sexta-feira, 8 de maio de 2026

NOSSO SARAU DE MAIO NO ANDU DE DOIS

Muitíssimo bem recebido pelo querido Peixe (sobrenome Frito... já eleito nosso DJ) e querida Vitória, que nos ajudaram a colocar nossos varais de mulheres maravilhosas, inclusive nós... E o estandarte NOSSAS MULHERES ficou na porta, recebendo as pessoas... foi lindo...

Começamos pedindo licença para apresentar uma música que não é de mulher brasileira, pois o sarau NOSSAS MULHERES seria somente de mulheres brasileiras. Porém a Nina Simone merece estar entre nós com a música  Ain't Got No, I Got Life. Trata-se de um hino de resiliência que contrasta a falta de bons materiais com a celebração da vida e da liberdade. Essa música de 1968, celebra a identidade e a força interior. E é a música de HAIR, musical que todas as pessoas dessa época assistiram - e se inspiraram - pelo menos as de espírito transgressor.

Eu Não Tenho / Eu Tenho Vida


Não tenho casa, não tenho sapatos Ain't got no home, ain't got no shoes

Não tenho dinheiro, não tenho classe 
Ain't got no money, ain't got no class

Não tenho saias, não tenho casacos 
Ain't got no skirts, ain't got no sweaters

Não tenho perfume, não tenho amor 
Ain't got no perfume, ain't got no love

Não tenho fé 
Ain't got no faith

Não tenho cultura Ain't got no culture

Não tenho mãe, não tenho pai Ain't got no mother, ain't got no father

Não tenho irmão, não tenho filhos Ain't got no brother, ain't got no children

Não tenho tias, não tenho tios 
Ain't got no aunts, ain't got no uncles

Não tenho amor, não tenho importância 
Ain't got no love, ain't got no mind

Não tenho país, não tenho escolaridade Ain't got no country, ain't got no schooling

Não tenho amigos, não tenho nada Ain't got no friends, ain't got no nothing

Não tenho água, não tenho ar 
Ain't got no water, ain't got no air

Não tenho cigarros, não tenho um franguinho 
Ain't got no smokes, ain't got no chicken

Eu não tenho 
Ain't got no

Não tenho água Ain't got no water

Não tenho amor Ain't got no love

Não tenho ar Ain't got no air

Não tenho Deus 
Ain't got no God

Não tenho vinho 
Ain't got no wine

Não tenho dinheiro 
Ain't got no money

Não tenho fé 
Ain't got no faith

Não tenho Deus 
Ain't got no God

Não tenho amor 
Ain't got no love

Então o que eu tenho? Then what have I got

Por que mesmo eu estou viva? Why am I alive anyway?

Sim, inferno Yeah, hell

O que eu tenho 
What have I got

Ninguém pode tirar de mim 
Nobody can take away

Tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça I got my hair, got my head


Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas 
Got my brains, got my ears

Tenho meus olhos, tenho meu nariz 
Got my eyes, got my nose

Tenho minha boca 
Got my mouth

Eu tenho 
I got my

Eu tenho a mim mesma 
I got myself

Tenho meus braços, minhas mãos I got my arms, got my hands

Tenho meus dedos, tenho minhas pernas 
Got my fingers, got my legs

Tenho meus pés, tenho dedos nos pés 
Got my feet, got my toes

Tenho meu fígado 
Got my liver

Tenho meu sangue 
Got my blood

Eu tenho uma vida I've got life

Eu tenho vidas! 
I've got lives

Tenho dores de cabeça, e de dente I've got headaches, and toothaches

E tenho horas ruins, assim como você 
And bad times too like you

Tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça I got my hair, got my head

Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas 
Got my brains, got my ears

Tenho meus olhos, tenho meu nariz 
Got my eyes, got my nose

Tenho minha boca 
Got my mouth

Eu tenho o meu sorriso 
I got my smile

Eu tenho a minha língua, meu queixo I got my tongue, got my chin

Meu pescoço e meus seios 
Got my neck, got my boobs

Meu coração, minha alma 
Got my heart, got my soul

E minhas costas 
Got my back

Tenho meu sexo 
I got my sex

Tenho meus braços, minhas mãos I got my arms, got my hands

Meus dedos, minhas pernas Got my fingers, got my legs

Tenho meus pés, tenho dedos nos pés 
Got my feet, got my toes

Tenho meu fígado 
Got my liver

Tenho o meu sangue 
Got my blood

Eu tenho vida I've got life

Eu tenho minha liberdade I've got my freedom

Ohhh Ohhh

Eu tenho a vida! I've got life!


E nossa querida Antonieta, organizadora deste sarau junto com a querida Luciana,  apresentou a convidada especial desse evento, grande Edvalda. Ela falou de si mesma, da sua vida, da sua luta, da sua caminhada... E  lembramos - e cantamos - Geraldo Vandré


Chegou a vez da nossa querida Luciana. 
E ela apresentou a Dalva Maria Soares:

Mineira de Baldim, Doutora em antropologia social, pela UFSC, é autora de 'para diminuir a febre de sentir('2020), 'do menino' ( 2021), 'Me ajuda a olhar' ( 2023) e 'tempo das águas' ( 2025),  todos pela editora Popular.  E por que ela escreve?

ESCREVO PARA RESPIRAR MELHOR

Acima um pedacinho da crônica A JANTA ESTÁ PRONTA, do livro PARA DIMINUIR A FEBRE DE SENTIR. Dalva fala das pequenas narrativas do cotidiano, as crônicas, presentes em "Para diminuir a febre de sentir", primeiro livro publicado pela autora. Os temas abordados são família, amizade, sororidade, mulheres que inspiram sua escrita, vida no interior, e muito mais.

Dalva diz: "Virginia Woolf escreveu um teto todo seu, onde ela fala: "Uma mulher precisa de um teto todo seu e quinhentas livras para escrever ficção". Mas Anzaldua fala o contrario,  esqueça o quarto só pra si, escreva no banheiro, escreve enquanto você lava roupa, escreve enquanto lava a casa, sinta as palavras ecoando no seu corpo”. Virginia Woolf tem razão. Mas lembro que meu lugar social, que minha historia está muito mais próximo de uma Anzaldua, de uma Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, do que de uma mulher branca, britânica, europeia."

Teve mais Dalva, só quem estava lá pôde assistir... e terminamos Dalva com Emicida e Vanessa da Mata, pois toda a escrita da Dalva é sobre família, particularmente MÃE... e estamos perto do dia das mães, não é? Já começamos nossas homenagens...


Não me lembro a ordem das homenageadas, portanto vou citar agora a grande Conceição Evaristo. Nossa querida Lu (ou teria sido Antonieta😕😏) falou muito bem dessa mineira maravilhosa. Aqui um resumo

Conceição Evaristo nasceu em 29 de novembro de 1946, em Belo Horizonte, Minas Gerais, em uma família humilde. Filha de Joana Josefina Evaristo, lavadeira, e criada também pelo padrasto Aníbal Vitorino, Conceição cresceu em uma comunidade periférica e trabalhou como empregada doméstica durante a infância e adolescência, enquanto estudava em escolas públicas. Aos sete anos, passou a morar com tios, o que possibilitou melhor acesso à educação.

E, segundo opiniões do SBC, o mais bonito poema da Conceição foi interpretado pelas queridas Ana e Angela, mais novas SBCenses, pois como falamos nossa seleção para ser incluída no SBC é "quando o olho brilha". 
Ana Luiza Apgaua, grande escritora, levou um livro seu para sorteio. Obrigada pela presença, querida!
Angela Maria,  grande artista, estará no Teatro Marília no dia 13 de maio próximo das 15 as 17h com a peça RUA DO POVO DA RUA. Sigam @companhiadeteatrobh

E nossa ultima homenageada, Cristiane Sobral...

é uma multiartista, atriz, escritora, dramaturga e poeta brasileira.

Estudou teatro no SESC do Rio de Janeiro, em 1989. Um ano depois chega a Brasília e começa a atuar em grupos de teatro no ambiente estudantil e monta a peça Acorda Brasil. Foi a primeira atriz negra graduada em Interpretação Teatral pela Universidade de Brasília. Atuou no curta A dança da Espera, e em diversos espetáculos teatrais; Protagonizou e concebeu os espetáculos: Uma Boneca no Lixo, premiado em 1999 pelo Governo do Distrito Federal e dirigido por Hugo Rodas; Dra. Sida, premiada pelo Ministério da Saúde em 2000 e no I, II e III Ciclo de Dramaturgia Negra realizado em Brasília e Porto Alegre.

Estreou na literatura em 2000, publicando textos nos Cadernos Negros; e Cadernos Negros “Black Notebooks”, edição bilíngue com volumes em prosa e poesia editados nos Estados Unidos. A seguir, participa da  antologia crítica Literatura e afrodescendência no Brasil (2011), ao lado de 99 outras autoras e autores negros brasileiros dos séculos XVIII, XIX, XX e XXI. Por fim, em 2018, integra a coletânea Encontros com a poesia do mundo. Foi crítica teatral da revista Tablado, de Brasília. Mestre em Artes (UnB) com pesquisa sobre as estéticas nos teatros negros brasileiros e ênfase no ensino de artes. Membro da Academia de Letras do Brasil seção DF onde ocupa a cadeira 34 e do Sindicato dos Escritores do DF.

Em 2010, lança sua primeira publicação individual, Não vou mais lavar os pratos. Seu segundo livro – Espelhos, miradouros, dialéticas da percepção, de 2014, apresenta narrativas curtas voltadas para os dramas cotidianos da juventude negra e periférica. Em 2014, a autora publica Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, em que retoma seu projeto de uma poesia afro-brasileira empenhada em tocar nas mazelas do racismo estrutural presente entre nós. Em 2016, retoma sua veia narrativa com os contos de O tapete voador, para, no ano seguinte, brindar seus leitores com mais um volume de poesia – Terra negra. Este último tem destacada sua "cadência cênica" pela prefaciadora Elisa Lucinda, para quem "tem cor esse livro, tem batuque na elegância rítmica deste falar."


Temas da sua escrita: Os modos de ser e de viver da população negra, suas tradições, sua subjetividade, a sexualidade, o erotismo, a relação com as religiões de matriz africana e afro-brasileiras. O homem, a mulher, a infância, a maternidade, os paradoxos sociais, as possibilidades de ruptura de padrões e modelos estabelecidos, o corpo negro.

"Para pensar sobre o corpo negro, é preciso se lembrar dos corpos não negros. De que corpo negro estamos falando? O corpo negro surge como uma criação do colonizador, é um corpo desumano, desprovido de alma. Ora, o corpo é uma manifestação da consciência, não existe fora das relações com outros corpos. Um corpo se cria a partir da construção do outro, do que significa para o outro. A cultura patrimonial brasileira decreta que negros não têm a posse dos seus corpos, podem ser violentados, explorados, subalternizados. As relações sociais e a visão que o homem e a mulher negra têm de si mesmo nascem contaminadas por essa genética social.".

Foi a última homenageada da programação. Mas já no PALCO ABERTO pedi licença para apresentar uma outra mulher negra maravilhosa, que acabei de conhecer:


Luiza Mahin

Africana guerreira, teve importante papel na Revolta dos Malês, na Bahia. Além de sua herança de luta, deixou-nos seu filho, Luiz Gama, poeta e abolicionista. Pertencia à etnia jeje, sendo transportada para o Brasil, como escrava. Outros se referem a ela como sendo natural da Bahia e tendo nascido livre por volta de 1812. Em 1830 deu à luz um filho que mais tarde se tornaria poeta e abolicionista. O pai de Luiz Gama era português e vendeu o próprio filho, por dívida, aos 10 anos de idade, a um traficante de escravos, que levou para Santos.

Luiza Mahin foi uma mulher inteligente e rebelde. Sua casa tornou-se quartel general das principais revoltas negras que ocorreram em Salvador em meados do século XIX. Participou da Grande Insurreição, a Revolta dos Malês, última grande revolta de escravos ocorrida na Capital baiana em 1835. Luiza conseguiu escapar da violenta repressão desencadeada pelo Governo da Província e partiu para o Rio de Janeiro, onde também parece ter participado de outras rebeliões negras, sendo por isso presa e, possivelmente, deportada para a África. Luiz Gama escreveu sobre sua mãe: “Sou filho natural de uma negra africana, livre da nação nagô, de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa, magra, bonita, a cor de um preto retinto, sem lustro, os dentes eram alvíssimos, como a neve. Altiva, generosa, sofrida e vingativa. Era quitandeira e laboriosa”. 

E continuou o PALCO ABERTO, com poemas da nossa querida Ana - Ana Luiza Apgaua, mais homenagens à nossa convidada especial, que transbordava alegria, obrigada querida Edvalda... e muita coisa mais. Além de ótimas conversas, tudo que o SBC adora... terminamos com o Peixe e nossos agradecimentos aos queridos Ernane e Clara, que não puderam estar presentes - quinto mês de gravidez, uma menina!!! 

Nosso próximo sarau já marcado no Andu, dia 4 de junho, feriado Corpus Christi, conversaremos sobre a nossa cidade e suas mulheres,  o processo de gentrificação - . sabem de que se trata? -  nos bairros, especialmente a região da Lagoinha ... e também em Santa Tereza.

Até lá, abraços carinhosos às pessoas que nos seguem

Santuza TU



terça-feira, 14 de abril de 2026

ESTREIA CINE CLUBE LEON HIRSMAN

 


Finalmente... estreia do nosso cine clube, como parte do projeto CLUBE DE CULTURA: CINEMA E LITERATURA.  Era pra ter acontecido na primeira terça feira do mês passado... Porém, problemas técnicos de última hora nos impediram essa estreia. Então praticamos a máxima de Ho Chi Min : "quando quero muito alguma coisa, treino a paciência, ando bem devagar... pra dar certo". 

E aconteceu... Como sempre, de uma maneira potente, cheia de energia boa... na sede do nosso querido partido PCdoB em Belo Horizonte, com o filme ELES NÃO USAM BLACK TIE, do diretor Leon Hirsman, cujo nome é emprestado para o nosso Cine Clube.



Eles Não Usam Black-tie acompanha um jovem operário e sua namorada que decidem se casar diante de uma gravidez inesperada, mas veem sua vida transformada quando uma greve divide a categoria e coloca pai e filho em lados opostos. Ambientado no período de transição pós-ditadura, o filme mescla drama familiar e questões sociais, com atuações marcantes e visão crítica da sociedade brasileira, sendo considerado um dos grandes clássicos do cinema nacional.





Trata-se de  filme brasileiro de 1981 baseado na peça Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri. A película foi premiada em vários festivais internacionais, com destaque para o Festival de Veneza, onde recebeu o Grande Prêmio do Júri. Em novembro de 2015, o filme entrou na lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Além de Guarnieri, participam do elenco atores importantes da dramaturgia brasileira, como Fernanda MontenegroMilton GonçalvesCarlos Alberto RiccelliBete Mendes e Flávio Guarnieri, como filho mais novo de Fernanda e Guarnieri.

https://www.instagram.com/reel/DW2S7WrCBbb/?igsh=cTQ4cWo5ZHlsOXlh

Fizemos um pequeno vídeo do nosso encontro, link acima, está no nosso instagram @coletivo cultural PCdoB, aproveita e entra lá no insta e segue a gente:

E, depois do filme, recorri ao grande Lênin:

Ampliando a conexão entre teoria e prática, para que não seja uma teoria ou prática  alienadas e nem cegas, temos o AFETO, sermos afetados(as). Ou seja, a  teoria, tudo que já foi um processo de reflexão de alguém  - no caso, o filme - nos provoca reflexões, passa por dentro de nós - SOMOS AFETAD@S PELA TEORIA ... e compartilharmos essas reflexões, produzindo novas teorias, novos conhecimentos, novas visões da realidade. Esse é o movimento de nos tornarmos SUJEITOS CRÍTICOS... e atuantes enquanto transformadores do mundo, desde o micro até o macro.

E foi com essa provocação, 'de que maneira fomos afetados(as) pelo filme', que fizemos uma rodada e trocamos experiências e reflexões potentes sobre o Brasil daquela época do filme e o Brasil agora... nos emocionamos e nos recarregamos de energia e esperança para a luta  a fim de sermos sujeitos na construção de um Brasil melhor, mais justo e mais bonito.

Enfim, a metáfora do final do filme, muito forte: o casal "catando feijão"... separando o feijão das pedras e sujeiras que veem junto... 

O filme completo está no YouTube, vale a pena assistir.

E já temos nossa programação para a primeira semana de maio, dia 5, 18.30 horas... todas e todos convidadíssimos(as), já podem espalhar o card:

Até lá, abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham,

Santuza TU



sexta-feira, 3 de abril de 2026

NOSSO SARAU DE 2 DE ABRIL

 Uma vez ouvi de uma amiga uma definição de sorte: "... vem a ser a capacidade de 'ver'' e de 'agarrar' as oportunidades que aparecem". Pois no SBC estamos sempre praticando esse "exercício de sorte". 

Assim como, também, praticamos o exercício aprendido na infância, em Salinas, o de "um gambá cheira outro", ou seja, além de 'ver' e 'agarrar', também 'cheiramos' as pessoas que, potencialmente, são SBCenses. E quase sempre acertamos, escolhemos aquelas pessoas que, num primeiro encontro, já se identificam com nossos conceitos de vida, de amizade, de sentido estético.

Pois foi isso que aconteceu com a nossa querida Marli, convidada especial do sarau SBCence NOSSAS MULHERES de ontem, 2 de abril. 

Depois da nossa abertura, apresentando o SBC, nossos conceitos, e o Projeto Nossas Mulheres (reparem como está lindo o Bar Taboca, todo decorado com imagens de mulheres maravilhosas, brasileiras), apresentamos nossa querida Marli:

Marli Fróes é poeta e ensaísta, nascida em Montes Claros (MG), e reside em
Diamantina há seis anos. É autora do livro de poesias Carnaverbo, obra
indicada no processo seletivo do Programa de Mestrado em Literatura da
Universidade Estadual de Montes Claros (2025–2026). Autora dos livros
Fendas (no prelo) e o livro ensaístico A autoria, a paixão e o humano em
Clarice Lispector (no prelo). Graduada em Letras, pela Universidade Estadual
de Montes Claros, Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Federal
de Uberlândia, Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de
Juiz de Fora. Marli Fróes ocupa a cadeira 30 da Academia de letras do Vale
Jequitinhonha (ALVA), desenvolve projeto “Mosaico Literário” e Clube de
Leitura, junto ao IFNMG e UFVJM, sob coordenação do Professor Ulisses
Barros de Abreu Maia. Atuou no Projeto “Sarau do Quintal” por 6 anos, na
cidade de Januária-MG.
Participou de diversas antologias em todo o país, além de publicar textos em
revistas, jornais e blogs literários. É coorganizadora das coletâneas Poetas de
uma só língua e Antologia Psiu Poético, ambas pela Editora Catrumano.
Durante a pandemia, atuou por dois anos, em parceria com poetas
brasilienses, na realização do programa de entrevistas e debates literários Os
Três Mal-Amados, transmitido por plataforma de streaming. O projeto teve
como objetivo promover conversas sobre literatura, dar visibilidade a autores
independentes e fomentar o diálogo entre escritores contemporâneos e nomes
do cânone.
É professora do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais - IFNMG – Campus
Diamantina, onde desenvolve trabalho com letramento literário, por meio do
Projeto Ciranda Literária e se dedica à valorização da literatura do Vale do
Jequitinhonha em suas práticas pedagógicas.
Integra a primeira geração do Psiu Poético, Festival de Arte contemporânea do
qual participa desde a década de 1980 e que, em 2026, celebra 40 anos como
um dos mais importantes eventos literários do país. Foi poeta homenageada
pelo festival em 2008 e também pelo Festival Internacional de Poesia de São
Paulo (Sampoesia), em 2010.
Em 2025, participou da antologia comemorativa Constelação Haroldo de
Campos, publicada pela Editora Território das Artes, e integra a Antologia
crítica Novas vozes da poesia brasileira, pela Editora Arribaçã, dentre outras
participações em Antologias.

A seguir um dos poemas dessa linda:

Tecido único

O tempo é o agora
instante-já,
em ciranda
com o barro primeiro,
cantando para o tempo futuro.

Seres do tempo
e da comunhão
é lição da terra.

Micélios,
entes mais antigos
Fios longos, matéria tridimensional.
que nos assentam nesse planeta.
Na sua subterrânea rede comunicativa,
nutrientes, vida e reino.
Rede florestal
veio antes da rede social.

O micélio liga uma árvore à outra
há uma inteligência vegetal nesses elos...

Já as mulheres
sabem cirandar
à beira do rio
ou da fogueira.
Nas rodas,
repetem gestos antigos
fiam, costuram,
tecem, entrelaçam fios
curam filhos.

As células das mães
no corpo dos filhos...
As células dos filhos
no corpo das mães...

Vínculo que atravessa o tempo
Memória, origem
continuidade
do tecido da vida
modo materno
de nunca morrer.

Vida que se multiplica
nos elos visíveis
ou intangíveis,

feito o vento
que carrega sementes,
abelha que poliniza,
correntes marítimas
que ligam continentes,
fotografias que unem tempos,
trilhos de trens e estradas
ligando destinos

a palavra primeira
o código inicial
ecoando nos tempos
DNA atravessando gerações

Somos seres da ressonância,
quando meu peito vibra
- no outro-
em todo elo
que não seja prisão

Depois de outros poemas dela, declamados por ela  mesma e outras de nós, passamos à apresentação das nossas homenageadas. 

E invertemos, anarquicamente,  a ordem do card convite, começando com a nossa querida Antonieta Shirlene apresentando Elizabeth Teixeira a partir de um posicionamento histórico perfeito, elaborado por essa bela historiadora Antonieta. Vale a pena ver o vídeo.

Aqui só um pequeno trecho da sua pesquisa:



E Antonieta usou, na sua apresentação, a música maravilhosa do Gonzaguinha, na interpretação da grande Elza Soares, aliás uma das mulheres maravilhosas do nosso varal. Todas e todos nós cantamos junt@s...


Cantamos também, entre as apresentações,  junto com Maria Betânia, Chico Chico, Chico Science, Marina Sena, uma seleção  musical da nossa querida convidada Marli.

Depois a nossa querida Iza apresentou Hilda Hilst (1930-2004):

"Foi uma das vozes mais radicais e geniais da literatura brasileira. Abandonou uma vida badalada em São Paulo para viver isolada na "Casa do Sol", em Campinas, onde se dedicou à escrita intensa, pesquisou vozes de mortos (transcomunicação) e acolheu diversos artistas, deixando uma obra marcada pelo erotismo, misticismo e existencialismo. 

Curiosidades marcantes sobre Hilda:

. Namoro com Dean Martin: em 1957, durante uma viagem pela Europa, Hilda namorou o ator e cantor americano Dean Martin;

. Tentativa de seduzir Marlon Brando: ainda na mesma época tentou se passar por jornalista para assediar o famoso ator Marlon Brando, sem sucesso;

. Caçadora de fantasmas: fascinada pelo ocultismo, Hilda praticou a transcomunicação instrumental entre 1974 e 1979 na Casa do Sol. Ela gravava rádio e televisão buscando vozes do além, chegando a tentar contatar a amiga Clarice Lispector, falecida em 1977;

. Abandono do sucesso: Formada em Direito pela USP, vivia uma vida social intensa, e decidiu, em 1965, largar tudo para se dedicar inteiramente à literatura;

. Rejeição ao termo "POETISA": Hilda não gostava de ser chamada de "poetisa", porque acreditava que o termo diminuía o trabalho, das  mulheres;

. Casa do Sol: sua casa no interior de São Paulo tornou-se um refúgio para artistas, amigos e intelectuais, transformando-se hoje no Instituto Hilda Hilst (IHH);

. Amizade com Caio Fernando Abreu: Hilda desenvolveu uma grande amizade com  o escritor , que foi um dos muitos artistas que frequentaram seu refígio;

. Reconhecimento tardio (e erótico): apesar de ser uma das maiores escritoras do século XX, Hilda sentia-se pouco lida, Frustrada, passou um tempo escrevendo literatura erótica e pornográfica para tentar vender mais, declarando na época: "A obscenidade me parece mais pura do que essa hipocrisia de escrever coisas bonitinhas";

. "Guerra de meleca": apesar de densidade de sua obra, amigos relatam que Hilda era uma pessoa leve e brincalhona, gostando de fazer guerra de comida ("guerra de meleca") com os visitantes na Casa do Sol;

. Fumante inveterada: Hilda fumava cerca de três maços de cigarro por dia, o que influenciou  os problemas de saúde que levaram à sua morte em 2004, incluindo um câncer de pulmão.

E Iza interpretou o belíssimo poema da Hilda:

Marli aproveitou para indicar um livro super atual dessa autora, que trata de prostituição infantil:


Em seguida apresentei minha pesquisa sobre nossa terceira (que era a primeira) homenageada:

Lygia Fagundes da Silva Telles nasceu em São Paulo em 19 de abril de 1918 e

morreu em 3 de abril de 2022, aos 103 anos, de causas naturais.

Conhecida como "a dama da literatura brasileira” e "a maior escritora brasileira",

enquanto viva, além de advogada, romancista e contista. Lygia teve grande

representação no pós-modernismo, e suas obras retratavam temas clássicos e

universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.

A obra lygiana constitui-se de quatro romances, 20 livros de contos, algumas

crônicas, participações em antologias e coletâneas.   Com publicações de sucesso

no exterior, teve seus livros lançados em diversos países: Portugal, França, Estados

Unidos, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, Espanha e República Checa, entre

outros, com obras adaptadas para a televisão, teatro e cinema. 

Sua estreia literária foi com o livro de contos Porão e Sobrado (1938), o qual foi bem

recebido pela crítica; o sucesso se repetiu com Praia Viva (1944). Seu primeiro

romance, Ciranda de Pedra, publicado em 1954, foi bem recebido pela crítica e público,

tornando-a nacionalmente conhecida. Em paralelo à carreira literária, ela trabalhou

como Procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, cargo que

exerceu até a aposentadoria, e foi presidente da Cinemateca Brasileira, fundada pelo

segundo marido Paulo Emílio. Sim, ela se casou duas vezes, a segunda nos anos 60,

quando não havia divórcio e era um escândalo mulher separada.

A década de 1970 foi de suma importância para Lygia e marcou seu êxito literário e

consagração internacional, dado que foi naquele período em que ela publicou algumas

de suas obras mais aclamadas e prestigiadas: ‘Antes do Baile Verde’ (1970), cujo conto

que dá título ao livro venceu o Grande Prêmio no Concurso Internacional de Escritoras,

na França; As Meninas (1973), que ganhou o Prêmio Jabuti, entre outros; e Seminário

dos Ratos (1977),

Ela tomou posse na Academia Brasileira de Letras em 12 de maio de 1987. Naquele

mesmo ano, tornou-se membro da Academia das Ciências de Lisboa.

Quarta filha de Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, conhecida como Zazita,

uma pianista, e Durval de Azevedo Fagundes, procurador e promotor público, Por causa

da mentalidade preconceituosa da década de 1920, em que as mulheres não tinham

condições de ousar determinadas profissões, sua mãe, uma excelente pianista, não

prosseguiu na carreira que começou na adolescência, fazendo apenas os deveres

domésticos considerados femininos. "Eu me lembro, era menina quando ia com a cesta

para colher goiabas no quintal da nossa casa lá em Sertãozinho, onde meu pai era

promotor. Minha mãe seria mais feliz se fosse pianista? E se ela continuasse estudando

e compondo naquele antigo piano preto com os quatro castiçais, hein? Mas esta seria

uma extravagância, uma ousadia e em vez de abrir o álbum de Chopin ela abria o

caderno de receitas".

Em 1973, Lygia ganhou vários e importantes prêmios brasileiros com o romance As

Meninas, publicado em Nova Iorque, em 1982

A sinestesia é uma das principais figuras de linguagem utilizadas nos contos de Lygia:

(MISTURA SENSAÇÕES DE SENTIDOS DIFERENTES) Ex: Um azul gritante (visão

e audição); O cheiro aveludado de café (olfato e tato)

a cor verde é constantemente citada como referência à passagem da vida à morte; às

vezes, alude à esperança, à inveja e ao dinheiro. 

Lygia era socialista na juventude, e voltou a ser novamente na terceira idade,

afirmando crer que o socialismo era a única saída. “Faço política ao poder político.

Denuncio, de forma romanceada, as torturas, os vícios, as feridas e os mandos e

desmandos de nossa sociedade”.

Não por acaso, selecionei para compartilhar entre nós um trecho de “A disciplina do amor (fragmentos)” dessa grande autora:

“O homem é tão necessariamente louco que não ser louco representaria uma outra forma de

loucura”, escreveu Pascal. Deve ter pensado nisso a psiquiatra Karen Horney quando fez uma

lista dos sintomas básicos da neurose, uma lista enorme, dela quase ninguém escapa. A loucura no

cardápio. Basta ler e apontar, esta é a minha. Selecionei as neuroses mais comuns e que podem

nos levar além da fronteira convencionada : necessidade neurótica de agradar os outros.

Necessidade neurótica de poder. Necessidade neurótica de explorar os outros. Necessidade

neurótica de realização pessoal. Necessidade neurótica de despertar piedade. Necessidade

neurótica de perfeição e inatacabilidade. Necessidade neurótica de um parceiro que se encarregue

da sua vida -ó Deus! - mas desta última necessidade só escapam mesmo os santos. E algumas

feministas mais radicais.

Tão difícil a vida e o seu ofício. E ninguém ao lado para receber a totalidade (ou parte) do fardo.

Os analistas, caríssimos, e na maioria, um lixo : um lixo Freud considerava a totalidade dos seres

humanos, isso nos últimos anos da sua vida sem muita ilusão. Ele não conheceu seus discípulos. E

por acaso é com o analista que se comenta a fita na saída do cinema? O livro. O sabor do vinho,

esse gosto meio frisante, hem? E esta pele e esta língua. A minha tiazinha falava muito na falta

que lhe fazia esse ombro amigo, apoio e diversão, envelheceu procurando um. Não achou nem o

ombro nem as outras partes, o que a fez choramingar sentidamente na hora da morte, mas o que

você quer, queridinha?! a gente perguntava. Está com alguma dor? Não, não era dor. Quer um

padre? Não, não queria mais nenhum padre, chega de padre. Antes do último sopro, apertou

desesperadamente a primeira mão ao alcance : “É que estou morrendo e não me diverti nada!”

Encerrando, nossa entrega de certificado à querida Marli Fróes, como sempre ligeiramente molhado de cerveja, uma marca do SBC... E aí fomos nos encontrar como nossos amigos que estão sempre ali em frente nos observando carinhosamente:



Vejam que dessa vez eles até ganharam echarpes... e ficaram lindos!!!

Obrigada a todas as pessoas que nos acompanham... E até a próxima!
Abraços carinhosos
Santuza TU