Fizemos nosso cineclube na terça passada, dia 12.maio, com o filme CABRA MARCADO PARA MORRER. Bastante impactante. Na verdade são dois filmes, o primeiro deles em preto e branco, de 1964, foram resgatados pequenos trechos desse filme. E em 84, o diretor Eduardo Coutinho retoma o documentário, incluindo aqueles trechos de 64.
O filme é sobre a vida de João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba, assassinado em 62.
Em razão do golpe militar, as filmagens foram interrompidas em 64. O engenho da cidade de Galileia foi cercado por forças policiais. Parte da equipe foi presa sob a alegação de "comunismo", e o restante dispersou-se.
O trabalho foi retomado 17 anos depois, recolhendo-se depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens e também da viúva de João Pedro, Elizabeth Altino Teixeira, que desde dezembro de 1964 vivera na clandestinidade, separada dos filhos. Reconstruiu-se assim a história de João Pedro e das Ligas camponesas de Galiléia e de Sapê. Ou seja, Vinte anos depois foram reunidos os mesmos técnicos, locais e personagens reais para contar - ou recontar - esta história.
Na conversa sobre o filme, coisas que nos afetaram:
. Galiléia, o nome da cidade! e os filhos do João Pedro e da Elizabeth, são nomes bíblicos. Isso chamou muito a atenção da nossa participante que conhece muitíssimo sobre a Palestina, sua história e a situação atual dessa região tão "cruelmente disseminada";
. A história do Brasil na década de 60: João Goulart, Presidente no início dessa década, falava sobre a reforma agrária. Foi deposto por golpe militar em 64. Ainda hoje pouco se fala sobre reforma agrária no Brasil.
. Por último, não menos importante, as 'mulheres invisibilidadas', quase sempre, quase todas nós... No caso A Elizabeth Teixeira, que já foi nossa homenageada no sarau NOSSAS MULHERES. Mulheres brasileiras, conhecemos tão pouco, como construímos nossa identidade, 'quem somos nós', se não nos conhecermos e, por consequência, nos admirarmos?
Elizabeth Altino Teixeira nasceu em Sapé em 13 de fevereiro de 1925, está agora com 101 anos.
Enfrentou a família de pequenos proprietários ao se casar com João Pedro Teixeira, trabalhador sem terra e negro. Ao lado dele, militou nas Ligas Camponesas na Paraíba. Em 1962, após o assassinato do companheiro, assumiu a liderança da organização no município de Sapé. Em diversas ocasiões foi presa. Numa de suas voltas para casa, descobriu que a filha mais velha, Marluce, havia cometido suicídio, acreditando que a mãe havia sofrido o mesmo destino que o pai. Com o golpe militar de 1964, teve que passar para a clandestinidade, adotando o nome de Marta Maria Costa e se refugiou em São Rafael (Rio Grande do Norte), com o filho Carlos.
Permaneceu clandestina até 1981, quando foi encontrada pelo cineasta Eduardo Coutinho, que retomou as filmagens de seu documentário Cabra Marcado para Morrer. Foi morar em João Pessoa, numa casa que ganhou de Coutinho.
Foi homenageada com o Diploma Bertha Lutz e a Medalha Epitácio Pessoa.
A casa onde viveu com João Pedro, em Sapé, foi tombada e destinada a abrigar o Memorial das Ligas Camponesas, em 2011.
E assim terminamos nosso encontro, já pedindo licença para, no nosso próximo cineclube, exibir um filme sobre mulheres cubanas... e aprender com elas o valor do coletivo ... e da luta por direitos e por igualdade.
Muitíssimo bem recebido pelo querido Peixe (sobrenome Frito... já eleito nosso DJ) e querida Vitória, que nos ajudaram a colocar nossos varais de mulheres maravilhosas, inclusive nós... E o estandarte NOSSAS MULHERES ficou na porta, recebendo as pessoas... foi lindo...
Começamos pedindo licença para apresentar uma música que não é de mulher brasileira, pois o sarau NOSSAS MULHERES seria somente de mulheres brasileiras. Porém a Nina Simone merece estar entre nós com a música Ain't Got No, I Got Life. Trata-se de um hino de resiliência que contrasta a falta de bons materiais com a celebração da vida e da liberdade. Essa música de 1968, celebra a identidade e a força interior. E é a música de HAIR, musical que todas as pessoas dessa época assistiram - e se inspiraram - pelo menos as de espírito transgressor.
Eu Não Tenho / Eu Tenho Vida
Não tenho casa, não tenho sapatos Ain't got no home, ain't got no shoes
Não tenho dinheiro, não tenho classe Ain't got no money, ain't got no class
Não tenho saias, não tenho casacos Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Não tenho perfume, não tenho amor Ain't got no perfume, ain't got no love
Não tenho fé Ain't got no faith
Não tenho cultura Ain't got no culture
Não tenho mãe, não tenho pai Ain't got no mother, ain't got no father
Não tenho irmão, não tenho filhos Ain't got no brother, ain't got no children
Não tenho tias, não tenho tios Ain't got no aunts, ain't got no uncles
Não tenho amor, não tenho importância Ain't got no love, ain't got no mind
Não tenho país, não tenho escolaridade Ain't got no country, ain't got no schooling
Não tenho amigos, não tenho nada Ain't got no friends, ain't got no nothing
Não tenho água, não tenho ar Ain't got no water, ain't got no air
Não tenho cigarros, não tenho um franguinho Ain't got no smokes, ain't got no chicken
Eu não tenho Ain't got no
Não tenho água Ain't got no water
Não tenho amor Ain't got no love
Não tenho ar Ain't got no air
Não tenho Deus Ain't got no God
Não tenho vinho Ain't got no wine
Não tenho dinheiro Ain't got no money
Não tenho fé Ain't got no faith
Não tenho Deus Ain't got no God
Não tenho amor Ain't got no love
Então o que eu tenho? Then what have I got
Por que mesmo eu estou viva? Why am I alive anyway?
Sim, inferno Yeah, hell
O que eu tenho What have I got
Ninguém pode tirar de mim Nobody can take away
Tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça I got my hair, got my head
Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas Got my brains, got my ears
Tenho meus olhos, tenho meu nariz Got my eyes, got my nose
Tenho minha boca Got my mouth
Eu tenho I got my
Eu tenho a mim mesma I got myself
Tenho meus braços, minhas mãos I got my arms, got my hands
Tenho meus dedos, tenho minhas pernas Got my fingers, got my legs
Tenho meus pés, tenho dedos nos pés Got my feet, got my toes
Tenho meu fígado Got my liver
Tenho meu sangue Got my blood
Eu tenho uma vida I've got life
Eu tenho vidas! I've got lives
Tenho dores de cabeça, e de dente I've got headaches, and toothaches
E tenho horas ruins, assim como você And bad times too like you
Tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça I got my hair, got my head
Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas Got my brains, got my ears
Tenho meus olhos, tenho meu nariz Got my eyes, got my nose
Tenho minha boca Got my mouth
Eu tenho o meu sorriso I got my smile
Eu tenho a minha língua, meu queixo I got my tongue, got my chin
Meu pescoço e meus seios Got my neck, got my boobs
Meu coração, minha alma Got my heart, got my soul
E minhas costas Got my back
Tenho meu sexo I got my sex
Tenho meus braços, minhas mãos I got my arms, got my hands
Meus dedos, minhas pernas Got my fingers, got my legs
Tenho meus pés, tenho dedos nos pés Got my feet, got my toes
Tenho meu fígado Got my liver
Tenho o meu sangue Got my blood
Eu tenho vida I've got life
Eu tenho minha liberdade I've got my freedom
Ohhh Ohhh
Eu tenho a vida! I've got life!
E nossa querida Antonieta, organizadora deste sarau junto com a querida Luciana, apresentou a convidada especial desse evento, grande Edvalda. Ela falou de si mesma, da sua vida, da sua luta, da sua caminhada... E lembramos - e cantamos - Geraldo Vandré
Chegou a vez da nossa querida Luciana.
E ela apresentou a Dalva Maria Soares:
Mineira de Baldim, Doutora em antropologia social, pela UFSC, é autora de 'para diminuir a
febre de sentir('2020), 'do menino' ( 2021), 'Me ajuda a olhar' ( 2023) e 'tempo das águas' ( 2025), todos pela editora
Popular. E por que ela escreve?
ESCREVO PARA RESPIRAR MELHOR
Acima um pedacinho da crônica A JANTA ESTÁ PRONTA, do livro PARA DIMINUIR A FEBRE DE SENTIR. Dalva fala das pequenas
narrativas do cotidiano, as crônicas, presentes em "Para diminuir a febre
de sentir", primeiro livro publicado pela autora. Os temas abordados são
família, amizade, sororidade, mulheres que inspiram sua escrita, vida no
interior, e muito mais.
Dalva diz: "Virginia Woolf escreveu um teto todo seu, onde
ela fala: "Uma mulher precisa de um teto todo seu e quinhentas livras para
escrever ficção". Mas Anzaldua fala o contrario, esqueça o quarto só pra si, escreva no
banheiro, escreve enquanto você lava roupa, escreve enquanto lava a casa, sinta
as palavras ecoando no seu corpo”. Virginia Woolf tem razão. Mas lembro que meu
lugar social, que minha historia está muito mais próximo de uma Anzaldua, de
uma Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, do que de uma mulher branca,
britânica, europeia."
Teve mais Dalva, só quem estava lá pôde assistir... e terminamos Dalva com Emicida e Vanessa da Mata, pois toda a escrita da Dalva é sobre família, particularmente MÃE... e estamos perto do dia das mães, não é? Já começamos nossas homenagens...
Não me lembro a ordem das homenageadas, portanto vou citar agora a grande Conceição Evaristo. Nossa querida Lu (ou teria sido Antonieta😕😏) falou muito bem dessa mineira maravilhosa. Aqui um resumo
E, segundo opiniões do SBC, o mais bonito poema da Conceição foi interpretado pelas queridas Ana e Angela, mais novas SBCenses, pois como falamos nossa seleção para ser incluída no SBC é "quando o olho brilha".
Ana Luiza Apgaua, grande escritora, levou um livro seu para sorteio. Obrigada pela presença, querida!
Angela Maria, grande artista, estará no Teatro Marília no dia 13 de maio próximo das 15 as 17h com a peça RUA DO POVO DA RUA. Sigam @companhiadeteatrobh
E nossa ultima homenageada, Cristiane Sobral...
é uma multiartista, atriz, escritora, dramaturga e poeta brasileira.
Estudou teatro no SESC do Rio de Janeiro, em 1989. Um ano depois chega a Brasília e começa a atuar em grupos de teatro no ambiente estudantil e monta a peça Acorda Brasil. Foi a primeira atriz negra graduada em Interpretação Teatral pela Universidade de Brasília. Atuou no curta A dança da Espera, e em diversos espetáculos teatrais; Protagonizou e concebeu os espetáculos: Uma Boneca no Lixo, premiado em 1999 pelo Governo do Distrito Federal e dirigido por Hugo Rodas; Dra. Sida, premiada pelo Ministério da Saúde em 2000 e no I, II e III Ciclo de Dramaturgia Negra realizado em Brasília e Porto Alegre.
Estreou na literatura em 2000, publicando textos nos Cadernos Negros; e Cadernos Negros “Black Notebooks”, edição bilíngue com volumes em prosa e poesia editados nos Estados Unidos. A seguir, participa da antologia crítica Literatura e afrodescendência no Brasil (2011), ao lado de 99 outras autoras e autores negros brasileiros dos séculos XVIII, XIX, XX e XXI. Por fim, em 2018, integra a coletânea Encontros com a poesia do mundo. Foi crítica teatral da revista Tablado, de Brasília. Mestre em Artes (UnB) com pesquisa sobre as estéticas nos teatros negros brasileiros e ênfase no ensino de artes. Membro da Academia de Letras do Brasil seção DF onde ocupa a cadeira 34 e do Sindicato dos Escritores do DF.
Em 2010, lança sua primeira publicação individual, Não vou mais lavar os pratos. Seu segundo livro – Espelhos, miradouros, dialéticas da percepção, de 2014, apresenta narrativas curtas voltadas para os dramas cotidianos da juventude negra e periférica. Em 2014, a autora publica Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, em que retoma seu projeto de uma poesia afro-brasileira empenhada em tocar nas mazelas do racismo estrutural presente entre nós. Em 2016, retoma sua veia narrativa com os contos de O tapete voador, para, no ano seguinte, brindar seus leitores com mais um volume de poesia – Terra negra. Este último tem destacada sua "cadência cênica" pela prefaciadora Elisa Lucinda, para quem "tem cor esse livro, tem batuque na elegância rítmica deste falar."
Temas da sua escrita: Os modos de ser e de viver da população negra, suas tradições, sua subjetividade, a sexualidade, o erotismo, a relação com as religiões de matriz africanae afro-brasileiras. O homem, a mulher, a infância, a maternidade, os paradoxos sociais, as possibilidades de ruptura de padrões e modelos estabelecidos, o corpo negro.
"Para pensar sobre o corpo negro, é preciso se lembrar dos corpos não negros. De que corpo negro estamos falando? O corpo negro surge como uma criação do colonizador, é um corpo desumano, desprovido de alma. Ora, o corpo é uma manifestação da consciência, não existe fora das relações com outros corpos. Um corpo se cria a partir da construção do outro, do que significa para o outro. A cultura patrimonial brasileira decreta que negros não têm a posse dos seus corpos, podem ser violentados, explorados, subalternizados. As relações sociais e a visão que o homem e a mulher negra têm de si mesmo nascem contaminadas por essa genética social.".
Foi a última homenageada da programação. Mas já no PALCO ABERTO pedi licença para apresentar uma outra mulher negra maravilhosa, que acabei de conhecer:
Luiza Mahin
Africana guerreira, teve importante papel na Revolta dos Malês, na Bahia. Além de sua herança de luta, deixou-nos seu filho, Luiz Gama, poeta e abolicionista. Pertencia à etnia jeje, sendo transportada para o Brasil, como escrava. Outros se referem a ela como sendo natural da Bahia e tendo nascido livre por volta de 1812. Em 1830 deu à luz um filho que mais tarde se tornaria poeta e abolicionista. O pai de Luiz Gama era português e vendeu o próprio filho, por dívida, aos 10 anos de idade, a um traficante de escravos, que levou para Santos.
Luiza Mahin foi uma mulher inteligente e rebelde. Sua casa tornou-se quartel general das principais revoltas negras que ocorreram em Salvador em meados do século XIX. Participou da Grande Insurreição, a Revolta dos Malês, última grande revolta de escravos ocorrida na Capital baiana em 1835. Luiza conseguiu escapar da violenta repressão desencadeada pelo Governo da Província e partiu para o Rio de Janeiro, onde também parece ter participado de outras rebeliões negras, sendo por isso presa e, possivelmente, deportada para a África. Luiz Gama escreveu sobre sua mãe: “Sou filho natural de uma negra africana, livre da nação nagô, de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa, magra, bonita, a cor de um preto retinto, sem lustro, os dentes eram alvíssimos, como a neve. Altiva, generosa, sofrida e vingativa. Era quitandeira e laboriosa”.
E continuou o PALCO ABERTO, com poemas da nossa querida Ana - Ana Luiza Apgaua, mais homenagens à nossa convidada especial, que transbordava alegria, obrigada querida Edvalda... e muita coisa mais. Além de ótimas conversas, tudo que o SBC adora... terminamos com o Peixe e nossos agradecimentos aos queridos Ernane e Clara, que não puderam estar presentes - quinto mês de gravidez, uma menina!!!
Nosso próximo sarau já marcado no Andu, dia 4 de junho, feriado Corpus Christi, conversaremos sobre a nossa cidade e suas mulheres, o processo de gentrificação - . sabem de que se trata? - nos bairros, especialmente a região da Lagoinha ... e também em Santa Tereza.
Até lá, abraços carinhosos às pessoas que nos seguem
Santuza TU
Depois de pronto nosso post recebemos dois vídeos do sarau. Vale a pena vê-los, apesar de serem bastante amadores mostram a essência do SBC, ou seja, anárquico... aberto, inclusivo, democrático, ecológico, intergeracional... e feminista...
Finalmente... estreia do nosso cine clube, como parte do projeto CLUBE DE CULTURA: CINEMA E LITERATURA. Era pra ter acontecido na primeira terça feira do mês passado... Porém, problemas técnicos de última hora nos impediram essa estreia. Então praticamos a máxima de Ho Chi Min : "quando quero muito alguma coisa, treino a paciência, ando bem devagar... pra dar certo".
E aconteceu... Como sempre, de uma maneira potente, cheia de energia boa... na sede do nosso querido partido PCdoB em Belo Horizonte, com o filme ELES NÃO USAM BLACK TIE, do diretor Leon Hirsman, cujo nome é emprestado para o nosso Cine Clube.
Eles Não Usam Black-tie acompanha um jovem operário e sua namorada que decidem se casar diante de uma gravidez inesperada, mas veem sua vida transformada quando uma greve divide a categoria e coloca pai e filho em lados opostos. Ambientado no período de transição pós-ditadura, o filme mescla drama familiar e questões sociais, com atuações marcantes e visão crítica da sociedade brasileira, sendo considerado um dos grandes clássicos do cinema nacional.
Fizemos um pequeno vídeo do nosso encontro, link acima, está no nosso instagram @coletivo cultural PCdoB, aproveita e entra lá no insta e segue a gente:
E, depois do filme, recorri ao grande Lênin:
Ampliando a conexão entre teoria e prática, para que não seja uma teoria ou prática alienadas e nem cegas, temos o AFETO, sermos afetados(as). Ou seja, a teoria, tudo que já foi um processo de reflexão de alguém - no caso, o filme - nos provoca reflexões, passa por dentro de nós - SOMOS AFETAD@S PELA TEORIA ... e compartilharmos essas reflexões, produzindo novas teorias, novos conhecimentos, novas visões da realidade. Esse é o movimento de nos tornarmos SUJEITOS CRÍTICOS... e atuantes enquanto transformadores do mundo, desde o micro até o macro.
E foi com essa provocação, 'de que maneira fomos afetados(as) pelo filme', que fizemos uma rodada e trocamos experiências e reflexões potentes sobre o Brasil daquela época do filme e o Brasil agora... nos emocionamos e nos recarregamos de energia e esperança para a luta a fim de sermos sujeitos na construção de um Brasil melhor, mais justo e mais bonito.
Enfim, a metáfora do final do filme, muito forte: o casal "catando feijão"... separando o feijão das pedras e sujeiras que veem junto...
O filme completo está no YouTube, vale a pena assistir.
E já temos nossa programação para a primeira semana de maio, dia 5, 18.30 horas... todas e todos convidadíssimos(as), já podem espalhar o card:
Até lá, abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham,
Uma vez ouvi de uma amiga uma definição de sorte: "... vem a ser a capacidade de 'ver'' e de 'agarrar' as oportunidades que aparecem". Pois no SBC estamos sempre praticando esse "exercício de sorte".
Assim como, também, praticamos o exercício aprendido na infância, em Salinas, o de "um gambá cheira outro", ou seja, além de 'ver' e 'agarrar', também 'cheiramos' as pessoas que, potencialmente, são SBCenses. E quase sempre acertamos, escolhemos aquelas pessoas que, num primeiro encontro, já se identificam com nossos conceitos de vida, de amizade, de sentido estético.
Pois foi isso que aconteceu com a nossa querida Marli, convidada especial do sarau SBCence NOSSAS MULHERES de ontem, 2 de abril.
Depois da nossa abertura, apresentando o SBC, nossos conceitos, e o Projeto Nossas Mulheres (reparem como está lindo o Bar Taboca, todo decorado com imagens de mulheres maravilhosas, brasileiras), apresentamos nossa querida Marli:
Marli Fróes é poeta e ensaísta, nascida em Montes Claros (MG), e reside em
Diamantina há seis anos. É autora do livro de poesias Carnaverbo, obra
indicada no processo seletivo do Programa de Mestrado em Literatura da
Universidade Estadual de Montes Claros (2025–2026). Autora dos livros
Fendas (no prelo) e o livro ensaístico A autoria, a paixão e o humano em
Clarice Lispector (no prelo). Graduada em Letras, pela Universidade Estadual
de Montes Claros, Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Federal
de Uberlândia, Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de
Juiz de Fora. Marli Fróes ocupa a cadeira 30 da Academia de letras do Vale
Jequitinhonha (ALVA), desenvolve projeto “Mosaico Literário” e Clube de
Leitura, junto ao IFNMG e UFVJM, sob coordenação do Professor Ulisses
Barros de Abreu Maia. Atuou no Projeto “Sarau do Quintal” por 6 anos, na
cidade de Januária-MG.
Participou de diversas antologias em todo o país, além de publicar textos em
revistas, jornais e blogs literários. É coorganizadora das coletâneas Poetas de
uma só língua e Antologia Psiu Poético, ambas pela Editora Catrumano.
Durante a pandemia, atuou por dois anos, em parceria com poetas
brasilienses, na realização do programa de entrevistas e debates literários Os
Três Mal-Amados, transmitido por plataforma de streaming. O projeto teve
como objetivo promover conversas sobre literatura, dar visibilidade a autores
independentes e fomentar o diálogo entre escritores contemporâneos e nomes
do cânone.
É professora do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais - IFNMG – Campus
Diamantina, onde desenvolve trabalho com letramento literário, por meio do
Projeto Ciranda Literária e se dedica à valorização da literatura do Vale do
Jequitinhonha em suas práticas pedagógicas.
Integra a primeira geração do Psiu Poético, Festival de Arte contemporânea do
qual participa desde a década de 1980 e que, em 2026, celebra 40 anos como
um dos mais importantes eventos literários do país. Foi poeta homenageada
pelo festival em 2008 e também pelo Festival Internacional de Poesia de São
Paulo (Sampoesia), em 2010.
Em 2025, participou da antologia comemorativa Constelação Haroldo de
Campos, publicada pela Editora Território das Artes, e integra a Antologia
crítica Novas vozes da poesia brasileira, pela Editora Arribaçã, dentre outras
participações em Antologias.
A seguir um dos poemas dessa linda:
Tecido único
O tempo é o agora
instante-já,
em ciranda
com o barro primeiro,
cantando para o tempo futuro.
Seres do tempo
e da comunhão
é lição da terra.
Micélios,
entes mais antigos
Fios longos, matéria tridimensional.
que nos assentam nesse planeta.
Na sua subterrânea rede comunicativa,
nutrientes, vida e reino.
Rede florestal
veio antes da rede social.
O micélio liga uma árvore à outra
há uma inteligência vegetal nesses elos...
Já as mulheres
sabem cirandar
à beira do rio
ou da fogueira.
Nas rodas,
repetem gestos antigos
fiam, costuram,
tecem, entrelaçam fios
curam filhos.
As células das mães
no corpo dos filhos...
As células dos filhos
no corpo das mães...
Vínculo que atravessa o tempo
Memória, origem
continuidade
do tecido da vida
modo materno
de nunca morrer.
Vida que se multiplica
nos elos visíveis
ou intangíveis,
feito o vento
que carrega sementes,
abelha que poliniza,
correntes marítimas
que ligam continentes,
fotografias que unem tempos,
trilhos de trens e estradas
ligando destinos
a palavra primeira
o código inicial
ecoando nos tempos
DNA atravessando gerações
Somos seres da ressonância,
quando meu peito vibra
- no outro-
em todo elo
que não seja prisão
Depois de outros poemas dela, declamados por ela mesma e outras de nós, passamos à apresentação das nossas homenageadas.
E invertemos, anarquicamente, a ordem do card convite, começando com a nossa querida Antonieta Shirlene apresentando Elizabeth Teixeira a partir de um posicionamento histórico perfeito, elaborado por essa bela historiadora Antonieta. Vale a pena ver o vídeo.
Aqui só um pequeno trecho da sua pesquisa:
E Antonieta usou, na sua apresentação, a música maravilhosa do Gonzaguinha, na interpretação da grande Elza Soares, aliás uma das mulheres maravilhosas do nosso varal. Todas e todos nós cantamos junt@s...
Cantamos também, entre as apresentações, junto com Maria Betânia, Chico Chico, Chico Science, Marina Sena, uma seleção musical da nossa querida convidada Marli.
Depois a nossa querida Iza apresentou Hilda Hilst (1930-2004):
"Foi uma das vozes mais radicais e geniais da literatura brasileira. Abandonou uma vida badalada em São Paulo para viver isolada na "Casa do Sol", em Campinas, onde se dedicou à escrita intensa, pesquisou vozes de mortos (transcomunicação) e acolheu diversos artistas, deixando uma obra marcada pelo erotismo, misticismo e existencialismo.
Curiosidades marcantes sobre Hilda:
. Namoro com Dean Martin: em 1957, durante uma viagem pela Europa, Hilda namorou o ator e cantor americano Dean Martin;
. Tentativa de seduzir Marlon Brando: ainda na mesma época tentou se passar por jornalista para assediar o famoso ator Marlon Brando, sem sucesso;
. Caçadora de fantasmas: fascinada pelo ocultismo, Hilda praticou a transcomunicação instrumental entre 1974 e 1979 na Casa do Sol. Ela gravava rádio e televisão buscando vozes do além, chegando a tentar contatar a amiga Clarice Lispector, falecida em 1977;
. Abandono do sucesso: Formada em Direito pela USP, vivia uma vida social intensa, e decidiu, em 1965, largar tudo para se dedicar inteiramente à literatura;
. Rejeição ao termo "POETISA": Hilda não gostava de ser chamada de "poetisa", porque acreditava que o termo diminuía o trabalho, das mulheres;
. Casa do Sol: sua casa no interior de São Paulo tornou-se um refúgio para artistas, amigos e intelectuais, transformando-se hoje no Instituto Hilda Hilst (IHH);
. Amizade com Caio Fernando Abreu: Hilda desenvolveu uma grande amizade com o escritor , que foi um dos muitos artistas que frequentaram seu refígio;
. Reconhecimento tardio (e erótico): apesar de ser uma das maiores escritoras do século XX, Hilda sentia-se pouco lida, Frustrada, passou um tempo escrevendo literatura erótica e pornográfica para tentar vender mais, declarando na época: "A obscenidade me parece mais pura do que essa hipocrisia de escrever coisas bonitinhas";
. "Guerra de meleca": apesar de densidade de sua obra, amigos relatam que Hilda era uma pessoa leve e brincalhona, gostando de fazer guerra de comida ("guerra de meleca") com os visitantes na Casa do Sol;
. Fumante inveterada: Hilda fumava cerca de três maços de cigarro por dia, o que influenciou os problemas de saúde que levaram à sua morte em 2004, incluindo um câncer de pulmão.
E Iza interpretou o belíssimo poema da Hilda:
Marli aproveitou para indicar um livro super atual dessa autora, que trata de prostituição infantil:
Em seguida apresentei minha pesquisa sobre nossa terceira (que era a primeira) homenageada:
Lygia Fagundes da Silva Telles nasceu em São Paulo em 19 de abril de 1918 e
morreu em 3 de abril de 2022, aos 103 anos, de causas naturais.
Conhecida como "a dama da literatura brasileira” e "a maior escritora brasileira",
enquanto viva, além de advogada, romancista e contista. Lygia teve grande
representação no pós-modernismo, e suas obras retratavam temas clássicos e
universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.
A obra lygiana constitui-se de quatro romances, 20 livros de contos, algumas
crônicas, participações em antologias e coletâneas. Com publicações de sucesso
no exterior, teve seus livros lançados em diversos países: Portugal, França, Estados
Unidos, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, Espanha e República Checa, entre
outros, com obras adaptadas para a televisão, teatro e cinema.
Sua estreia literária foi com o livro de contos Porão e Sobrado (1938), o qual foi bem
recebido pela crítica; o sucesso se repetiu com Praia Viva (1944). Seu primeiro
romance, Ciranda de Pedra, publicado em 1954, foi bem recebido pela crítica e público,
tornando-a nacionalmente conhecida. Em paralelo à carreira literária, ela trabalhou
como Procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, cargo que
exerceu até a aposentadoria, e foi presidente da Cinemateca Brasileira, fundada pelo
segundo marido Paulo Emílio. Sim, ela se casou duas vezes, a segunda nos anos 60,
quando não havia divórcio e era um escândalo mulher separada.
A década de 1970 foi de suma importância para Lygia e marcou seu êxito literário e
consagração internacional, dado que foi naquele período em que ela publicou algumas
de suas obras mais aclamadas e prestigiadas: ‘Antes do Baile Verde’ (1970), cujo conto
que dá título ao livro venceu o Grande Prêmio no Concurso Internacional de Escritoras,
na França; As Meninas (1973), que ganhou o Prêmio Jabuti, entre outros; e Seminário
dos Ratos (1977),
Ela tomou posse na Academia Brasileira de Letras em 12 de maio de 1987. Naquele
mesmo ano, tornou-se membro da Academia das Ciências de Lisboa.
Quarta filha de Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, conhecida como Zazita,
uma pianista, e Durval de Azevedo Fagundes, procurador e promotor público, Por causa
da mentalidade preconceituosa da década de 1920, em que as mulheres não tinham
condições de ousar determinadas profissões, sua mãe, uma excelente pianista, não
prosseguiu na carreira que começou na adolescência, fazendo apenas os deveres
domésticos considerados femininos. "Eu me lembro, era menina quando ia com a cesta
para colher goiabas no quintal da nossa casa lá em Sertãozinho, onde meu pai era
promotor. Minha mãe seria mais feliz se fosse pianista? E se ela continuasse estudando
e compondo naquele antigo piano preto com os quatro castiçais, hein? Mas esta seria
uma extravagância, uma ousadia e em vez de abrir o álbum de Chopin ela abria o
caderno de receitas".
Em 1973, Lygia ganhou vários e importantes prêmios brasileiros com o romance As
Meninas, publicado em Nova Iorque, em 1982
A sinestesia é uma das principais figuras de linguagem utilizadas nos contos de Lygia:
(MISTURA SENSAÇÕES DE SENTIDOS DIFERENTES) Ex: Um azul gritante (visão
e audição); O cheiro aveludado de café (olfato e tato)
a cor verde é constantemente citada como referência à passagem da vida à morte; às
vezes, alude à esperança, à inveja e ao dinheiro.
Lygia era socialista na juventude, e voltou a ser novamente na terceira idade,
afirmando crer que o socialismo era a única saída. “Faço política ao poder político.
Denuncio, de forma romanceada, as torturas, os vícios, as feridas e os mandos e
desmandos de nossa sociedade”.
Não por acaso, selecionei para compartilhar entre nós um trecho de “A disciplina do amor (fragmentos)” dessa grande autora:
“O homem é tão necessariamente louco que não ser louco representaria uma outra forma de
loucura”, escreveu Pascal. Deve ter pensado nisso a psiquiatra Karen Horney quando fez uma
lista dos sintomas básicos da neurose, uma lista enorme, dela quase ninguém escapa. A loucura no
cardápio. Basta ler e apontar, esta é a minha. Selecionei as neuroses mais comuns e que podem
nos levar além da fronteira convencionada : necessidade neurótica de agradar os outros.
Necessidade neurótica de poder. Necessidade neurótica de explorar os outros. Necessidade
neurótica de realização pessoal. Necessidade neurótica de despertar piedade. Necessidade
neurótica de perfeição e inatacabilidade. Necessidade neurótica de um parceiro que se encarregue
da sua vida -ó Deus! - mas desta última necessidade só escapam mesmo os santos. E algumas
feministas mais radicais.
Tão difícil a vida e o seu ofício. E ninguém ao lado para receber a totalidade (ou parte) do fardo.
Os analistas, caríssimos, e na maioria, um lixo : um lixo Freud considerava a totalidade dos seres
humanos, isso nos últimos anos da sua vida sem muita ilusão. Ele não conheceu seus discípulos. E
por acaso é com o analista que se comenta a fita na saída do cinema? O livro. O sabor do vinho,
esse gosto meio frisante, hem? E esta pele e esta língua. A minha tiazinha falava muito na falta
que lhe fazia esse ombro amigo, apoio e diversão, envelheceu procurando um. Não achou nem o
ombro nem as outras partes, o que a fez choramingar sentidamente na hora da morte, mas o que
você quer, queridinha?! a gente perguntava. Está com alguma dor? Não, não era dor. Quer um
padre? Não, não queria mais nenhum padre, chega de padre. Antes do último sopro, apertou
desesperadamente a primeira mão ao alcance : “É que estou morrendo e não me diverti nada!”
Encerrando, nossa entrega de certificado à querida Marli Fróes, como sempre ligeiramente molhado de cerveja, uma marca do SBC... E aí fomos nos encontrar como nossos amigos que estão sempre ali em frente nos observando carinhosamente:
Vejam que dessa vez eles até ganharam echarpes... e ficaram lindos!!!
Obrigada a todas as pessoas que nos acompanham... E até a próxima!