sexta-feira, 5 de junho de 2026

SARAU NOSSAS MULHERES JUNHO 2026

 

Dia 4, primeira quinta de junho, no nosso querido Andu de Dois. Obrigada Hernane, Ana, Peixe, Kelly, Vitória...


Assim começou nosso sarau. 

Ausências sentidas... presenças valorizadas... como de praxe, o hino do SBC, a apresentação do nosso coletivo (aberto, inclusivo, anárquico, democrático, ecológico, intergeracional... e feminista ... não necessariamente nessa ordem) e dos nossos valores fundamentais (o riso, as amizades e o sentido estético). 

E apresentação das Cachorras, especialmente nossas queridas Cida e Dirce, convidadas especiais, que abrilhantaram nosso sarau. 

Cida nos apresentou As Cachorras (todas nós), falou sobre a Lagoinha e nos apresentou sua personagem GENI. Vejam o vídeo e deem o "joinha". 



Dirce, junto com alguns poemas lindos, falou sobre o processo de gentrificação. Já tínhamos pesquisado anteriormente e a sua fala parece com o artigo a seguir, publicado em 2021 na Revista PUC Minas

O processo de gentrificação em dois bairros de Belo Horizonte – Observatório das Metrópoles https://share.google/9FTYGAdxIyIlIkpbF
(um resumo do artigo, recomendamos a leitura de todo ele)

Via Revista PUC Minas
Por Lívia Arcanjo

Imagine um bairro periférico ou, até mesmo, central, porém desvalorizado e habitado por pessoas de baixa renda. Agora imagine que, por algum motivo, pessoas com poder aquisitivo elevado passem a se mudar para essa região. Com a chegada de uma classe mais favorecida economicamente, esse bairro começa, pouco a pouco, a atrair comércio, infraestrutura, investimento e desenvolvimento, proporcionando uma transformação do espaço com diversos benefícios que antes não existiam ali. De repente, esse bairro já não tem mais as características de um espaço popular, mas, sim, um bairro nobre. Com toda a alteração na paisagem urbana, muda-se também o custo de vida na região. Esse novo orçamento é condizente com o padrão de vida desses novos moradores, mas, os antigos já não conseguem mais se sustentar ali. Com renda incompatível com o custo de viver naquela região, a solução é se mudar. Você está diante de um fenômeno sócio espacial chamado gentrificação.

A palavra vem da expressão inglesa gentrification, que, por sua vez, vem de gentry, que quer dizer nobreza. Gentrificação, portanto, pode ser definido como enobrecimento do espaço: um conjunto de transformações que ocorre, com ou sem intervenção governamental, e provoca o êxodo da população local por fatores socioeconômicos. A expressão foi utilizada pela primeira vez na década de 1960, pela socióloga britânica Ruth Glass, ao analisar as transformações imobiliárias em determinados distritos londrinos, quando pessoas de status mais elevados começaram a se mudar para locais onde antes só moravam trabalhadores. Esse processo elevou o preço imobiliário do local e acabou expulsando os antigos moradores: a classe operária.

Esse fenômeno, no entanto, não é exclusivo de Londres e nem das capitais europeias. O conceito foi ganhando em cada local significados e aplicações diferentes, e acontece no mundo todo, inclusive no Brasil. 

Há, no entanto, um bairro tradicional que resiste a essa tendência: o Santa Tereza. Reduto do Clube da Esquina e da boemia, o local é considerado o berço cultural da capital mineira e carrega em suas ruas e praças o tradicionalismo e o saudosismo de uma Belo Horizonte cantada por Milton Nascimento, Lô Borges e Flávio Venturini. O charmoso bairro da zona Leste resiste ao crescimento imobiliário – e, consequentemente, à gentrificação – sofrido pelos demais bairros centrais e/ou nobres da cidade.

Em Santa Tereza, o processo de gentrificação foi barrado, muito em parte, pela mobilização dos moradores, que pressionaram o poder público para a proteção do bairro, o que resultou na aprovação como Área de Diretrizes Especiais (ADE), em 1996, e, em 2015, no processo de Tombamento pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte de cerca de 300 imóveis entre casas, igrejas, praças e estabelecimentos, o que rendeu ao bairro o título de patrimônio da cidade, e que impõe diversas restrições para evitar a verticalização do espaço e descaracterização da região. “Essas políticas conseguiram fazer com que o bairro se mantivesse como ele é. É emblemático porque a população se organizou para que o bairro não fosse transformado. E aí conseguiram barrar essa entrada do capital imobiliário”, afirma Luciana. A socióloga também pontua que não foi observada mudança significativa nem de entrada de grupos com maior status e nem expulsão de grupos de menor status. “Quem entra tem o status muito parecido com o status das pessoas que predominam lá. Então, não pode falar que houve processo de gentrificação”, conclui.

Luciana Andrade observa que a história de Belo Horizonte é marcada pela segregação sócio espacial, com a expulsão da população com menores recursos para regiões cada vez mais longínquas. Essa é uma característica do desenvolvimento das cidades latino-americanas que, de modo geral, se baseiam no modelo centro-periferia de segregação sócio espacial. A socióloga observa, porém, que essa mobilidade forçada rompe com elos sociais e espaciais e, consequentemente, com parte da memória afetiva das pessoas. “É um processo perverso que priva um grupo, à medida em que ele tem que sair de onde residia, de toda uma vida social construída naquele lugar. Vida que é feita de relações de vizinhança, de apropriação do espaço, ou seja, de parte da identidade que construímos com a nossa cidade”, pontua. Ela também critica os discursos contrários, que argumentam que as políticas anti gentrificadoras congelam a cidade. “Não se trata disso. A cidade é obviamente algo em constante transformação. O problema é quando essa transformação tem como objetivo o lucro de alguns, os empreendedores imobiliários, e o bem-estar de outros, os novos moradores, em prejuízo dos menos favorecidos economicamente”, analisa.

Embora a gentrificação seja, conceitualmente, um processo residencial, esse fenômeno afeta outros aspectos, como o comercial, já que interfere na economia local, e nos usos dos espaços públicos que, por definição, são espaços abertos a todos. Luciana ressalta, porém, que na prática essa abertura não se efetiva. “Essas ocupações têm relação direta com o poder de certos grupos, mas também com determinadas políticas públicas que não levam em conta os hábitos e costumes de um grupo social. Por isso sempre falamos que o espaço público é um lugar de conflitos e de poder. Se um grupo passa a predominar em um espaço ele pode gerar constrangimentos para as práticas e usos de outros grupos, assim como pode exigir do poder público medidas gentrificadoras do espaço público, proibindo ou dificultando certos usos que têm relação com o outro grupo”, explica.

Entendemos então que, com a fala de 'revitalização' do bairro ou da região,  como o que acontece atualmente com o Projeto de Lei 574 de 2025, aprovado em primeiro turno pela Câmara Municipal - que propõe incentivos à construção civil para 'dinamizar' a região - no fundo trata-se da permissão para a construção de edifícios altos para uma classe média, com a 'expulsão' das pessoas que moram na região. Como aconteceu há pouco mais de cem anos, na construção da cidade de Belo Horizonte, planejada "dentro" da av. do Contorno. Os moradores do 'em torno', que trouxeram as pedras para a construção dos edifícios estilo francês da época, foram em seguida expulsos para fora da contorno - Santa Tereza, Lagoinha, Serra, entre outros bairros. Este é o sistema cruel e excludente que vivemos, que também nos faz acreditar que "direitos são dados e que não precisamos lutar por eles", ou seja, alimentam nossa passividade e alienação. E é sobre combatermos essa alienação e lutarmos por nossos direitos que falamos... e nos juntamos para essa luta.


E se falamos em luta, não tinha pessoa melhor, para nossa homenageada, do que a maravilhosa Elza Soares. Apresentada lindamente pela querida Juliana que nos distribui alfinetes, simbolizando "nos juntar"... Elza era muito magra e não tinha dinheiro para comprar roupas para usar nos shows, então ela usava alfinete para prender e ajustar a roupa no corpo.




Palco aberto, mais apresentações maravilhosas, querida Deyse fazendo paralelo da 'ocupação' da Lagoinha com a questão territorial de Palmares, símbolo da resistência negra à escravidão.


E a participação da nossa querida Professora Das Dores, com seu poema Pássaro Amarelo.



E assim nos despedimos... ainda, ganhando mudas de presente das Cachorras, que também administram o coletivo HORTELÕES DA LAGOINHA, busquem no instagram. 


O SBC agradece as lindas cachorras... e até nosso próximo sarau, primeira quinta de julho.
Abraços carinhosos,
Santuza TU


A seguir mais fotos gentilmente feitas pela querida Deyse e por mim: