quinta-feira, 27 de agosto de 2026

2 FILMES IMPERDÍVEIS... BRASILEIROS

O primeiro filme que vimos, Honestino, retrata o Brasil desde princípio dos anos 60, a criação da Universidade de Brasília, o golpe militar de 64... as várias invasões armadas da PM à Universidade... até início de anos 70... e a história de Honestino.

Direção de Aurelio Michiles, fusão entre documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração 68, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e é uma das centenas de desaparecidos da ditadura militar. Baseado em cartas, poemas e imagens de arquivo, dezenas de depoimentos de familiares, amigos e militantes e cenas interpretadas por Bruno Gagliasso. 

Honestino foi uma das vítimas da Ditadura Militar. Brutalmente assassinado aos 26 anos, o Estado apenas reconheceu a culpa do homicídio após vinte anos, ainda assim, é possível relatar os traumas deixados para os estudantes de Brasília. Com o intuito de tornar a história inspiradora de Honestino Guimarães atual outra vez, o longa reúne uma série de arquivos inéditos sobre a trajetória dele, incluindo a sua luta e legado para - ao menos tentar - construir uma história melhor para o Brasil do que aquela que ele pode viver.

Foto Leo Lara

O segundo filme, dirigido por Anita Leandro (na foto), Anistia 79 é um documentário que traz cenas inéditas sobre um dos momentos mais importantes para a história moderna do povo brasileiro. Em 1979, na cidade de Roma, Itália, é realizada a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, que até hoje é considerada por muitos como o maior encontro da esquerda brasileira realizado fora do país. Quase meio século depois, cenas resgatadas retornam no momento ótimo para  entendermos a construção da memória da ditadura militar.

Em junho de 1979, centenas de exilados e militantes pela anistia no Brasil chegam em Roma, provenientes de vários países. É preciso uma intervenção efetiva no processo de abertura política, pois a ditadura militar não quer libertar os presos políticos e articula, nas sombras, a extensão do benefício da anistia aos torturadores. Um jovem exilado filma o evento e guarda os negativos num porão, em Paris, por quase 50 anos. Confrontado a alguns participantes da Conferência de Roma, este material mostra que o passado, no Brasil, ainda não passou.

Cineasta e historiadora, Anita Leandro, mineira de Belo Horizonte, ao receber o prêmio de Juri Popular da Mostra de Tiradentes deste ano, deu uma aula de democracia, chamando a atenção para a atualidade do debate da impunidade da tortura e dos desaparecimentos forçados, uma vez que falta ao Brasil a justiça de transição e a ditadura não acabou em lugares como as favelas e periferias. Ela destacou a importância da Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil e a sensibilidade de Hamilton Lopes dos Santos, que teve a iniciativa de registrar aquelas imagens e sons para o futuro. O filme traz diferentes gerações de exilados em um reencontro com as gravações feitas há quase 50 anos.

Sabiam que, geralmente, os filmes brasileiros independentes têm dificuldade para se manter em cartaz? Por isso, é importantíssimo ter um público expressivo na primeira semana, para garantir a continuidade de exibição do mesmo.

E as conversas SBCenses depois de cada um dos filmes:

. Toda vez que vejo um filme brasileiro da segunda metade do século passado me pergunto onde eu estava, como estava, como era a minha vida, em 'que mundo' (ou Brasil...) eu vivia na época retratada pelo filme. Nos anos 60 eu = branca classe média = estava saindo de colégio de freira e indo fazer o curso normal na Instituto de Educação. Foi uma "libertação" pra mim... comecei a entender um pouco mais de mundo, para além do próprio umbigo. No Instituto tínhamos várias classes sociais e essa convivência foi muito importante pra mim. Depois passei no vestibular em universidade particular, a Católica de MG. Estudava a noite e trabalhava para pagar meu curso. 

. Nos anos 70 nas universidades não podíamos falar de política. No entanto fazíamos política, muitas de nós casamos e descasamos (naquela época era 'desquite' e não 'divórcio'), fomos cobaias das primeiras pílulas anticoncepcionais e isso nos fez apropriarmos do nosso corpo e da nossa liberdade sexual = como disse nossa feminista Rose Marie Muraro, "conquistamos o direito ao orgasmo".


 
. Líamos e comentávamos sobre o Pasquim, semanário alternativo da história da imprensa brasileira que circulava no período mais rigoroso da ditadura militar, pós AI 5, realizando resistência através do humor e reunindo ícones da cultura nacional, Henfil, Laerte, Sérgio Cabral, Chico Buarque, entre outros.

. Nos movimentos feministas daquela época, começava a onda do feminismo negro, começávamos e reconhecer e criticar Simone de Beauvoir, dizendo que nós, feministas brancas, nos permitíamos entrar no mercado de trabalho às custas de colocarmos nossas irmãs negras cuidando dos nossos filhos. 
. Líamos "A morte da Família", de David Cooper; "A Contracultura", livros de Gaiarsa e de Wilhelm Reich, de Muraro, Lélia Gonzalez e Sônia Viegas, entre outros e outras... e continuávamos lendo Simone. 

. E acompanhávamos os primórdios da criação do MST, final dos anos 70. Assim como os resgates de movimentos negros, como o MNU Movimento Negro Unificado. 

. O surgimento do movimento "Quem Ama não Mata" em Belo Horizonte, luta feminina que surgiu em resposta ao assassinato de Ângela Diniz em 1976. O movimento começou a se organizar em 80 e é uma das primeiras movimentações do Brasil a se manifestar contra a impunidade dos crimes de violência contra a mulher.

. Nos tocou por demais, entre outras coisas, o Gregório Bezerra no filme  Anistia 79 falando dos 'verdadeiros terroristas', aqueles que prendiam, torturavam e matavam... 


. E nossa querida Heloisa Greco, além de resgatar potente discurso da sua mãe Helena Grego, nos fala da atualidade do extermínio... nosso, de nós, brasileiros e brasileiras, nós os indígenas, nós os negros e negras periféricas. 

. Enfim, a anistia que se propunha ampla geral e irrestrita, tornou=se "lenta, gradual e segura"... e nos perguntamos: segura pra quem? provavelmente segura para os "torturadores" que se viram anistiados, livres. 

. Não tivemos como não resgatar linda canção de Gonzaguinha, aqui interpretada pela grande Elza, faixa 10 do álbum "Planeta Fome":

Abraços carinhosos às pessoas que nos acompanham... e não percam o filme!
Santuza TU





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