sábado, 11 de maio de 2024

Novas conversas sobre LIBERDADE...

 


 Quando eu era menina sempre ouvia o ditado “sua liberdade termina quando começa a liberdade do outro”,   significando que cada indivíduo tem o direito de viver sua vida da forma que desejar, desde que não prejudique ou interfira na liberdade e nos direitos dos outros. 

“Liberdade é o direito de fazer o que não prejudica os outros.” – John Stuart Mill

Sim, porém sempre pensava sobre um outro aspecto: podemos ser livres juntos, todos e todas nós?

Mais tarde aprendi que a liberdade é uma conquista, uma construção humana: sou hoje um pouco mais livre do que ontem e um pouco menos do que amanhã. 

“A liberdade é uma conquista diária.” – Nelson Mandela

“A liberdade não é apenas um direito, mas também uma responsabilidade.” – Nelson Mandela

“Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.” – George Bernard Shaw


Aprendi, também, que a liberdade vem sempre junto com responsabilidade, responder por mim mesma, por meus desejos, objetivos, ideais, valores. Trata-se de uma conquista humana.

Aprendi, ainda, que liberdade é de pensar, sentir e agir... mas "passa pelo bolso"...ou seja, pela liberdade econômica... sem essa do bolso, o resultado é a submissão ao outro, mesmo que romantizemos a situação  - e nós, mulheres, aprendemos a romantizar.  

 “Para ser livre, é preciso ter coragem.” – Simone de Beauvoir




Conversas sobre liberdade nos levam ao mundo das mulheres e das pessoas negras... e também, quase sempre,  encontramos relação da liberdade com amor...

Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas. Audre Lorde

Temos que falar sobre libertar mentes tanto quanto sobre libertar a sociedade. Ângela Davis

Quem não se move não sente as correntes que o prendem.  Rosa Luxemburgo






Com essas inspirações continuamos nossa conversa:

Marx e a Liberdade:

Para Marx, a liberdade individual está intrinsecamente ligada à liberdade coletiva. Ele argumentava que a propriedade privada, característica do sistema capitalista, era uma forma de opressão que impedia a liberdade dos trabalhadores. A verdadeira liberdade só poderia ser alcançada quando as condições materiais que limitavam o indivíduo fossem superadas

Ele criticava a ideia de que o livre mercado era um mecanismo justo e eficiente para alocar recursos. Para Marx, a liberdade não se restringia apenas à esfera individual, mas também à coletiva.

Produção Livre e Humanidade:

Marx via a liberdade como algo mais profundo do que simplesmente a ausência de restrições. Para ele, a verdadeira liberdade estava ligada à capacidade de produzir livremente, independentemente das necessidades materiais imediatas. Quando produzimos de forma criativa e gratuita, afirmamos nossa humanidade e nos diferenciamos das outras criaturas animais.

Essa visão ressalta a importância da emancipação humana por meio da transformação das estruturas sociais e econômicas.

Crítica à Ideologia Liberal:

Marx criticou o pensamento liberal que vinculava a liberdade apenas à esfera individual. Ele acreditava que a verdadeira liberdade só poderia ser alcançada quando todos tivessem igualdade de oportunidades e acesso aos meios de produção.

Sua análise da liberdade estava profundamente enraizada na luta contra as desigualdades e na busca por uma sociedade mais justa.

Em resumo, para Marx, a liberdade não era apenas uma questão individual, mas sim um objetivo coletivo que exigia mudanças estruturais e transformações sociais profundas. A busca pela liberdade estava intrinsecamente ligada à luta por uma sociedade mais igualitária e emancipada.

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E chegamos, com nossa SBCense cinéfila, aos 

Filmes sobre liberdade:



Na Natureza Selvagem

Início da década de 90. Christopher McCandless (Emile Hirsch) é um jovem recém-formado, que decide viajar sem rumo pelos Estados Unidos em busca da liberdade. Durante sua jornada pela Dakota do Sul, Arizona e Califórnia ele conhece pessoas que mudam sua vida, assim como sua presença também modifica as delas. Até que, após dois anos na estrada, Christopher decide fazer a maior das viagens e partir rumo ao Alasca.

"A felicidade só existe se for compartilhada", esta é a frase final do filme, grande aprendizagem.


Milk - A Voz da Igualdade

Início dos anos 70. Harvey Milk (Sean Penn) é um nova-iorquino que, para mudar de vida, decidiu morar com seu namorado Scott (James Franco) em San Francisco, onde abriram uma pequena loja de revelação fotográfica. Disposto a enfrentar a violência e o preconceito da época, Milk busca direitos iguais e oportunidades para todos, sem discriminação sexual. Com a colaboração de amigos e voluntários, Milk entra numa intensa batalha política e consegue ser eleito para o Quadro de Supervisor da cidade de San Francisco em 1977, tornando-se o primeiro gay assumido a alcançar um cargo público de importância nos Estados Unidos.



Nos anos 90,  o diretor de cinema Polonês
  Krzysztof Kieslowski f
ez a trilogia: Trois couleurs 
A LIBERDADE É AZUL 
França, início dos anos 90, às vésperas da Unificação Européia. Julie perde o marido, um famoso compositor, e a filha num trágico acidente de carro. Traumatizada, ela procura se libertar de tudo que lhe lembre o passado e, aos poucos, tenta reencontrar a vontade de viver. 
A IGUALDADE É BRANCA
O polonês Karol casa-se com a francesa Dominique e muda-se para Paris. O casamento não dá certo e Dominique pede o divórcio. Karol passa a viver como mendigo na capital francesa. Após muitos contratempos, ele volta para Varsóvia, onde consegue enriquecer. Ainda apaixonado, Karol trama uma inusitada vingança contra a ex-esposa.
A FRATERNIDADE É VERMELHA 
Valentine é uma jovem modelo que vive em Genebra. Certo dia, atropela uma cachorrinha e, preocupada, sai em busca de seu dono. Assim, conhece o homem que mudará a sua vida: um juiz aposentado que passa os dias espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. É o início de uma história de redenção, compaixão e perda sobre a comunicação entre os homens.


É o primeiro filme da série Trilogia as Cores, baseada nas três cores da bandeira francesa, e nas três palavras do lema da Revolução Francesa - liberdade, igualdade e fraternidade. Foi seguido pelos filmes  Tris couleurs: Blanc (1994) e  Trois couleurs: Rouge (1994)

Julie é a esposa de um renomado maestro e compositor francês que morre em um desastre automobilístico com a filha do casal, de apenas cinco anos de idade. A mulher, única sobrevivente da tragédia, vê-se na situação de ter que lidar com essas perdas e seguir sua vida, recebendo a encomenda de finalizar uma composição para coro e orquestra que havia sido encomendada ao seu esposo, uma canção pela unificação da Europa. A tarefa a levará a descobrir detalhes da vida do esposo que ela desconhecia, e a se envolver com um outro homem, amigo do casal.

E aqui fizemos uma reflexão importante, lembrando do cartaz do filme:

Logo após o título: A LIBERDADE É AZUL, temos a frase: O MITO DA LIBERDADE, e mais abaixo "aprendemos que ao escolhermos o amor tivéssemos que abrir mão da liberdade".  Vejam que cruel essa "aprendizagem", a internalização desse mito que nos faz termos que escolher entre dois valores fundamentais para a vida, o amor e a liberdade. E o triste é que todos e todas nós, de formas diferentes, vivemos esse mito. Portanto, precisamos desvendar o mito e transformar nossas realidades relacionais. Não é fácil, significa mudar a história, a cultura... mas, com muita reflexão e ação, conseguiremos...

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Em seguida lembramos alguns livros e poemas que nos ensinam sobre liberdade... desde o século passado, como diria nossa SBCense...

Literatura e poesia:

Jonathan Livingston Seagull (Fernão Capelo Gaivota) é uma fábula  em forma de novela, publicada em 1970, sobre uma gaivota tentando aprender sobre a vida e o voo, e uma homilia sobre a auto perfeição, escrita pelo autor estadunidense Richard Bach e ilustrada por Russell Munson. Publicado originalmente nos Estados Unidos com o título de Jonathan Livingston Seagull — a story, foi lançado neste mesmo ano no Brasil como A História de Fernão Capelo Gaivota pela editora Nórdica. Uma gaivota de nome Fernão decide que voar não deve ser apenas uma forma para a ave se movimentar. A história desenrola-se sobre o fascínio de Fernão pelas acrobacias que pode modificar e em como isso transtorna o grupo de gaivotas do seu clã. É uma história sobre liberdade, aprendizagem e amor, referência importante sobre o tema para adolescentes dessa década do século passado.

A história de Candido Urubu é um livro feito para ser lido e re-lido diversas vezes. Cheio de criticas sociais ao modo de sociedade vigente no ocidente, o livro não abre mão de ter uma pegada cômica e ao mesmo tempo lúdica. Indicado para todas as idades é um prato cheio para se desligar da realidade e ao mesmo tempo questionar nosso modo de vida.


Amor como prática da liberdade

Vozes-mulheres, de Conceição Evaristo

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue e fome.

 A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
   
(In: Poemas de recordação e outros movimentos, 3.ed., p. 24-25)

Esse poema é um dos mais belos da autora, fala sobre mulheres de várias gerações que pertencem à mesma família. Descrevendo seus cotidianos e sentimentos, o eu-lírico vai narrando uma história de sofrimento e opressão.


Frida nos mostra o amor libertário, aquele oposto ao amor romântico, que aprisiona...

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Nossa SBCense feminista - e nacionalista,  nos apresenta:

1 – Nísia Floresta (1810-1885)

Nísia é o apelido para Dionísia, filha de pai português e mãe brasileira, foi professora, escritora e filósofa. É considerada a primeira professora brasileira a lutar abertamente a favor dos direitos das mulheres.

Começou sua educação no Convento das Carmelitas, em Goiânia, onde aprendeu canto e trabalhos manuais. Seu pai tinha tendências liberais, e, inspirada nisso, Nísia começou a ler os livros da biblioteca do convento sobre o assunto, assim como sobre cultura europeia.

Seu primeiro casamento acontecera aos 13 anos, com um proprietário de terras. Sentia-se infeliz e por isso abandonou o esposo e foi aceita de volta na casa dos pais, apesar de ser socialmente julgada. Meses depois, fugindo dos movimentos separatistas, a família se muda para Olinda.

Aos 17 anos, se envolve com o estudante de direito Manuel Augusto, com quem, anos depois, se casa e tem filhos.

Um ano após o nascimento da primeira filha, Nísia se torna uma das primeiras mulheres a publicar um artigo seu em um jornal brasileiro. Em 1831, ela publica uma série de artigos sobre a condição feminina no jornal “Espelho das Brasileiras”, no ano seguinte faz a publicação do seu primeiro livro intitulado “Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens”.

As publicações de Nísia são marcadas por denunciarem o estado de inferioridade que as mulheres brasileiras viviam àquela época, a autora lutava contra os preconceitos presentes na sociedade e por igualdade de gênero.

“Não há ciência, nem cargo público no Estado, que as mulheres não sejam naturalmente próprias a preenchê-los tanto quanto os homens.”

Anos depois a autora se especializa em Educação, propondo um modelo voltado para as meninas, em que elas aprendessem as mesmas coisas que os meninos, além de ser voltado para a emancipação feminina.

2 – Maria Firmina dos Reis (1822 – 1917)

Em tempos de escravidão, Maria Firmina se tornou a primeira romancista negra do Brasil. Aos 22 anos foi a primeira mulher de sua cidade, Guimarães, no estado do Maranhão, aprovada em um concurso para professora. Começava ali sua jornada como escritora. Publicou poesias e ensaios em alguns jornais e revistas locais, até que, em 1859, lançou seu primeiro livro: Úrsula, um romance que mostrava a crueldade da escravidão, relatado pelo ponto de vista dos escravos.

Sua luta abolicionista ficou conhecida no ano de 1887 quando publicou o conto “A Escrava”, que narra a luta de uma ex-escrava no movimento de abolição.

Uma curiosidade interessante é que até hoje não existem imagens precisas sobre a aparência de Maria Firmina, a imagem que é relatada como sendo sua na verdade faz referência a outra pessoa.

Maria morreu aos 92 anos, cega e pobre, sem que sua obra tivesse recebido o reconhecimento necessário. Apenas em 1960 seu livro, Úrsula, foi encontrado no fundo de um sebo e começou a ser reimpresso.

3 – Leolinda Daltro (1859 – 1935)

Um dos elementos base da democracia é o poder do voto, você consegue pensar na possibilidade de não votar? De não ser capaz de manifestar a sua opinião? Imagina não poder fazer isso por causa do gênero que te foi imposto no nascimento? Parece absurdo, mas até pouco tempo atrás as mulheres eram proibidas de votar no Brasil.

A Constituição de 1891 dizia que o voto poderia ser realizado por todos aqueles que tinham mais de 21 anos, porém, na prática, as coisas ficaram um pouco complicadas. Os deputados precisaram intervir sobre aquilo e queriam estabelecer um lei impondo que apenas homens poderiam votar. Nesse ponto da história aparece Leolinda Daltro: professora; mãe; divorciada, juntou suas alunas e começou uma série de manifestações a favor do poder do voto para mulheres.

Em 1910, fundou o Partido Republicano Feminino. Após a legalização do voto feminino, Leolinda concorreu em 1933 para o cargo de deputada federal, não chegou a ser eleita, mas as suas ações foram o motor que impulsionou a eleição da primeira mulher deputada federal: a médica paulista Carlota Queiróz.

4 – Antonieta de Barros (1901 – 1952)

Antonieta lutou por educação de qualidade para os mais pobres, em 1922 fundou uma instituição particular que oferecia alfabetização para população carente.

Em 1934, se candidatou a deputada estadual em Santa Catarina e se tornou a primeira mulher negra a ser eleita deputada na região. Fez um mandato voltado à causas educacionais, entre as suas pautas estiveram: exigir concurso para cargos de magistério, formas de escolha de diretoria para as escolas e concessão de bolsas para alunos carentes cursarem o ensino superior.

Sua luta também foi destaque na imprensa, onde atuou como jornalista escrevendo para jornais e revistas sobre os impactos positivos que a educação causa na sociedade, lutando para que os mais pobres tivessem acesso a uma educação digna e emancipadora.

5 – Bertha Lutz (1894 – 1976)

Bertha foi filha de um importante cientista brasileiro com uma enfermeira inglesa, passou a adolescência na França onde concluiu o ensino médio e fez licenciatura em Ciências. Retornou ao Brasil em 1919 trazendo nas malas o sentimento sufragista.

No mesmo ano fundou a Liga para Emancipação Intelectual da Mulher que lutava para que as mulheres pudessem votar, escolher onde iriam morar e poder trabalhar sem pedir autorização do marido.

Bertha teve seus movimentos inspirados na atuação de Leolinda Daltro – que foi fundadora da primeira escola para enfermeiras no Brasil -, e em 1922, organizou o 1º Congresso Feminista do Brasil, que tinha como objetivo discutir sobre a proteção da mulher no trabalho.

Conseguiu a suplência do cargo de deputada federal e assumiu o posto de deputada em 1936, quando o titular Cândido Pessoa morreu. Seu mandato foi marcado por propostas pedindo condições de igualdade no trabalho para mulheres e menores, licença maternidade de três meses para gestantes e redução da carga de trabalho de 13h para todos.

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E chegamos às...

Músicas que falam de liberdade:



“O Canto dos Escravos” (domínio público, 1928) – Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Doca da Portela

Lançado pela Eldorado, em 1982, o disco “O Canto dos Escravos” remonta a uma pesquisa empreendida por Aires da Mata Machado Filho, na Chapada Diamantina, no ano de 1928, quando ele recolheu “cantigas populares em língua africana ouvidas outrora nos serviços de mineração”. Segundo ele próprio, foi através de “notas apressadas” que este tesouro da história nacional tomou forma e corpo, 53 anos depois, através das vozes de Clementina de Jesus, do sambista paulistano Geraldo Filme e do carioca Doca da Portela, trio extremamente identificado com as causas negras e o combate ao racismo no Brasil. Ao todo, a coletânea apresenta 14 cantos e duas faixas extras.


“Tributo a Martin Luther King” (samba, 1967) – Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli

Wilson Simonal não era santo, e tampouco o diabo que o pintaram após o polêmico e controvertido envolvimento com as forças de segurança do Estado durante o período nefasto da ditadura militar no Brasil. Por outro lado, é inegável que sua trajetória representou uma vitória de classe, do negro que ascende de condição social, circunstância rara no país, cuja exceção reside, justamente, em profissões de destaque e com pouco mercado, como a música e o futebol. Embora não fosse ligado a movimentos sociais, Wilson Simonal se afirmava, e identificava-se com a luta do negro nos Estados Unidos, presidida por Martin Luther King, para quem ele compôs um bonito e comovente tributo em parceria com Ronaldo Bôscoli.


“Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” (rasqueado, 1968) – Geraldo Vandré

Uma das canções brasileiras mais representativas de todos os tempos, “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” já nasceu controversa. O hino contra a repressão composto pelo paraibano Geraldo Vandré, no auge da ditadura militar no Brasil, em 1968, insuflou os espectadores presentes ao Maracanãzinho no III Festival Internacional da Canção e despertou a ira dos militares. O público aplaudiu com volúpia e intensidade e exigiu que a música, na definição do autor “um rasqueado de beira de praia”, vencesse o concurso. No entanto, o júri resolveu premiar “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, incessantemente vaiada após o anúncio. Definida pelo general Luís de França Oliveira, secretário de Segurança da Guanabara, como “subversiva e com cadência do tipo Mao Tsé-Tung”, referência ao líder da ditadura comunista na China, a canção que rendeu a Vandré sucesso e adoração popular foi também artifício para exilá-lo no Chile e, em seguida, ele abandonar a carreira.

MESTRE SALA DOS MARES: A canção fala da figura de João Cândido, o líder da Revolta da Chibata (1910), no Rio de Janeiro. O “Almirante Negro”, como foi apelidado pela mídia na época, foi o porta-voz na ação dos marinheiros contra o racismo, os castigos físicos (chibatadas que deram nome à revolta) e as péssimas condições de trabalho na marinha brasileira. O motim, que aconteceu entre 22 e 27 de novembro de 1910, teve como estopim a punição ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes com 250 chibatadas e sem direito a tratamento médico.  


O samba enredo da Imperatriz Leopoldinense de 1989 fala sobre a abolição da escravidão e o fim da monarquia.  A música "Liberdade, Liberdade! Abra As Asas Sobre Nós" de Mestre Marçal,  é uma celebração vibrante da liberdade e da história brasileira, entrelaçada com a cultura do carnaval. A letra da música evoca a importância da igualdade e da liberdade, pedindo que esses valores sejam sempre a voz guia do povo brasileiro.

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E terminamos voltando à nossa grande campanha pela liberdade... contra o consumismo, o imediatismo, as soluções mágicas, essas coisas que fazem parte  dessa sociedade  capitalista.
Vamos fazer fissuras, vamos dizer não ao capitalismo, dizendo não ao consumismo desnecessário, treinando nossa capacidade de discernimento.

Por último, uma expressão que parece conter uma contradição, um paradoxo: 
DISCIPLINA PARA LIBERDADE... 

Li há muito tempo numa Revista de Psicologia um texto da Maria Rita Kehl, psicanalista, jornalista, ensaísta, poetisa, cronista e crítica literária... das nossas, somos muitas... A expressão DISCIPLINA PARA LIBERDADE me marcou profundamente, ficou como uma referência para meu caminhar desde então, no sentido da construção da liberdade para ser, para construir "quem eu queria ser" para além dos padrões que me eram violentamente exigidos. 

SER em todos os níveis de relação, SER na cama e no mundo, como se tornou, para nós do SBC, um espécie de slogan. Transcrevo aqui o parágrafo final desse texto:

      "Uma nota final : a igualdade de possibilidades sexuais ameaτa os homens com o fantasma da traição feminina. Diante da mulher insubmissa todo homem se sente um corno em potencial. Se os homens soubessem do esforço que a mulher apaixonada (claro, a não apaixonada não tem por que ser fiel) tem de fazer para ser infiel!  A infidelidade da mulher que ama tem duas possibilidades. Pode ser uma vinganτa contra o macho-paralelepφpedo, prepotente, o intranscendente que come mas não ama, que caga-regras mas não escuta, que penetra e não se deixa penetrar; e, nesse caso, quem for esperto que aprenda alguma coisa com a traição.  Ou pode ser uma disciplina. Uma disciplina de liberdade. Tentativa feminina de superar um desejo de posse/dominaτπo/submissão que parece gravado a fogo em nós junto com a paixão. Rebeldia do espírito que se quer livre contra a carne que se quer posse. Mesmo que a carne se chame coração.

  Quando a infidelidade feminina não é uma vingança, ela é uma tentativa (arriscada, perigosa - corajosa, e por isso mesmo ...) de amar melhor".

Grande aprendizagem para a vida, para o amor e a liberdade... Obrigada Kehl.


E para todas e todos nós: pensar, enquanto sujeitos, sobre os conceitos internalizados, distorcidos, numa sociedade que nos deseja objetos, reprodutores... refazer, ressignificar, esses conceitos... e re-orientá-los para o bem viver e o bem relacionar... com liberdade, alegria... e amor...

Não é por acaso que a imagem símbolo do SBC é a pipa...

Abraços carinhosos...



                                                                      



quarta-feira, 8 de maio de 2024

Sobre VIDA... e ESPERANÇA

Janelas:
















Há vida lá fora...




E aqui dentro






sempre... como diria Lulu...





Vida, calor humano, alegria, companheirismo... 
Esperança e Fé não podem faltar...

A vida vale o riso... e os bons encontros...




Fazenda Boa Esperança, Itaguara, Minas Gerais. 




Fotos e texto: Santuza TU












quinta-feira, 2 de maio de 2024

Conversas SBCenses: Sobre liberdade...

 


Cartaz na porta de sala de depilação... 
Foto de mulher negra, cabelo black power - ou sarará... o que nos leva a pensar sobre o público alvo dessa propaganda de depilação. Certamente não é uma elite nem econômica nem culturalmente, pois a realidade do nosso país é de uma maioria de pessoas afro descendentes cujo acesso à educação de qualidade que possa permitir a essa população a ascensão econômico/social/cultural ainda não é satisfatória. 

Me lembro muito bem da lei, ou melhor, das leis, vale a pena recordá-las: Temos, atualmente, duas leis específicas sobre cotas que incluem a temática racial: a Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, e a Lei nº 12.990, de 9 de junho de 2014. A primeira refere-se ao acesso às universidades públicas federais, e a outra, aos concursos públicos no âmbito federal". Ano de 2012, quem era presidente? Nossa Presidenta Dilma Rousseff.! "Cotas raciais são reservas de vagas em vestibulares, provas e concursos públicos destinadas a pessoas de origem negra, parda ou indígena. As cotas visam acabar com a desigualdade racial e o racismo estrutural resultantes de anos de escravidão no Brasil, que ainda excluem pessoas negras e indígenas da universidade, do mercado de trabalho e dos espaços públicos." Claro, as leis serviram para um avanço, porém ainda estamos longe da igualdade. E me lembro muito bem dos comentários das "classes médias que se consideram elite": 
"As universidades públicas vão ser sucateadas!", 
"Vai cair o nível!",  
por aí os comentários...

Mas voltando ao cartaz, e pensando para além da mulher que o ilustra,  o "público alvo" do mesmo, me parece,  são mulheres de uma classe social media, talvez mulheres que se esforçam ou esforçariam para corresponder a um padrão estético ditado por uma sociedade que, ao fim a e cabo, AINDA nos deseja e nos "educa" enquanto objetos.

E foi isso que nos indignou profundamente...
 E nos provoca reflexões:
- de que liberdade estão falando? Liberdade para ser você? ou para ser do jeito que o outro quer que você seja? liberdade para ser objeto? 
Sim! objeto de desejo do outro, como todas nós, mulheres, ainda somos educadas... 

- Como nosso mundo distorce, banaliza, as palavras, os conceitos!!! 
Liberdade... qual liberdade???!!!
- Liberdade para consumir? Sim, a liberdade, acredito, vem a ser "de pensar, de sentir, de agir"... porém, "passa pelo bolso", como dizia nossa inspiradora dos anos 80.
 
É certo e justo que uma classe social menos favorecida lute para ser incluída... incluída na sociedade de consumo. 
Essa mesma sociedade onde uma classe média consome coisas ridículas, inúteis, também para parecer pertencerem à classe social "abastecida",  a elite.  
E assim se produz - e reproduz -  um circulo vicioso, isso tudo alimentado pela mídia, a serviço dessa elite, que deseja e alimenta pessoas alienadas, que reproduzem essa sociedade a serviço daquela elite. Essa sociedade que não pensa o que está consumindo, por isso deixa de consumir coisas boas  pra vida, coisas engrandecedoras, arte, por exemplo. 
E consomem "merda", coisas inúteis, na esperança de pertencerem a outra classe que não a sua... 

E as palavras, como liberdade por exemplo, palavra tão preciosa para nós, seres humanos,  são distorcidas e usadas para a alienação e o consumismo... Liberdade, para nós, deve ser uma construção constante, diária, na vida.   

Conversávamos sobre este tema e ouvimos relatos - risíveis, se não fossem trágicos: uma de nós já tem uma coleção de pijamas, pois tudo que aparece e a seduz, no instagram, são pijamas... que ela se encanta e vai comprando, vários ainda não usou; outra não pode ver uma calcinha e um sutiã que vai comprando virtualmente, quando recebe verifica que o sutiã "maravilhoso" mostrado na internet abotoa na frente e, a qualquer movimento, ele abre!; a calcinha que promete "subir o bumbum" faz isso criando um pneu na cintura, as banhas (ou pelancas) se soltam depois da calcinha e formam um pneu, enquanto que a renda na perna vai enrolando na medida em que ela vai andando... 

E as soluções mágicas que nos pegam, em função do nosso imediatismo, outra característica construída na nossa cultura capitalista/consumista: as gotinhas milagrosas para emagrecer; as pílulas para acabar com toda flacidez da pele... 

Trocando ideias sobre essas "pegadinhas"  é que vemos o quanto é tudo ridículo. E o quanto precisamos aprender a DIZER NÃO a essa cultura do consumo, realizando o movimento de fissuras nessa nossa "cultura capitalista" - então poderemos ir construindo um mundo que tenha mais sentido, onde se consuma coisas boas pra vida...


Convidamos à leitura do nosso  post no blog de 18 de janeiro de 2014, quando conversamos sobre FISSURAS:
 “Novas lógicas sociais multiplicam-se; desafio é articulá-las”. Romper com o mundo como ele é e criar um diferente. Esse é o objetivo de muitos militantes e ativistas. Mas como fazer para construir uma realidade em que não haja Gaza, ou Ucrânia,  nem poucos bilionários e 1 bilhão de pessoas morrendo de fome?

O cientista político irlandês, radicado no México, John Holloway traz esse desafio em seu novo livro Fissurar o Capitalismo. São 33 teses que explicam como criar rupturas no sistema para não continuar a reproduzi-lo. Do idoso que cultiva hortas verticais em sua sacada como forma de revolta contra o concreto e a poluição que o cerca. Do funcionário público que usa seu tempo livre para ajudar doentes com aids. Da professora que dedica sua vida contra a globalização capitalista. São diversos exemplos trazidos pelo autor, de pessoas comuns que recusam a lógica do dinheiro para dar forma a suas vidas. No entanto, após a rejeição, é preciso tentar fazer algo diferente. É aí que surge o problema. “As fissuras são sempre perguntas, não respostas.”

E reativamos nossa CAMPANHA: 
VAMOS FAZER FISSURAS: vamos aprender a ver aquele tipo de coisa do cartaz - espalhados por toda a cidade, por toda a rede, e NÃO ENGOLIR... pois a ideia é nos enfiar goela abaixo esse tipo de coisa, para o objetivo do consumo, da alienação e da reprodução desse mundo injusto...
E vamos aprender a dizer NÃO, nas pequenas coisas, no dia a dia, isso no sentido individual... e vamos nos encontrar, vamos conversar sobre isso, para construirmos, no coletivo, projetos que digam NÃO  a essa cultura excludente, cruel... e SIM a um mundo mais inclusivo e bonito.


Nosso grande inspirador, Mujica...

Abraços carinhosos a todas as pessoas SBCenses...







domingo, 28 de abril de 2024

Sobre borboletas, outros bichos, cores... e nós

 


Borboletas amam flores

Flores amam pipas

Pipas amam pessoas

E oferecem suas linhas para

as pessoas segurarem

E as pessoas controlam as pipas

Borboletas amam mais livremente...

 


Borboletas são coloridas

Borboletas amam passarinhos

Passarinhos também são coloridos

E também são livres

E amam a liberdade

E os bons encontros

Coloridos

 


Passarinhos são de toda espécie

Borboletas são de todas as cores

Amam a liberdade

E crescem uns com os outros

Assim é a vida

Colorida

 


Cores de Almodovar

Cores de Frida Kahlo

Cores de Adriana

Cores de Renato Russo

Cores

 

Sejamos

Apenas sejamos

É tão fácil !

É tão difícil !

Aprender a ser livre

Aprender a viver

 


Viver

Amar

Ser livre

Aprendizagem constante

 

Só os seres humanos, entre todos, se odeiam, se escravizam, se matam...

                                                                                    Santuza TU

domingo, 21 de abril de 2024

Uma intertextualidade... com Drummond:


Carlos, as minhas pedras não estavam no meio do caminho,

Estavam no meu sapato!

Deixei todas as pedras no rio...

Junto com meus preconceitos.


                                      O rio as levou...


O rio guarda pedras de todos os tamanhos, cores, texturas

O rio é bonito... é bonito...

                                                        Nós, humanos, também...

                                                                                                                Santuza TU


domingo, 14 de abril de 2024

Lembranças, histórias, afetos...

 Não existe possibilidade de, em nos encontrando na festa de70 anos de grande amiga dos anos 80 do século passado, não conversarmos sobre o passar do tempo... sobre perdas, lembranças ... e chorarmos e rirmos... quase ao mesmo tempo.

Ela, a aniversariante, trajando um lindíssimo vestido vermelho, meio soltinho e vaporoso, que a deixava a vontade para o esbanjamento na dança e na alegria; os cabelos presos num displicente "coque"  e um sapato baixo e confortável, claro, para o esbanjamento que já dissemos.

E todas (e todos) nós, também, esbanjando elegância, alegria, vitalidade... "parece que foi ontem!" todas nós dizíamos, continuamos "as mesmas", algumas de nós apresentando suas filhas adultas - nos anos 80 quase todas tinham menos de cinco anos - e algumas filhas, agora, completamente "a cara" das mães naquela época... 

Essa é uma característica da amizade: passa-se o tempo, a gente se encontra e "parece que foi ontem"... o tempo não "envelhece" a amizade. Lembramos Alberoni, escrevemos sobre ele em post do dia 30 de janeiro deste ano, também a propósito de "bons encontros":

Francesco Alberoni, jornalista, escritor e professor de sociologia italiano, hoje com 93 anos.  Publicou,  em 1979, "Enamoramento e Amor", o seu livro mais traduzido e mais vendido, o primeiro da trilogia  "A amizade" (1984) e "O erotismo"(1986).


"No livro A AMIZADE, Alberoni afirma que essa  é a única relação afetiva incompatível com a ambivalência. Já vimos que, no enamoramento podemos odiar a pessoa amada. Podemos ser ambivalentes em relação aos nossos pais ou aos nossos filhos. Não podemos, ao contrário, ser ambivalentes em relação ao amigos. Caso aconteça a ambivalência, a amizade sofre e, se a ambivalência continua, desaparece. É este, provavelmente, o motivo pelo qual os amigos preferem ver-se de quando em quando, quando têm vontade, em lugar de viveram juntos. Uma convivência contínua cria, inevitavelmente, motivos de dissabor, de ressentimento, pequenas coisas que, no entanto, somando-se, se podem tornar grandes. A convivência tende a consolidar as relações afetivas mas, ao mesmo tempo, divide. Os enamorados escolhem esta estrada a este risco porque tendem à fusão. A amizade, pelo contrário, prefere renunciar à fusão a favor do encontro. O encontro é sempre positivo. A amizade , então, pode ser definida como uma série de bons encontros".

 Voltando ao "displicente coque",  rimos muito das palavras que nos denunciam: provavelmente nenhuma pessoa que tenha nascido neste século saiba o que é "coque"... E "O conjunto está ótimo"! Não, minina, é banda! Conjunto musical é do tempo da fita cassete, do LP, já passamos até pelo CD, hoje é play list...

Quanto à memória, não é verdade que, com a idade, nossa memória diminui... de jeito nenhum! Na verdade nossa memória se torna pontual, ou seja, lembramos o que nos interessa, e lembramos muuuiiiitoooo... mas para as coisas menos importantes, nosso HD já está cheio, aí a gente deleta...

E, numa certa altura da conversa, apareceu a piada sobre os três Ks que matam os velhos: Katarro, kaganeira e keda.

Inevitável lembrarmos com saudade e admiração da pessoa que nos reuniu. Pensamos que ela seria, agora, como grande artista italiana, Barbara Alberti:

Escritora, roteirista, dramaturga e personalidade da TV italiana, atualmente com 81 anos, seu ultimo livro TREMATE TREMATE, deste ano de 2024. 




TREMAM, TREMAM! AS BRUXAS VOLTARAM!!!

E sua participação em filmes como roteirista: O Porteiro da noite (1974), O árbitro (2013) e Incompreendida (2014):





É como se, aquela  pessoa inspiradora que nos uniu, se estivesse entre nós, falaria sobre o passar do tempo como a Barbara Alberti:

"A velhice é anárquica por natureza... Por que é a nossa última cavalgada. Você tem que contornar o precipício... E, também, você sente a cada momento como se fosse um clandestino.
Agora, quanto você já viveu muito, já plantou muito, há essa sensação de milagre de ainda estar aqui, o que me parece, realmente, inédito no que me diz respeito.
Há, também, a sensação de que a festa está prestes a acabar... e você está aqui! dançando.
Muitos se foram antes de você, entende?
E você está aqui, dançando...
Mama mia, ainda bem...
Ou seja, enquanto me movo, falo e penso, sou dona de mim!
Se eles deixarem, daqui mais 200 anos eu estarei aqui... por que é verdade que estou mais velha, mas continuo sendo eu mesma! O problema não é a velhice, o problema é a morte!"...

Ao ouvir Barbara Alberti dizendo essas palavras, senti nossa mentora presente... 



E por falar em memórias e afetos, depois do parabéns a banda tocou, em homenagem à aniversariante, essa música que ela adora... e todas e todos nós também ...

E assim foi terminando a festa, com uma novidade interessante: a decoração era "desmontada" e transformada e buquês que eram oferecidos para levarmos, junto com fotos em preto e branco, lembranças  de outros encontros nossos... que venham muitos mais... e obrigada pela festa, querida amiga.

Deixando registrado mais uma vez que o SBC é completamente inspirado nessa nossa mentora, ela mudou nossas vidas...




Abraços carinhosos a todos e todas...