segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Conversas SBCenses: A alegria de ter com quem contar



Precisamos de amor em suas muitas formas. Precisamos de gente. Precisamos de solidariedade, de dar e receber. Precisamos de redes...

Uma rede não serve apenas para nos segurar quando caímos. Ela também serve para nos embalar, nos movimentar. Serve para dividir sonhos, inventar viagens, celebrar aniversários, atravessar lutos, dificuldades... Começar novos amores e descobrir que ainda existe muita vida pela frente. Serve para nos fazer rir e nos acalentar nos momentos difíceis.
A vida fica mais bonita quando a gente descobre que não precisa dar conta de tudo sozinha. O equilíbrio entre o dar e o receber é fundamental. Aprendi que uma equiparação entre a boca e o peito faz bem pra vida. Imagine uma pessoa bocão e peitinho... quer receber mais do que precisa e se dá pouco = peitinho, provavelmente uma pessoa 'doente', cheia de dó de si mesma e que inspira a dó do outro, enfim recebendo mais do que precisa e contraditoriamente  ficando 'pobre'... ; ou o contrário, peitão = se doa muito = e boquinha, boca trancada, deve ser uma pessoa super exigente, nada está bom pra ela, o seu dar é autoritário, é querer que o outro a devolva sendo o que ela quer. Uma frase atribuída ao grande filósofo Nietzsche: "Ingrato é quem não se rende aos meus favores". Enfim, também uma pessoa infeliz, triste.

Então, a alegria de vida parece com o dar e o receber. Há uma beleza escondida nas redes de afeto que construímos ao longo da vida, desde as relações íntimas até o nosso ser e estar no mundo de forma solidária.
Não é apenas o romance dos beijos, dos abraços demorados ou das mãos que se procuram debaixo do lençol. É também o romance de ter alguém que pergunta: “Você chegou bem?”. De receber uma mensagem inesperada. De comemorar junto quando a vida oferece uma pequena — ou enorme — alegria. Queremos desejo, cumplicidade, carinho, respeito e liberdade para sermos inteiras e inteiros. Mas também precisamos compreender que nenhuma relação amorosa deve ser uma ilha. Uma pessoa amada não precisa ser nossa única companhia, nosso único porto, nossa única fonte de alegria. Amar é também permitir que o outro tenha seus amigos, seus projetos, suas redes, seus outros afetos. Uma vez um rabino me disse uma espécie de oração que guardei pra toda minha vida:
Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão, Que haja, antes, um mar ondulante entre as praias de vossa alma. Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça. Dai o vosso pão um ao outro, mas não comeis do mesmo pedaço. Cantai e dançai juntos, sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho. Assim como as cordas da lira são separadas e no entanto vibram na mesma harmonia. 

Na família, aprendemos — e às vezes reaprendemos — a solidariedade, a construção das redes, o acolhimento. É aquela gente que conhece nossas histórias, nossas manias, nossas cicatrizes e, ainda assim, permanece por perto. Tem gente pro que der e vier, tem gente nem tanto, tem gente que se afasta nas dificuldades... e a gente vai aprendendo a respeitar o humano... E na família aprendemos, também, que laços de sangue não são suficientes. Família também pode ser construída, escolhida, ampliada. Aprendi com minha mãe a valorizar os laços familiares, assim como a construção de uma rede de amigos e amigas que estão sempre por perto, acolhendo, rindo junto e oferecendo colo quando o mundo pesa. Agradeço à minha mãe, à minha família e à minha rede de amigas e amigos... Dou graças à vida...

São os amigos e amigas que testemunham nossas várias versões. Conhecem a mulher que fomos aos vinte, a que se perdeu aos quarenta, a que se reinventou aos cinquenta, a que ainda está descobrindo quem quer ser aos sessenta, setenta, oitenta...

No trabalho também precisamos de rede, também precisamos de solidariedade. Gente que coopera, que reconhece, que divide conhecimento, que não transforma a vida profissional numa competição permanente. Porque ninguém floresce verdadeiramente num ambiente onde todos precisam subir pisando uns nos outros.


E há os encontros inesperados: a vizinha que leva um bolo, a colega que oferece ajuda, a pessoa que aparece justamente quando precisamos, a conversa na mesa de um bar, o grupo que se reúne para dançar, cantar, estudar, criar, lutar, celebrar.

E talvez seja esse um dos grandes segredos de envelhecer bem: não deixar a vida estreitar os nossos afetos.

Ao contrário. Que a maturidade nos encontre acrescentando gente, e não subtraindo. Que possamos trocar o medo da solidão pela coragem de cultivar encontros. Que tenhamos amigas para tomar café... ou uma cerva, ou um vinho... amigos para conversar bobagens, amores para beijar, companheiras e companheiros para caminhar, grupos para pertencer e pessoas com quem possamos simplesmente ficar em silêncio.

Porque envelhecer não precisa significar ficar só. Pode significar escolher melhor quem queremos por perto. Pode significar amar com mais liberdade, fazer novas amizades, recuperar antigas, dançar sem vergonha, viajar com amigas, apaixonar-se novamente, trabalhar com propósito, cuidar e ser cuidada.


No fim das contas, talvez uma vida bem vivida seja isso: uma coleção de mãos.
Mãos que seguraram as nossas.
Mãos que nos puxaram para dançar.
Mãos que enxugaram lágrimas.
Mãos que aplaudiram nossas conquistas.
Mãos que nos deram coragem.
E, principalmente, mãos que continuamos dispostas a segurar.

Porque ninguém envelhece sozinho quando aprendeu, durante a vida inteira, a construir pontes, a fazer redes...

E que bonito chegar à velhice com histórias para contar, amores para lembrar, amigos para encontrar, novos desejos para experimentar e uma agenda ainda cheia de gente querida.


A vida é mais alegre quando há amor espalhado por todos os lados. Quando há o cuidado consigo mesmo(a)... e com o mundo...

Abraços carinhosos a todas as pessoas que nos leem,
Santuza TU




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