LGBTI em defesa da diversidade sexual. 

"As mulheres, antes do triunfo da revolução, não tinham emprego, tinham que se prostituir para poder viver, e havia muitas analfabetas".

"Vivenciar o país, caminhar pelas ruas de Havana e outras cidades, conversar com o povo trazem uma convicção: Nesses 60 anos, a organização e a luta das mulheres cubanas é um dos pilares de resistência e continuidade da revolução"...

E por aí foram nossas reflexões...


Embora já tivéssemos planejado esse filme, a propósito do lançamento recente do streaming brasileiro TELA BRASIL - nossa NETFLIX, com mais de 500 filmes longas, médias e curtas - para abrir nosso evento levamos um curta de 1989 do diretor brasileiro Jorge Furtado. ILHA DAS FLORES, uma ácida
crítica à desigualdade social e à sociedade de consumo. O filme acompanha o ciclo de vida de um tomate - desde a plantação até ser descartado no lixo - para expor como pessoas em extrema pobreza sobrevivem catando restos de alimentos nos lixões. Como um soco no estômago, destaca uma realidade cruel: a falta de dinheiro e a lógica do sistema econômico fazem com que restos de comida rejeitados até para a alimentação de porcos acabam sendo o único sustento de famílias necessitadas. Enfim, o filme desconstrói o conceito de valor, mostrando como a ausência de recursos coloca os seres humanos em uma condição inferior à dos animais.

E o que nos surpreendeu é que esse curta está entre os 10 mais vistos! O mesmo pode ser assistido na Tela Brasil ou no YouTube, mas vale a pena se inscrever no nosso streaming e assistir grandes - e pequenos, e médios, sempre ótimos -  filmes brasileiros, que falam sobre nossa história, nossa cultura e nosso povo. 

Em seguida aos dois filmes, tivemos nossa roda de conversa, sempre com a metodologia - ou movimento - TAP Teoria Afeto Prática, que nos conduz a boas reflexões e propostas. Algumas pessoas que já estiveram em Cuba desde dez anos atrás até recentemente fizeram seus depoimentos e ligações com o filme, a invisibilidade das mulheres e a importância e valor desse protagonismo...

E 'puxamos' a reflexão para a educação como mola propulsora para o 'sermos sujeitos', protagonistas, exercermos a cidadania.

E 'concluimos' provisoriamente: o primeiro filme (Ilha das Flores) fala sobre o sistema capitalista, onde o dinheiro ganha vida, controla absolutamente tudo, e os seres humanos perdem a condição de sujeitos, se tornam objetos, abaixo do humano. E o socialismo, como tudo no humano, não pronto e acabado mas sempre em movimento... no sentido da construção de um mundo mais equânime, mais justo, mais distributivo. Concluimos ainda: a ignorância é um "projeto político", uma estratégica de dominação. Por que nos mantém alienados... a ignorância sobre nossa história, sobre nossa identidade (quem somos nós), sobre nossos direitos. A ignorância provoca, entre outras coisas, o individualismo, o imediatismo, a falta da consciência de classe.

E para falamos um pouco mais sobre o movimento de "ir saindo" da ignorância, nos conhecendo, nos apropriando da nossa história e agindo no sentido da construção de nossa identidade, nossa proposta para próximo sarau, julho, vem a ser um filme sobre a história do Brasil antes de 1.500, pois o Brasil, definitivamente, não foi 'descoberto', essa nossa terra e nosso povo já existiam de forma muito rica. Foi, sim, colonizado - nossos corpos e cabeças (espíritos) - a partir de 1.500. 

Então... vamos?

Abraços carinhosos a todas as pessoas que compartilham das nossas reflexões, virtual e presencialmente.

Santuza TU

sexta-feira, 5 de junho de 2026

SARAU NOSSAS MULHERES JUNHO 2026

 

Dia 4, primeira quinta de junho, no nosso querido Andu de Dois. Obrigada Hernane, Ana, Peixe, Kelly, Vitória...


Assim começou nosso sarau. 

Ausências sentidas... presenças valorizadas... como de praxe, o hino do SBC, a apresentação do nosso coletivo (aberto, inclusivo, anárquico, democrático, ecológico, intergeracional... e feminista ... não necessariamente nessa ordem) e dos nossos valores fundamentais (o riso, as amizades e o sentido estético). 

E apresentação das Cachorras, especialmente nossas queridas Cida e Dirce, convidadas especiais, que abrilhantaram nosso sarau. 

Cida nos apresentou As Cachorras (todas nós), falou sobre a Lagoinha e nos apresentou sua personagem GENI. Vejam o vídeo e deem o "joinha". 



Dirce, junto com alguns poemas lindos, falou sobre o processo de gentrificação. Já tínhamos pesquisado anteriormente e a sua fala parece com o artigo a seguir, publicado em 2021 na Revista PUC Minas

O processo de gentrificação em dois bairros de Belo Horizonte – Observatório das Metrópoles https://share.google/9FTYGAdxIyIlIkpbF
(um resumo do artigo, recomendamos a leitura de todo ele)

Via Revista PUC Minas
Por Lívia Arcanjo

Imagine um bairro periférico ou, até mesmo, central, porém desvalorizado e habitado por pessoas de baixa renda. Agora imagine que, por algum motivo, pessoas com poder aquisitivo elevado passem a se mudar para essa região. Com a chegada de uma classe mais favorecida economicamente, esse bairro começa, pouco a pouco, a atrair comércio, infraestrutura, investimento e desenvolvimento, proporcionando uma transformação do espaço com diversos benefícios que antes não existiam ali. De repente, esse bairro já não tem mais as características de um espaço popular, mas, sim, um bairro nobre. Com toda a alteração na paisagem urbana, muda-se também o custo de vida na região. Esse novo orçamento é condizente com o padrão de vida desses novos moradores, mas, os antigos já não conseguem mais se sustentar ali. Com renda incompatível com o custo de viver naquela região, a solução é se mudar. Você está diante de um fenômeno sócio espacial chamado gentrificação.

A palavra vem da expressão inglesa gentrification, que, por sua vez, vem de gentry, que quer dizer nobreza. Gentrificação, portanto, pode ser definido como enobrecimento do espaço: um conjunto de transformações que ocorre, com ou sem intervenção governamental, e provoca o êxodo da população local por fatores socioeconômicos. A expressão foi utilizada pela primeira vez na década de 1960, pela socióloga britânica Ruth Glass, ao analisar as transformações imobiliárias em determinados distritos londrinos, quando pessoas de status mais elevados começaram a se mudar para locais onde antes só moravam trabalhadores. Esse processo elevou o preço imobiliário do local e acabou expulsando os antigos moradores: a classe operária.

Esse fenômeno, no entanto, não é exclusivo de Londres e nem das capitais europeias. O conceito foi ganhando em cada local significados e aplicações diferentes, e acontece no mundo todo, inclusive no Brasil. 

Há, no entanto, um bairro tradicional que resiste a essa tendência: o Santa Tereza. Reduto do Clube da Esquina e da boemia, o local é considerado o berço cultural da capital mineira e carrega em suas ruas e praças o tradicionalismo e o saudosismo de uma Belo Horizonte cantada por Milton Nascimento, Lô Borges e Flávio Venturini. O charmoso bairro da zona Leste resiste ao crescimento imobiliário – e, consequentemente, à gentrificação – sofrido pelos demais bairros centrais e/ou nobres da cidade.

Em Santa Tereza, o processo de gentrificação foi barrado, muito em parte, pela mobilização dos moradores, que pressionaram o poder público para a proteção do bairro, o que resultou na aprovação como Área de Diretrizes Especiais (ADE), em 1996, e, em 2015, no processo de Tombamento pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte de cerca de 300 imóveis entre casas, igrejas, praças e estabelecimentos, o que rendeu ao bairro o título de patrimônio da cidade, e que impõe diversas restrições para evitar a verticalização do espaço e descaracterização da região. “Essas políticas conseguiram fazer com que o bairro se mantivesse como ele é. É emblemático porque a população se organizou para que o bairro não fosse transformado. E aí conseguiram barrar essa entrada do capital imobiliário”, afirma Luciana. A socióloga também pontua que não foi observada mudança significativa nem de entrada de grupos com maior status e nem expulsão de grupos de menor status. “Quem entra tem o status muito parecido com o status das pessoas que predominam lá. Então, não pode falar que houve processo de gentrificação”, conclui.

Luciana Andrade observa que a história de Belo Horizonte é marcada pela segregação sócio espacial, com a expulsão da população com menores recursos para regiões cada vez mais longínquas. Essa é uma característica do desenvolvimento das cidades latino-americanas que, de modo geral, se baseiam no modelo centro-periferia de segregação sócio espacial. A socióloga observa, porém, que essa mobilidade forçada rompe com elos sociais e espaciais e, consequentemente, com parte da memória afetiva das pessoas. “É um processo perverso que priva um grupo, à medida em que ele tem que sair de onde residia, de toda uma vida social construída naquele lugar. Vida que é feita de relações de vizinhança, de apropriação do espaço, ou seja, de parte da identidade que construímos com a nossa cidade”, pontua. Ela também critica os discursos contrários, que argumentam que as políticas anti gentrificadoras congelam a cidade. “Não se trata disso. A cidade é obviamente algo em constante transformação. O problema é quando essa transformação tem como objetivo o lucro de alguns, os empreendedores imobiliários, e o bem-estar de outros, os novos moradores, em prejuízo dos menos favorecidos economicamente”, analisa.

Embora a gentrificação seja, conceitualmente, um processo residencial, esse fenômeno afeta outros aspectos, como o comercial, já que interfere na economia local, e nos usos dos espaços públicos que, por definição, são espaços abertos a todos. Luciana ressalta, porém, que na prática essa abertura não se efetiva. “Essas ocupações têm relação direta com o poder de certos grupos, mas também com determinadas políticas públicas que não levam em conta os hábitos e costumes de um grupo social. Por isso sempre falamos que o espaço público é um lugar de conflitos e de poder. Se um grupo passa a predominar em um espaço ele pode gerar constrangimentos para as práticas e usos de outros grupos, assim como pode exigir do poder público medidas gentrificadoras do espaço público, proibindo ou dificultando certos usos que têm relação com o outro grupo”, explica.

Entendemos então que, com a fala de 'revitalização' do bairro ou da região,  como o que acontece atualmente com o Projeto de Lei 574 de 2025, aprovado em primeiro turno pela Câmara Municipal - que propõe incentivos à construção civil para 'dinamizar' a região - no fundo trata-se da permissão para a construção de edifícios altos para uma classe média, com a 'expulsão' das pessoas que moram na região. Como aconteceu há pouco mais de cem anos, na construção da cidade de Belo Horizonte, planejada "dentro" da av. do Contorno. Os moradores do 'em torno', que trouxeram as pedras para a construção dos edifícios estilo francês da época, foram em seguida expulsos para fora da contorno - Santa Tereza, Lagoinha, Serra, entre outros bairros. Este é o sistema cruel e excludente que vivemos, que também nos faz acreditar que "direitos são dados e que não precisamos lutar por eles", ou seja, alimentam nossa passividade e alienação. E é sobre combatermos essa alienação e lutarmos por nossos direitos que falamos... e nos juntamos para essa luta.


E se falamos em luta, não tinha pessoa melhor, para nossa homenageada, do que a maravilhosa Elza Soares. Apresentada lindamente pela querida Juliana que nos distribui alfinetes, simbolizando "nos juntar"... Elza era muito magra e não tinha dinheiro para comprar roupas para usar nos shows, então ela usava alfinete para prender e ajustar a roupa no corpo.




Palco aberto, mais apresentações maravilhosas, querida Deyse fazendo paralelo da 'ocupação' da Lagoinha com a questão territorial de Palmares, símbolo da resistência negra à escravidão.


E a participação da nossa querida Professora Das Dores, com seu poema Pássaro Amarelo.



E assim nos despedimos... ainda, ganhando mudas de presente das Cachorras, que também administram o coletivo HORTELÕES DA LAGOINHA, busquem no instagram. 


O SBC agradece as lindas cachorras... e até nosso próximo sarau, primeira quinta de julho.
Abraços carinhosos,
Santuza TU


A seguir mais fotos gentilmente feitas pela querida Deyse e por mim: