segunda-feira, 1 de março de 2021

Conversas SBCenses: SOBRE FAMÍLIA... E OUTRAS RELAÇÕES...

Conversando com um grande amigo ele me “re-aplica” um grande filósofo e psiquiatra brasileiro dos meus tempos de juventude: Gaiarsa, José Ângelo Gaiarsa. Não tem como conversar sobre Gaiarsa e não recordar|resgatar nossa história dos anos 70|80, transgressora, libertária. Ainda mais com esse amigo, que adora conversar, conversamos até “espumar o canto da boca”, como diz uma outra amiga. Esse estereótipo feminino que diz que as mulheres falam demais é, na minha redefinição, uma ultra qualidade. Homens interessantes conversam até mais que mulheres, falam muuuiiito... sobre o que pensam, sobre suas emoções, elaboram teorias, trazem pra conversa suas leituras, seus autores preferidos ... e isso é lindo! Ao redor de nós, nas nossas conversas, temos, quase sempre, Freud, Nietzche, Hanna Arendt, Marx, Lenin,  Guimarães Rosa, Paulo Freire, Emma Goldman ... e filósofos contemporâneos: Vladimir Safatle, Francisco Bosco, Maria Rita Kehl, Chimamanda Adiche, Marcia Tiburi, Marilena Chauí ... e muitxs outrxs. E também poetas e artistas: Adélia Prado, Drumond, Cora Coralina, Chiquinha Gonzaga, Chico, Daniela, Elza. Ele disse que minhas escritas parecem com o Gaiarsa... preferia que fosse com a Maria Rita Kehl, mas gostei também...



Enfim, meu convite é resgatar esse grande psiquiatra e sorver da sua sabedoria... e conversar com ele, lembrando outros livros, filmes, músicas... que nos servem para aumentar nossa competência para o “bem viver”.



Gaiarsa nasceu em 1920 e faleceu em 2010. Seu último livro foi: 

MEIO SECULO DE PSICOTERAPIA VERBAL E CORPORAL

Até 2008, 2009 estava publicando livros: 

 





Mas sua maior produção acredito que tenha sido nos anos 70 e 80. Coloco alguns desses livros aqui, todos eles libertários, todos eles incrementando a luta contra todo tipo de autoritarismo, todos eles super SBCenses:

 



Gaiarsa foi um dos maiores críticos da família e da hipocrisia social que a cerca. Para ele, o conjunto de regras que obedecemos desde que nascemos - regras essas que transmitimos a nossos filhos mesmo tendo sofrido com elas - só serve a um propósito: o da opressão.


Ele também desmistifica os grandes personagens que compõem a ideologia familiar: a mãe perfeita, a pai abnegado, o filho vítima. 

Gaiarsa mostra que o amor não pode ficar restrito a determinadas amarras. Ele nos ajuda a rever todos os nossos (pré)conceitos sobre fidelidade, família, relacionamentos e felicidade. 

PODER E PRAZER

O livro negro da família, do amor e do sexo

Nesse livro ele  fala sobre as origens pré-históricas da agressão, sua ligação com a sexualidade, sua continuação na forma de organização social (luta de classes) e na família, onde são aprendidos, implicitamente, todos os jogos do poder.



Dois ótimos livros dele, da coleção Primeiros Passos, livrinhos de bolso super fáceis de ler e super instrutivos. E também super SBCenses. Já conversamos e escrevemos sobre esse assunto: uizinho, ui, uizão e chalap-chalap, tema bastante instrutivo para uma "geração SBCense". Veja nosso post de 14 de março de 2012.





E outro livro do Gaiarsa totalmente SBCense: Tratado geral sobre a fofoca: uma análise da desconfiança humana. Lançado originalmente em 1978, este livro permanece tão atual que parece ter sido escrito ontem. Aqui,  Gaiarsa faz uma análise sociológica, filosófica, histórica e psicológica da fofoca. Ele afirma que, quando fazemos fofoca de um indivíduo, colocamos nele todos os preconceitos que estão dentro de nós. E, ao fazermos isso, automaticamente nos livramos de qualquer defeito, tornando-nos modelos de perfeição. As consequências são drásticas: além de fazer mal ao outro, frustramos toda e qualquer possibilidade de mudança interna que pudesse nos levar a um patamar mais elevado de consciência. Ou seja, nosso conhecido mecanismo de projeção, o "mal" está no outro, nós somos a perfeição.

Muito bom, o SBC recomenda... Mas para além dessa análise sobre a fofoca feita por ele, nós do SBC nos permitimos elaborar uma outra análise possível, digamos, um "conceito positivo", uma ressignificação da palavra fofoca: pois, quando falamos de alguém é porque queremos aprender com esse alguém, trata-se da prática da competência essencialmente humana, que vem a ser "aprender com o(a) outro(a) e oferecer também a minha experiência para que x outrx aprenda comigo". A isto o SBC denomina "pesquisa antropológica". Claro que com um pouco do "cinismo" peculiar ao SBC... "tem gente que não presta... são as melhores pessoas".

 

Mas a conversa sobre Gaiarsa suscitou lembranças de outros livros interessantíssimos, como diria, “do baú”...

Como vimos, ele critica essa organização social tão incensada, o casamento e a família. Crítica que também fazemos. Sempre me pergunto: para que serve, na nossa sociedade, essa super valorização deste nível de relação (casal e família) e uma “desvalorização” do nível de relação de amizades? nós nem “aprendemos” a valorizar as amizades, nem faz parte da nossa “educação”. 

Mas a família... Haaa... ai de quem ousa criticar... torna-se o\a herege, a “ovelha negra”... e não é incrível que o maior índice de violência contra mulheres, idosos, crianças, pessoas mais vulneráveis, se encontra no seio dessa “santa instituição”? 

Resgatamos duas falas do Gaiarsa sobre AMOR e FAMILIA:

 

Atenção aos dois últimos parágrafos... sobre eles nos debruçamos, ou melhor, conversamos e elaboramos...



Novamente o último parágrafo, que reforça a ideia da "dificuldade do modelo da juntividade" que conhecemos.



"É preciso amar as pessoas 
Como se não houvesse amanhã
Por que se você parar pra pensar
Na verdade não há...

E esse resgate nos fez lembrar e conversar, além do nosso querido Renato Russo,  sobre dois livros bacanérrimos, muito antigos.

O primeiro deles:

 


De 1980

David Cooper é um psiquiatra existencial de vanguarda que, juntamente com R.D.Laing, tem se dedicado à pesquisa no campo da psicologia e do tratamento de esquizofrênicos. Esse trabalho o convenceu de que a noção de família impregna a vida interior do indivíduo, destruindo-lhe a independência sexual e social. Este livro, fruto dessa convicção, é uma crítica severa dos conceitos da "situação familial". 

O livro é, sem dúvida, revolucionário. O autor não se contenta em criticar, mas vai mais além e discute as alternativas para a família convencional dando exemplos de como os objetivos "familiais", que dominam a vida, podem ser rejeitados. Analisa também, as dificuldades frequentemente encontradas na formação de comunas ou antifamílias.

  

o E um outro livro discutido a partir do Gaiarsa: o Livro de uma Sogra, de1895.


Este é o autor, Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo.  Nasceu  em 1857 e morreu em 1913,  foi o principal autor da vertente naturalista no Brasil e o primeiro escritor a viver de literatura no país. Exímio retratista de tipos sociais, escreveu inúmeras obras, entre romances, contos, crônicas e peças teatrais, além de ter sido  desenhista e caricaturista. Bonitão e super atual no seu bigodon  Handlebar, estilo bastante popular entre os hipsters e também chamado "guidão" porque parece com  guidão de uma bicicleta. Aluísio é mais famoso por seu livro:

Cortiço, romance naturalista  publicado em 1890 que denuncia a exploração e as péssimas condições de vida dos moradores das estalagens ou dos cortiços cariocas do final do século XIX.


Voltando ao Livro de uma Sogra, este foi o último romance de Aluísio Azevedo, onde ele teoriza sobre o casamento.  Foi escrito no século XIX – 1895, no Rio de Janeiro. Esse romance trata da vida de casada de Olímpia, uma mulher oriunda de uma família tradicional, que chegada a hora de casar a única filha, Palmira, começa a busca por um marido ideal para ela.

O amor pode até durar para sempre, mas é possível amar alguém todo dia? Aluísio de Azevedo jura que não. "Não há estômago que resista a faisão dourado todos os dias; o melhor acepipe, se não for discretamente servido, enfastiará no fim de algum tempo", diz ele.
(acepipe = petisco, tira gosto, prato servido para abrir o apetite, tipo "comida de buteco")

Olímpia, a sogra,  ela mesma "vítima" do casamento, filosofa e trama as condições que irão propiciar felicidade à filha vivendo sob a égide do matrimônio.

O primeiro princípio estabelecido pela sogra - e ela é mais irredutível que qualquer outra - é o da separação de corpos. Cada um dos cônjuges deve viver em sua própria casa. O marido segue, então, visitando e sendo visitado pela mulher, como nos tempos de namorados, em dias alternados, e nem sempre pode desfrutar de uma noite inteira a seu lado. É que a sábia sogra acredita que a convivência no dia-a-dia é a pior inimiga do casamento.

Algumas coisas no livro tanto devem ser situadas historicamente, como também podem servir de análise da atualidade, como, por exemplo, o racismo da “alta sociedade”, assim como a “inferioridade” da mulher... Naquele tempo ela defendia a tese de que a mulher, por mais inteligente que seja, precisava se colocar num lugar inferior em todos os aspectos: mais frágil, mais baixa e até mais feia. O homem, por outro lado, é obrigado a aceitar a própria mediocridade para se tornar um "bom marido", porque gênios e artistas dão péssimos cônjuges, dizia Olímpia. 

Será? O SBC acha que sim... talvez ótimos amantes atualmente, numa redefinição SBCense de amantes: pessoas que amam a vida, a liberdade, e que amam bons encontros.

E por aí íamos nossa conversa de “espumar o canto da boca”, quando me lembrei também de um caso pertinente ao assunto: o de uma mãe, digamos, libertária, que educou a filha dentro desses princípios. Pois não é que essa mãe me relata, com perplexidade, que, quando ela já separada, a filha, por volta dos seus 15 anos, termina com seu primeiro namorado. E ocorre o seguinte dialogo, carregado de choro:

. Filha, você já tinha me dito que não estava, digamos, gostando tanto dele, não é? você não estava mais feliz com ele...

. Sim mãe! Mas eu não queria repetir o seu modelo, eu queria que durasse para sempre!!!

. Heim!!! Como assim!!! Você que ser feliz ou quer uma relação duradoura?...

E olha que este diálogo deve ter uns 10 a 15 anos, relativamente recente. Ainda bem que essa filha, agora, evoluiu para a libertação desse modelo.

Mas nenhuma e nenhum de nós estamos livres de repetir modelos, pois estes estão terrivelmente enraizados, cravados a ferro e fogo nos nossos espíritos... além de repetidos diariamente no que ouvimos, nas músicas, na poesia, na arte em geral, que se presta tanto ao trabalho de reproduzir esses modelos como também antecipar, criar novos modelos. A gente canta e canta e repete... e deseja o que, racionalmente, dizemos que não...

Então, outro caso de repetição do modelo: pessoa super amadurecida emocionalmente, alguns “casamentos” na sua história de vida, frustações (claro que também alegrias...)... agora solteiro, feliz sozinho, com amigos e amigas, amantes ... numa conversa despretensiosa sobre fantasias de futuro ele descreve um sitio onde produza, ele mesmo, seus alimentos e viva com a natureza... talvez perto da cidade, pois também gosta dessa movimentação urbana... aí, quando ele continua na sua fantasia, descreve “uma mulher que queira, talvez, a mesma coisa, e que nos juntemos pra sermos felizes”... 

Fiquei pasma... rosa chiclete... me amarrota que eu tô passada...  vejo nessa simples descrição de uma “imagem mental de futuro", a repetição completamente desnecessária de um modelo, tão enraizado que dificilmente saímos dele... dificilmente pensamos uma vida boa com amigos, com amantes, cada um na sua autonomia... não é uma ilusão ele pensar que exista uma mulher com o desejo tanto quanto o dele para ficarem juntos? para um encontro de desejos durante todo o tempo, de manhã, a tarde, a noite? na prática isso se dá, quase sempre, com a submissão da mulher ao desejo do homem... e depois acabam a vida infelizes “para sempre”...

Mas continuamos a conversa: e concluímos (provisoriamente) falando sobre o projeto SBCense BLUE SKY VILLAGE... A VILA DO CÉU AZUL... Trata-se de uma comunidade onde todxs vivem de maneira autônoma, todxs tem as suas casas, e se reúnem para os projetos em comum, para trabalhar na horta, ver filmes, dar caminhadas, cantar, dançar... e, claro, administrar a comunidade... e a cada um de acordo com suas necessidades, e de cada um de acordo com seu trabalho. E, claro, este projeto não está pronto, senão seria um projeto autoritário, imposto. Está para ser construído, juntxs...

Parece um projeto ainda tão distante da nossa fantasia... e tão possível, se arregaçarmos as mangas e trabalharmos por ele...

E essas conversas sobre autores do século passado me lembram sempre como é bom pra vida nos apropriar da nossa história, conversar sobre o passado para, com ele, fazendo nossos joeiramentos, escrever de uma maneira bonita nosso futuro. E aí me vem, de novo, nossa querida Evinha... "Eu vou voltar aos velhos tempos de mim..." significa esse resgate... necessário para a construção prospectiva. Terminamos com ela...

Bora voltar aos "velhos tempos" de nós!!! pra resgatar coisas boas pra vida...

Abraços carinhosos a todas, todos e todes...





https://youtu.be/fKFmrHyuCT0



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Artes na Pandemia: A arte de Roberto Luiz

 


A arte ancestral



Roberto Luiz
Morador do bairro Bom Jesus, Região Noroeste de Belo Horizonte

A arte se impõe ainda mais em tempos difíceis, tempos excepcionais, tempos de intolerância e de certa escuridão humana nas pessoas. O artista da vez é Roberto Luiz, que chega trazendo seu trabalho engajado, cheio de luz e religiosidade e que rompe preconceitos.



Arte da reciclagem




Entre facas, espadas, martelos e punhais, o artista apresenta uma história de resistência, luta e identidade.



significados









O afro representado





Os guerreiros da resistência e suas armas





Os trabalhos são comercializados sob encomenda

Contato do Roberto:
whatsApp: 8839-8957


*Faça seu comentário; coloque seu nome e seu contato; publique ou com sua conta Gmail ou como anônimo. Obrigado!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Noite

 

Retomando nosso projeto SBCense: ARTES NA PANDEMIA, recebemos o poema da nossa querida colaboradora ANTONIETA. Nossa gratidão...





Noite 

Quero me cobrir de estrelas e sonhar com você

Sonhar que todo 2020 foi um pesadelo e que estamos felizes e esperançosos para o 2021.

 

Fazer das estrelas pontinhos de esperança e luz neste nosso caminhar.

 

E aí, quando eu acordar

Já será de manhã.

E todas as pessoas da terra já estarão vacinadas e salvas.

 

Sim, acordei.

 

Ainda bem que foi só um pesadelo.

 

Antonieta Shirlene 24. 01.21




quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

A PIROPA DO AMOR FEINHO

Recuperando e ampliando nossas palavras SBCenses e seus significados: PIROPA...

Me lembro bem quando ouvi a palavra pela primeira vez, da boca do Chico (o Buarque), e ele disse "PIROPA". Lembro que fui consultar o nosso atual “pai os burros” (meu pai dizia que era a enciclopédia Barsa)... o Google... e tinha até um site com “as piores piropas” (são aquelas frases feitas, baratas, que soariam hoje, algumas delas, até como importunação ou assédio. E, claro, dirigidas às mulheres).

Fui de novo ao Google e não encontrei mais a palavra PIROPA, e sim PIROPO, que já tinha visto como a origem daquela. Sim, Piropo é uma palavra espanhola e o Chico deve tê-la “abrasileirado”. Também em Portugal se diz "piropo", que significa galanteio, elogio, cantada, xaveco, galanteada. Também encontrei como sinônimos: Agarramento, agarração, amores, apego.

E encontrei dois sites de “piropos para hombres” (ou seja, de mulheres para homens) e “piropos para mujeres” (claro, de homens para mulheres). Gente!!! Precisamos atualizar esse GOOGLE!!! Que isso!!! Tem umas sugestões, como costumo dizer, “sutis do tamanho de uma patada de elefante”, de que, normalmente são os homens que piropam (as mulheres devem se colocar no lugar de piropeadas! Aff). E o site continua: ... mas as mulheres podem também fazê-lo, desde que seja, sempre, numa conduta respeitosa. Essa recomendação é para mulheres piropeadoras, para homens não!!! Sutil, né? não mais como uma patada. Mas como uma manada de elefantes... é muito interessante como essas coisas passam despercebidas ainda, e, ao mesmo tempo, quando começamos a “ver” isso fere viu?... sigamos... (não sem antes observar também que piropar não acontece somente entre homens e mulheres, google super desatualizado em relação a gênero, devia aprender com a Judith Butlher...).

Agora, fazendo o movimento de ampliação do significado, como fazemos no SBC, a palavra piropa pode, e deve, ser ampliada no que diz respeito aos níveis de relação. Quero dizer que nós, no SBC, piropamos todas, todos e todes, ou seja, piropar passou a ser entendida (e praticada) como “empoderamento”, “validação”.

Nós precisamos ser reconhecidxs, validadxs, com isso nos empoderamos, nossa autoestima se enriquece e, para além das relações intimas, amigas e amigos têm este papel.

Então, piropar significa dar o melhor de si mesmx e extrair dx outro o melhor dele(a).

E o SBC acredita que são ineficazes as “piropas prontas”, como os sites nos sugerem, pois piropa boa é uma fala espontânea, ou melhor, talvez seja uma “construção fluida”, um “bom encontro”. Dá tesão, por si mesmx, pelo outro e pela vida.

O assunto PIROPA é recorrente no SBC. Ano passado surgiu compondo uma espécie de mantra para vivermos esses tempos que estamos vivendo:

“Paciência, paciência, paciência...

Esperança, esperança, esperança...

Riso, riso, riso...

Piropa, piropa, piropa...”

(tem gente que acrescenta: Vai tomar no c... B... ou B ou quem você queira... é libertador... kkk).

 


Nosso outro assunto recorrente é o amor romântico, discutimos muito sobre a repetição desse modelo relacional, a fim de conhecê-lo, cada vez mais ver onde e como ele se reproduz, e superá-lo, criar um amor fundado em liberdades e em simetria.



Como o Chico nos ensina, a arte é ótima para piroparmos. Música, poesia... são excelentes piropas. E grande SBCense me manda uma super piropa, usando a poesia e combatendo o amor romântico:

TU, eu estava procurando uma piropa hoje e lembrei de Adélia Prado, um poema que li há bastante tempo. Aí vai:



AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.

Amor feinho não olha um pro outro.

Uma vez encontrado, é igual fé, não teologa mais.

Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo e filhos tem os quantos haja.

Tudo que não fala faz.

Planta beijo de três cores ao redor da casa e saudade roxa e branca, da comum e da dobrada.

Amor feinho é bom porque não fica velho.

Cuida do essencial, o que brilha nos olhos é o que é:

Eu sou homem você é mulher.

Amor feinho não tem ilusão.

O que ele tem é esperança:

Eu quero amor feinho.

Lindo né¿ Amor feinho combate o amor romântico, idealizado, padrão. Não está pronto, é construído, como tudo no humano. Por isso adorei esse poema.

E aí eu comecei a pensar que, como é construído, cada um (ou cada dois) tem o seu “amor feinho”. Então eu fiz o meu:

 

Eu quero amor divertido, simples, que conversa, canta e lê e faz poesias... 

Meu amor feinho não pensa em ser feliz, só em se divertir. Mas se vê feliz, de repente, nas horinhas vagas.

Meu amor feinho faz caminhadas, com longas conversas, desde receitas até análise de conjuntura.

Faz massagens tântricas (do seu jeito), se diverte na cama, deseja mais prazer do que gozo, não quer performances, quer brincar... trepa de ladinho ou em posições bem confortáveis.

Meu amor feinho é divertido, não é sofrido, fala de suas inseguranças e ri junto... dá presentes e  piropeia o tempo todo.

O meu amor feinho mora no tempo da delicadeza.

Eu quero amor feinho...

 

Minha querida amiga, que lindos! os dois...

Me emocionei com o poema da Adélia e com a sua versão do “amor feinho”. Super SBCence, capta o nosso espirito. Obrigada por compartilhar conosco.

Me ocorreu nos perguntar, a todxs nós:

Que amor feinho eu desejo construir?

E você? que amor você quer? diga isso a ele|ela, pare de pensar que a outra pessoa vai adivinhar... ou que tem um padrão de amor (aliás, em tendo é o que queremos destruir... e criar um novo, a se construir, sempre...).

Sim querida... nunca entendi nos facebooks da vida o perfil da pessoa: em um relacionamento sério. Meu amor feinho é divertido, não é sério, definitivamente. Meu amor feinho é uma grande amizade... com tesão...

E, terminando, para rirmos mais um pouco, encontrei num dos sites no Google, não sei se o masculino ou o feminino: “Pareces Google porque tienes todo lo que yo busco”.

Tosco né? kkk

Com esta tosquera me despeço rindo... e torcendo pro seu sucesso na piropa viu?

Abraços super carinhosos...

SantuzaTU







 

 


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Conversas SBCenses 3: Quando amo, O QUÊ estou amando?

Terminando nossa trilogia "quando amo, O QUÊ estou amando?", uma ampliação do conceito para outros níveis de relação, além da relação íntima.

Não me lembro nem onde nem quando li um artigo sobre o tema “relações simbióticas”, dizendo sobre as relações íntimas, afetivo-sexuais. Mas este tema me ocorreu a propósito da pergunta: quando amo O QUÊ estou amando?

Então... primeiro vamos ao google:  “...a simbiose nasceu da busca estratégica de interações entre organismos de diferentes espécies... os exemplos mais comuns são os de verminoses, o que muitas vezes pode levar o hospedeiro à morte...”

“o conceito de simbiose é uma metáfora biológica, que usamos na psicologia para descrever a situação de dependência emocional entre indivíduos. Essa dependência é normal em etapas muito iniciais da vida, principalmente do bebê com a mãe, logo após a gravidez, mas deixa de ser saudável se perdura...”

E, continuando na pesquisa googolistica (rsrs), os tipos de simbiose existentes:

. no Mutualismo, ambas as partes se beneficiam da relação, mesmo que não igualmente, tampouco existe uma avaliação do quanto custa a cada um tal benefício;

. no Comensalismo, uma das partes obtém benefícios sem prejudicar ou beneficiar a outra, ou seja, a parte beneficiadora se orgulha de ser protetora e a parte beneficiada agradece... pode ser uma relação produtiva para ambas as partes, embora assimétrica. Assim como pode ser produtiva somente durante um certo tempo... daí, pode passar, aos poucos, para o tipo a seguir, o parasitismo;

. já no Parasitismo, um dos simbiontes se beneficia às custas do outro, e pode levar à morte do beneficiante, o que está sendo sugado.

Obrigada Google...

Vamos à reflexão: quando li sobre relações simbióticas pensei mais nas relações afetivo-sexuais entre nós, mulheres, e os homens... acontece por demais! Quando as relações não estão na base da simetria... de pensar, de sentir, de agir... e que passa pelo bolso, o econômico, como já falamos... as relações acabam sendo simbióticas... e nós, mulheres, sofremos consequências terrivelmente “invisíveis”. Li uma vez num livro de um jornalista italiano contemporâneo, Francesco Alberoni, “Enamoramento e Amor”, que o homem se enamora “daquele ser explendoroso” e, rapidamente (ou aos poucos), a transforma “num ser domável”, ou seja, destrói exatamente aquela característica que o fez amá-la!  Que motivos o fariam realizar esse “movimento inconsciente”!!!

Pois bem, acham que isso só acontece nas relações afetivo-sexuais entre homens e mulheres? Nem pensar! rsrs. Eu achava que as relações homo afetivas aconteciam de formas mais livres... e, sim, acontecem de uma forma mais livre em outros aspectos. Porém, infelizmente, as relações homo afetivas reproduzem, também, obviamente, nossos padrões culturalmente enraizados. Portanto, não estamos imunes!!!

Atenção!!! Os conceitos enraizados de “amor” estão em todas as relações! “só sei viver se for por você”... ai... odeio Djavan...

Então, percebo também que as relações simbióticas parasitárias se desenvolvem, também, nas amizades! Assim como o “amor romântico”... pois a idealização da outra pessoa, a mitificação, é uma das principais características desse amor ... e da idealização é um pulo para o desprezo, é só um chutinho no pedestal onde colocamos a pessoa mitificada, qualquer “humanidade” da mesma é pretexto para o desprezo, perdemos a condição humana de admiração. E precisamos estar bastante atentxs a isso, corremos sérios riscos!

Essa “teorização” me vem a partir de relato de uma pessoa amiga que, segundo ela, quase sucumbiu à relação simbiótica. Pois  percebia que a outra pessoa, uma amiga,   a amava e admirava muito, e era recíproco. Então, o que foi acontecendo, sem que as duas percebessem (Freud tinha razão: inconsciente existe, daí o sentido da pergunta: “O quê” estamos amando, a fim de "irmos descobrindo...")? 

Uma delas foi incentivando a outra para o papel de palco em várias situações. E a primeira fazia o papel de bastidor, muitas vezes de uma maneira controladora e autoritária, minando aos poucos o brilho da outra. 

Perceberam a “sutileza” do vínculo destrutivo? E a saída possível seria a tomada de consciência do próprio brilho por parte de uma delas, e a tomada de consciência da vaidade por parte da outra, que facilmente caia na armadilha do reconhecimento, e ia ficando do jeito que a outra queria, ia se perdendo de si mesma.

E, pensando mais sobre a origem dessas relações: a INVEJA.

Que sentimento potente!!! Tanto para a destruição quanto para a vida... e o tanto que precisamos estar atentxs a este sentimento, enquanto objetxs da inveja e enquanto sujeitxs invejantes.




Salieri, compositor de óperas, italiano de final do  século XVIII e princípio do século XIX, conseguiu ir destruindo Mozart, até a morte, por não reconhecer seu próprio brilho. E Mozart, por imaturidade, e|ou vaidade, entre outras características, permitiu isso. Depois Salieri ficou louco. O filme “Amadeus”, de 1984, do grande diretor Milos Forman, mostra a destruição (do outro e de si mesmx) de uma maneira esplêndida.

Uma grande pessoa me disse, uma vez, uma metáfora valiosa pra minha vida: desde que nascemos, vamos aprendendo a construir uma prateleira dos sentimentos, das emoções. Nessa prateleira, as emoções que ocupam os lugares mais altos são as “emoções nobres”, aquelas que devemos ter, ou “fingir que temos”, o altruísmo, a generosidade... como se essas emoções fossem aprendidas numa sociedade capitalista... Ô dó... até a generosidade é manifestada na ação de forma arrogante, por uma classe social privilegiada... ou seja, os sentimentos e emoções são artefatos culturais, são, também, fabricados culturalmente!!!

Ai... vai descendo a prateleira e veem os sentimento “menos nobres”... vai descendo... lá embaixo na prateleira está um desses sentimentos: a inveja...

A inveja é um sentimento horrível! Um pecado, um dos sete pecados capitais. Não devemos ter inveja! E, se a reconhecermos, devemos fingir que não a temos!!! Vamos substituindo-a, por exemplo, por admiração... a admiração é um sentimento que coloca o admirado num pedestal, como já disse... e qualquer “humanidade” que a pessoa se manifeste ela será “destruída”.

E fico pensando: como é importante a gente tomar consciência dessas emoções “negadas” culturalmente, apropriar delas e ir construindo na direção das escolhas, que podem ser: . . ou de cortar a relação, porque não dou conta ou não quero lidar com isso, pelo menos agora; ou aprender a viver e relacionar com a  pessoa tendo consciência e minimizando essa faceta da relação; . e|ou tentar conversar com a pessoa (dar e receber feedback) para construir uma interpretação bonita e produtiva das coisas, hipótese mais bacana e menos provável; 

Enfim, podemos  escolher crescer com isso... e nos proteger enquanto objeto de inveja, admiração e simbiose parasitária.

E enquanto sujeito, também de admiração... que, necessariamente, para crescimento pessoal, deve ser enxergada como inveja, pelamordedeus, não me fale em “inveja boa”, me fale de “inveja potente”, que se transforma em desejo... o que invejo é o que desejo! Seja ter ou ser... persiga!!!

Não neguemos nossas invejas! Apropriemos delas como fontes de construção da nossa identidade... daquilo que queremos ser... só desse jeito ela será enriquecedora.

E, conversando sobre isso, um amigo me lembrou da expressão metafórica desse tipo de relação tóxica:

RELAÇÕES VAMPIRESCAS. Claro!!! relações vampirescas vem a ser um tipo de relação abusiva, relação em mão única, relação de exploração ... e ocorre em todos os níveis de relação: o homem vampiresco; a mulher vampiresca; X filho vampiresco; A mãe e|ou o  pai vampiresco; X amigx vampiresco; o colega de trabalho; o chefe; o cidadão e a cidadã vampirescos... e o politico vampiresco.

E lembrei de um filme super legal:


São vários pequenos vídeos de vários diretores, em homenagem a Paris... cada um rodado num lugar diferente de Paris... e um deles, de Vincenzo Natali, Quartier de la Madeleine,  apresenta de uma forma arrasante, uma cena vampiresca... na forma de amor, o amor que conhecemos, o amor romântico. Procurem no YouTube...

E concluo dizendo que precisamos rever urgentemente nossos conceitos de amor, em todos os níveis de relação. Grande trabalho que não podemos nos furtar, pois esse será um grande legado que deixaremos para as próximas gerações. Deusas e Deuses nos ajudem... Amém...

Santuza TU


 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

HISTÓRIA BONITA DE UM PROCESSO DE EMPODERAMENTO

 

Fico tão orgulhosa dos meus amigos e amigas! Realmente, Vinicius (o Moraes) tinha razão, não conseguiria viver sem amigos. São, no meu entendimento, as relações mais preciosas, que mais fazem a gente crescer... e sempre em mão dupla, oferecer minhas reflexões, minha experiência de vida, para que elxs também cresçam comigo.

Conheço a Silvana há uns quinze anos... do samba... da diretoria do SBC. E nos identificamos tanto que ela parece que escreve como eu, parece meu alter ego. E isso lá da Bahia, pois ela voltou pra lá há uns cinco anos. E continuamos nossos contatos virtuais, escrevendo, falando, fazendo rodas de conversa com homens e mulheres que querem aprender a serem melhores consigo mesmxs e melhores relacionalmente.

Mas não podia deixar de publicar esta sua carta. Parece muito com o que estou também vivenciando. Obrigada minha grande amiga.

TU querida! Estou aqui na Bahia... acompanho seu blog, leio suas postagens e me lembro com saudades das nossas longas conversas sobre nós, mulheres, quem somos, o que queremos, nossa identidade reflexa (o que somos criadas para...) e nossa identidade construída por nós mesmas, um trabalho para a vida toda.

Como aprendi com você TU!, ou melhor, como você gosta de dizer: como aprendemos juntas!!!, pois o processo de aprendizagem só ocorre em mão dupla. E aqui na Bahia eu multiplico nossas teorias, construídas a partir da reflexão sobre nós mesmas, nossas vidas. Claro que apropriando de outras teorias já prontas, um filme, um livro, que servem como pretexto... ou pré-texto... o texto fazemos nós.

E agora acabo de ler estes dois posts no blog “quando amo, O QUÊ estou amando” e me deu vontade de escrever um depoimento sobre minha vida, sobre meu processo de empoderamento...

Lembra aquela reflexão que fizemos numa noite regada a muita cerva, sobre estar no palco ou estar nos bastidores, sobre os papéis de palco e os papéis de bastidor. Essa frase tão cravada na nossa alma “por trás de um grande homem existe uma grande mulher” (e ainda atual, acredite...) traduz o papel de bastidor exercido por nós nas relações íntimas... e, para exercermos “bem” este papel nossa auto estima tinha que “ir, aos poucos, sendo abaixada”...

Por isso, ou melhor, lutando historicamente contra isso, fui internalizando um juízo de valor depreciativo sobre o papel de bastidores. Claro, o que mais eu queria, e fui construindo, era caminhar para estar no palco, minha autoestima estava relacionada ao tanto que eu dava conta de me mostrar, pois foi isso que foi sendo destruído em mim para eu desempenhar o papel de bastidor.

Lembra do livro que você me deu uma grande “aula” sobre ele¿ “O feminismo espontâneo da histeria”... Nem li o livro TU, sua “aula”, sua “interpretação” do livro, foi melhor pra mim... e você me disse que a principal queixa das mulheres é: tenho medo de me arriscar e “não dar certo”... então, essa queixa está invertida, nosso maior medo é “dar certo”, pois dar certo questiona todos os nossos papéis internalizados, esses de bastidor... dar certo, agora entendi, sob vários aspectos, é estar no palco, protagonizando sua própria história, “dar certo” é, enfim, construir, para toda a vida, o “ser quem eu quero ser”, em todos os níveis de relação... Agora também, TU, estou entendendo aquilo que você dizia sobre os níveis de relação: intimo, pessoal, social e público... pois, caminhando para a construção do  “dar certo” profissionalmente, fazer o que gosto e ganhar dinheiro com isso (não tenho dúvida, agora, isso é uma construção valiosa) fui começando a perceber que, dando passos para além disso, começamos a nos perguntar: e, o que fazemos pelo mundo em que estamos, para construir um mundo melhor para além do nosso mundinho, aquele olhar horizontal que você diz... e aí é que começamos nossa consciência no nível mais amplo, enquanto cidadã, o que estamos fazendo, o que podemos fazer... e aí, TU, comecei a sair, digamos, do meu “casulo” de empoderamento, e comecei a procurar me engajar em grupos que discutem a questão da mulher, a questão de gênero, e assim por diante... e assim foi que me tornei “política” no sentido mais amplo da palavra TU!!! Agora entendo demais, profundamente, porque exerço isso, está na minha vida:  “amor e política na cama e no mundo”.

E então comecei também, agora, com a “mitideza” que você me ensinou (nem supermetida – arrogante, nem submetida, subserviente... autoestima ao ponto), me arriscando em papéis de palco e experimentando meu tamanho, o que dou conta e o que posso dar mais conta, construir mais...

E aí comecei a perceber também o papel importantíssimo de bastidor... e descobri que também posso e sei fazer este papel, porém, de uma maneira diferente daquela que eu fazia anteriormente, valorizando meu papel de bastidor e  desempenhando este papel da melhor forma possível, com a maior competência. Pois este papel é fundamental... tão importante quanto o do palco. Melhor, são papéis complementares.

E saber desempenhar com sabedoria e prazer os dois papéis é muito bom, transitar entre os dois papéis, traz um sentimento de liberdade de ser. Pois não é que voltei a ir pra cozinha e fazer umas coisinhas gostosas, lembra que neguei tudo que sabia fazer na cozinha, pois este era um lugar de bastidor da mulher. Agora adoro fazer umas receitas e convidar amigas e amigos pra tomar um vinho e comer uns petiscos feitos por mim. Parece um nada, mas pra mim é um orgulho pessoal  uma superação. E, ao mesmo tempo, me orgulho de pertencer a grupos políticos que estão pensando e agindo no sentido da construção de um mundo mais igualitário, mais fraterno, mais bonito. E, claro, me bancando ... “liberdade é de pensar, se sentir e de agir... mas passa pelo bolso”.

TU, não sei se foi o Guimarães Rosa que disse isso, mas agora me ocorre a frase:

“A vida é um espetáculo imperdível, um palco, onde cada um tem o seu trabalho de fazer o melhor desempenho”... realmente, procurei no google e não vi essa frase dele... então, agora é nossa... minha gratidão a você, querida amiga, por contribuir no meu caminho para ser uma pessoa melhor, ser quem eu quero ser...

Silvana Baiana

Gratidão querida amiga, por você existir na minha vida!

Santuza TU