quinta-feira, 10 de setembro de 2026

NOSSAS MULHERES: DUAS GRANDES CINEASTAS

Anita Leandro, professora associada da Escola de Comunicação da UFRJ e documentarista. Integra o corpo permanente do PPG-Com, com pesquisa sobre a mise en scène da fala e a montagem das imagens de arquivos. Possui graduação em Comunicação Social/Jornalismo pela Faculdade de Filosofia de Belo Horizonte (1981), mestrado e doutorado em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Université Paris III - Sorbonne-Nouvelle (1993-1997). Pós-doutorado na Paris III, sobre os arquivos da História no cinema. Foi redatora e editora em várias televisões brasileiras e correspondente do serviço brasileiro da rádio BBC em Paris. Coordenou a pesquisa do Laboratório de Vídeo Educativo do Nutes-UFRJ de 1999 a 2003, como professora adjunta. De 2003 a 2009, foi maître de conférences e coordenadora do master profissional "Réalisation de documentaires et valorisation des archives" da Université Michel de Montaigne-Bordeaux 3. Entre 2010 e 2012, coordenou a habilitação "Rádio e TV" da ECO-UFRJ. Publicou o livro "Le personnage mythique au cinéma" (Presses du Septentrion, Lille,2001), além de vários artigos sobre estética do cinema. Realiza documentários e videoinstalações. Prêmio do juri oficial do Cachoeira Doc 2015 pelo filme "Retratos de identificação" (73 min., 2014).

Anita Leandro é uma figura proeminente na cena cinematográfica brasileira, reconhecida por sua contribuição à memória histórica e pela abordagem crítica ao regime militar. E o seu filme ANISTIA 79 foi o grande vencedor da 29a Mostra de Cinema de Tiradentes, que sempre acontece no mês de janeiro nessa querida cidade de Minas Gerais.

'Por trás de qualquer imagem da ditadura, há o horror da tortura' (Anita Leandro)

Já conversamos sobre esse filme no nosso post de 27 de agosto passado, junto com outro filme imperdível, HONESTINO, ambos em cartaz no Cine Belas Artes e Unimed Minas (além do excelente NOSSO SEGREDO). Aqui queremos conversar sobre duas mulheres phodas. No entanto, mais um pouco sobre esse filme maravilhoso vale a pena:

O filme é um achado de uma gravação de 90 minutos de uma reunião em prol da anistia dos presos políticos da ditadura, na Roma de 1979.  “Anistia 79” vai muito além de um registro histórico, porque ...

"Anita Leandro não apenas encontrou tal filme, nem apenas digitalizou tal filme, nem apenas montou tal filme, mas ela concebe verniz cinematográfico a um material de arquivo que sim, é impressionante, mas que a diretora avança na discussão cinematográfica de muitas formas. Ao olhar para o resultado final, é impossível não ser afetado pelas imagens nos dias seguintes à sessão, mas o que é apresentado durante quase 105 minutos não é apenas um amontoado de imagens conseguidas há quase 50 anos atrás. Leandro revisita o material original e emprega personalidade nas minúcias. Ela não apenas chama uma horda de sobreviventes àqueles dias e àquele período para reconfigurar tais planos a partir dos olhos afetivos, para igualmente reconectar de luz às figuras apagadas pelo tempo. “Anistia 79” é um monumento de resistência, mas também uma mensagem clara para o futuro, em termos de mensagem. Mas o filme nunca se acomoda em ser apenas mensagem, documento ou História; esse é um registro que merece e precisava de revisão, o que a cineasta emprega ali com a destreza de quem não apenas conhece o material, como também entende tais vestígios perdidos em um tempo de dor. Se não deixa de doer e revoltar, pelo menos consegue tornar a experiência amplamente enriquecedora".

"Os planos contrapostos das imagens do passado com os espectadores do presente (e que também estavam inseridos naquele passado) são um recurso que a cineasta transforma em potência renovada. Porque não se tratam apenas de tipos perdidos entre dois tempos, mas de reflexão emocionais e políticas a respeito de um passado que não cansa de bater à nossa porta, e que precisa encontrar meios de escoamento para a contemporaneidade. Além disso, temos os áudios enfim resgatados dos diálogos do exterior entre essas figuras históricas e, hoje, até mesmo ressuscitadas pelos planos, que realçam não apenas os valores históricos ali mostrados, mas essencialmente a humanidade de homens e mulheres que eram mais do que lutadores".

"A reunião de rivais políticos em encontro inédito durante a conferência é um intenso momento de “Anistia 79”, onde podemos enfim conferir a união pelo bem comum: a liberdade deve sempre ser maior que tudo. Os comentários acerca dessa passagem, e a passagem em si, não ocupam grande parte do filme de maneira vã. Parte desse encontro as ideias primordiais para o futuro de qualquer tempo, e em como o respeito e a admiração deveriam estar acima de qualquer embate".

Enfim, essa grande cineasta defende que a lei da anistia precisa ser revista, num país que não teve 'justiça de transição', como comentamos no post anterior, os torturadores foram anistiados.

💝💟💚💙💜💛

E vamos à nossa próxima homenageada:

Grace Passô tem agora 46 anos. Nasceu em Belo Horizonte, em 1980. 

Dentre seus trabalhos no teatro, dirigiu "Contrações" (Grupo 3 de Teatro, SP), "Os Bem Intencionados" (LUME Teatro, SP), Herança (50 anos de Maurício Tizumba nas artes) "Por Elise" e "Congresso Internacional do Medo" (grupo de teatro Espanca!). Atuou nas peças "Krum" , "Preto" (Companhia Brasileira de Teatro, PR) e em espetáculos do repertório do grupo Espanca!, grupo mineiro que fundou em 2004 e que permaneceu por dez anos, assinando a dramaturgia de espetáculos como "Marcha para Zenturo" (em parceria com o Grupo XIX de Teatro, SP), "Amores Surdos", "Congresso Internacional do Medo" e "Por Elise", sendo diretora destes dois últimos trabalhos. Em 2016, estreou o espetáculo solo "Vaga Carne", no qual atua e assina o texto.

Foi cronista do Jornal O Tempo e possui publicações de textos teatrais em português, francês, italiano, espanhol, mandarim, inglês e polonês.

No cinema, atuou em filmes como "Elon Não Acredita na Morte", "Praça Paris", "No Coração do Mundo" (Filmes de Plástico - Gabriel Martins e Maurílio Martins), "Temporada" (Filmes de Plástico - André Novais), "Vaga Carne" , "O Dia que te Conheci" (André Novais), "A Fúria",  "Levante". 

Foi indicada a inúmeros prêmios do teatro e cinema. E em 2019, Grace Passô foi homenageada pela Mostra de Cinema de Tiradentes. "Num tempo em que muita gente não vê futuro adiante, decidimos apontar algum futuro pelo que ainda virá dessa atriz", declarou a organização do evento.

E agora em 2026 Grace estreou como diretora com o longa-metragem NOSSO SEGREDO, que estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Berlim. E no mês de agosto passado o filme foi incluído pela Academia Brasileira de Cinema na lista de 15 longas-metragens pré-indicados a concorrer a vaga de representante do Brasil no Oscar 2027 na categoria de Melhor Filme Internacional. Isso tudo  depois de conquistar o principal prêmio da mostra competitiva nacional do 54º Festival de Cinema de Gramado. Além disso, a produção levou os Kikitos de Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte.

Nosso Segredo é um filme de drama, fantasia,  misturado com suspense (alguém disse que seria um filme de "horror à mineira")  que nos prende durante todo o tempo: o que será o segredo? e, quando ficamos sabendo do mesmo, nova pergunta aparece: e o que vão fazer com o segredo?

Adaptação da peça "Amores Surdos", que deu a Grace o prêmio Shell de melhor texto, o filme  retrata uma família negra que tenta retornar ao cotidiano após uma perda muito recente. Enquanto cada membro da família enfrenta o luto do seu jeito, o silêncio e a dificuldade de expressar a dor acabam ampliando as distâncias entre eles. 

Gilson (Robert Frank) se refugia no trabalho como motorista. Suely (Ju Colombo) tenta manter a rotina da casa por meio das tarefas domésticas. Guto (Flip) procura uma fuga na rua e na boemia. Já Grazi (Jéssica Gaspar) se fecha cada vez mais em si mesma.

No meio deles está Tutu (Efraim Santos), o filho mais novo. Atento ao que acontece ao seu redor, ele percebe que existe algo estranho no andar de cima da casa, enquanto os adultos parecem preferir ignorar os sinais.

A partir das descobertas de Tutu, o cotidiano da família começa a ganhar contornos fantásticos. Sons, rachaduras, vazamentos e outras manifestações transformam a casa em um espaço cada vez mais inquietante.

Com o tempo, os sentimentos reprimidos e antigas feridas ressurgem, a família percebe que apenas uma conversa profunda vai poder ajudá-los a encontrar um novo caminho para seguir em frente. Explorando temas como luto, memória e pertencimento, o filme retrata as complexidades dos laços familiares e como erguer a cabeça em meio à dificuldades.

Comparado a grandes cineastas como o tailandês Apichatpong Weerassethakul e o diretor japonês Hayao Miyazaki, o filme é pra quem gosta de pensar, conversar sobre o mesmo, de preferência tomando uma cerva e abrindo a cabeça e o coração para entender as metáforas, os simbolismos apresentados, o humano ... enfim, se afetar com o filme e oportunizar refletir e elaborar suas próprias perdas, saudades... além de pensar sobre nossos preconceitos, construindo o movimento de superação a cada dia.

Como disse querida SBCense, "o animal me parece uma metáfora sobre a 'falta de consciência', ou melhor, a nossa dificuldade de 'tomar consciência', muitas vezes de coisas óbvias na nossa vida. Assim como o resgate das nossas ancestralidades, para a construção da nossa identidade autônoma. 

Além de tudo, psicólogas e psicanalistas SBCenses colocam que se trata de um filme profundo: "Há dores que não precisam ser ditas para ocupar todos os cômodos de uma casa! É a partir dessa ideia que Nosso Segredo constrói uma história sobre família, ausência e sentimentos que permanecem mesmo quando ninguém consegue colocá-los em palavras".

Enfim, uma das cenas finais traz Gilson deitado nu na cama, em posição fetal. Junto a uma vital reforma da casa = o próprio eu, nossa identidade,  essa sequência do filme, entre outros simbolismos,  evidencia a necessidade do restabelecimento do vínculo familiar, busca de segurança e proteção.

Voltando à homenagem às duas mulheres maravilhosas: 

A Anita Leandro e Grace Passô, mulheres que nos provocam reflexões e crescimento, nossa gratidão...

E obrigada a todas as pessoas que nos acompanham.

Abraços carinhosos

Santuza TU 





sábado, 5 de setembro de 2026

NOSSO SARAU DE SETEMBRO

 
Muito emocionante... Lembranças, afetos, risadas... abraços, novos amigos e amigas...



Na entrada do Andu de Dois, já recebendo nossas convidadas...

Querido Philip abriu nosso sarau com música do Zé Ramalho, tudo mundo cantou junto com ele. Pena que não temos o vídeo.

Em seguida, apresentação do SBC... destaque para o SBC anárquico: invertemos a ordem tradicional, ou seja, em vez de começarmos com o Hino e a apresentação da(s) convidada(s) especial(ais), começamos pelas homenageadas:

A primeira delas, Zélia Gattai, apresentada pela nossa querida Antonieta, reparem a elegância da pessoa:

Zélia Gattai Amado de Faria foi uma escritora, fotógrafa e memorialista brasileira, autora de obras como Anarquistas, Graças a Deus e Um Chapéu para Viagem. Casada por 56 anos com Jorge Amado, publicou memórias, literatura infantil e romance. Membro da Academia Brasileira de Letras, sua escrita preserva a memória social e cultural brasileira, unindo relato autobiográfico e testemunho histórico.

Claro que Antonieta aprofundou bastante, como sempre... aqui só um resuminho da sua fala.
                                









Zélia Gattai e Jorge Amado


Nossa segunda homenageada, Margarida S. Franco, apresentada por Maria Eloisa Franco, sua filha, nada mais nada menos do que nossa querida Diza! Foi muito emocionante, a Diza recitou e cantou poemas e musicas dela, inéditas, uma honra para nós do SBC:

Depois das nossas homenageadas, apresentação das nossas convidadas especiais:

A Diza, dessa vez, contou a sua própria história: de roqueira até sambista... De como conheceu Seu Expedito, na verdade o saudoso Didi 7 cordas, pai da Solange Leite, nossa querida Sol Cartola (dizem que a Sol era conhecida como a viúva do Cartola... kkk)... e foi através do Seu Didi que ela, Diza,  conheceu a Sol... hoje amigas irmãs... 
                                            















Didi 7 cordas


E a Sol foi emendando a história, contando sobre ela e o Bar Cartola, onde ela era a proprietária! Seu orgulho de "apresentar" o sambista aos rapazes e moças novinhos(as), universitários,  que começavam a gostar do samba com a sua influência. Isso tudo entre uma música e outra:


Nosso querido SBCence Alvimar, presidente da grande Escola de Samba Triunfo Barroco, acrescenta à história da Sol sobre o Cartola Bar, outros bares em Belo Horizonte que atraiam grande público, isso nos anos 90, 2000... e que consolidaram o samba em BH e fazem sucesso até agora, como o Opção, do nosso querido Ronaldo Coisa Nossa:

Resgatamos um vídeo da época, princípio do século, quando ensaiávamos o nosso hino para o primeiro desfile de Carnaval do SBC:


Depois, a surpresa:  nossa querida SBCense Márcia pede o microfone e  nos apresenta poema dedicado às mulheres, hoje às NOSSAS MULHERES CANTORAS, falando da força da voz feminina, das dores, dos sonhos, da liberdade e da inspiração que elas levam para outras mulheres e meninas.  Não temos vídeo, mas resgatamos o poema:

Nossas Mulheres!
que chegam cantando, 
com a voz doce ou forte,
trazendo no peito histórias de amor
de dor, de coragem e de sonhos.

Mulheres que cantam não apenas melodias,
Mas também suas lutas,
suas escolhas, suas conquistas,
e a liberdade de serem quem são.

Cantam o amor,
mas também cantam a liberdade.
Cantam as lágrimas que um dia esconderam,
as cicatrizes que carregam
e a esperança que nunca deixaram morrer.

São vozes que atravessam gerações e fronteiras.
Vozes que dizem;
"Eu estou aqui. Eu tenho uma historia. Eu tenho algo a dizer".

E quando uma mulher encontra a própria voz
Ela não canta apenas para si.
Ela abre caminhos, inspira outras mulheres,
ensina meninas a sonhar,
e mostra que ninguém deve ter medo.

Nossas Mulheres!
Cantoras de ontem, de hoje e de amanhã...
Cada uma com seu jeito, sua história, sua verdade.

Que nunca lhes falta coragem para cantar.
Que nunca lhes falte força para recomeçar.
E que nenhuma voz feminina seja obrigada a se calar.

Porque quando uma mulher canta,
o mundo escuta 

E quando muitas mulheres cantam juntas,
não há silêncio que consiga apagar a força de suas vozes.

Nossas Mulheres!
Bossa Voz!
Nossa História! 
Nossa Liberdade!

E outra surpresa: a Sol resgatou uma fala sobre Mulheres Fortes e Mulheres de Força, potente, de transcendência,  aprendizagem e crescimento... e compartilhou conosco, com a sua generosidade imensa:

UMA MULHER FORTE VERSUS UMA MULHER DE FORÇA
Uma mulher forte malha todos os dias para manter seu corpo em forma...
Mas uma mulher de força constrói relacionamentos, para manter sua alma em forma.
Uma mulher forte não tem medo de nada...
Mas uma mulher de força demonstra coragem, em meio aos seus medos.
Uma mulher forte não permite que ninguém tire o melhor dela...
Mas uma mulher de força dá o melhor de si a todo mundo.
Uma mulher forte comete erros e evita os mesmos no futuro...
A mulher de força percebe que os erros, na vida, também podem ser bênçãos inesperadas e aprende com eles.
Uma mulher forte tem o olhar de segurança na face...
Mas uma mulher de força tem a graça.
Uma mulher forte acredita que ela é forte o suficiente para a jornada...
Mas uma mulher de força tem fé que é durante a jornada que ela se tornará forte!


Como aprendemos com nossa querida Lady Cali, convidada do sarau de agosto: "Nós do SBC vamos de plenas e plenos a bandas" = bandoleiras(os) , bandidas(os)... Ao final o sarau, invertendo tudo como anárquicos que somos, cantamos o hino (que seria na abertura) fazendo um "cortejo" pelo Andu, como um dos nossos estandartes pendurados no pescoço... a "banda"! Farmando aura!
Nessa altura eu já tinha perdido um brinco, para tudo, todo mundo procurando o brinco por todo o Andu... brinco não encontrado. Chegando em casa tiro o sapato e encontro o mesmo:

E ainda ganhei outro brinco lindo! E lembramos, já em casa,  que tínhamos esquecido de levar os certificados de participação às nossas convidadas especiais, assim como os cartazes das mesmas para serem colocados no nosso varal... levaremos no nosso próximo sarau... com certeza, com cerveja...

Essa resenha é uma 'palinha', nem um décimo de tudo que aconteceu ao vivo e das energias trocadas. Mais uma vez agradecemos a todas as pessoas que fazem nossos saraus serem tão gostosos... e às pessoas que nos seguem, nos leem, nos assistem. 
O SBC somos nós!!!
Abraços carinhosos,
Santuza TU




















quinta-feira, 27 de agosto de 2026

2 FILMES IMPERDÍVEIS... BRASILEIROS

O primeiro filme que vimos, Honestino, retrata o Brasil desde princípio dos anos 60, a criação da Universidade de Brasília, o golpe militar de 64... as várias invasões armadas da PM à Universidade... até início de anos 70... e a história de Honestino.

Direção de Aurelio Michiles, fusão entre documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração 68, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e é uma das centenas de desaparecidos da ditadura militar. Baseado em cartas, poemas e imagens de arquivo, dezenas de depoimentos de familiares, amigos e militantes e cenas interpretadas por Bruno Gagliasso. 

Honestino foi uma das vítimas da Ditadura Militar. Brutalmente assassinado aos 26 anos, o Estado apenas reconheceu a culpa do homicídio após vinte anos, ainda assim, é possível relatar os traumas deixados para os estudantes de Brasília. Com o intuito de tornar a história inspiradora de Honestino Guimarães atual outra vez, o longa reúne uma série de arquivos inéditos sobre a trajetória dele, incluindo a sua luta e legado para - ao menos tentar - construir uma história melhor para o Brasil do que aquela que ele pode viver.

Foto Leo Lara

O segundo filme, dirigido por Anita Leandro (na foto), Anistia 79 é um documentário que traz cenas inéditas sobre um dos momentos mais importantes para a história moderna do povo brasileiro. Em 1979, na cidade de Roma, Itália, é realizada a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, que até hoje é considerada por muitos como o maior encontro da esquerda brasileira realizado fora do país. Quase meio século depois, cenas resgatadas retornam no momento ótimo para  entendermos a construção da memória da ditadura militar.

Em junho de 1979, centenas de exilados e militantes pela anistia no Brasil chegam em Roma, provenientes de vários países. É preciso uma intervenção efetiva no processo de abertura política, pois a ditadura militar não quer libertar os presos políticos e articula, nas sombras, a extensão do benefício da anistia aos torturadores. Um jovem exilado filma o evento e guarda os negativos num porão, em Paris, por quase 50 anos. Confrontado a alguns participantes da Conferência de Roma, este material mostra que o passado, no Brasil, ainda não passou.

Cineasta e historiadora, Anita Leandro, mineira de Belo Horizonte, ao receber o prêmio de Juri Popular da Mostra de Tiradentes deste ano, deu uma aula de democracia, chamando a atenção para a atualidade do debate da impunidade da tortura e dos desaparecimentos forçados, uma vez que falta ao Brasil a justiça de transição e a ditadura não acabou em lugares como as favelas e periferias. Ela destacou a importância da Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil e a sensibilidade de Hamilton Lopes dos Santos, que teve a iniciativa de registrar aquelas imagens e sons para o futuro. O filme traz diferentes gerações de exilados em um reencontro com as gravações feitas há quase 50 anos.

Sabiam que, geralmente, os filmes brasileiros independentes têm dificuldade para se manter em cartaz? Por isso, é importantíssimo ter um público expressivo na primeira semana, para garantir a continuidade de exibição do mesmo.

E as conversas SBCenses depois de cada um dos filmes:

. Toda vez que vejo um filme brasileiro da segunda metade do século passado me pergunto onde eu estava, como estava, como era a minha vida, em 'que mundo' (ou Brasil...) eu vivia na época retratada pelo filme. Nos anos 60 eu = branca classe média = estava saindo de colégio de freira e indo fazer o curso normal na Instituto de Educação. Foi uma "libertação" pra mim... comecei a entender um pouco mais de mundo, para além do próprio umbigo. No Instituto tínhamos várias classes sociais e essa convivência foi muito importante pra mim. Depois passei no vestibular em universidade particular, a Católica de MG. Estudava a noite e trabalhava para pagar meu curso. 

. Nos anos 70 nas universidades não podíamos falar de política. No entanto fazíamos política, muitas de nós casamos e descasamos (naquela época era 'desquite' e não 'divórcio'), fomos cobaias das primeiras pílulas anticoncepcionais e isso nos fez apropriarmos do nosso corpo e da nossa liberdade sexual = como disse nossa feminista Rose Marie Muraro, "conquistamos o direito ao orgasmo".


 
. Líamos e comentávamos sobre o Pasquim, semanário alternativo da história da imprensa brasileira que circulava no período mais rigoroso da ditadura militar, pós AI 5, realizando resistência através do humor e reunindo ícones da cultura nacional, Henfil, Laerte, Sérgio Cabral, Chico Buarque, entre outros.

. Nos movimentos feministas daquela época, começava a onda do feminismo negro, começávamos e reconhecer e criticar Simone de Beauvoir, dizendo que nós, feministas brancas, nos permitíamos entrar no mercado de trabalho às custas de colocarmos nossas irmãs negras cuidando dos nossos filhos. 
. Líamos "A morte da Família", de David Cooper; "A Contracultura", livros de Gaiarsa e de Wilhelm Reich, de Muraro, Lélia Gonzalez e Sônia Viegas, entre outros e outras... e continuávamos lendo Simone. 

. E acompanhávamos os primórdios da criação do MST, final dos anos 70. Assim como os resgates de movimentos negros, como o MNU Movimento Negro Unificado. 

. O surgimento do movimento "Quem Ama não Mata" em Belo Horizonte, luta feminina que surgiu em resposta ao assassinato de Ângela Diniz em 1976. O movimento começou a se organizar em 80 e é uma das primeiras movimentações do Brasil a se manifestar contra a impunidade dos crimes de violência contra a mulher.

. Nos tocou por demais, entre outras coisas, o Gregório Bezerra no filme  Anistia 79 falando dos 'verdadeiros terroristas', aqueles que prendiam, torturavam e matavam... 


. E nossa querida Heloisa Greco, além de resgatar potente discurso da sua mãe Helena Grego, nos fala da atualidade do extermínio... nosso, de nós, brasileiros e brasileiras, nós os indígenas, nós os negros e negras periféricas. 

. Enfim, a anistia que se propunha ampla geral e irrestrita, tornou=se "lenta, gradual e segura"... e nos perguntamos: segura pra quem? provavelmente segura para os "torturadores" que se viram anistiados, livres. 

. Não tivemos como não resgatar linda canção de Gonzaguinha, aqui interpretada pela grande Elza, faixa 10 do álbum "Planeta Fome":

Abraços carinhosos às pessoas que nos acompanham... e não percam o filme!
Santuza TU





domingo, 23 de agosto de 2026

SOBRE ENVELHECER

 

                                                   foto de Vânia Godim

A cerca de 180 km de Belo Horizonte, Itapecerica, em Tupi-guarani,  “penha escorregadia ou penhasco de encosta lisa”. Itapecerica é linda... como um poema... e lá está uma grande poeta:

Aline Tavares, idealizadora do @ocafeconverso: Arte em goles, poesia em conversa:

E essa mulher potente eu tive a alegria de conhecer na nossa viagem a Cuba em maio deste ano. "Sorte é a capacidade de ver e de agarrar as oportunidades" e eu treino muito essa capacidade. Não deixo passar a oportunidade de fazer uma amiga.

E essa linda amiga viu nosso poema PARA CLÁUDIO ... outro grande amigo ... e "gravou" sua declamação do mesmo. Me emocionou por demais... e não posso deixar de compartilhar com pessoas amantes da poesia... e da vida:

Obrigada querida amiga. Breve nos encontraremos. Bora fazer uma FEIRA LITERÁRIA em Itapecerica?  Depois da FLIGH  PRIMEIRA FEIRA LITERÁRIA DE GUANHÃES, mês que vem, setembro... 


Continuando, hoje recebi um texto da jornalista Kika Gama Lobo ... sobre a nossa "tendência" à romantização do envelhecer. Vale a pena um trecho do mesmo:

Porque existe uma indústria poderosa vendendo a ideia de que envelhecer bem é uma questão de atitude. Tome colágeno. Faça exercício. Medite. Coma proteína. Tenha propósito. Faça terapia. Viaje. Ame. Dance.
Ótimo.
Mas quem paga?
Quem prepara a comida?
Quem leva ao hospital?
Quem fica quando a autonomia começa a escorrer pelas frestas?
A romantização da velhice pode ser tão cruel quanto o próprio preconceito contra os velhos.
Porque ela transforma uma questão coletiva em responsabilidade individual.
Se você envelhecer mal, a culpa será sua.
Não se cuidou.
Não guardou dinheiro.
Não fez terapia.
Não se exercitou.
Não teve propósito.
Ora, façam-me o favor.
É claro que escolhas individuais importam. Autocuidado importa. Saúde mental importa. Educação financeira importa. Resiliência importa.
Mas sorte também  importa.
Genética importa.
Classe social importa. 
Acesso à saúde importa.
Políticas públicas importam.
O problema é que não estamos preparados para essa vida.
Precisamos urgentemente de uma nova cartilha do bem viver. E ela deveria começar na adolescência.
Não para ensinar adolescentes a “envelhecer”, mas para ensinar que o tempo tem consequências.
Educação financeira deveria falar de longevidade.
Educação emocional deveria falar de perdas, solidão e dependência.
A escola deveria discutir cuidado.
A sociedade deveria discutir moradia para idosos.
As cidades deveriam ser pensadas para quem tem mobilidade reduzida.
O mercado de trabalho deveria considerar carreiras mais longas.
O sistema de saúde deveria se preparar para uma população que viverá décadas depois da aposentadoria.
E as famílias deveriam conversar sobre  dinheiro, cuidado, herança, moradia e decisões de fim de vida antes da emergência.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas: “Como viver mais?”
Essa pergunta já está velha.
A pergunta que precisamos fazer agora é:
“Como vamos sustentar os anos que conquistamos?”
Porque chegar aos 100 pode ser maravilhoso.
Mas chegar aos 100 sem dinheiro, sem vínculos, sem assistência, sem saúde mental e sem uma rede de cuidado pode transformar o tão celebrado presente da longevidade em uma longa travessia de abandono.
Não quero uma sociedade obcecada por acrescentar anos à vida.
Quero uma sociedade preparada para sustentar a vida que esses anos acrescentaram.
Até quando vamos romantizar envelhecer sem discutir o preço de continuar vivo?
Porque viver muito é maravilhoso.
Desde que a gente consiga viver — e não apenas durar.

Nesse trecho a Kika nos escancara nossa sociedade individualista, onde "perdemos" a noção do coletivo, da luta por direitos... inclusive nos culpando quando as "idealizações românticas" não acontecem no real. 

Enfim, consciência, olhar para 'além do próprio umbigo' ... e participação, engajamento nas lutas por direitos =  nossos e para além de nós = vem a ser a 'cura' para muitas 'doenças'. Doenças essas 'fabricadas' pela mesma sociedade que nos deseja alienados e reprodutores de tudo do mesmo jeito, e não sujeitos e sujeitas construtoras de um "mundo mais bonito", mais justo, mais distributivo ... com arte, alegria, e amigos...

Assim tentamos construir=ser no SBC, agradecendo sempre quem nos lê e nos acompanha.
Abraços carinhosos,
Santuza TU


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

PARA CLÁUDIO...


Envelhecer é descobrir

que o espelho não sabe de tudo.

Ele conta as rugas,

mas não sabe dos caminhos.

Não sabe quantas vezes

a gente caiu de si

e levantou carregando

o próprio coração no colo.

Há uma beleza estranha

em deixar de ter pressa.

A tarde entra pela janela

sem pedir licença,

e eu já não quero expulsá=la.

Quero café quente,

uma conversa demorada,

o corpo possível, 

a memória acesa

e alguém que compreenda

que silêncio também é companhia.

Envelhecer

é perder algumas certezas

e ganhar perguntas melhores.

É olhar para as mãos

e reconhecer nelas

as coisas que fiz, 

as pessoas que amei, 

os abraços que ficaram

mesmo depois que partiram...

Não tenho mais idade

para desperdiçar ternura.

Nem para pedir desculpas

por existir inteira.

Se o tempo levou alguma coisa,

também me devolveu o essencial:

a coragem de ser quem sou.

E talvez seja isso 

que chamam envelhecer...

Não o fim da primavera,

mas a descoberta

de que a vida

quando amadurece,

fica mais profunda.

Santuza TU




sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Sarau NOSSAS MULHERES de agosto

 O SBC, no nosso sarau de ontem, se transformou em RBC - Rapper Bobagem e Cerveja... e tudo bem, estamos confirmando nossa tradição inclusiva, anárquica, feminista... e intergeracional.


Já na entrada do nosso querido ANDU DE DOIS, six seven... farmando aura!!! Olha só nosso 'estandarte', maravilhoso...

O mesmo estandarte na parte de trás o SBC... e nossas duas lindas, atrás delas nosso já famoso projeto SEBO DA MAITÊ, circularidade de livros, 'bombando'.

Nossa queridíssima Paloma, direto de Brasília... no Instagram LADY CALI, seu nome artístico, sigam essa artista maravilhosa!
A seguir dois vídeos da sua apresentação, só uma 'palinha', no nosso YOUTUBE, vale a pena dar uma olhada... e aproveitem para se inscrever🙏🙏🙏



Depois da lindíssima apresentação da Lady,  querida SBCense Deyse Magalhães nos apresentou nossa primeira homenageada: Neusa Santos Magalhães. Foi emocionante, pois a Deyse trouxe reflexões importantíssimas sobre a vida de mulheres negras no nosso país.
Com carinho ela compartilha conosco sua pesquisa e seu texto:

Neusa Santos Souza: tornar-se negro é um ato de liberdade

Neusa Santos Souza é uma mulher que transformou a maneira como pensamos o racismo no Brasil. Falar de Neusa Santos Souza é falar de coragem intelectual, mas também de coragem humana.
Neusa nasceu em 1948, na Bahia. Tornou-se médica, psiquiatra e psicanalista em uma época em que havia pouquíssimas mulheres negras ocupando esses espaços. Sua simples presença já desafiava estruturas históricas de exclusão.
Mas Neusa não queria apenas ocupar um lugar. Ela queria compreender o sofrimento produzido pelo racismo e oferecer caminhos para a liberdade.
Em 1983 publicou aquele que se tornaria um clássico do pensamento brasileiro: Tornar-se Negro. O próprio título é provocador. Afinal, ninguém nasce compreendendo plenamente o que significa ser negro em uma sociedade racista. Para Neusa, tornar-se negro é um processo de consciência, de reconhecimento e de afirmação.
Ela mostra que o racismo não atua apenas nas oportunidades sociais. Ele invade a subjetividade. Faz com que muitas pessoas negras cresçam acreditando que precisam negar sua origem, seus traços, sua cultura e sua história para serem aceitas.
Esse talvez seja um dos conceitos mais importantes de sua obra: o sofrimento psíquico causado pelo racismo.
Ela afirma que o ideal de beleza, de inteligência, de sucesso e de humanidade foi construído tendo a branquitude como modelo. Muitas pessoas negras passam então a viver um conflito permanente entre quem são e quem aprenderam que deveriam ser.
Mas Neusa não escreveu para alimentar a dor. Ela escreveu para mostrar que existe um caminho de reconstrução.
Tornar-se negro significa romper com esse padrão imposto. Significa reconhecer a própria história, valorizar a ancestralidade e construir uma identidade baseada no orgulho e não na vergonha.
Essa reflexão permanece profundamente atual.
Ainda hoje observamos desigualdades no acesso à educação, ao mercado de trabalho, à saúde e à representação política. Ainda hoje crianças negras crescem vendo poucas referências positivas parecidas consigo.
Por isso Neusa continua sendo tão necessária.
Ela nos ensina que combater o racismo não é apenas criar leis ou políticas públicas. É também cuidar das pessoas. É compreender que a discriminação deixa marcas emocionais profundas e que a saúde mental também é uma questão de justiça social.
O racismo tenta convencer uma pessoa de que ela vale menos. A consciência racial faz exatamente o contrário: devolve a dignidade, a memória e a possibilidade de existir plenamente.
💝💝💝

Em seguida nossa querida Ana Luiza Apgaua nos trouxe a segunda homenageada: Flora Maia Matos. 
E nos emprestou seu texto de apresentação para compartilharmos:

Boa noite, mulheres de luta, de samba e de cerveja! 

Hoje o nosso palco pede passagem para uma força da natureza.
Uma mulher que não pede licença, ela chega e 'dropa' o verso.
Direto de Brasília para o mundo, ela é o terror dos pretensiosos e a voz de quem tem atitude. 

Se o rap fosse um tabuleiro de xadrez, ela já teria dado xeque-mate faz tempo.
Dizem por aí que ela é polêmica...
Mas a verdade é que mulher com opinião própria e que não abaixa a cabeça assusta quem está acostumado com o silêncio! 

Flora Matos é a linha de frente.
É o "Pretin" que grudou na nossa mente e não sai mais.
É a prova viva de que a sensibilidade e a resposta afiada andam de mãos dadas.
Ela resiste rimando, vence existindo e bota ritmo na nossa caminhada. 

Santuza Fernandes criou este espaço no SBC, para homenagear quem faz história.
E a Flora faz história a cada compasso, quebrando as barreiras de um mundo que insiste em tentar calar as mulheres. 

Com vocês, a força, a poesia e o som de Flora Matos!
As obras marcantes de Flora Matos, como "Pretin" e "Piloto", misturam romantismo e vivência urbana com temas de autonomia feminina e resistência. Faixas como "Ser Sua", "Teia" e "Preta de Quebrada" reforçam seu estilo empoderado e autêntico.

E nossa querida Lady voltou ao palco e interpretou uma música da Flora. Infelizmente não temos o vídeo. Então vamos da original, Flora, para vocês conhecerem:

Eita que foi bonito, sô...
A seguir a entrega de certificado de Participação Especial à nossa querida Lady Cali... e mais algumas fotos compartilhadas por amigas e amigos:









E ao final queríamos fazer uma foto do pessoal da cozinha, que prepara com o maior carinho pratos deliciosos das geraes... ainda não conseguimos ... ficou pro nosso próximo sarau, primeira quinta de setembro. Mas o Peixe já "vestiu nosso estandarte":

Obrigada todos e todas do ANDU, obrigada amigos e amigas presentes ao nosso sarau
Abraços carinhosos,
Santuza TU