domingo, 8 de outubro de 2023

Nosso SARAU de outubro: Direitos Humanos? Quais?


Começamos o sarau com perguntas, com o objetivo de instigar, promover reflexão: lembram de alguma vez você ter lutado por seus direitos? isso foi em que plano de relação? na família, casal? e enquanto cidadão e cidadã, você já lutou por seus direitos? Apenas uma auto-análise...

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 é a lei fundamental e suprema do Brasil, servindo de parâmetro de validade a todas as demais espécies normativas, situando-se no topo do ordenamento jurídico.

Dai nos situamos historicamente:

O Dia da Constituição Brasileira é celebrado em 25 de março em referência à data da edição da primeira Constituição do Brasil, outorgada pelo imperador Dom Pedro I em 24 de março de 1824.

No entanto, nossa última constituição foi aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte em 22 de setembro de 1988 e promulgada em 5 de outubro de 1988. Pode ser considerada a sétima ou a oitava constituição do Brasil e a sexta ou sétima constituição brasileira em um século de república. Então, estamos comemorando, hoje, 35 anos da constituição cidadã, essa de 1988, que ficou conhecida assim por ter sido concebida no processo de redemocratização, iniciado com o encerramento da ditadura militar no Brasil (1964–1985). É composta por 250 artigos, sendo a segunda maior constituição do mundo, depois da constituição da Índia.

Continuamos um pouco mais  na história: Desde 1964 o Brasil estava sob uma ditadura militar, e desde 1967 (particularmente subjugado às alterações decorrentes dos Atos Institucionais) sob uma Constituição imposta pelo governo federal. O regime de exceção, em que as garantias individuais e sociais eram restritas, ou mesmo ignoradas, e cuja finalidade era garantir os interesses da ditadura, internalizados em conceitos como segurança nacional, restrição das garantias fundamentais, torturou e executou opositores. Durante o processo de abertura política, o anseio por dotar o Brasil de uma nova Constituição, defensora dos valores democráticos. Anseio que se tornou necessidade após o fim da ditadura militar e a redemocratização do Brasil, a partir de 1985.

Com a nova constituição, o direito maior de um cidadão que vive em uma democracia representativa foi conquistado: foi determinada a eleição direta para os cargos de Presidente da República, Governador do Estado e do Distrito Federal, Prefeito, Deputado Federal, Estadual e Distrital, Senador e Vereador. A carta magna de 1988 é exaltada por ter restabelecida a democracia.

E... nesse contexto pensamos nosso sarau:

DIREITOS? QUAIS TEMOS? OS DIREITOS SÃO IGUAIS NO NOSSO PAIS? E OS EXCLUIDOS? A POPULAÇÃO DESPROVIDA DE DIREITOS, ONDE OS DIREITOS SÃO NEGADOS...

Lembramos do Marco temporal, dos direitos dos povos originários...Direitos dos negros... Direitos das mulheres... Direito ao aborto...direitos dos LGBTQIA+...Direito à Educação ...  Existe para todos e todas no nosso país?

LEMBRAMOS TAMBÉM DOS DIREITOS DAS CRIANÇAS - ECA ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE... DOMINGO FOI A VOTAÇÃO PARA CONSELHEIRO TUTELAR... QUEM VOTOU?  SABEM O QUE ACONTECE? OS E AS CONSELHEIRAS CONSERVADORAS SE SERVEM DA RELIGIÃO PARA IMPOR CONDUTAS, EM VEZ DE DEFENDER O ESTATUDO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE... 

ENFIM, nosso convite...

VAMOS CONSTRUIR NOSSO SARAU?

PRIMEIRO, CONVIDAMOS TRÊS PESSOAS PARA LEREM AQUI UM CORDEL SOBRE A CONSTITUIÇÃO QUE A NOSSA QUERIDA SBCense Simone encontrou pra nós, o cordel é da Sirlia Souza de Lima, educadora do Rio Grande do Norte. Não pode ser copiado, por isso não imprimimos, vamos lê-lo no celular. 


Continuamos com um pouco de história: A Antonieta Shirlene, grande SBCense, e também historiadora não pôde vir mas nos mandou material muito bacana. Destacamos:

1. Direitos humanos

E se te perguntassem: qual é o principal direito da pessoa humana?

     O direito à vida é o principal direito garantido a todas as pessoas , sem nenhuma distinção ,sendo este o mais importante, já que sem ele os demais ficariam sem fundamento.

     E em relação à constituição de 1988, quais seriam os principais artigos ? 

O Artigo 5° da Constituição Federal  é           

 bastante importante pois trata dos direitos e garantias fundamentais.

Neste artigo são definidos os direitos básicos do cidadãos brasileiros, como a igualdade perante a lei, a liberdade de expressão, a inviolabilidade do domicílio, a liberdade religiosa, entre outros.       Outro artigo importante é o artigo 205 que trata sobre a educação. Neste artigo a Constituição  Cidadã 

estabelece que a educação é um direito de todos e dever do Estado família, será promovida a incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Na verdade ,quando a gente lê o artigo 205 onde a educação é um direito de todos e um dever do Estado devemos lembrar que nem todas as crianças e adolescentes têm, de fato, este direito garantido.

No Brasil a educação vem cada vez mais sendo mercantilizada e monopolizada por grandes grupos financeiros que querem, antes de tudo, grandes lucros nas bolsas de valores. Este "ataque "a educação iniciou-se no ensino superior e vem se estendendo

para o ensino básico (fundamental e médio ). Isto na verdade faz com que apenas a elite brasileira tem acesso a uma educação de qualidade "visando o pleno desenvolvimento da pessoa" como diz o artigo 205 da Constituição.

Nesse artigo também há de se destacar a particularidade quando se lê: "preparo para o exercício da cidadania."

Vemos na nossa sociedade, um grande ataque aos direitos do cidadãos. A cultura sofre cada vez mais ataques homofóbicos, racistas e misóginos. Fazendo com que "o preparo para a cidadania" seja apenas uma retórica.

2. E por falar em direitos...

Um dos principais direitos  é o direito à vida consequentemente à alimentação.

Nossa querida Clarice Lispector  já escrevia uma crônica muito interessante sobre o assunto. Vou  transcrevê-la para que a gente  possa refletir sobre o assunto.

" Daqui a 25 anos"

       Perguntaram-me uma vez se eu saberia calcular o Brasil daqui a 25 anos. Nem daqui a 25 minutos, quanto mais 25 anos. Mas a impressão- desejo desejo é a de que num futuro não muito remoto  compreendamos que os movimentos caóticos atuais já eram os primeiros passos afinando-se e orquestrando-se para uma situação econômica mais digna de um homem, de uma mulher, de uma criança. E isso porque o povo já tem dado mostras de ter maior maturidade política do que a grande maioria dos políticos, e é quem um dia terminará liderando os líderes. Aqui a 25 anos o povo terá falado muito mais.

    Mas se não sei prever, posso pelo menos desejar. Posto intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva resolva: o da fome.

Muitíssimo mais depressa porém ,do que em 25 anos, porque não há mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crianças são verdadeiros moribundos que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal é a miséria quis isso se justificaria ser decretado o estado de prontidão , como diante de calamidade pública  Só que é pior: a fome é a nova endemia, já está fazendo parte orgânica do corpo e da alma. E, na maioria das vezes, quando se descreve as características físicas, morais e mentais de um brasileiro, não se nota que na verdade se estão descrevendo os sintomas físicos, morais e mentais da fome. Os líderes que tiverem como meta a solução econômica do problema da comida serão tão abençoados por nós como, em comparação, o mundo abençoará os que descobrirem a cura do câncer."

Clarice Lispector 

16 de setembro de 1967

3. Carta de um nativo a Cabral:

Olá seu Cabral!

Não sei se digo que é um prazer conhecer você. Sinto que daqui para frente algumas coisas não vão correr tão bem  como até agora.

Nós, povos originários desta terra, que vocês estão denominando a partir de agora de Brasil estamos bastante surpresos e um tanto quanto assustados com tamanha violência que vocês têm tratado  os nossos irmãos.

Antes da chegada de todos vocês, nós vivíamos em paz e em harmonia com a nossa mãe natureza. Tirávamos dela apenas o que nós necessitávamos para nossa sobrevivência. Nunca matamos  um animal ou derrubamos uma  árvore se isso não fosse extremamente necessário a nossa sobrevivência.

Infelizmente percebemos que com vocês por aqui as coisas são bastante diferentes... Vocês matam os animais, derrubam as florestas, poluem nossos rios e tudo isto por interesses meramente econômicos. Vocês não se preocupam  nem mesmo com o futuro da própria humanidade.

O que vocês acham que vai acontecer depois que rios, florestas  e animais tiverem desaparecido da Terra depois de tanta exploração?

É o fim da raça humana seu Cabral .

Não que eu queira me estender muito nesta singela carta, mas prevejo que daqui a mais ou menos 523 anos vocês ainda vão querer nos tirar o direito de permanecermos nas nossas próprias terras.

É isso mesmo seu Cabral?

Terá que acontecer um julgamento onde um tal de STF irá declarar que todas as terras independentemente de antes ou depois da Constituição de 1988 pertence às comunidades originárias.

Isso parece mais um pesadelo.

Como assim a terra não nos pertence?

Estávamos aqui  antes 

mesmo de vocês navegadores chegarem.

Este tal de" Marco Temporal" não é nada mais nada menos do que uma piada de mal gosto.

Cabral, você sabe o que que é Marco Temporal?

Marca o temporal é uma tese defendida por ruralistas  estabelecendo que a demarcação de uma terra indígena só pode ocorrer se for comprovado 

que os indígenas estavam sobre o espaço requerido em 5 de outubro de 1988 quando a atual constituição foi promulgada .     

Vocês estão rindo da nossa cara não é?

E ainda vai ter mineradores, seringueiros e agroexportadores que vão defender uma barbaridade dessas.

P.S.:

Espero que eu  esteja enganado: ainda teremos muita luta pela frente.

Até mais ver seu Cabral.

Nos encontramos nos campos de batalha.

Obrigada querida Antonieta!

Em relação aos direitos das chamadas minorias, que estão longe de  serem minorias:

Recebemos Um poema de Ricardo Nêggo Tom, que conta a história de negros com orgulho de sua pele. Nossa querida Flávia Leão falou o poema:

Negro – O poema

ESSA É A HISTORIA DE UM CARA LIGEIRO

SAGAZ E FACEIRO. GUERREIRO QUE CANTA O AMOR.

E TRAZ NOS OLHOS BRILHO VERDADEIRO

INSTINTO CERTEIRO QUE NUNCA FALHOU

QUE TEM ORGULHO DA COR DA SUA PELE

E QUE NINGUEM ESPERE ELE SE HUMILHAR

O NÊGO É “TU” E NÃO ACEITA ONDA

E CONTRA O MAL QUE RONDA ELE VAI LUTAR.

COMEU DO PÃO SERVIDO RASTEIRO

APANHOU PRIMEIRO ANTES DE SE VINGAR

QUEBROU CORRENTES, ABRIU CATIVEIROS.

E SE FOI FORASTEIRO, FOI PRA SE SALVAR.

SUBJULGADO, O QUISERAM POBRE.

SUA ALMA NOBRE ALGUÉM QUIS LHE NEGAR

MAS FEZ UM ACORDE DO SOM DA CHIBATA.

E COM O SEU CANTO MATA QUEM QUIS LHE MATAR

DORMIU NO TRONCO E SONHOU PESADELOS

TODOS OS SEUS APELOS ALGUÉM IGNOROU

SERVIA AO AMO COM DEVIDO ZÊLO

E LHE ARRANCAVAM OS PÊLOS SEM NENHUM PUDOR

MAS NA ESSÊNCIA TEM A POESIA

O AMOR QUE ALFORRIA, A ALEGRIA DE VIVER.

E TIRANDO UM DÓ DO PEITO AMARGURADO

FAZ OUVIR CALADO QUEM LHE FEZ SOFRER

VIROU A PÁGINA E MOSTROU PRO MUNDO.  

QUE APESAR DE TUDO ELE VAI RESISTIR

AINDA TENTAM LHE PASSAR RASTEIRA

MAS ISSO É BOBEIRA. ELE NÃO VAI MAIS CAIR

O SANGUE QUENTE ALIVIA O CORTE

E ATÉ A MORTE FEZ LHE ETERNIZAR

E MANDA EM SOL MAIOR HARMONIZADO

UM BEIJO SINCOPADO PRA TE LIBERTAR

ESSA É A HISTÓRIA DAQUELE POETA QUE NÃO SEGUE A SETA

ESCOLHE PARA ONDE IR

E MESMO QUE NÃO ENCONTRE A PORTA ABERTA

UM DIA ELE ACERTA. ELE NÃO VAI DESISTIR.

SUA CANÇÃO NÃO SE PERDE NO VENTO

MAS SEU PENSAMENTO VOA SEM PARAR

E FAZ DO SEU SORRISO UM CONTRATEMPO

QUE QUEBRA O ANDAMENTO DE QUEM LHE FAZ CHORAR.

E tivemos a grata surpresa da presença, no nosso sarau, do poeta dos becos, nosso querido ALVAIR (que já é SBCence...), e nos brindou com algumas poesias de sua autoria, uma delas a seguir:



Outra minoria que não é minoria:

Nós, as mulheres... 

Este poema se chama Mônica, foi gravado com música em 1985 pela Ângela RoRo


Comentamos:  triste pensar que a realidade da  mulher não melhorou quase nada nesse sentido de 85 pra cá...

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Outro grupo de pessoas que merecem nossa lembrança sobre direitos: LGBTQIA+, ESSA SOPA DE LETRINHAS.

Recebemos dois poemas lindos:

1. LÉO OTTESEN – CARNAVAL

Pierrô e Colombina,

dois amantes tão perfeitos.

Ela linda, ele sem jeito,

feito festa e purpurina.

Arlequim vem doutro lado,

todo enfeite e prosa e pruma.

Sem querer coisa nenhuma,

viu-se inteiro enamorado.

Da festa, partiram assim,

como um par recém-casado

da igreja, de braços dados.

Se antes, Pierrô cansado

de festas que não têm fim,

hoje é feliz e amado,

amante de Arlequim.

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2. LETICIA NEGRETTI – FAST FOOD

Entre paus e aranhas

Um paladar vasto

Mas não chego fácil

Ao jantar

Normalmente me jantam

E tiram meus restos do prato

Pois não estou no cardápio

De gente pra amar

Ilusão daquelas

Que descontentes confundem

Orientação com mera opção

Transar com mulher

Não vai aliviar a dor do macho

Que te deu solidão

Quem dera eu

Esbanjar a vantagem

De gostar de tudo um pouco

E lotar o prato 

num rodízio safado

Cheio de opção

Mas não adianta

A variação do sabor

Se vivemos na era

Da liquidez eterna

Só sopa de pedra

Que só se tempera

Com o que está entre

As pernas

Pois o que tem pra cima

Não encharca nada

Não gera ereção

E lembramos de Cazuza:


Outra pessoa que nos brindou com um poema do Marighella, Carlos Marighella  guerrilheiro, poeta e político brasileiro que lutou contra a ditadura militar no Brasil. Ele escreveu vários poemas (Canto para Atabaque, Canto da Terra, Liberdade, Rondó da liberdade, entre outros...)



Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

Lembramos que Marighella foi deputado federal constituinte de uma outra Constituição democrática no Brasil:  promulgada em 18 de setembro de 1946, após a deposição de Getúlio Vargas em 1945. O texto, elaborado pela Assembleia Constituinte, restabeleceu direitos individuais e políticos, a independência dos três poderes, a autonomia dos estados e municípios e a pluralidade partidária. A Constituição de 1946 manteve o regime republicano de governo e a forma federativa de Estado. Além disso, confirmou presidencialismo como forma de governo. 

A Constituição de 1946 foi revogada em 1967, após o golpe militar de 1964 que instaurou uma nova ditadura no país. Os militares editaram o Ato Institucional nº 4, que convocou o Congresso Nacional para elaborar uma nova Constituição sob sua supervisão. A nova Carta Magna, promulgada em 24 de janeiro de 1967, ampliou os poderes do Executivo, restringiu as liberdades civis e políticas e fortaleceu o regime autoritário.

... A propósito da constituição lembramos outros direitos... E a propósito do mês de outubro, dia da criança, do professor e professora:

Ano 1990, dois anos depois da constituição, foi criado o Estatuto da Criança e do Adolescente, também um grupo de pessoas que precisam ser protegidos pelo Estado, pelo amor das deusas e deuses, não por qualquer crença religiosa. 

E tivemos uma surpresa: uma grande professora presente ao nosso sarau, Ciça Gus,  afetada com o tema, nos brindou com a leitura de um livro infantil que é um "poema" em homenagem às crianças, em especial às MENINAS NEGRAS,  e às professoras e professores:

Outro grupo que merece a proteção do Estado:

os idosos - A lei 10.741. de 2003, também conhecida como Estatuto da pessoa idosa...

(acho que foi a nossa querida Cris que declamou este poema...ou foi a Iza? ou teria sido a Rosa? me perdi...... de qualquer maneira, obrigada às queridas SBCenses que participaram, recitando poemas ou somente ouvindo ... e obrigada também ao querido Thiago, nosso anfitrião na COMUNA CULTURAL)

Paulo Leminski

quando eu tiver setenta anos

então vai acabar esta minha adolescência

vou largar da vida louca

e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer

começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja

aproveitar as oportunidades

de virar um pilar da sociedade

e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência

quando acabar esta adolescência


Enfim...Lembrar isso tudo... pra não esquecer...

Pequena memória para um tempo sem memoria, música de 1981 de Gonzaguinha

Memoria de um tempo onde lutar por seus direitos, é um defeito, que mata!...  aqui lembrada pelo nosso Sérgio PERERÊ:


E vamos a luta!!!


Obrigada pela presença de todas as pessoas... abraços carinhosos



segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Novas conversas sobre o Chile

 


Ainda estamos em setembro e, além de sarau sobre a primavera (vejam no Instagram @sambabobagemcerveja - aproveitem para nos seguir também por lá) , o SBC continuou conversando sobre o Chile. Logo depois do nosso post do dia 12.setembro fomos em Santa Tereza, no Instituto Helena Greco, assistir esse belo filme de Carlos Pronzato BUSCANDO A ALLENDE. 

Numa mistura de documentário com ficção, o cineasta utiliza como pretexto (ou pré-texto...) sua busca (atual) entre os chilenos da casa onde nasceu e morava Salvador Allende para exibir entrevistas e depoimentos de pessoas da época - entre os anos 1970, ano em que ele o mesmo foi eleito presidente do Chile, até 73, quando ocorreu o golpe - numa tentativa de compreensão histórica desses acontecimentos. 

Pois - refletimos - a história serve para compreendermos o presente e projetarmos o futuro, além de nos colocar como sujeitos na construção da história prospectiva. Por isso nos servimos desde filme para continuar nossas conversas, assistir outros filmes, e trazer para a atualidade a compreensão da América Latina e do Brasil. Vejam que o debate pós filme contou com a participação de um brasileiro exilado no Chile que vivenciou o golpe em 73, Marco Antonio Meyer, que nos fala, emocionado, sobre essa época, sobre outros intelectuais, artistas e políticos que se exilaram no Chile em função do golpe no Brasil, principalmente com o AI5 em  1968... e, posteriormente ao golpe militar no Chile, todas essas pessoas tiveram que se exilar, de novo, em outros países, principalmente na Europa.

Depois da fala emocionada do Marco Antonio, o professor, fotógrafo e documentarista Richardson Pontone nos brindou com uma perspectiva crítica|histórica do capitalismo, do imperialismo estadunidense pós 1945... então, os interesses econômicos estão por trás das ideologias "moralistas"... qual era a principal riqueza do Chile? o cobre! e os EUA estavam de olho no cobre para alimentar a indústria armamentista, naquela época a guerra era com o Vietnã, O Vietnã do Norte contra o Vietnã do Sul, EUA apoiando este último "contra o comunismo"... Ho chi Ming, grande líder do Vietnã do Norte, dizem que venceu a guerra da prisão, escrevendo poemas aos seus comandados. Em 1975 os Vietnames se unificaram, os EUA já haviam, derrotados, abandonado aquele país. Tragédias provocadas pelas guerras, milhões de pessoas mortas... para alimentar a indústria armamentista, para alimentar o poder, para alimentar o imperialismo... a lógica do capitalismo é cruel.


Voltando ao Chile, recebemos a indicação de documentário que está no Youtube no site da UJC: considerado um dos melhores e mais completos documentários latino-americanos, A BATALHA DO CHILE, do cineasta Patricio Guzmán. Dividido em três partes: A insurreição da burguesia, O Golpe Militar e O Poder Popular. E uma edição especial neste site se completa com outros dois documentários: Patrício Guzmán, uma história Chilena, sobre a trajetória única deste cineasta; e A resistência final de Salvador Allende, uma reconstituição dos últimos momentos de Allende antes do golpe.

"Salvador Allende põe em marcha um programa de profundas transformações sociais e políticas. Desde o primeiro dia a direita organiza contra ele uma série de greves, enquanto a Casa Branca o asfixia economicamente. Apesar do boicote, em março de 1973 os partidos que apoiam Allende obtém mais de 40% dos votos. A direita compreende que os mecanismos legais já não servem. De agora em diante sua estratégia será o golpe de estado. A Batalha do Chile é um documento que mostra, passo a passo, esses acontecimentos que comoveram o mundo". 

O SBC agradece a indicação e super recomenda: Entrem no site UJC Brasil no Youtube, se inscrevam no canal e vejam os documentários. Vale a pena! Nossa proposta é conhecer mais o Chile, conhecer mais a América Latina... "lido e corrido" e através dos filmes... conhecer a história dos países da América Latina... e fazer o exercício de comparação com o Brasil. A comparação pressupõe ver semelhanças e diferenças. E estaremos nos conhecendo através da comparação. Estaremos, também, desenvolvendo nossa competência para a crítica e, prospectivamente, construirmos nossa identidade autônoma, o trabalho de construir a resposta a "quem somos nós". 

Saindo dos documentários, vimos também outros dois filmes do mesmo cineasta chileno, Pablo Larraín, que valem a pena:

Em 2012 Larraín fez o interessantíssimo “No” para reconstituir realisticamente o processo do plebiscito de 1988 que tirou os militares do poder no Chile. 

Pressionado pela comunidade internacional, o ditador Augusto Pinochet aceita realizar um plebiscito nacional para definir sua continuidade ou não no poder. Acreditando que esta seja uma oportunidade única de pôr fim à ditadura, os líderes do governo resolvem contratar René Saavedra (Gael García Bernal) para coordenar a campanha contra a manutenção de Pinochet. Com poucos recursos e sob a constante observação dos agentes do governo, Saavedra consegue criar uma campanha consistente que ajuda o país a se ver livre da opressão governamental.


Agora, em 2013, o mesmo diretor recorreu à fantasia mais anárquica possível para tratar da pós-ditadura chilena. É uma filmagem para remexer o entulho histórico, social e econômico deixado pelos militares no país, segundo Enio Vieira, na Revista Bula.

Larraín surpreende ao criar uma sátira política e "surreal" sobre Pinochet, por meios das figuras do vampirismo. O filme faz uma mistura de ficção, documentário, jornalismo, teatro jurídico de julgamentos e, acima de tudo, narrativas de fantasia, monstros, terror. O personagem Augusto Pinochet  já foi dado como morto na história, mas aparece vivíssimo na pele de um vampiro francês de 250 anos de idade. Vive isolado com a esposa e um mordomo. Porém, seus cinco filhos querem sua morte definitiva para receber a herança, fruto da pilhagem feita pelo general quando presidente do Chile. O filme resgata uma série de histórias verídicas sobre as famosas contas bancárias mantidas pela família Pinochet, em paraísos fiscais, e alimentadas por simples corrupção. Num dos trechos mais engraçados, o protagonista discute com a interlocutora se é mais adequado ser chamado de assassino ou de ladrão. Ele prefere ser lembrado como assassino.

A sequência mais anárquica de “O Conde” é a revelação de quem é a narradora do filme. Na verdade, o grande vampiro é o neoliberalismo implantado ao mesmo tempo no Chile e na Inglaterra. Pela visão correta do diretor, o DNA é o mesmo. O sangue bebido é o de comunistas, sindicalistas, opositores. "É uma alegoria do morto-vivo dos vampiros que ilustra a literatura há séculos e ainda é uma imagem representativa para ver a realidade", diz o crítico Enio Vieira.

E para terminar nossa conversa com arte - e com esperançar - lembramos Neruda:


Uma primavera cheia de arte, cultura, e boas conversas para todas as pessoas, é o que deseja o Coletivo SBC.


Até a nossa próxima conversa, talvez sobre a América Latina, talvez sobre a Argentina... quem sabe... abraços carinhosos













domingo, 24 de setembro de 2023

Sobre perdas... e sobre vida


 É com grande alegria que resgatamos nosso projeto ARTE NA PANDEMIA... ou melhor, repaginamos... agora podemos dizer de ARTE PÓS PANDEMIA... ou ARTE E VIDA...

Lembrando Freud, numa livre interpretação: dizia ele no seu livro "O mal estar na civilização" que aprendemos, a maioria de nós, a ter como objetivo de vida a evitação do sofrimento... poucas pessoas aprendem a orientar a vida para a busca do prazer. Porém, são pelos mesmos poros no nosso corpo que entram tanto a dor quanto o prazer... e, na evitação da dor, fechamos os poros... e a triste consequência, desaprendemos a sentir alegria de vida. Quando abrimos os poros por eles entram a tristeza e a alegria, entre outras emoções... entram e saem... e conseguimos nos voltar para a nossa orientação de vida, a busca do prazer, a alegria de vida. 

Trata-se de uma aprendizagem difícil, principalmente numa sociedade em que o individualismo, a competitividade, a busca do sucesso se sobrepõem à empatia, à solidariedade, à busca do coletivo. Mas arregacemos as mangas! e busquemos este mundo mais bonito, tanto no plano do coletivo quanto nas nossas subjetividades... 

É com esse espírito que compartilhamos o texto a seguir, da nossa querida SBCense Zeza... Maria José, que transforma em arte sua vivência de perda... e se volta para a vida. 

Obrigada Zeza...

O FLORESCER DAS ORQUÍDEAS

Acordo. Começo a fazer o meu café. Olho pela janela, o lá fora não é capaz de diminuir a

melancolia e a nostalgia de dentro. Como em todas as manhãs, observo a minha orquídea que,

há dias, aguardo o abrir dos seus botões. Está sobre um armário branco a me esperar e eu a

esperar sua floração, num tempo que lhe é necessário, nem mais nem menos, por mais que

meu olhar urgente deseje a beleza e o seu frescor a enfeitar meus sentidos.

Agora são duas: uma branca que me acompanha há alguns anos e a cada floração parece não

se importar com meu anseio e impaciência.

A outra me faz companhia há pouco tempo. Trouxe-a da casa de minha mãe após a sua morte,

como um amuleto, um carinho, uma lembrança, a me fazer companhia na saudade.

Minha mãe gostava muito de plantas e de plantar, ela caminhava para sua despedida e sua

orquídea renascia. O renascer e o morrer. Não consigo lembrar-me da cor dessa orquídea, mas

sei que vai trazer um colorido para minhas manhãs mais sombrias.

Pus-me a observá-las, isso me trouxe um conforto, como se me acariciassem e fizessem com

que meu luto se tornasse mais leve. Parecem ensinar-me que eu dê tempo ao tempo para que

as lembranças se tornem apenas lembranças, saudade apenas saudade, sem dor, sem

arrependimentos: por palavras que não foram ditas, afagos que não foram feitos, e assim vou

curando-me no tempo a observar o crescimento de minhas orquídeas e o arrefecimento de

minha dor.

Ainda não havia reparado nesse poder curativo das orquídeas: o da paciência, o do abraço

diário, o do lamento escutado, o do renascer da florada, o do tempo impossível de acelerar, o

de me fazer sentir viva frente a esses sentimentos de tristeza e melancolia que com certeza

passarão, e poder agradecer a vida vívida e vivida a cada dia.

Maria José Birro Costa

27/07/2023


Obrigada mais uma vez querida Zeza!

E o convite para ARTE PÓS PANDEMIA... ou ARTE E VIDA... continua... mandem seus textos poemas, músicas, fotos, pinturas... toda arte que "não serve pra nada", senão para a vida...

Abraços carinhosos,

SantuzaTU



terça-feira, 12 de setembro de 2023

Conversas SBCenses: sobre o CHILE

Praticamente uma continuidade do assunto SBCense da semana passada no nosso Sarau : A DOMINAÇÃO CULTURAL, onde conversamos sobre nossas cabeças (e nossas "almas") dominadas, antes pelo eurocentrismo depois pelo imperialismo estadunidense... o assunto da semana no SBC é o Chile.

Pois no dia 11 de setembro se completou 50 anos do golpe militar no Chile:  

Nesse dia, em 1973, as forças armadas do Chile bombardearam o Palácio de la Moneda, sede do governo, para depor o socialista Salvador Allende da presidência conquistada nas urnas três anos antes, em 1970. O golpe militar se concretizou com o "suicídio" de Allende.

O general Augusto Pinochet tomou o poder e instalou um regime militar que executou 3.200 pessoas em 17 anos. Nessa época, o Brasil já vivia, há nove anos,  a "nossa" ditadura militar. 

Começava naquele país  uma ditadura que perdurou até 1990 e teve Augusto Pinochet como principal carniceiro. Foram anos de perseguições a grupos políticos, desaparecimentos de mulheres, homens e crianças e milhares de assassinatos  promovidos pelo Estado tomado pelos milicos. Sadismo fazia parte do pacote. 


O músico Victor Jara, em setembro de 1973, por exemplo, tornou-se símbolo da barbaridade dos fardados após ter as mãos trucidadas antes de ser assassinado. Era popular pelo talento com o violão, que embalava canções de protesto. Lembramos, na nossa conversa, de documentário na NETFLIX: ReMastered: Massacre no Estádio, dirigida por Bent-Jorgen Perlmutt.

Como em outras ditaduras do continente, nem bebês, meninas ou garotos foram poupados pelos militares. Em "Crianças", livro lindo e emocionante, María José Ferrada e María Elena Valdez criam poemas ilustrados para 34 pequenos desaparecidos ou executados pelos oficiais chilenos. Neste livro se eternizam gente como Luz Marina Paineman Puel, morta com 1 mês de vida, e Lorena del Pilar Escobar Lagos, assassinada aos 3 anos. Saiu pela Pallas Mini com tradução de Carla Branco.

Acima outro livro imperdível citado na nossa conversa, escrito por Francisco Ortega e ilustrado por Félix Vega, com tradução de Delfim Studio DelRey.

Uma sinopse do livro: "A morte de Augusto José Ramón Pinochet Ugarte em 2006 trouxe, tanto para o povo chileno como para personalidades internacionais, um senso de incompletude. O escritor uruguaio Mario Benedetti procurou sintetizar este sentimento, à época: “É a morte de um ditador que foi muito cruel com uma parte de seu povo. Neste caso, a morte venceu a justiça”. Em Os Fantasmas de Pinochet, Félix Vega e Francisco Ortega buscam, na ficção, um modo de redimir esta injustiça histórica, ao criarem, no campo do além, o julgamento definitivo do ditador do Chile nos anos 1970 e 80. Para isso, eles se valeram de uma extensa bibliografia, entrevistaram diversas pessoas, inclusive nomes ligados ao militar, e pesquisaram veículos de imprensa para recriar cenas cruciais na vida de Pinochet, bem como o seu juízo final. São apresentadas evidências, provas e testemunhos que nos guiam, não apenas a um veredito, mas também ao destino de uma nação".

Nossa historiadora  SBCense , além de citar o livro de Frida Modak,  fez um resumo dos fatos:

“Salvador Allende liderou o projeto que buscava estabelecer o socialismo por meios democráticos. Seu programa de governo contemplava a construção de um Estado popular e de uma economia planificada de estilo estatal”, afirma o centro de recursos digitais Memoria Chilena, do Governo do Chile. 

O Governo de Salvador Allende, eleito democraticamente em setembro de 1970, realizou nacionalizações generalizadas e reformas consideradas radicais que não agradaram a elite chilena e observadores internacionais, especialmente às empresas transnacionais. 

Allende era médico pela Universidade do Chile, maçom e político socialista e marxista. Quando, em outubro de 1970, o Congresso ratificou sua vitória democrática um mês antes, ele se tornou o primeiro político com esse perfil a chegar ao poder por meios populares, segundo a Memória Chilena.


"No entanto, a radicalidade do programa governamental despertou oposição frontal, tanto dentro do país como internacionalmente. Em meio a um contexto em que ainda prevalecia a política da Guerra Fria, o governo norte-americano decidiu usar todas as armas necessárias com o objetivo final de derrubar o governo chileno”, explica Memoria Chilena, ao se referir ao apoio oculto que o governo de Richard Nixon deu ao golpe militar.

Em 1972, a instabilidade política era mais notável, com falta de bens de primeira necessidade nas ruas e rumores crescentes de um golpe militar.

Em 29 de junho de 1973, ocorreu uma tentativa de golpe de Estado no Chile, conhecido como “tanquetazo”. Ironicamente, o general Augusto Pinochet ajudou a reprimir essa tentativa de golpe militar, segundo a Memória Chilena.

Na época, Pinochet ocupava o cargo de comandante-chefe interino do Exército. Quase dois meses depois do “tanquetazo”, em 23 de agosto de 1973, ele foi promovido ao cargo de comandante-chefe por recomendação que ele mesmo fez ao presidente Allende. Apenas 19 dias após a sua promoção ao cargo de comandante-chefe, Pinochet liderou o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973.

“Por volta das 11h da manhã, o presidente Salvador Allende dirigiu a sua última mensagem ao país, por meio de uma rede de rádios simpáticas ao governo, declarando sua posição de ‘continuar defendendo o Chile'”, detalha a Memória Chilena.

Ao meio-dia, aviões Hawker Hunter da Força Aérea Chilena iniciaram o bombardeio ao Palácio Presidencial, em um ataque aéreo que durou cerca de 15 minutos. Pouco depois, em questão de minutos, o La Moneda foi destruído, e Allende foi encontrado morto em seu interior junto com a arma com a qual se suicidou.

Depois, uma Junta Militar presidida por Pinochet assumiu o controle do Governo. A ditadura duraria até 1990, quando, em 11 de março, Patricio Aylwin recebeu a faixa presidencial de Pinochet, após vencer as primeiras eleições democráticas do país desde a vitória de Allende em 1970.


Voltando às referências artísticas sobre o evento, lembramos de dois filmes sobre Pablo Neruda, poeta Chileno, senador pelo Partido Comunista do Chile. O primeiro filme, NERUDA, está na NETFLIX, o segundo, O CARTEIRO E O POETA, está no youtube. 

Querida SBCense fez um resumo sobre Pablo Neruda: "Quando o Presidente do Chile, em 1948, baniu o comunismo do país, foi emitido um mandado de captura para Neruda. Amigos esconderam-no durante meses no porão de uma casa na cidade portuária de Valparaíso; Neruda escapou por uma passagem de montanha perto do lago Maihue para a  Argentina. Anos mais tarde, Neruda foi um conselheiro próximo do presidente socialista do Chile Salvador Allende. Quando Neruda regressou ao Chile após o seu discurso de aceitação do Prémio Nobel, Allende convidou-o a ler no Estádio Nacional perante 70 000 pessoas. Neruda foi hospitalizado com cancro em setembro de 1973, na altura do golpe de Estado liderado por Pinochet que derrubou o governo de Allende, mas regressou a casa após alguns dias quando suspeitou que um médico o injetara com uma substância desconhecida com o objetivo de o assassinar por ordem de Pinochet. Neruda morreu na sua casa em Isla Negra a 23 de setembro de 1973".

Por razões políticas o poeta Pablo Neruda se exila em uma ilha na Itália. Lá um desempregado, quase analfabeto é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade.

O Carteiro e o Poeta é um comovente filme italiano de 1994, ganhador do Oscar de melhor trilha sonora (Luis Bacalov). Inspirado com maestria no romance do chileno Antonio Skarmeta, o filme é uma verdadeira obra-prima. Um simples carteiro Mario (Massimo Trisi) em uma ilha no litoral da Itália (Capri) entrega as correspondências do poeta Pablo Neruda ( Philippe Noiret) onde se exilou. Desse encontro nasce uma grande amizade, aos poucos as barreiras entre esses dois homens aparentemente opostos vão se quebrando. Mário, em sua simplicidade, ganha o carinho de Neruda, que o ajuda a vencer a timidez para se aproximar de sua amada Beatrice (Maria Grazia Cucinotta). A trilha sonora casa perfeitamente com a belíssima fotografia e o roteiro impecável. O grande ator Massimo Troisi faz aqui seu último trabalho, falecendo no último dia da filmagem...
Essas referências históricas e artísticas (filmes, músicas, ...) ativaram nossas memórias, assim como nossa perplexidade sobre o momento atual que estamos vivendo no nosso país.  Semelhanças -  e  perguntas - são inevitáveis:
. primeiro, onde e como você estava em 1973?  algumas e alguns SBCenses nem tinham nascido, outras pessoas que viveram essa época  deram seus depoimentos: 
- "Eu era estudante, fazia curso superior nessa época. No Brasil dos anos 70 vivíamos a época mais repressora do nosso regime militar que ocorreu com o golpe de 64. Tínhamos medo de conversar sobre política, mais de três pessoas juntas já era considerado "complô contra o Estado", em quase toda sala de aula da nossa faculdade, não sei muito bem como isso acontecia, mas o fato é que "elegíamos" um aluno ou aluna, colega nossa,  que seria "informante", e essa pessoa era "isolada" da turma... não sabemos até hoje sobre a veracidade desse dado, parece que era uma paranoia consequência do medo. No entanto, fazíamos politica, num sentido amplo, conversávamos sobre contracultura, sobre feminismos, sobre o mundo..."
. E, nesse contexto, conversávamos sobre a União Soviética, a China, sobre Cuba, países que implantaram o socialismo pela revolução... e a experiência chilena era inédita: o socialismo implantado pela via democrática, como disse nossa historiadora. 
. Conversávamos, também sobre a "democracia" (palavra tão distorcida, mal usada, precisamos resignificar a democracia...) nos EUA, sobre a guerra do Vietnan, sobre o movimento hippie e a contestação ao consumismo, o pacifismo, o respeito à natureza e o "amor livre". Isso tudo com poesia, como a poesia do Ho chi Minh, revolucionário, político, escritor, poeta e jornalista vietnamita.
. Sabemos que a história não é linear. Então, trouxemos essa história para a atualidade. Olha só:  no Chile o Allende não teve o apoio do Congresso que, em sua maioria, era composto, ou melhor, eleito, pelo que podemos chamar de "Direita" e de "Centro". Também temos uma história que conta que, em visita ao Chile, Fidel Castro pergunta a Salvador Allende se ele confiava no seu exército, ao que ele responde que sim! E vejam no que deu... Ai, isso nos traz medo e perplexidade...
. E como estão as coisas aqui no Brasil? Para os que viveram os anos 60 e os que conhecem a história (tão necessário esse conhecimento...), tivemos um golpe militar em 64, que contou com a participação dos EUA, em razão de um governo progressista, que falava (desde então!) sobre reforma agrária! Fora esse curto governo progressista, tivemos dois governos Lula e mais um e meio governo Dilma, ou seja, cerca de 14 anos de um governo que nem fala em socialismo, apenas num Estado que possa acabar com a fome e oferecer educação, saúde e trabalho para o povo. 
. E, agora, estamos de novo com o governo Lula... num mundo que começa a superar a unipolaridade (que, na segunda metade do século passado, pós segunda guerra, foi se transferindo da Europa para os Estados Unidos) ... e construir uma visão multipolar, num mundo em que se pode falar sobre identidade e soberania.  
. Ora, se governar vem a ser "a arte de mediar conflitos", qual seria o limite disso? como saber o ponto certo entre a "submissão" e o momento certo da "ruptura"?  
. Decerto essa sabedoria só vem com o fazer que se combina com o conhecer e refletir ... agora no dia 11 estávamos representados no Chile, por ocasião das cerimônias que lembravam os 50 anos dessa tragédia (lembrar para não esquecer e não repetir...)  por dois ministros (além de embaixadores): 
Silvio Luiz de Almeida, filósofo e professor universitário, atual ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, que disse:
e Flávio Dino de Castro e Costa, advogado, político, professor e ex-magistrado brasileiro, filiado ao Partido Socialista Brasileiro, atual ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil.  Flávio Dino, começando com a lembrança de que a esperança, a justiça e a luta são femininas, fala da memória como algo vivo, em movimento  - olhar para trás e para frente - e homenageia heróis chilenos e brasileiros do tempo da ditadura nos dois países. Homenageou, ainda,  artistas como o cineasta Silvio Tendler, cineasta e historiador brasileiro, conhecido como "o cineasta dos vencidos" ou "o cineasta dos sonhos interrompidos" e o fotógrafo Evandro Teixeira, agora com 87 anos,  que reencontrou, 50 anos depois, com Vladimir Salamanca, agora com  65 anos.  Evandro, em 73, cobrindo as consequências do golpe militar no Chile, deu de cara, por detrás das grades do Estádio Nacional, em Santiago, com Salamanca, então com 15 anos. Eles se reencontraram agora, na capital do Chile na abertura da exposição de Teixeira no Museu da Memória, evento que integra os atos que recordam os 50 anos do golpe militar que levou Augusto Pinochet ao poder. 
Dino lembrou também de Gramsci, filósofo marxista italiano, que usa o termo interregno para se referir a um período de transição histórica em que o "velho não morreu e o novo ainda não nasceu" e em que aparecem as "anomalias"... isso para nos dizer da coragem de "olhar nos olhos do fascismo" e "pegar o fascismo pelas orelhas", esse fascismo violento, que nega as diferenças, mais do que isso, busca eliminá-las. 
Sobre a exposição de Evandro Teixeira Dino comentou:  
“Essa exposição do Evandro é muito importante pelas fotos, pela vida que delas emerge, é importante, sobretudo pela emulação de valores e princípios sem os quais não se constrói a luta coletiva, as imagens de Evandro Teixeira são vivas e são fotos de heróis. Porque a história se constrói pela luta de milhões, mas os heróis são imprescindíveis. Por isso, o exercício da memória é o exercício da democracia, é o exercício da coerência na luta democrática e popular e contra o fascismo”

Ainda no Chile, Flávio Dino afirmou que Brasil terá Museu de Memória e Direitos Humanos: "Devemos ao Brasil e vamos pagar essa dívida com a criação, no Brasil, de um Museu da Memória e dos Direitos Humanos", disse o ministro da Justiça.

E não é mesmo o que nós, brasileiras e brasileiros, mais precisamos!!! 
MEMÓRIA! ... E NOVAS HISTÓRIAS SOBRE O BRASIL VERDADEIRO!!!
Para o movimento de sair da DOMINAÇÃO CULTURAL, e construir nossa IDENTIDADE - Quem somos nós...


Abraços carinhosos a todas as pessoas SBCenses, que gostam e valorizam as boas conversas...