domingo, 19 de setembro de 2021
Conversas SBCenses: sobre LOUCURA (e AMIZADE)
quarta-feira, 15 de setembro de 2021
ARTE, PROSA E SAMBA 2: A AMIZADE
sexta-feira, 10 de setembro de 2021
Na beira do fogão: conversando sobre DEMOCRACIA
Este foi o fogão da nossa conversa sobre DEMOCRACIA. A foto foi tirada depois, no dia estávamos tão envolvidxs com a conversa que não lembramos. Algumas pessoas levaram informações do GOOGLE, outras levaram referências de livros e filmes... e eu fiquei encarregada de fazer a resenha (e ilustrações)... a seguir:
A palavra
democracia tem
origem no grego demokratía que é composta por demos (que significa "povo") e kratos
(que significa "poder" ou "forma de governo").
A democracia grega era,
portanto, restrita. E essa ideia começou a mudar a
partir da Revolução Francesa que, por meio do republicanismo, passaram a
advogar por uma participação política de todas as classes sociais. Ainda na
Modernidade, apesar de avanços políticos e de uma ampliação do conceito de
democracia, as mulheres não tinham acesso a qualquer tipo de participação
democrática ativa nos países republicanos, fato que somente começou a ser revisto
com a explosão do movimento feminista das sufragistas,
que culminou na liberação, pela primeira vez na história, do voto feminino, na
Nova Zelândia, em 1893 (ou seja, pouco mais de 100 anos).
As democracias podem ser classificadas quanto aos tipos diferentes, com base no modo como se organizam. E, também, podem apresentar diferentes estágios de desenvolvimento. Por isso, o termo é amplo e de difícil definição, pois o simples ato de dizer que “a democracia é o poder do povo" ou de associar democracia à prática de eleições não define o conceito em sua totalidade.
Temos três
tipos básicos de democracia:
§ Democracia direta
É a forma
clássica de democracia exercida pelos atenienses. Não havia eleições
de representantes. Havia um corpo de cidadãos que legislava. Os cidadãos
reuniam-se na ágora, um local público que abrigava as chamadas
assembleias legislativas, onde eram criadas, debatidas e alteradas as leis
atenienses. Cada cidadão podia participar diretamente emitindo as suas
propostas legislativas e votando nas propostas de leis dos outros
cidadãos. Os cidadãos preparavam-se, mediante o estudo da Retórica,
do Direito e da Política, para as
assembleias. As decisões, então, eram tomadas por todos. Exercemos,
agora, esse tipo de democracia? Sim, claro, podemos e devemos exercê-lo nas
nossas comunidades. E mais, nos preparar para isso, para defender nossas
opiniões, argumentar, ouvir x outrx e elaborar consensos. Isso vem a ser
a aprendizagem do "exercício da cidadania" ou "fazer
política".
§ Democracia representativa (ou indireta)
Pela
existência de vastos territórios e de inúmeros cidadãos, é impossível pensar em
uma democracia direta, como havia na Grécia. Vários fatores contribuíram para a
formação desse segundo tipo de democracia: o voto (sufrágio universal); a Constituição, que regulamenta
a política, a vida pública e os direitos e deveres de todos; a igualdade de
todos perante a lei, o que está estabelecido pela Constituição. Vejam que Direitos
Humanos está diretamente relacionado à Democracia.
Então... as democracias
representativas são regidas por constituições que estabelecem um Estado
Democrático de Direito. Nessas organizações políticas, todo cidadão é
considerado igual perante a lei, e todo ser humano é considerado cidadão. Não
pode haver desrespeito à constituição, que é a carta maior de direitos e
deveres do país, e os cidadãos elegem representantes que vão legislar e
governar em seu nome, sendo representantes do poder popular nos poderes
Executivo e Legislativo.
A vantagem desse
tipo de organização política é a exequibilidade, e sua desvantagem é
a brecha para a corrupção e para a atuação política em benefício
do bem privado e não do bem público. Por ser um sistema em que a
participação política não é exercida diretamente, mas por meio de
representações, ele é chamado de democracia indireta. E a
característica principal da democracia representativa é a eleição dos nossos
representantes.
§ Democracia participativa (ou semi direta)
Nem uma democracia direta,
como era feita na Antiguidade, e nem totalmente indireta, como acontece com a
democracia representativa, a democracia participativa mescla elementos de uma e
de outra. Existem eleições que escolhem e nomeiam membros do
Executivo e do Legislativo, mas as decisões somente são tomadas por meio
da participação e autorização popular.
Essa participação acontece
nas assembleias locais, em que os cidadãos participam, ou pela observação
de líderes populares, nas assembleias restritas, que podem ou não ter direito a
voto. Também acontecem plebiscitos para ser feita uma consulta popular antes de
tomar-se uma decisão política. Esse tipo de democracia permite uma maior participação cidadã, mesmo
com a ampliação do conceito de cidadania e pode ser chamada democracia
semidireta.
O sistema político brasileiro pode
ser chamado de representativo, mas a nossa Constituição Federal de 1988 permite
uma ampla participação popular que, caso
fosse efetivamente aplicada, poderia colocar-nos
no patamar de democracia participativa, inclusive prevendo a possibilidade de
uma iniciativa popular legislativa.
Quando um Estado Democrático de Direito, representado pela Constituição, é, por algum motivo, suspenso, interrompido ou deixado de lado, podemos dizer que há a formação de um Estado de exceção, que é uma das características de uma ditadura.
Dessa breve elucidação do conceito, partimos para a compreensão da Democracia no Brasil: Como tantas outras coisas no nosso país, a relação entre democracia e política aqui é complicada. Na Primeira República, ou República Velha, tivemos um período provisório comandado por setores militares (1889 - 1894). Um período em que a chamada “política café com leite” deu início a um longo conchavo entre líderes de São Paulo e Minas Gerais para a presidência do país. Em 1930, uma chapa liderada por Júlio Prestes, paulista, é indicada e eleita. Porém os políticos mineiros não aceitam a eleição, iniciando a Revolução de 1930, que acaba com a república e inicia a Era Vargas. Uma característica da Primeira República era o voto de cabresto, em que os coronéis locais mandavam e fiscalizavam as pessoas quando votavam, criando uma fraude que descaracteriza a legitimidade do processo democrático. A democracia só foi restabelecida no Brasil em 1945. E, em 1964, o país vive outro golpe contra a república brasileira e contra a democracia. Trata-se do golpe civil-militar, que impôs um regime de exceção, suspendendo direitos civis e a constituição, impondo a censura contra a imprensa e fechando, o Congresso Nacional.
Pois, como podemos ver, só existe democracia com o funcionamento dos três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário, cada um com suas atribuições específicas.
Imprescindível, para entender melhor a democracia no nosso país, principalmente nos últimos anos, o filme "Democracia em vertigem", documentário de 2019 indicado ao Oscar em 2020, dirigido por Petra Costa, que relata os bastidores do impeachment da Presidenta Dilma, o julgamento de Lula e o pleito que elegeu o candidato de extrema-direita.
Voltando a história, em 1985, a ditadura militar acaba, mas deixa como marca as eleições indiretas para presidente. O grande movimento, iniciado ainda no fim da ditadura, o "Diretas Já", pedia o estabelecimento de eleições diretas para presidente. Em 1988, acontece a Assembleia Constituinte que cria a Constituição Federal de 1988, a Constituição Cidadã, e restabelece a possibilidade da democracia plena, reforçando direitos e promovendo a igualdade.
Percebemos que nossa Democracia ainda é muito frágil. O respeito a essa democracia, até mesmo por parte de representantes do Legislativo, do Judiciário e do Executivo, e por parte da população civil, ainda é um problema, pois o que mais temos visto é a violação dos valores constitucionais por parte de políticos eleitos pelo povo. E o povo, nós, ou um tanto de nós, na alienação, na falta de educação política, nos deixamos levar pela "superfície" das informações, pelas informações falsas, que nos impõe um
Pois com conversas e reflexão fica fácil de ver que um conceito (e a prática) de democracia é aquele onde o governo preserva o legítimo direito de expressão e de existência das minorias, um governo para todos. E outro conceito (e a prática) de democracia é o "governo da maioria", a "minoria" tem que se adaptar, ou se submeter, ser explorada, massacrada, vilipendiada. Com todo o "encobrimento" necessário, isto é, a ideologia, ou o que se chama "Guerra Cultural" que, num sentido geral, significa a tentativa de imposição de padrões, entendida (e praticada) como "o meu jeito de pensar, meus princípios, meus valores, são a verdade absoluta... e quem não compartilha dessa verdade deve ser eliminadx... este é o entendimento atual de "guerra cultural". A "polarização", o maniqueísmo, "certo ou errado", feio ou bonito, céu ou inferno, homem ou mulher... só interessam à dominação. O humano é muito maior do que dois lados... é uma construção constante...
Jacques Rancière. 1940...
O seu livro O ódio à democracia, o filósofo francês contemporâneo Jacques Rancière fala sobre a crise democrática que tem assolado os países no século XXI. Segundo ele, o mundo tem agido contra a democracia por uma espécie de medo que ela pode colocar no cidadão médio: o medo de que a democracia seja o regime político por excelência.
Rancière afirma que a democracia é o regime do dissenso, e isso tem promovido a cisão da população. É normal que haja discordância dentro de um regime democrático, mas deve haver também respeito mútuo por todas as partes que respeitam a democracia, e deve haver uma tentativa de construir-se um projeto comum com base na discordância.
A partir do momento em que setores autoritários não respeitam os seus adversários, tem-se início um processo de ódio contra a democracia que pede o fim dela para que o adversário e a sua posição política sejam eliminados. É daí que surge o anseio pela ditadura.
"Neste ensaio, publicado em 2005 na França, Jacques Rancière, um dos mais importantes filósofos da atualidade, conduz o leitor por um passeio pela história da crítica à democracia para situá-la no cerne político do momento atual, procurando esclarecer o que há de novo e revelador no sentimento antidemocrático, uma manifestação tão antiga quanto a própria noção de democracia. Dessa forma, Rancière repensa o poder subversivo do ideal democrático e o que se entende por política, para assim encontrar o caráter incisivo de sua ideia. O livro ganha edição em português pela Boitempo Editorial em um momento único da política brasileira, no contexto de um cenário eleitoral surpreendente, que sintetiza a efervescência social dos últimos anos, revelada com mais intensidade nas manifestações sociais de junho de 2013. A obra mostra-se atual também em relação ao debate que vem crescendo sobre participação e representação popular, democracia direta e o desejo de que a política signifique mais do que uma escolha entre oligarcas substituíveis. "É justamente essa recusa da hierarquia que tem a ganhar com a leitura deste livro de Jacques Rancière que, à luz dos clássicos como da experiência francesa e mundial, continua um trabalho sempre renovado, jamais concluso, de afiar o gume da democracia", afirma o filósofo Renato Janine Ribeiro no texto de orelha do livro".
E assim terminamos nossa conversa, com sugestões de outros temas, que estão elencados no post do "lançamento" do projeto, assim como sugestões de outros lugares para a próxima conversa... e lembrando (e cantando) o grande GONZAGUINGA:
A música "Comportamento Geral", foi lançada em 1973. Ao apresentar a música a um júri do antigo programa Flávio Cavalcanti, Gonzaguinha foi "massacrado". Um dos jurados sugeriu sua deportação. A música teve sua execução pública proibida, mas a venda em disco para audição particular foi permitida.
E como é atual! Vejam a letra! Afinal, nem no tempo da ditadura militar tentaram acabar com os direitos trabalhistas, com a aposentadoria, só falta, como diz a letra da música, acabarem com o carnaval.
"Você deve notar que não tem mais tutu / e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira / e dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria / e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão / e esquecer que está desempregado
Você merece, você merece / Tudo vai bem, tudo legal / Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé / Se acabarem com o teu Carnaval?
Você merece, você merece / Tudo vai bem, tudo legal / Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé / Se acabarem com o teu Carnaval?
Você deve aprender a baixar a cabeça / E dizer sempre: "Muito obrigado"
São palavras que ainda te deixam dizer / Por ser homem bem disciplinado
Deve, pois, só fazer pelo bem da Nação / Tudo aquilo que for ordenado / Pra ganhar um Fuscão no juízo final / E diploma de bem comportado
Você merece, você merece / Tudo vai bem, tudo legal / Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé / Se acabarem com o teu Carnaval?
Você merece, você merece / Tudo vai bem, tudo legal / Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé / Se acabarem com o teu Carnaval?
Você merece, você merece / Tudo vai bem, tudo legal
E um Fuscão no juízo final / Você merece, você merece
E diploma de bem comportado / Você merece, você merece
Esqueça que está desempregado / Você merece, você merece/tudo vai bem, tudo legal"
E outra, que cantamos, do mesmo Gonzaguinha e da mesma época, anos 70, aqui interpretada pela maravilhosa Elza Soares:
"Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata
São tantas lutas inglórias
São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão
De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Dessa crença num enorme coração
Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes
Sem corpos
Sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata
E tantos são os homens por debaixo das manchetes
São braços esquecidos que fizeram os heróis
São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós
São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera, nunca alcança
Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver quem se lembrará
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará
Ê eu, não posso esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta"
E terminamos como a Elza:
QUE PAÍS É ESSE!!!
VAMOS LUTAR POR UM PAIS MAIS INCLUSIVO, MAIS HUMANO, MAIS DEMOCRÁTICO!
Até nosso próximo encontro, talvez na varanda.
Abraços carinhosos
SantuzaTU
segunda-feira, 6 de setembro de 2021
ARTES NA PANDEMIA: conto do Sérgio , mais novo SBCense
Sérgio
Miguel Cardoso, ou Sérgio Cardoso... mais recente “aquisição” do SBC:
Iniciou carreira artística como ator muito cedo, aos cinco anos de idade atuando em peças infantis no Grupo Escolar Barão do Rio Branco onde cursou o primário.
Em 1955, com a inauguração da extinta TV Itacolomi canal 04, atuava em teleteatros, levado por seu pai, Otavio Cardoso, que foi convidado para montar e dirigir o elenco de teleteatro daquela emissora onde permaneceu por 14 anos, até sua extinção.
Participou de vários espetáculos como, por exemplo, o famoso “Grande Teatro Lourdes”, ao lado de grandes atores tais como: Ary Fontenelle, Lady Francisco, Rogério Falabella, Mauro Gonçalves (o Zacarias dos Trapalhões), Antônio Naddeo, Elvécio Guimarães, Ana Lúcia Kathá, Clausi Soares, Glória Lopes, Ricardo Luiz, Jacy Campos (no famoso programa Câmera Um),e vários outros grandes atores e atrizes.
Atuou também como Double na Herbert Richer’s no Rio de janeiro, onde residiu por muitos anos ao lado de Sadi Cabral, Carlos Imperial, e outros
Participou como cantor em programas musicais ao lado Clara Nunes, Agnaldo Timóteo, Bando dos Cariúnas (Grupo musical do Professor Elias Salomé), bem como atuou como cantor lírico na ópera O Verter de Verdi produzida pela Sociedade Coral de Minas Gerais pela temporada lírica de Belo Horizonte comandado por seu pai que ali atuava como regisseur.
Atuou ainda, já nas décadas de 80, 90 e 2000 nas peças “Pobre Vila Rica” de autoria de Carl Schumacher pelo projeto “Caminhos da Liberdade” produzido pela Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais em 1989, “A Paixão de Um Deus” de Jair Raso em 1999 e “Lola”, adaptação livre para musical baseado na obra de Fassbinder, por Roberto Cordovani.
Juntamente com Magdalena Rodrigues, Presidenta do SATED/MG (Sindicato dos Artistas), produziu, dirigiu e atuou no Condomínio Morro do Chapéu a peça “O Natal na Praça”, com elenco amador formado por moradores daquele condomínio residencial por ocasião das festividades natalinas.
Formado em Direito exerce a profissão de Advogado em Minas Gerais.
Sempre gostou de ler, escrever e compor poemas. Às vezes crônica, às vezes conto. Viajando de um gênero para o outro, “Cardoso escreve contos e crônicas como quem elabora um roteiro. A sugestão da imagem parece ser mais importante que rebuscar a linguagem ou penetrar em divagações descritivas. São as situações que se encadeiam, sem perda de tempo, para surpreender o leitor em finais impressentidos. Mesmo quando, aparentemente, é possível prever a sequência, o autor inverte o jogo e, subitamente, parte para um desfecho inesperado, um típico “golpe de cena”, que os dramaturgos conhecem de sobejo” , escreve Jota Dangelo na apresentação do seu livro CONTOS.
E , claro, depois que ele conheceu o SBC, nosso conceito de BEM VIVER, e se identificou imediatamente.
Então, lemos o livro de uma “sentada” só, e fizemos apreciações sobre cada um dos sete contos, especialmente este:
O CAVALHEIRO E A DAMA ou TIMIDEZ e HONESTIDADE, inusitado, excitante como as coisas “proibidas”. Então pedimos para publicá-lo no nosso projeto ARTES NA PANDEMIA. E aí está, para o nosso deleite.
O Homem desviou o olhar da Mulher e travou a batalha dos lugares. Venceu. Ajeitou-se, cansado pela refrega, na poltrona suja.
Por mero acaso, a Mulher estava à sua frente, num assento virado ao contrário (o tal “cara dura”), tendo à esquerda um cidadão.
O trem partiu. Ele cochilou. Quatro estações adiante,
desceram os cidadãos: o da esquerda e o da direita, dela e dele, respectivamente.
O Homem – por simples gentileza – ofereceu à Mulher o assento ao seu lado (direito, junto à janela): -É desagradável, minha senhora, viajar nesse banco “cara dura”. Viramos mira dos demais.
A Mulher concordou; agradeceu, e passou-se para o lado dele, é claro.
Por longo tempo não mais se falaram. Ele fingia dormitar; ela não fingia nada.
Por fim, o Homem abriu os olhos e a Mulher – por educação, ofereceu-lhe um sanduíche diminuto: pão, alface, bife, salsicha, tomate, dois ovos e mostarda.
— Não, muito obrigado. Estou sem fome, disse o Homem. E comeu o sanduíche.
— Horríveis aqueles camaradas que desceram, disse a Mulher. Antipáticos, sem assunto e mal cheirosos; não lhes dei a mínima confiança.
— Concordo, concordo, sem dúvida, com a sua opinião, falou o Homem, lembrando-se de que a Mulher e os cidadãos haviam conversado o tempo todo.
— O senhor está com bastante sono, não? – perguntou a Mulher – pelo menos dormiu bastante.
— Sim, respondeu o Homem. Ando muito sem sono.
— Depois – continuou – sou um tanto acanhado e não sei bem iniciar uma conversação.
Assim, prefiro dormir nas viagens, concluiu passando o braço casualmente por trás dos ombros da Mulher.
— Aprecio homens acanhados, disse a Mulher. Eu, na qualidade de casada, honesta e fiel, não aprecio homens “entrões” . E ajeitou-se melhor no braço do Homem.
— É casada? Perguntou o Homem, com evidente surpresa, pois já havia visto a aliança grossa e brilhante no anular esquerdo da Mulher. Então, conte comigo para despachar audaciosos que a queiram desrespeitar, acrescentou enquanto apertava-a suavemente de encontro a seu peito.
— Vê-se logo que é um cavalheiro, articulou a Mulher. Sinto-me segura e protegida a seu lado, uma vez que é indivíduo que não abusa. Sou também muito tímida e encostou sua face na dele.
— Muitas vezes surpreendo perguntando-me como pode haver tipos avançadores (de desodorante Avanço), expressou-se o Homem, examinando delicadamente a contextura do tecido que a vestia nas partes mais anatômicas.
— Bem grande esse túnel, gaguejou a Mulher, ao conseguir libertar a boca que o Homem beijava ainda. Meu marido, sempre me diz ter desagradáveis impressões ao passar por túneis.
— De fato, há indivíduos sem vergonha que se aproveitam da escuridão para
atitudes pouco recomendáveis e desrespeitam senhoras por acaso ao seu lado, tartamudeou o Homem, enquanto fazia discreto “bilu-bilu” na Mulher.
— Não tolero tais camaradas, ciciou a Mulher. Costumam até fazer-nos indecorosos convites.
— Isto é verdade, disse o Homem e conceituou distraído:
— conheço um desses descarados, que certa vez, teve a audácia de convidar distinta dama com quem viajava, para interromperem a viagem e pernoitar com ele na primeira estação onde desceria, alegando,
– veja a senhora que desfaçatez – o fato de estar muito frio . E, assim falando, o Homem media o diâmetro das pernas da Mulher.
— A um convite de tão baixa espécie, articulou a Mulher reunindo sua bagagem – não seria possível resposta digna.
— Lógico, disse o Homem, descendo do trem. Felizmente sou bastante reservado para tentar tal aventura.
— E teve a sorte de viajar ao lado de uma senhora correta, sempre pronta a rebater qualquer insinuação descabida, exclamou a Mulher, ao entrarem no Hotel.
— Perfeitamente, sem dúvida, sem dúvida, - falou o Homem – e por isso me felicito, concluiu ao assinar o livro de registro com o seu verdadeiro nome falso.
— Imagine se eu me prestasse ao que se prestam essas... “quaisquer” que andam por aí... ciciou a Mulher entrando no quarto.
— Se assim fosse, tartamudeou o Homem, acompanhando-a, creia que a senhora não mereceria sequer minha consideração; sempre apreciei a virtude...e fechou a porta do quarto!
'FIM
sexta-feira, 3 de setembro de 2021
Na garagem, na beira do fogão, na varanda, na calçada, no buteco...
Na
verdade , o processo criativo é muito interessante: tem aquela fase da
"INCUBAÇÃO", em que as ideias estão num nível "mais ou
menos" consciente (ou sub-consciente), e a gente vai ouvindo coisas que,
não estando atentxs, não ouviríamos. Segundo exemplo de SBCense famosa, é que
nem quando uma mulher está grávida, ela vê todo mundo grávida, em outro momento
da vida ela nem repararia nisso. Nietzche, grande filósofo SBCense, fala da
importância de adquirirmos a "capacidade bovina", que é a capacidade
de "ruminar".
Pois bem, a incubação começou com amigo SBCense nos aplicando um jurista brasileiro bacana demais, Alysson Leandro Mascaro:
E ele, o Mascaro, fala da necessidade de construirmos ambientes, quaisquer que sejam eles, para conversar sobre IDEIAS que orientam nosso pensar, nosso sentir e nosso agir... e refletir e criticar essas ideias. E ele diz que essas conversas podem ser em qualquer lugar: nas garagens, por exemplo.
E mais: conversar vai abrindo nossas cabeças para o que chamamos VISÃO DE MUNDO, e nos capacitando a nos colocar como sujeitos, construtores de um mundo mais simétrico, mais bonito...
Não
é super SBCense isso!!! pois bem, ficou "incubado": Podemos (e devemos...)
resignificar conceitos... podemos criar novas palavras, recriar palavras nos
ajuda a resignificar o mundo. E começamos esse movimento pensando sobre os
conceitos (ou ideias) que nos "enfiam goela abaixo", que absorvemos e
reproduzimos sem pensar sobre eles. Isso se aproxima do conceito do nosso
projeto "Arte, Prosa e Samba", que pretende trabalhar, através da
arte, temas importantes para a vida e para as nossas relações. Como foi nosso
primeiro tema: O amor... foi bonito como, com a nossa "construção"
através das músicas e poemas, as pessoas presentes (e virtuais) conseguiram
perceber como o conceito de amor nos vem de uma maneira "distorcida",
ruim para a vida e para as relações ... e como podemos resignificá-lo.
Pois: papel fundamental da arte e da cultura, é contribuir para
nossa capacidade de distinguir ideias voltadas para a vida e para a morte... e
nos capacitar para construir ideias para a vida.
Então:
continuando nossa "incubação", estávamos para Ouro Preto. Sim, temos
uma ala SBCense em Ouro Preto... mais especificamente ao redor de um fogão a
lenha, na Mina DU VELOSO.
E estávamos conversando sobre "inclusão"... quando uma grande pessoa, grande construtor da cidade, "João de Barro", já construiu inúmeras casas ali, disse: "eu construo casas e depois passo por elas e não posso entrar... acabou a escravidão?"
E aí, o que era
"incubação" começou a se desenhar:
NOVO PROJETO SBCense: na garagem... na beira do fogão... na varanda... na calçada... no buteco...
Porém, de resto, abomino tudo que me
inspira, sem me impulsionar diretamente para a ação.
Johann Wolfgang von Goethe (1749–1832) ,considerado como a maior personalidade da literatura alemã, seu maior poeta, famoso também como dramaturgo, romancista e ensaísta, sendo notáveis suas obras autobiográficas, seus estudos de ciências naturais e suas conversações com amigos. Sobre suas poesias, ele próprio dizia serem ‘ocasionais’, isto é, ligadas aos acontecimentos de sua vida e a experiências pessoais, de modo que não é possível separar as obras e a vida. Ai ele entrou pro SBC... rsrs
E daí elencamos algumas palavras, para começar a conversar sobre o "conceito internalizado", pra que ele serve, e a resignificação do mesmo "para a vida e para a ação transformadora" .
IDEOLOGIA
POLITICA
ALIENAÇÃO
HISTÓRIA
DEMOCRACIA
CAPITALISMO
SOCIALISMO
COMUNISMO
MERITOCRACIA
E INCLUSÃO, DIVERSIDADE, RESPEITO... E EDUCAÇÃO... foram palavras/ideias que fizeram parte da conversa, pois estão embutidas, necessariamente, na democracia que queremos/precisamos construir.
E começamos lendo o Artigo 6º da nossa Constituição Federal de 1988: São
direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o
transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à
maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição.
Qual a importância desse artigo?
Os
direitos sociais no Brasil, após a Constituição Federal de 1988, mediante o
artigo 6o, garante a todos o direito de ter educação, saúde, trabalho, lazer,
segurança e previdência social. Permite A TODOS o acesso a esses
direitos, que são básicos para o ser humano sobreviver.
Foi por aí nossa conversa sobre DEMOCRACIA, assunto para o próximo post.
Não sem antes publicarmos "poema" sobre OURO PRETO, ou OUTROS PRETOS, uma RESIGNIFICAÇÃO:
Ouro Preto... o que fizeram com seus pretos?
Ouro... quantas vidas pretas te ergueram...
Preto... quanto ouro custou sua
liberdade...
Ouro... quantas pretas...
Preto... quanto ouro...
Ouro Preto... Outros pretos...
Ouro Preto!
Reconheça seus negros e negras!
Que fizeram ... e fazem ... a sua
história!
E, a seguir, uma foto "EM VOLTA DO FOGÃO A LENHA", gentilmente encaminhada pelo Eduardo Evangelista, o DU da Mina DU VELOSO. Obrigada!
Até nossa conversa sobre DEMOCRACIA.
Abraços carinhosos ...
Santuza TU





































