Quanto Mais Quente Melhor, filme de 1959, dirigido por Billy Wilder, uma comédia clássica estadunidense que mistura humor inteligente, sátira social e atuações marcantes de Marilyn Monroe, Tony Curtis e Jack Lemmon. O filme é considerado uma das melhores comédias da história e continua irresistível e divertido décadas depois.
Durante a Lei Seca em Chicago, dois músicos, Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon),testemunham um assassinato cometido por mafiosos e, para escapar, se disfarçam de mulheres e se juntam a uma banda feminina que viaja para Miami, as duas mais novas e menos atraentes integrantes de uma banda de jazz. Até que uma cantora carente (Marilyn Monroe) se apaixona por uma das "meninas" e um experiente playboy pela "outra". Enquanto mantêm seus disfarces, Joe finge ser uma herdeira rica para conquistar Sugar (Marilyn Monroe), a vocalista da banda, e Jerry lida com as investidas de Osgood (Joe E. Brown), um milionário apaixonado por sua persona feminina. A situação se complica quando os mafiosos os encontram no hotel, mas Joe e Jerry conseguem escapar em um iate junto com Sugar e Osgood, culminando em revelações inesperadas e finais cômicos.
Homens vestidos de mulher aparecem no cinema desde o teatro grego, Shakespeare e o cinema mudo até Quanto Mais Quente Melhor. No entanto, 1959, numa Hollywood ainda submetida a fortes restrições morais e de censura, a ousadia na abordagem do gênero se torna uma das características que fazem o filme tão importante.
Sugar Kane (Marilyn) acredita estar se relacionando com mulheres quando conhece Josephine e Daphne (Joe e Jerry) sem saber que são homens. Joe, por sua vez, apaixonado por Sugar, precisa seduzi-la enquanto está vestido de mulher, criando uma das situações mais ambíguas da comédia. Por isso, Quanto Mais Quente Melhor permanece tão interessante: a roupa começa como disfarce, transforma-se em personagem e acaba questionando a própria ideia de identidade.
O disfarce, inicialmente uma necessidade para sobreviver, começa a produzir situações em que masculino e feminino, identidade e aparência, desejo e convenção social ficam completamente embaralhados.
Para preparar Tony Curtis e Jack Lemmon para seus papéis, o estúdio contratou Barbette, uma famosa drag queen, para treiná-los.
Tony Curtis/Josephine tenta construir uma feminilidade elegante, discreta e sedutora. Curtis estudou cuidadosamente gestos, postura e maneira de andar. Jack Lemmon/Daphne, ao contrário, vai progressivamente se divertindo com sua identidade feminina. Ele dança, flerta e chega a aceitar a possibilidade de casamento com o milionário Osgood. E é justamente aí que o filme começa a mexer com algo muito mais profundo: até que ponto gênero é aparência, comportamento, papel social ou desejo?
No final, Osgood descobre que Daphne é um homem — e a resposta dele é a famosa frase que encerra o filme: “Nobody's perfect.” ...
"Ninguém é perfeito", tornou-se uma das frases mais memoráveis do cinema. Inicialmente, era apenas uma frase provisória que Wilder e Diamond planejavam substituir, mas acabou permanecendo. A frase foi eleita a 78ª entre as 100 falas favoritas de filmes de Hollywood pelo The Hollywood Reporter. A lápide de Wilder homenageia a fala com a inscrição: "Eu sou um escritor, mas ninguém é perfeito". Em 2000, o jornal The Guardian classificou a cena final em 10º lugar na lista dos "100 melhores momentos do cinema".
Mas para além do "ninguém é perfeito" do filme, se referindo ao 'humor' do milionário Osgood quando descobre que a mulher pela qual ele estava apaixonado era um homem, pensamos essa frase = ou essa ideia = como um conceito sobre nossa humanidade, que merece toda nossa atenção, reflexão e aplicação nas nossas vidas e nas nossas relações. E foi sobre isso nossa conversa de hoje:
Perfeccionismo é morte lenta. Se tudo se realizasse da maneira que eu gosto, da maneira que eu planejo, eu então nunca experimentaria algo novo; minha vida seria uma repetição em fim de sucessos insípidos.
Quando cometo um erro, eu experiencio alguma coisa de inesperado.
Algumas vezes reajo, quando erro, como se tivesse traído a mim mesmo. Meu medo de errar parece ser baseado numa premissa velada de que eu sou potencialmente perfeito e que, se puder ser muito cuidadoso, não cairei do pedestal.
Mas, um “erro” é uma declaração do que eu sou, um confronto com a maneira que pretendo ser, um lembrete de que não estou lidando com a realidade.
Quando “escuto” meus erros tenho possibilidade de crescer.
O texto acima é de Hugh Prather, famoso escritor estadunidense dos anos 70, época da juventude hippie, que buscávamos viver em comunidade, construir a contracultura, buscar relações mais livres e simétricas, enfim, nos construir na nossa humanidade. Tudo isso combatendo o autoritarismo em todos os níveis de relações, desde as íntimas = afetivo sexuais, passando por família, trabalho... e chegando às relações mais amplas, combatendo o sistema em que vivíamos, da forma como podíamos para não sermos "apagad@s" da história. Época, como já conversamos, em que não podíamos falar sobre política nem criticar o regime, no entanto fazíamos política num sentido amplo do termo = fazíamos uma espécie de 'revolução cultural', questionando padrões impostos no que dizia respeito à gênero, feminismo, buscando simetria nas relações entre pares, nas relações sociais, enfim...
E, claro, questionávamos também a "educação" que recebíamos, principalmente das nossas mães, que tentavam nos transmitir a ideia de perfeição, que combinava enormemente com os padrões femininos a serem internalizados para que desempenhássemos os papéis a nós estabelecidos nessa sociedade patriarcal.
Época que coincidia, também, com a ampliação do mercado de trabalho para as mulheres, junto com o nosso entendimento de que a autonomia passava pelo bolso... e, com a ideia do perfeccionismo internalizada, fomos acumulando papéis = tarefas: filha perfeita, esposa perfeita, mãe perfeita, dona de casa perfeita, trabalhadora perfeita... e uma amiga, num momento de 'afeto' com essa questão, me confidenciou: 'o quarto ou quinto turno, pra mim, é sentido como um estupro, não tenho a mínima condição de sentir prazer numa relação sexual'...
E refletimos: Nisso é que dá querermos ser perfeitas! Melhor, isso é uma das consequências... Quanto sofrimento vivenciamos com esse "destino tão internalizado"... Quando esforço precisamos fazer para, primeiro, enxergarmos a armadilha em que caímos (pois isso acontece "sempre"!, lembrem=se que a cultura é nossa segunda natureza); e, segundo, tentar sair da armadilha, nos humanizando.
E 'ir saindo' da armadilha passa, necessariamente, pelo movimento de 'humanização' da nossa mãe... Sim, porque isso acontece em mão dupla: sofremos com a idealização que nossas mães fazem de nós, e devolvemos da mesma forma, ou seja, também idealizamos nossas mães... e ''exigimos" delas a mesma perfeição que elas nos exigem... e assim se configura o circulo vicioso, bastante útil à permanência dos papéis sociais, o desempenho do que se convenciona como 'papéis femininos' numa sociedade que deseja que a mulher se submeta, 'fique no seu quadrado' como disse querida SBCense.
Pois quisemos sair desse quadrado... e arregaçamos as mangas...
E outra querida SBCense disse: sim, mas lembremos que a história não é linear, e 'vira e mexe' nos vemos no sofrimento de corresponder às expectativas das nossas mães; e ou na exigência da perfeição das mesmas; e ou na cobrança às nossas filhas... e, assim repetimos nosso 'destino', perpetuando uma sociedade massacrante para nós, mulheres.
Enfim, reflexões como essa nos exigem humildade, nos exigem força, coragem... e, principalmente, esforço no sentido de caminharmos para nossa HUMANIZAÇÃO.
E mais uma coisa: o riso, que desoxida talentos, inclusive o talento para a própria vida.
Abraços carinhosos,
SantuzaTU
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