quinta-feira, 23 de julho de 2026

Conversas SBCenses: sobre APRENDIZAGENS

 


"Viver é uma aprendizagem constante"... Este também pode ser um dos 'princípios orientadores de vida' do SBC, além dos três já colocados, desde 2017, na contracapa do nosso primeiro livro, "Diário do SBC": o riso, o valor das amizades e o desenvolvimento do sentido estético na vida.


Aprendemos com Nietzsche, no livro Genealogia da Moral, a paciência com o que nos é mais antípoda (aprendemos, também, a palavra 'antípoda'= 'contrária' =, adoro! uso sempre). Ele conta que quando já estavam bem formuladas suas ideias sobre a origem do que temos como 'bem' e 'mal', veio parar em suas mãos um livro que apresentava ideias que eram as mais antípodas às que ele formulava... E isso serviu para ele, tanto melhorar sua argumentação, quanto aumentar sua convicção em relação às suas ideias.

Aprendemos com Eli Bonini, psicólogo, antropólogo, psiquiatra, professor na UFMG nos anos 60, preso pela ditadura militar, os conceitos de amigo, adversário e inimigo... e como, na nossa cultura, costumamos 'aprender de maneira distorcida' a colocar adversários (aqueles que divergem de nós) na categoria de inimigos, o que nos empobrece... Pois se acreditamos que amigos são as pessoas que sempre e em tudo concordam conosco, na verdade queremos pessoas submissas a nós e nossas ideias. Pois é com o diferente que crescemos, como aprendemos, também com nossa grande G. Rosa "Sou quando divirjo".

Praticando, além do valor aprendizagem, o valor amizade, crescer uns com os outros, recebo essa semana um texto importantíssimo, profundo,  do querido "novo amigo de infância", Alvimar, grande Presidente da nossa querida Escola de Samba Triunfo Barroco. Compartilhando... e aprendendo...

O QUE O SAMBA TEM A APRENDER COM O MOVIMENTO LGBTQIAPN+?

Autor: Alvimar Neri Pinto

Data: 20/07/2026


Neste fim de semana, Belo Horizonte foi palco da 27a Parada do Orgulho

LGBTQIAPN+, e a Escola de Samba Triunfo Barroco esteve presente, acompanhando de perto essa grande manifestação popular.

Mais do que participar do evento, saímos dessa experiência com uma reflexão que merece ser compartilhada. Quando fazemos essa pergunta, “O que o samba tem a aprender com o movimento LGBTQIAPN+?” talvez estejamos olhando para o lugar errado. O samba não precisa aprender a ser diverso, pois nasceu da diversidade. Não precisa aprender a acolher as diferenças, porque foi construído justamente por aqueles que a sociedade tentou excluir. A verdadeira reflexão é outra: o que o samba pode aprender com a capacidade de organização e mobilização do movimento LGBTQIAPN+?

Nas últimas décadas, o movimento LGBTQIAPN+ demonstrou que uma manifestação cultural só alcança mudanças estruturais quando está acompanhada de organização política, produção de conhecimento, comunicação eficiente e atuação permanente na defesa de direitos. Suas conquistas não foram fruto do acaso. Elas nasceram da mobilização coletiva, da formação de lideranças, da construção de redes e da ocupação dos espaços onde as decisões são tomadas.

Essa reflexão também precisa chegar ao universo do samba. Por muito tempo, permitimos que a sociedade reduzisse o samba a uma simples festa. E, em certa medida, nós mesmos passamos a enxergá-lo dessa forma. O sucesso de uma escola de samba passou a ser medido quase exclusivamente pela colocação no desfile, pela grandiosidade das alegorias, pelas notas dos jurados ou pelo brilho do espetáculo apresentado na avenida. Da mesma forma, muitas vezes avaliamos uma roda de samba apenas pela quantidade de pessoas presentes, pela casa cheia ou pelo retorno financeiro do evento.

Mas o samba nunca foi apenas festa. O samba nasceu como uma forma de resistência da população negra brasileira. Foi nos quintais, nas rodas, nos terreiros, nas favelas e nos subúrbios que homens e mulheres transformaram a cultura em ferramenta de sobrevivência, preservando suas memórias, religiosidades, saberes e formas de organização diante de uma sociedade marcada pelo racismo e pela exclusão.

A intelectual Lélia Gonzalez descreveu as escolas de samba como uma extraordinária criação das comunidades negras, espaços de solidariedade, pertencimento e afirmação cultural. Já Luiz Antonio Simas reforça que uma escola de samba não pode ser compreendida apenas pelos minutos em que atravessa a avenida. Ela é uma instituição comunitária, um território de proteção social, educação popular e construção de identidade coletiva.

Essa compreensão muda completamente a forma de enxergar o papel das agremiações. Se reconhecemos que o samba é um movimento social, cultural e político, precisamos fazer uma pergunta incômoda: por que permitimos que nossa maior preocupação se resumisse ao desfile? Passamos meses debatendo regulamentos, julgadores, fantasias, alegorias e notas, enquanto dedicamos pouco espaço às discussões sobre políticas públicas, financiamento permanente, formação de lideranças, produção de conhecimento, comunicação estratégica e mobilização social. Ao concentrarmos nossos esforços quase exclusivamente na utopia carnavalesca, deixamos de fortalecer o samba como um movimento que atua durante todo o ano. O resultado dessa escolha se repete a cada temporada: encerramos os desfiles, desmontamos as alegorias e, muitas vezes, voltamos ao silêncio, aguardando que um novo Carnaval recomece o ciclo, em vez de mantermos uma atuação contínua na defesa da cultura, das comunidades e das escolas de samba.

Enquanto isso, decisões fundamentais sobre cultura, orçamento público, patrimônio e financiamento continuam sendo tomadas sem a participação efetiva do universo do samba. Infelizmente, ainda convivemos com desafios que demonstram o quanto precisamos fortalecer nossa organização. O próprio 1o Seminário Nacional das Rodas de Samba apontou problemas como a ausência de um mapeamento nacional, dificuldades de financiamento, precarização do trabalho dos sambistas, falta de políticas públicas específicas e a necessidade de maior organização institucional.

Aprender... e participar... Obrigada pela reflexão, querido amigo. Estamos juntos nessa aprendizagem... e nessa prática. 

Lembramos de dois sambas que falam sobre aprendizagem:


Aprender com a dor... mas também acreditamos que aprendemos com alegrias, com trocas com erros e acertos ... e com a vida, nas ruas e nas vielas...


Mas também podemos aprender com o diferente... o rock ... E aprendemos  com Raul Seixas a estar sempre em movimento, assim é a vida:


Abraços carinhosos a todas as pessoas que nos acompanham,
Santuza TU




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