"Os planos contrapostos das imagens do passado com os espectadores do presente (e que também estavam inseridos naquele passado) são um recurso que a cineasta transforma em potência renovada. Porque não se tratam apenas de tipos perdidos entre dois tempos, mas de reflexão emocionais e políticas a respeito de um passado que não cansa de bater à nossa porta, e que precisa encontrar meios de escoamento para a contemporaneidade. Além disso, temos os áudios enfim resgatados dos diálogos do exterior entre essas figuras históricas e, hoje, até mesmo ressuscitadas pelos planos, que realçam não apenas os valores históricos ali mostrados, mas essencialmente a humanidade de homens e mulheres que eram mais do que lutadores".
"A reunião de rivais políticos em encontro inédito durante a conferência é um intenso momento de “Anistia 79”, onde podemos enfim conferir a união pelo bem comum: a liberdade deve sempre ser maior que tudo. Os comentários acerca dessa passagem, e a passagem em si, não ocupam grande parte do filme de maneira vã. Parte desse encontro as ideias primordiais para o futuro de qualquer tempo, e em como o respeito e a admiração deveriam estar acima de qualquer embate".
Enfim, essa grande cineasta defende que a lei da anistia precisa ser revista, num país que não teve 'justiça de transição', como comentamos no post anterior, os torturadores foram anistiados.
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E vamos à nossa próxima homenageada:
Grace Passô tem agora 46 anos. Nasceu em Belo Horizonte, em 1980.
Dentre seus trabalhos no teatro, dirigiu "Contrações" (Grupo 3 de Teatro, SP), "Os Bem Intencionados" (LUME Teatro, SP), Herança (50 anos de Maurício Tizumba nas artes) "Por Elise" e "Congresso Internacional do Medo" (grupo de teatro Espanca!). Atuou nas peças "Krum" , "Preto" (Companhia Brasileira de Teatro, PR) e em espetáculos do repertório do grupo Espanca!, grupo mineiro que fundou em 2004 e que permaneceu por dez anos, assinando a dramaturgia de espetáculos como "Marcha para Zenturo" (em parceria com o Grupo XIX de Teatro, SP), "Amores Surdos", "Congresso Internacional do Medo" e "Por Elise", sendo diretora destes dois últimos trabalhos. Em 2016, estreou o espetáculo solo "Vaga Carne", no qual atua e assina o texto.
Foi cronista do Jornal O Tempo e possui publicações de textos teatrais em português, francês, italiano, espanhol, mandarim, inglês e polonês.
No cinema, atuou em filmes como "Elon Não Acredita na Morte", "Praça Paris", "No Coração do Mundo" (Filmes de Plástico - Gabriel Martins e Maurílio Martins), "Temporada" (Filmes de Plástico - André Novais), "Vaga Carne" , "O Dia que te Conheci" (André Novais), "A Fúria", "Levante".
Foi indicada a inúmeros prêmios do teatro e cinema. E em 2019, Grace Passô foi homenageada pela Mostra de Cinema de Tiradentes. "Num tempo em que muita gente não vê futuro adiante, decidimos apontar algum futuro pelo que ainda virá dessa atriz", declarou a organização do evento.
E agora em 2026 Grace estreou como diretora com o longa-metragem NOSSO SEGREDO, que estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Berlim. E no mês de agosto passado o filme foi incluído pela Academia Brasileira de Cinema na lista de 15 longas-metragens pré-indicados a concorrer a vaga de representante do Brasil no Oscar 2027 na categoria de Melhor Filme Internacional. Isso tudo depois de conquistar o principal prêmio da mostra competitiva nacional do 54º Festival de Cinema de Gramado. Além disso, a produção levou os Kikitos de Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte.
Nosso Segredo é um filme de drama, fantasia, misturado com suspense (alguém disse que seria um filme de "horror à mineira") que nos prende durante todo o tempo: o que será o segredo? e, quando ficamos sabendo do mesmo, nova pergunta aparece: e o que vão fazer com o segredo?
Adaptação da peça "Amores Surdos", que deu a Grace o prêmio Shell de melhor texto, o filme retrata uma família negra que tenta retornar ao cotidiano após uma perda muito recente. Enquanto cada membro da família enfrenta o luto do seu jeito, o silêncio e a dificuldade de expressar a dor acabam ampliando as distâncias entre eles.
Gilson (Robert Frank) se refugia no trabalho como motorista. Suely (Ju Colombo) tenta manter a rotina da casa por meio das tarefas domésticas. Guto (Flip) procura uma fuga na rua e na boemia. Já Grazi (Jéssica Gaspar) se fecha cada vez mais em si mesma.
No meio deles está Tutu (Efraim Santos), o filho mais novo. Atento ao que acontece ao seu redor, ele percebe que existe algo estranho no andar de cima da casa, enquanto os adultos parecem preferir ignorar os sinais.
A partir das descobertas de Tutu, o cotidiano da família começa a ganhar contornos fantásticos. Sons, rachaduras, vazamentos e outras manifestações transformam a casa em um espaço cada vez mais inquietante.
Com o tempo, os sentimentos reprimidos e antigas feridas ressurgem, a família percebe que apenas uma conversa profunda vai poder ajudá-los a encontrar um novo caminho para seguir em frente. Explorando temas como luto, memória e pertencimento, o filme retrata as complexidades dos laços familiares e como erguer a cabeça em meio à dificuldades.
Comparado a grandes cineastas como o tailandês Apichatpong Weerassethakul e o diretor japonês Hayao Miyazaki, o filme é pra quem gosta de pensar, conversar sobre o mesmo, de preferência tomando uma cerva e abrindo a cabeça e o coração para entender as metáforas, os simbolismos apresentados, o humano ... enfim, se afetar com o filme e oportunizar refletir e elaborar suas próprias perdas, saudades... além de pensar sobre nossos preconceitos, construindo o movimento de superação a cada dia.
Como disse querida SBCense, "o animal me parece uma metáfora sobre a 'falta de consciência', ou melhor, a nossa dificuldade de 'tomar consciência', muitas vezes de coisas óbvias na nossa vida. Assim como o resgate das nossas ancestralidades, para a construção da nossa identidade autônoma.
Além de tudo, psicólogas e psicanalistas SBCenses colocam que se trata de um filme profundo: "Há dores que não precisam ser ditas para ocupar todos os cômodos de uma casa! É a partir dessa ideia que Nosso Segredo constrói uma história sobre família, ausência e sentimentos que permanecem mesmo quando ninguém consegue colocá-los em palavras".
Enfim, uma das cenas finais traz Gilson deitado nu na cama, em posição fetal. Junto a uma vital reforma da casa = o próprio eu, nossa identidade, essa sequência do filme, entre outros simbolismos, evidencia a necessidade do restabelecimento do vínculo familiar, busca de segurança e proteção.
Voltando à homenagem às duas mulheres maravilhosas:
A Anita Leandro e Grace Passô, mulheres que nos provocam reflexões e crescimento, nossa gratidão...
E obrigada a todas as pessoas que nos acompanham.
Abraços carinhosos
Santuza TU





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