O SBC, no nosso sarau de ontem, se transformou em RBC - Rapper Bobagem e Cerveja... e tudo bem, estamos confirmando nossa tradição inclusiva, anárquica, feminista... e intergeracional.
Já na entrada do nosso querido ANDU DE DOIS, six seven... farmando aura!!! Olha só nosso 'estandarte', maravilhoso...
O mesmo estandarte na parte de trás o SBC... e nossas duas lindas, atrás delas nosso já famoso projeto SEBO DA MAITÊ, circularidade de livros, 'bombando'.
Nossa queridíssima Paloma, direto de Brasília... no Instagram LADY CALI, seu nome artístico, sigam essa artista maravilhosa!
A seguir dois vídeos da sua apresentação, só uma 'palinha', no nosso YOUTUBE, vale a pena dar uma olhada... e aproveitem para se inscrever🙏🙏🙏
Depois da lindíssima apresentação da Lady, querida SBCense Deyse Magalhães nos apresentou nossa primeira homenageada: Neusa Santos Magalhães. Foi emocionante, pois a Deyse trouxe reflexões importantíssimas sobre a vida de mulheres negras no nosso país.
Com carinho ela compartilha conosco sua pesquisa e seu texto:
Neusa Santos Souza: tornar-se negro é um ato de liberdade
Neusa Santos Souza é uma mulher que transformou a maneira como pensamos o racismo no Brasil. Falar de Neusa Santos Souza é falar de coragem intelectual, mas também de coragem humana.
Neusa nasceu em 1948, na Bahia. Tornou-se médica, psiquiatra e psicanalista em uma época em que havia pouquíssimas mulheres negras ocupando esses espaços. Sua simples presença já desafiava estruturas históricas de exclusão.
Mas Neusa não queria apenas ocupar um lugar. Ela queria compreender o sofrimento produzido pelo racismo e oferecer caminhos para a liberdade.
Em 1983 publicou aquele que se tornaria um clássico do pensamento brasileiro: Tornar-se Negro. O próprio título é provocador. Afinal, ninguém nasce compreendendo plenamente o que significa ser negro em uma sociedade racista. Para Neusa, tornar-se negro é um processo de consciência, de reconhecimento e de afirmação.
Ela mostra que o racismo não atua apenas nas oportunidades sociais. Ele invade a subjetividade. Faz com que muitas pessoas negras cresçam acreditando que precisam negar sua origem, seus traços, sua cultura e sua história para serem aceitas.
Esse talvez seja um dos conceitos mais importantes de sua obra: o sofrimento psíquico causado pelo racismo.
Ela afirma que o ideal de beleza, de inteligência, de sucesso e de humanidade foi construído tendo a branquitude como modelo. Muitas pessoas negras passam então a viver um conflito permanente entre quem são e quem aprenderam que deveriam ser.
Mas Neusa não escreveu para alimentar a dor. Ela escreveu para mostrar que existe um caminho de reconstrução.
Tornar-se negro significa romper com esse padrão imposto. Significa reconhecer a própria história, valorizar a ancestralidade e construir uma identidade baseada no orgulho e não na vergonha.
Essa reflexão permanece profundamente atual.
Ainda hoje observamos desigualdades no acesso à educação, ao mercado de trabalho, à saúde e à representação política. Ainda hoje crianças negras crescem vendo poucas referências positivas parecidas consigo.
Por isso Neusa continua sendo tão necessária.
Ela nos ensina que combater o racismo não é apenas criar leis ou políticas públicas. É também cuidar das pessoas. É compreender que a discriminação deixa marcas emocionais profundas e que a saúde mental também é uma questão de justiça social.
O racismo tenta convencer uma pessoa de que ela vale menos. A consciência racial faz exatamente o contrário: devolve a dignidade, a memória e a possibilidade de existir plenamente.
💝💝💝
Em seguida nossa querida Ana Luiza Apgaua nos trouxe a segunda homenageada: Flora Maia Matos.
E nos emprestou seu texto de apresentação para compartilharmos:
Boa noite, mulheres de luta, de samba e de cerveja!
Hoje o nosso palco pede passagem para uma força da natureza.
Uma mulher que não pede licença, ela chega e 'dropa' o verso.
Direto de Brasília para o mundo, ela é o terror dos pretensiosos e a voz de quem tem atitude.
Se o rap fosse um tabuleiro de xadrez, ela já teria dado xeque-mate faz tempo.
Dizem por aí que ela é polêmica...
Mas a verdade é que mulher com opinião própria e que não abaixa a cabeça assusta quem está acostumado com o silêncio!
Flora Matos é a linha de frente.
É o "Pretin" que grudou na nossa mente e não sai mais.
É a prova viva de que a sensibilidade e a resposta afiada andam de mãos dadas.
Ela resiste rimando, vence existindo e bota ritmo na nossa caminhada.
Santuza Fernandes criou este espaço no SBC, para homenagear quem faz história.
E a Flora faz história a cada compasso, quebrando as barreiras de um mundo que insiste em tentar calar as mulheres.
Com vocês, a força, a poesia e o som de Flora Matos!
As obras marcantes de Flora Matos, como "Pretin" e "Piloto", misturam romantismo e vivência urbana com temas de autonomia feminina e resistência. Faixas como "Ser Sua", "Teia" e "Preta de Quebrada" reforçam seu estilo empoderado e autêntico.
E nossa querida Lady voltou ao palco e interpretou uma música da Flora. Infelizmente não temos o vídeo. Então vamos da original, Flora, para vocês conhecerem:
Eita que foi bonito, sô...
A seguir a entrega de certificado de Participação Especial à nossa querida Lady Cali... e mais algumas fotos compartilhadas por amigas e amigos:
E ao final queríamos fazer uma foto do pessoal da cozinha, que prepara com o maior carinho pratos deliciosos das geraes... ainda não conseguimos ... ficou pro nosso próximo sarau, primeira quinta de setembro. Mas o Peixe já "vestiu nosso estandarte":
Obrigada todos e todas do ANDU, obrigada amigos e amigas presentes ao nosso sarau
Filme já visto por algumas pessoas presentes, desde 2017, várias vezes, cada vez discutimos um ponto do mesmo. Post de 15 de dezembro de 2021 fala sobre o mesmo, refletindo sobre nosso raciocínio maniqueísta e os danos relacionais decorrentes, fazendo ligações com o fascismo e o nazismo - o diferente deve ser 'exterminado'.
Desta vez, no nosso sarau de ontem, sempre a partir da nossa metodologia TAP Teoria Afeto Prática - que nos faz sujeitos do conhecimento e construtores(as) do mundo que queremos, para além de meros reprodutores das coisas como estão - muitos assuntos foram abordados dentro dos afetos de cada um(uma) dos(as) participantes: a 'desumanização' do outro usada como pretexto para a aniquilação; o 'ideal' de pureza que nos desumaniza; o genocídio - que não foi somente de judeus - os ciganos, os homossexuais e os diferentes em geral foram exterminados; além do número de russos mortos, que foi enorme. Trazendo para a atualidade, o genocídio na Palestina; e, trazendo para o Brasil, o genocídio dos nossos povos originários!
Uma pergunta - curiosidade - foi colocada: quem são os judeus? Daí foi prometido um texto e filmes sobre tal assunto, sugeridos para nosso próximo cineclube, além da sugestão de filmes sobre a Palestina e oriente em geral, para que conheçamos mais essa região e sua cultura.
E concluimos nosso debate, trazendo para a atualidade e o nosso Brasil, refletindo sobre três palavras chave:
HISTÓRIA
POLÍTICA
MEMÓRIA
Três conceitos diferentes e que guardam relações entre eles:
. Memória não é passado, é a 'reconstrução mediada do passado'. Mediada por instituições, religião, escola, família, estado), ou seja, são construções (sociais, psicológicas) do passado.
. Corroborando afirmação anterior, "lembrar e esquecer são atos produzidos".
. Estado, Memória e Nacionalismo: o filme nos mostra muito bem como a "destruição" de manifestações artísticas e o culto à "arte pura" tinha interesses claros: a construção da raça pura, o ódio ao diferente. Ou seja, o que o Estado 'apaga' e 'realça', a partir de interesses, de maneira a construir a base do Nacionalismo.
E aqui no nosso país? "O povo brasileiro não tem memória", afirmação errônea... e comum tanto no campo conservador (direita) quanto no campo democrático (esquerda). Na verdade, a memória é manipulada a partir dos interesses - o que lembrar e o que esquecer - e aí se faz política.
. Os campos de direita e esquerda estão em disputas de memória, melhor dizendo, disputas sobre a percepção do passado. Exemplos: a pandemia, mais de 700 mil mortes, o 8 de janeiro...
. E nossa conclusão é que precisamos, urgentemente, de uma 'política de memória no Brasil'. Para isso precisamos eleger pessoas, em todos os níveis, presidência, senado, deputados(as) federais e estaduais, sintonizados com essa demanda necessária à construção de um Brasil soberano, distributivo e mais justo.
Obrigada aos participantes do nosso cineclube, até o próximo, primeira terça feira de setembro.
Botumirim está no norte de Minas, na Cordilheira do Espinhaço, a cerca de 575 km de Belo Horizonte. Significa "serra pequena" ou "pedra pequena" em tupi.
Rolinha do Planalto–Foto: Wilson Santos
A cidade fica próxima ao Parque Nacional das Sempre Vivas e abriga o Parque Estadual de Botumirim. Na entrada, as casinhas coloridas... e as casinhas de passarinhos, pois a cidade - e a região - é conhecida como o "recanto dos passarinhos", especialmente a Rolinha do Planalto: cor de canela, mais clara no ventre, olhos e manchas azuis nas asas, uma das aves mais raras do planeta, que passou 75 anos julgada extinta, até ser reencontrada naquela região em 2015. “Passarinho pintadinho, o tenor da laranjeira”, canta Déa Trancoso.
E o 41º Festivale em Botumirim, promovido pela FECAJE Federação das Entidades Culturais e Artísticas do Vale do Jequitinhonha e o Instituto Sócio Cultural Bruta Flor, celebra a resistência das mulheres do Vale. O evento homenageia a atriz e diretora de teatro Cristina Gonçalves (Mostra de Teatro); a narradora, compositora, cantora e pesquisadora Déa Trancoso (Festival da Canção); a tecelã Marlice Machado (Feira de Artesanato); a mestra da Folia de Reis Jovença Pereira Costa (Mostra de Cultura Popular); e a poetisa Vilma Baracho, in memoriam (Noite Literária). As homenageadas são mulheres que tecem, cada uma à sua maneira, a trama da resistência cultural do Vale, inclusive contra a misoginia do meio artístico.
Ficamos conhecendo um pouco mais da Déa: Em 1995, na décima edição do Festivale, em Rubim, ela subiu ao palco como concorrente e venceu ao interpretar “Tuíra, Índia Guerreira”, de Si Amaral e Celi Márcio — levando o primeiro lugar e o prêmio de melhor intérprete. Trinta e um anos depois, retorna ao festival como homenageada. A escolha daquela canção, hoje, ganha outra camada: Tuíra, liderança indígena que enfrentou a Eletronorte em 1989, era símbolo de resistência. Déa a cantou antes mesmo de reconhecer que carregava, ela própria, uma descendência indígena — uma sincronia que só o tempo despertou. “Eu me reconheci Borum”.
Em entrevista à BdF - Brasil de Fato, ela diz: “Eu não imaginei, nem nos meus melhores sonhos, que um dia eu seria homenageada no Festivale“. Ela pensava que sua música não tivesse “o substrato do sertão”. “Tem, mas não é explícito. Meu texto conversa com o Oriente, conversa com espiritualidades que não são só caboclas”, diz.
Déa fala do Festivale como quem fala de um organismo vivo — e de um tempo que não é o dos relógios. “Nós estamos vivendo crises homéricas. De como ser, de como estar. O capitalismo é um sistema ultra inteligente. Quando ele cai aqui, ele se levanta ali. Ele tem o fascismo como aliado histórico milenar. O fascismo é tudo que é contra a vida”, afirma.
Ao falar da nova direção da FECAJE, ela levanta a questão que considera central: como fazer o Festivale criar permanência — política, cultural, artística, formativa, de resistência? E reflete sem a presunção de saber a resposta: “Não sei se ele tá dando conta desse redemoinho. “Ele faz uma festa itinerante, mas e as outras ações? Como a gente pode estar fora da itinerância de julho fazendo resistência? Qual é a nossa resposta para essa região?”.
E a mesma matéria da BdF Brasil de Fato que fala da Déa e das mulheres homenageadas, nos conta a história de Minas e do Brasil à época do surgimento do FESTIVALE:
Do 'falso milagre econômico da ditadora' - o PIB (produto interno bruto) cresceu, mas o salário mínimo perdeu metade do valor, a dívida externa quadruplicou, a desigualdade disparou — vieram políticas de ocupação para o Vale: uma delas, o eucalipto.
Criado em 1967, o Projeto Rondon levou universitários a regiões isoladas do país. A Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) instalou em Araçuaí um campus avançado vinculado ao programa, que centralizava as ações sociais da universidade no Vale. Mas foi nesse mesmo chão que a resistência brotou pela cultura. Na mesma época, chegou em Araçuaí um frade holandês, Frei Chico. Três anos depois, ouviu a cozinheira da paróquia cantar e disse: “Bonito, Filó!” — “Ah, é bobagem.” (veja o conceito SBCense de bobagem! - coisa boa pra vida). Daquela bobagem nasceu o Coral Trovadores do Vale (1970). Lira Marques entrou no coral e, com Frei Chico, percorreu o Vale com um gravador velho, registrando cantos que ninguém mais cantava. No mesmo período, o Campus Avançado do Vale do Jequitinhonha (CAVJ) - extensão da PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica — aproximou a universidade das artesãs, apoiou a associação, organizou feiras. Frei Chico e o CAVJ não eram a mesma coisa, mas aconteciam no mesmo lugar e no mesmo tempo.
Foi nos anos 70 que Tadeu Martins, Aurélio Silby, Carlos Figueiredo e George Abner — dentro de um ônibus vindo de Belo Horizonte — pensaram em ter um jornal que desse voz e vez à região. Como disse Tadeu, “naquele período da ditadura militar, era preciso buscar formas de organização.” Nasceu o Jornal Geraes (1978).
A partir da rede que o Geraes formou, organizaram o 1º Encontro de Compositores do Vale (3/11/1979, Itaobim). Para divulgá-lo, criaram um cartaz que parodiava os cartazes de “procurados” da ditadura — com as fotos dos músicos e o título “Procurados” em letras garrafais.
O cartaz deu rebuliço: Globo, Alterosa e Band bateram na porta. Foram três entrevistas em TV e mais duas emissoras de rádio — Guarani, Rural e Inconfidência. Lotou o 1º Encontro de Compositores. Foi a base sólida para se criar o Festivale, que nasceu em julho de 1980, em Itaobim.
Antes de ser celebrado, o Vale foi extraído — mineração de diamantes e ouro que partiu, monocultura do eucalipto que não partiu. Pesquisadores da UFMG documentam que a população “assistiu atônita à tomada de terras comunais e ao escasseamento crescente de água”; o eucalipto, até hoje, seca mananciais nas chapadas.
Agora o discurso do "lítio verde" chega como nova promessa — o mesmo falso milagre, a mesma roupagem. O Vale reconhece o ciclo: a extração muda de nome, a prática é a mesma.
É nesse cenário que o Festivale chega à 41ª edição.
A Feira de Artesanato deste ano leva o nome de Marlice Machado, tecelã de Roça Grande, distrito de Berilo, onde a tradição têxtil é ancestral. Filha de Dona Leontina Amaral, que lhe ensinou o tear aos 9 anos, ela mantém o legado da mãe: a sobreposição de fios, o tear tradicional. Marlice fala de resistência com as palavras de quem ficou. “Hoje vejo o quanto fui persistência e resistente a esse ofício. Nenhum dos meus sete irmãos conseguiu resistir — procuraram outras fontes de renda. Mas outros parentes e vizinhos resistiram também como eu, e sou muito grata por eles terem escolhido seguir até aqui. Creio que não vai acabar nunca”, conta. Sobre ser homenageada no Festivale, ela revela: “Hoje não sou rica financeiramente, mas milionária de cultura ancestral. É uma gratidão imensa para mim e para todos da minha comunidade e principalmente para minha mãe, que não perdia nenhum Festivale.”
Aprendi com uma amiga SBCense: porque falamos|distinguimos ARTE e ARTESANATO? Diz ela que essa distinção coloca o que chamamos de arte como uma coisa de elite, sendo que artesanato é uma produção 'pobre', de menos valor, porque de uma classe social 'baixa'... tem todo sentido! Conversando com querida produtora de licores de Taiobeiras, além de poeta, Marileide, ela também concordou inteiramente e disse que já não usava a palavra artesã ou artesão, e sim a 'obra' ou o 'trabalho' de fulana ou cicrano... Pois eles e elas são artistas! Adorei, não uso mais...
Na mesma linha de reconhecimento às guardiãs do Vale, a Mostra de Cultura Popular recebe o nome de Dona Jovença Pereira Costa, mestra da cultura popular e batuqueira. Além de pioneira, ela é considerada uma das principais guardiãs das tradições do Batuque e da Folia de Santos Reis de Comercinho. Aprendeu a manifestação com sua mãe, Maria de Aprígio, e dedicou a vida à preservação e transmissão desse saber. No vídeo o Grupo de Catopês de Montes Claros - Marujada, Caboclinhos, lindíssimo... entre outros também lindíssimos. E um jovem simpático do grupo nos conta a história e os valores do mesmo, além de nos dar a honra da foto:
A Noite Literária homenageia Vilma Baracho (in memoriam), poetisa natural de São Gonçalo de Rio das Pedras, distrito de Serro — sua poesia, enraizada na vida do Vale, permanece como legado. O Vale do Jequitinhonha encontrou nela uma guardiã da poesia. Com generosidade, ela acolheu vozes, uniu gerações de poetas e fez da palavra um gesto de amor. Em Diamantina ficou carinhosamente conhecida como "madrinha dos poetas". Por onde passava, sempre levava consigo os livros de autoria da própria mãe, Virgínia Baracho, fazendo sempre questão de declamá-los, mantendo-os vivos. E suas filhas, emocionadas, fizeram o mesmo.
Na foto temos nosso querido Cláudio Bento, grande poeta da ALVA Academia Literária do Vale, sendo homenageado. E, do lado, querida Marli Fróes, também acadêmica da ALVA, apresentando a Noite Literária.
Tive a honra de ser jurada nessa noite, juri presidido pela querida Tida Carvalho. Nem vou falar sobre nosso bi-campeão, querido Guguzinho Fofinho, com seu poema 'Velho Jequitinhonha'... Farmou aura, arrasou ...
Nosso destaque é para o poema a seguir, que muito nos emocionou:
Da terra, do Vale
As casas são da terra
e as mulheres
que habitam as casas
são mulheres
como as árvores da caatinga
resistentes
como as mulheres
de raízes profundas
em busca de água
as árvores perdem as folhas totalmente
e as mulheres nunca perdem totalmente as esperanças
elas as cultivam
em antigas cantigas
que perduram no tempo
e ecoam com o vento
eternamente
reúnem memórias
nas rodas de ciranda
na língua do barro
no forno do sol
nas cores da terra
e o que se sabe
é que muito se guarda
e também muito se espera
a liberdade é uma imagem
das roupas brancas presas ao varal
o corpo aguenta o baque do sol
como vasilhas no jirau
a cabeça é um leito de chão rachado
por onde a água viaja
em uma lata
para saciar a sede
dos que também têm fome
a farinha torrada
o vaso de barro
o algodão fiado
a vida torneada
a coragem faz morada
no olhar de mulheres enraizadas
todos os tesouros estão enterrados
minha avó conhecia todos os segredos
água-marinha
diamante, ouro
lítio, rubelita
quanto vale o Vale?
mais vale levar um rosário na mão
mais vale viver com devoção
ter a faca e o queijo na mão
mais vale espetar o dedo na roca
do que não fiar a vida com o coração
mais vale mesmo é viver
mas de que vale viver
sem pisar nesse chão?
as mulheres...
as mulheres e suas raízes
raízes da terra
raízes do Vale
💜💛💙💓
Já a abertura da Mostra de Teatro celebra Cristina Gonçalves, atriz e diretora de arte de Medina e presidente da Associação dos Grupos de Teatro do Jequitinhonha (Agrutevaje). Ela destaca que sua formação artística foi profundamente marcada pelas oficinas do Festivale, onde teve acesso a cursos que, segundo ela, não teria condições de realizar fora dali. Ao receber a homenagem Cristina Gonçalves diz ter ficado “muito feliz, lisonjeada demais da conta”, lembrando que sua relação com o teatro e com o grupo Ícaros do Vale começou ainda na juventude, quando viu pela primeira vez uma cena na rua ser demarcada com fubá e decidiu que aquela seria sua vida. Para ela, aceitar estar no cartaz ao lado de mulheres como Déa Trancoso e Jovença não é sobre ego, mas sobre representar tantas outras trabalhadoras da cultura que seguem invisibilizadas, atacadas e silenciadas.
Nossa querida Deyse Magalhães fez um apanhado excelente desses dias no FESTIVALE. Obrigada Deyse:
Enfim, escrevendo esse texto no sábado, ainda não acabou o FESTIVALE e essa 'resenha' não é um décimo de apenas um dia e duas noite de FESTIVALE. Até agora são apenas nossos destaques desse período. Hoje e amanhã teremos o resultado do festival das canções, o ponto alto do FESTIVALE, infelizmente não estaremos lá. Mas acompanharemos de longe, certeza que a Deyse nos contará sobre as lindas canções e outras coisas que perdemos.
Por exemplo, a Bênção das Águas, que será realizada às margens do Rio do Peixe, reúne o Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, de Bocaiúva; o Terreiro São Rafael, de Medina; os Tamborzeiros de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, de Virgem da Lapa; e o Congado de Nossa Senhora da Conceição — fé, ancestralidade e sincretismo encontrando o rio.
Cachoeira do Bananal em Botumirim – Foto: Wilson Santos
Enfim, aguardamos resenha da nossa querida Deyse, especialista em registros maravilhosos da arte e da cultura - além de grande escritora e poeta.
Abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham.
"Viver é uma aprendizagem constante"... Este também pode ser um dos 'princípios orientadores de vida' do SBC, além dos três já colocados, desde 2017, na contracapa do nosso primeiro livro, "Diário do SBC": o riso, o valor das amizades e o desenvolvimento do sentido estético na vida.
Aprendemos com Nietzsche, no livro Genealogia da Moral, a paciência com o que nos é mais antípoda (aprendemos, também, a palavra 'antípoda'= 'contrária' =, adoro! uso sempre). Ele conta que quando já estavam bem formuladas suas ideias sobre a origem do que temos como 'bem' e 'mal', veio parar em suas mãos um livro que apresentava ideias que eram as mais antípodas às que ele formulava... E isso serviu para ele, tanto melhorar sua argumentação, quanto aumentar sua convicção em relação às suas ideias.
Aprendemos com Sócrates e Nicolau de Cusa a humildade diante do conhecimento, a Ignorância Douta, ou ignorância sábia, "quanto mais eu sei, sei que nada sei".
E o Príncipe Michkin, personagem de Dostoievski em O Idiota, diz: "Eles me chamam de idiota porque vivo com o coração, não com a cabeça". Então, quem é idiota?
Aprendemos com Eli Bonini, psicólogo, antropólogo, psiquiatra, professor na UFMG nos anos 60, preso pela ditadura militar, os conceitos de amigo, adversárioe inimigo... e como, na nossa cultura, costumamos 'aprender de maneira distorcida' a colocar adversários (aqueles que divergem de nós) na categoria de inimigos, o que nos empobrece... Pois se acreditamos que amigos são as pessoas que sempre e em tudo concordam conosco, na verdade queremos pessoas submissas a nós e nossas ideias. Pois é com o diferente que crescemos, como aprendemos, também com nossa grande G. Rosa "Sou quando divirjo".
Praticando, além do valor aprendizagem, o valor amizade, crescer uns com os outros, recebo essa semana um texto importantíssimo, profundo, do querido "novo amigo de infância", Alvimar, grande Presidente da nossa querida Escola de Samba Triunfo Barroco. Compartilhando... e aprendendo...
O QUE O SAMBA TEM A APRENDER COM O MOVIMENTO LGBTQIAPN+?
Autor: Alvimar Neri Pinto
Data: 20/07/2026
Neste fim de semana, Belo Horizonte foi palco da 27a Parada do Orgulho
LGBTQIAPN+, e a Escola de Samba Triunfo Barroco esteve presente, acompanhando de perto essa grande manifestação popular.
Mais do que participar do evento, saímos dessa experiência com uma reflexão que merece ser compartilhada. Quando fazemos essa pergunta, “O que o samba tem a aprender com o movimento LGBTQIAPN+?” talvez estejamos olhando para o lugar errado. O samba não precisa aprender a ser diverso, pois nasceu da diversidade. Não precisa aprender a acolher as diferenças, porque foi construído justamente por aqueles que a sociedade tentou excluir. A verdadeira reflexão é outra: o que o samba pode aprender com a capacidade de organização e mobilização do movimento LGBTQIAPN+?
Nas últimas décadas, o movimento LGBTQIAPN+ demonstrou que uma manifestação cultural só alcança mudanças estruturais quando está acompanhada de organização política, produção de conhecimento, comunicação eficiente e atuação permanente na defesa de direitos. Suas conquistas não foram fruto do acaso. Elas nasceram da mobilização coletiva, da formação de lideranças, da construção de redes e da ocupação dos espaços onde as decisões são tomadas.
Essa reflexão também precisa chegar ao universo do samba. Por muito tempo, permitimos que a sociedade reduzisse o samba a uma simples festa. E, em certa medida, nós mesmos passamos a enxergá-lo dessa forma. O sucesso de uma escola de samba passou a ser medido quase exclusivamente pela colocação no desfile, pela grandiosidade das alegorias, pelas notas dos jurados ou pelo brilho do espetáculo apresentado na avenida. Da mesma forma, muitas vezes avaliamos uma roda de samba apenas pela quantidade de pessoas presentes, pela casa cheia ou pelo retorno financeiro do evento.
Mas o samba nunca foi apenas festa. O samba nasceu como uma forma de resistência da população negra brasileira. Foi nos quintais, nas rodas, nos terreiros, nas favelas e nos subúrbios que homens e mulheres transformaram a cultura em ferramenta de sobrevivência, preservando suas memórias, religiosidades, saberes e formas de organização diante de uma sociedade marcada pelo racismo e pela exclusão.
A intelectual Lélia Gonzalez descreveu as escolas de samba como uma extraordinária criação das comunidades negras, espaços de solidariedade, pertencimento e afirmação cultural. Já Luiz Antonio Simas reforça que uma escola de samba não pode ser compreendida apenas pelos minutos em que atravessa a avenida. Ela é uma instituição comunitária, um território de proteção social, educação popular e construção de identidade coletiva.
Essa compreensão muda completamente a forma de enxergar o papel das agremiações. Se reconhecemos que o samba é um movimento social, cultural e político, precisamos fazer uma pergunta incômoda: por que permitimos que nossa maior preocupação se resumisse ao desfile? Passamos meses debatendo regulamentos, julgadores, fantasias, alegorias e notas, enquanto dedicamos pouco espaço às discussões sobre políticas públicas, financiamento permanente, formação de lideranças, produção de conhecimento, comunicação estratégica e mobilização social. Ao concentrarmos nossos esforços quase exclusivamente na utopia carnavalesca, deixamos de fortalecer o samba como um movimento que atua durante todo o ano. O resultado dessa escolha se repete a cada temporada: encerramos os desfiles, desmontamos as alegorias e, muitas vezes, voltamos ao silêncio, aguardando que um novo Carnaval recomece o ciclo, em vez de mantermos uma atuação contínua na defesa da cultura, das comunidades e das escolas de samba.
Enquanto isso, decisões fundamentais sobre cultura, orçamento público, patrimônio e financiamento continuam sendo tomadas sem a participação efetiva do universo do samba. Infelizmente, ainda convivemos com desafios que demonstram o quanto precisamos fortalecer nossa organização. O próprio 1o Seminário Nacional das Rodas de Samba apontou problemas como a ausência de um mapeamento nacional, dificuldades de financiamento, precarização do trabalho dos sambistas, falta de políticas públicas específicas e a necessidade de maior organização institucional.
Aprender... e participar... Obrigada pela reflexão, querido amigo. Estamos juntos nessa aprendizagem... e nessa prática.
Lembramos de dois sambas que falam sobre aprendizagem:
Aprender com a dor... mas também acreditamos que aprendemos com alegrias, com trocas com erros e acertos ... e com a vida, nas ruas e nas vielas...
Mas também podemos aprender com o diferente... o rock ... E aprendemos com Raul Seixas a estar sempre em movimento, assim é a vida:
Abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham,
Cada vez melhor nossos saraus, mais alegres, mais profundos, mais calorosos...
Na entrada do nosso querido ANDU DE DOIS muitas fotos mostrando nosso "estandarte", assim como nossas convidadas e convidados...
Muitos abraços, muitos sorrisos... novos amigos e amigas...
Querida Cris Santos, convidada especial, contando um pouco da sua história de vida e apresentando nossa Escola de Samba TRIUNFO BARROCO, terceiro lugar no ano de 2026.
A seguir querida Amélia Gomes apresentou a RÁDIO FAVELA, homenageada da Triunfo Barroco para o próximo ano. Surpreendente a sua apresentação, nos envolveu muito, uma história maravilhosa... aguardem e sigam a Rádio Favela e a Triunfo Barroco no instagram, em 27 estaremos na avenida, sabem onde está sendo agora o desfile das Escolas de Samba de Belo Horizonte? Na Avenida dos Andradas, passando pela praça da Estação... lindíssimo ...
E a Amélia recomendou o filme UMA ONDA NO AR (no YouTube) inspirado na Rádio Favela, direção do mineiro Helvécio Ratton, grande história:
Cantamos Gente Negra junto com Leci Brandão, além de ouvirmos os refrãos dos enredos da TRIUNFO nos quatro últimos anos.
E aproveitamos para apresentar uma das nossas homenageadas, a Catarina Mendes, uma mulher escravizada em Ouro Preto que já tinha conquistado sua alforria muito antes de 1888 e, se juntado com algumas mulheres também libertas, criaram uma aldeia onde só entravam os homens que elas escolhiam. Essa aldeia agora, com o seu nome, é um sub distrito de São Bartolomeu, distrito de Ouro Preto.
Nossa querida Deyse Magalhães apresentou Anaíde Beiriz, admirável mulher paraibana, poeta, escritora, defensora do voto feminino, fez do seu corpo uma luta contra a sociedade da década de 20 do século passado, pois enfrentou comportamentos que, até aquele momento, eram impossíveis de visualizar naquele estado.
“Quando não escrevo, meu universo se reduz, sinto-me na prisão. Perco minha chama, minhas cores”.
E nossa super SBCense Antonieta nos conta a história de Tia Ciata, nossa última homenageada da noite. Não temos vídeo mas compartilhamos o documentário maravilhoso sobre ela - e o protagonismo feminino negro:
E nossa querida Márcia, historiadora, falou um pouco mais sobre esse protagonismo: "O samba é o ritmo de resistência da cultura negra. E as mulheres negras foram essenciais para que ele pudesse seguir existindo no pós escravidão, se não fosse por elas o samba não existiria hoje."
E nossa querida Laura Farias, presidenta do MPM Movimento Popular da Mulher, falou sobre a necessidade de reivindicarmos a criação da Secretaria da Mulher em Belo Horizonte. Importantíssimo!
Alvimar, nosso presidente da Triunfo Barroco, falou também um pouco mais sobre Tia Ciata! sobre Mãe Menininha, sobre Nara Leão ... e sobre o acolhimento, o cuidado feminino...
E terminamos cantando PELO TELEFONE, com Donga, Martinho da Vila e outros:
Mas ainda não terminamos... Por último tivemos a inauguração do Projeto Parceria Andu de Dois e Coletivo SBC: o SEBO DA MAITÊ! Vejam os vídeos: