sábado, 27 de maio de 2023

Reflexões SBCenses: sobre PAZ

 


Este símbolo da paz foi criado no ano de 1958, pelo designer britânico Gerald Holtom (1914-1985), com o objetivo de servir como protesto contra a construção de armas nucleares na Inglaterra. Já que eles estavam num momento de pós-Segunda Guerra Mundial, em que os países estavam planejando dar início a uma corrida armamentista. Assim sendo, para criar o símbolo, o artista decidiu utilizar as letras N e D, que significavam “nuclear disarmament”, ou seja, desarmamento nuclear. Basicamente, era esse o pedido da população, de modo geral. Afinal, a sociedade estava se sentindo desprotegida e ameaçada pela guerra nuclear. 

Além das letras do símbolo da paz, vale destacar também que os traços internos poderiam ser vistos como parte do corpo de um boneco de palito. Ou seja, a intenção era visualizar o boneco com os braços para baixo e as mãos espalmadas, em sinal de agonia e desespero. Além disso, o círculo em volta representaria a terra, nosso planeta.


Para fazer tal símbolo, Holtom se inspirou no quadro “Três de Maio de 1808”, do pintor espanhol Francisco de Goya, que representa o acontecimento que se conhece como o levante de 3 de Maio, ocorrido em 1808, após Napoleão invadir a Espanha e a casa real seguir as suas ordens. A revolta estoura nesse dia, quando uma parte do povo de Madrid tenta evitar a saída, ordenada pelos franceses, do infante D. Francisco de Paula de Bourbon. As tropas francesas atiraram contra os madrilenos revoltosos. Foram ao redor de 400 vítimas. 44 revolucionários foram juntados e fuzilados na noite de 2 a 3 de Maio na colina do Príncipe Pío, em Madrid. Este é o episódio que Goya mostra no seu quadro, de 266 x 345 centímetros,  feito em 1814, atualmente no Museu do Prado, em Madrid.


Ainda na segunda metade do século passado,  o símbolo acabou ganhando outro significado. O que era para representar medo, euforia e desespero, passou a representar uma ideia de paz. Este segundo significado do símbolo da paz foi ganhando repercussão nos anos 60, particularmente na Inglaterra e EUA,  com o movimento de contracultura. Basicamente, esse movimento prezava por um modo de vida mais comunitário. Além de aderir a um estilo de vida mais nômade, com uma forte ligação com a natureza, espírito livre e, acima de tudo, contra todo e qualquer tipo de guerra. Por isso, engajaram tanto no lema “Paz e Amor”. Aliás, “Paz e Amor” é uma das frases idiomáticas associada ao movimento hippie. Eles são os responsáveis por imortalizar esse símbolo.

Assim sendo, esse símbolo representou a postura política dos hippies. Até porque eles eram responsáveis por inúmeros movimentos que buscavam os direitos civis, a igualdade e o anti-militarismo.
Vale destacar também que um dos objetivos desse movimento era promover manifestações a favor da campanha pelo Desarmamento Nuclear, para o qual o símbolo da paz e do amor realmente foi criado.

Voltando um pouco na história, também após a Segunda Guerra foram organizados, na cidade de Paris, Congressos Mundiais pela Paz.  A artista francesa Françoise Gilot, que era companheira de Picasso na época, dera à luz uma menina,  Paloma. Para Picasso, os pombos eram um lembrete de sua infância e de seu pai, que o havia ensinado a desenhar pombos. Picasso foi considerado um símbolo pela defesa da paz e da liberdade depois de pintar Guernica em 1937. em resposta aos bombardeios alemães na Guerra Civil Espanhola.


A partir da década de 1960, Picasso passou a estilizar cada vez mais seu desenho para representar a Pomba pela Paz. Também acrescentou um ramo de oliveira no bico, esse é um símbolo que segundo a Bíblia, trouxe a Noé a notícia de que a terra estava próxima.

Vejam que o conceito de PAZ não é absoluto, como todos os conceitos ... AMOR, DEMOCRACIA, LIBERDADE ... e por aí vai... O mais bacana no humano é que podemos - e devemos - sempre, conversar sobre o significado dos conceitos para cada um de nós, aqueles significados "prontos e internalizados" e consequências disso para nossas vidas e nossas relações... e novos significados, que podemos construir, e que podem servir de orientação para uma vida mais bonita, para relações mais prazerosas.


Nosso grande inspirador Rubem Alves, educador, teólogo e escritor brasileiro (1933-2014) faz uma crítica à imagem do pombo como símbolo da paz, numa de suas crônicas sobre relações humanas, muito importante para nós na época em que lemos, "traduzida" agora como se segue:
- Os animais da mesma raça, geralmente entram em briga por território ou pela fêmea. Mas eles não se matam, pois todos possuem uma espécie de "mecanismo de rendição". Por exemplo, os lêmures (primatas de Madagascar - vejam o filme...), parecem uns macaquinhos... quando um bando entra em briga por território com outro bando, e um dos bandos percebe que estão perdendo, eles exalam um cheiro forte, de maneira que o outro bando que está ganhando para a briga, os perdedores vão embora e o bando ganhador se apossa do território. Já os pombos - e os humanos - são os únicos que não possuem esse "mecanismo de rendição", de maneira que quando dois pombos adultos são presos numa gaiola... e, por algum motivo, começam a brigar, eles se matam, ou seja, os dois  morrem ao mesmo tempo, ou quase, pois têm mais ou menos a mesma força. Triste isso não é? Justamente os símbolos da paz, não dispõem de uma "bandeira branca". Nós, humanos, inventamos essa bandeira branca, porém, geralmente não a usamos... e isso percorre todos os níveis de relação, "na cama e no mundo" como nós, SBCenses, costumamos dizer...

Talvez nos falte a aprendizagem necessária ao exercício de alteridade e de empatia, como conversamos há pouco tempo (post de 18.05). Tampouco exercitamos o raciocínio dialético (tese - antítese - síntese, que já é uma nova tese, o início de outro movimento...). E alguns conceitos, tão importantes para a vida e as relações, necessitam tanto desse raciocínio! No entanto, costumamos nos fechar em verdades... o que nos leva a tantos "dramas relacionais" e sofrimentos que poderíamos evitar... 

Nessa toada entabulamos conversa e interpretações diferentes sobre a PAZ, buscando referências poéticas, musicais... que nos provocam o auto conhecimento (para aqueles que conseguem se despir dos mecanismos de defesa aprendidos na sua história de vida ...  negação, projeção, ...), e o desenvolvimento de relações mais bonitas e saudáveis, construindo, assim, uma vida tão livre e prazerosa quanto possível.

Começamos com nosso grande filósofo Gilberto Gil. Ouçam, a letra da sua música A PAZ, composta em 1986 com João Donato.

"QUE CONTRADIÇÃO, SÓ A GUERRA FAZ, NOSSO AMOR EM PAZ..." Segundo Gil: "A imagem dele [João Donato] dormindo sossegado, em plena luz do dia, me chamou a atenção para o sentido da paz."  - a paz de espírito. Essa imagem o fez lembrar da obra de Leon Tolstói, Guerra e Paz,  e a letra foi sendo composta com base nessa contradição. O paradoxo é recorrente na obra de Gil, segundo ele mesmo afirma: "essa é a recorrência básica no meu trabalho: yin e yang, noite e dia, sim e não, permanência e transcendência, realidade e virtualidade: a polaridade criativa (e criadora)"

Ao acompanhar o percurso de cinco famílias aristocráticas russas no período de 1805 a 1820, Tolstói narra a marcha das tropas napoleônicas e seu impacto brutal sobre a vida de centenas de personagens.

"O que é Guerra e paz?”, esta foi a pergunta que Liev Tolstói fez em um texto que detalha o processo de pesquisa e de criação de sua obra-prima. “Não é um romance, muito menos uma epopeia, menos ainda uma crônica histórica"..." Ninguém antes de Tolstói mostrou a guerra com tal realismo e poder artístico, negando qualquer interpretação romântica e vendo a guerra como a maior manifestação do mal, um fenômeno contrário à própria natureza do homem." O que e é ruim? O que é bom? O que se deve amar, e o que se deve odiar? Para que se deve viver e o que eu sou? O que é a vida, o que é a morte? Que força governa tudo?', ele se perguntava. [...] Você vai morrer e tudo vai terminar. Você vai morrer e vai ficar sabendo de tudo… ou vai parar de perguntar." Por fim, a obra-prima de Tolstói é uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que queira ter uma experiência literária única. "Guerra e Paz é uma obra-prima que todos devem ler para se conectar com a profundidade e a complexidade da vida humana. É uma leitura que deixará o leitor profundamente tocado e com uma nova perspectiva sobre a vida".

O provérbio acima, em latim, pode ser traduzido como "se quer paz, prepare-se para a guerra". A frase é atribuída ao autor romano do quarto ou quinto século Flávio Vegécio. 

Qualquer que seja a fonte, o provérbio se tornou um item de vocabulário que vive por si mesmo, utilizado na produção de ideias diferentes em vários idiomas. As palavras do próprio Vegécio nem sequer são reconhecidas por um grande número de escritores, que atribuem o ditado diretamente a ele.

Esta frase também foi usada como mote pelo fabricante alemão de armas Deutsche Waffen und Munitionsfabriken (DWM) para designar a sua pistola, Parabellum.

A frase também é referenciada em vários filmes como, por exemplo, na trilogia John Wick.

E, nessa toada, vamos lembrando, na história, em quantas guerras, quantos massacres, quantas tragédias humanas se fizeram "em nome da paz"... particularmente no século passado, tão próximo historicamente... Na primeira metade daquele século duas guerras mundiais... na segunda metade, período dito da "guerra fria", quantas "invasões" em nome da paz o imperialismo estadunidence fez - e ainda faz - a países em todo o mundo? Sem falar da bomba atômica sobre Hiroshima, no Japão, lançada pelos EUA em agosto de 1945, depois que já tinha acabado a segunda guerra mundial.  

Guerra das coreias, Vietnan, conflitos árabes-israelenses, guerra irã-iraque, golpes de estado na América Latina ... e, com isso, o desenvolvimento da indústria de armamentos. Imaginem o lucro com a dita economia de guerra. Agora, pensem na mais conhecida guerra atual, Rússia-Ucrânia. Para qual (ou quais) países é interessante a manutenção dessa guerra? Para a Rússia? Para a Ucrânia? pensamos que esses dois países seriam os menos interessados... E outros conflitos sangrentos pelo mundo: Etiópia, Iêmen, Haiti, Mianmar, Síria, Afeganistão... tudo em nome da paz, grande mentira!


Concluímos - provisoriamente - que os conceitos de paz podem variar de cultura para cultura e de pessoa para pessoa, assim como nos vários níveis de relação (de relações intimas até "nós no mundo e o mundo em nós"); e caminhamos para reflexões sobre o desejo de paz nos relacionamentos...


Em 1966 Elza Soares defendeu a música "De amor ou paz" de Adalto Santos e Luiz Carlos Paraná, no Festival da Record, classificando-se em segundo lugar.


Quem anda atrás de amor e paz não anda bem
Porque na vida o que tem paz, amor não tem
Seja o que for, sou mais do amor, com paz ou sem
Sei que é demais querer-se paz e amor também

Já que se tem que sofrer, seja a dor só de amor
Já que se tem que morrer, seja mais por amor

Vou sempre amar, não vou levar a vida em vão
Não hei de ver envelhecer meu coração
Vou sempre ter em vez de paz, inquietação
Houvesse paz, não haveria esta canção.

E, nos deliciando com letra e música dessa canção, pensamos nas várias expressões de paz e seus significados:
Paz no mundo... Paz nas relações... Descanse em paz... Me deixa em paz... A paz esteja convosco...

E mais essa que o SBC intitula música de lama, "precisamos" dessas músicas para chorar de amor até rir da gente e do amor idealizado...


A paz no mundo, inegavelmente, precisamos lutar por ela... elegendo governantes estadistas, por exemplo... também, buscando mais conhecimentos que ampliem nossa visão de mundo... capitalismo, imperialismo, socialismo, comunismo...
Porém, a busca de paz nos relacionamentos pode vir a ser um equívoco. Pensamos no equívoco de se buscar relacionamentos perfeitos, idealizados, sem conflitos...  pois sabemos das distorções que aprendemos a internalizar do conceito de CONFLITO...  de maneira tal que, ao buscarmos a paz nos relacionamentos, evitando os conflitos, nós nos desumanizamos... pois o conflito faz parte do humano, é através dele que crescemos. Então só tem um jeito: autoritariamente, impondo ao outro nosso modelo, petrificando as relações... enfim, reproduzindo nas relações o modelo maniqueísta  certo|errado, bem|mal, verdade|erro,  ...  nossa proposta é a de combatermos, sempre, este modelo, "guerreando", às vezes conosco mesmxs, quando procuramos a paz como sossego... tudo isso valendo para as relações afetivas-sexuais, afetivas-parentais, afetivas-amigáveis...
Um grande amigo me diz que está buscando a paz nos relacionamentos... e esta fala me surpreendeu: em vez de buscar a paz não seria saudável buscar alegrias de bons encontros, tesão,  crescimento mútuo, encontro de desejos...  quem está procurando paz nos relacionamentos não estaria se defendendo de frustações em função de idealização das relações... de si mesmx... do outro... grande psicanalista brasileiro, Christian Dunker , fala bastante disso, dos comportamentos de evitação,  desses mecanismos de defesa que, ao fim e ao cabo, tornam nossas vidas menos interessantes, pobres... relações acabam, se transformam, e enriquecem nossas vidas... a capacidade de amar e ser amada está em nós... não "envelheça" seu coração, como nos diz Elza...
Por fim, nos deparamos com uma outra concepção de paz que denuncia, como um soco no estômago, a "mentira" da busca da paz enquanto se matam crianças:

DA PAZ

por Marcelino Freire 

Eu não sou da paz.

Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.

Uma desgraça.

Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?

Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.

Não vou.

A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.

A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.

Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.

Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?

Hein?

Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.

A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?

A paz é que não deixa.


Enfim... penso que precisamos MUITO de estadistas que lutem pela PAZ... lutemos com eles!!!

e, nos relacionamentos, precisamos MUITO nos livrar de idealizações...  e incluirmos os conflitos nas nossas vidas e nas nossas relações como aprendizagens de crescimento, de humanização e de prazer com a através dx(s) outrx(s). 


Abraços carinhosos...




quinta-feira, 18 de maio de 2023

Conversas SBCenses: sobre RECONHECIMENTO

 


E aproveitamos o "embalo" do Todorov para praticar outro TAP: 

O livro A vida em comum  integra a Coleção Todorov, Simbolismo e interpretação, Teoria da literatura, Teorias do símbolo,  Teoria da literatura, ...


Neste ensaio o filósofo búlgaro percorre um único domínio do vasto campo da Antropologia para estudar o ser humano a partir de um ângulo incomum. Ele busca compreender não o lugar que o homem ocupa na sociedade, mas, ao contrário, o lugar que a sociedade ocupa no homem: 

Em que consiste, para o indivíduo, a exigência de conhecer apenas uma vida em comum? Todorov almeja melhor compreensão do objetivo da existência humana. E demonstra que é preciso ir além do que se percebe a partir de concepções, correntes (que podem ser antagônicas), carregadas de conceitos antropológicos subjacentes. Tais concepções induzem a pensar que o objetivo da existência humana é o desenvolvimento do indivíduo, a realização de si ou o progresso da sociedade, ainda que este implique em sacrifício de certas vantagens do indivíduo. Para Todorov, estas duas versões do ideal humano participam de uma mesma concepção do homem, que o representa em antagonismo com seu meio social, tornando necessário escolher: o indivíduo ou a sociedade. Ele professa, porém, que 'o si mesmo' existe apenas na e por sua relação com os outros e "intensificar a troca social significa intensificar o si mesmo": "Tomar consciência de que o objetivo do desejo humano não é o prazer, mas a relação entre os homens, pode, ao mesmo tempo, nos permitir reconciliar-nos com situações que pareceriam insatisfatórias sob outros critérios e agir de forma a melhorar a vida da sociedade de modo duradouro e geral".

Interessado especialmente em Rousseau, para quem 'a vida em sociedade é uma vocação humana, embora, em aparente contradição, ele vivesse solitário', Todorov dialoga nesta obra com pensadores de várias épocas, como Hegel,  Montaigne, Kant, Nietzsche, La Rochefoucauld e Freud. Ele recorre ainda, 'mais do que habitualmente', à literatura: "As verdades desagradáveis, para o gênero humano ao qual pertencemos, ou para nós mesmos, têm maiores possibilidades de conseguir exprimir-se em uma obra literária do que em uma obra filosófica ou científica".

Diz-se que o homem é um ser social. Mas o que exatamente significa essa frase? Quais as consequências desta observação aparentemente banal, que não há um eu sem um você? O ser humano estaria condenado à incompletude? Neste livro não há, como avisa o autor, um discurso fechado em certezas ou verdades absolutas, mas um amplo vasculhar sobre a questão.

. Depois desses passos, fomos à escolha da UNIDADE SE LEITURA, já "conversando" com o autor, com outros autores, e entre nós:

A VIDA EM COMUM - CAP III O RECONHECIMENTO E SEU DESTINO

Todorov, neste capítulo,  começa citando Rousseau, Hegel e Adam Smith, autores que situam a questão do reconhecimento como um dos processos elementares - primeiro porque o reconhecimento marca a entrada do indivíduo na existência humana. Mas apresenta também uma singularidade estrutural, surgindo, de certa maneira, como o duplo obrigatório de todas as outras ações. 

Os exemplos são parecidos com nosso grande escritor G. Rosa: "sou quando divirjo". Quando uma criança se reconhece como sujeito de suas próprias ações, se vê como um ser que existe... e é quando ela é aprovada ou desaprovada - reconhecida - ou não.

A questão do reconhecimento passa pelas coisas mais simples, como a maneira como me visto  - "escolho minhas roupas em função dos outros, ainda que seja para dar a entender que eles me são indiferentes" ... e atravessa todos os níveis de relação (profissional, relações pessoais, amor, amizade - até o nível público).  

Imagine o indivíduo que investiu o essencial da sua demanda de reconhecimento no domínio público (servir à sociedade e ao Estado), mas dele não recebe mais nenhuma atenção... descobre-se, repentinamente, privado de existência.

O reconhecimento, Todorov nos mostra, constrói-se como uma relação assimétrica - o agente confere o reconhecimento - o paciente o recebe.

- A mãe e o pai reconhecem o filho\filha. 

-  No entanto, podemos pensar também no reconhecimento INDIRETO  do agente: sentir-se necessário por creditar reconhecimento ao outro faz com que nos sintamos reconhecidos (inclusive na superioridade).

- E os filhos reconhecem pais e mães...

(aqui lembramos de exemplo de mulher, mãe, que descobriu num processo terapêutico, que "dependia da dependência dos filhos" para dar sentido à sua vida. E, por isso, os mantinha infantilizados. Dá pra entender COMO nós (mães - e pais) devemos "dar conta" da própria vida e, por consequência, "permitir que os filhos cresçam, sejam o que quiserem ser...)

Uma pergunta do autor: a aspiração ao reconhecimento é verdadeiramente universal ou é uma característica da nossa sociedade ocidental? Resposta: é universal e constitutivo da humanidade o fato de entrarmos, desde nosso nascimento, em uma rede de relações inter-humanas, portanto, em um mundo social; é universal almejarmos o sentimento de nossa existência. Os meios que nos permitem ter acesso a esse sentimento é que variam de acordo com as culturas, com os grupos, com os indivíduos. Do mesmo modo que a fala é universal, enquanto que o sentido que damos às palavras ou significados são aprendidos. 

Todorov lembra de Hegel, ligando a demanda de reconhecimento com a luta pelo poder:  ... de fato, numa relação assimétrica, onde a superioridade ou a inferioridade dos parceiros é dada de antemão,  cada um deles não deixa de desejar a aprovação do olhar do outro... como uma criança com seus pais. 

Aí a gente cresce ... e este comportamento é retomado em outras relações ... se não caminhamos no sentido do amadurecimento necessário, ou seja,   continuarmos com o desejo do reconhecimento - já que esse desejo é inerente ao ser humano, porém, sobrepondo ao mesmo o desejo de ser livre - livre para pensar, sentir, agir... aí estaremos nos movimentando para a construção (para a vida toda) da nossa identidade autônoma, a "construção" da resposta à pergunta quem sou eu, meus objetivos, ideais, valores...

Como "retomado em outras relações"? Sim... "vira e mexe" caímos na armadilha de ser do jeito que o outro quer que eu seja a fim de sermos reconhecidxs, amadxs, estimadxs... e, então, perdemos nossa liberdade, nos transformamos em escravos do outro. 

"Aquele que treme diante da morte vira escravo"... morte, aqui, uma metáfora do não reconhecimento. Quantas vezes abrimos mão da nossa liberdade,  sucumbimos ao desejo de ser reconhecido e viramos escravos, nos transformando "naquilo que o outro quer que eu seja"!!! E quantas vezes confundimos isso com amor!!!

Então ... o tempo todo estamos vivenciando a dialética senhorxescravo... e a consciência livre.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel filósofo germânico (1770 – 1831) 

Um pouco sobre nossa compreensão de Hegel: para ele, a História é a história das relações sociais, Esta história começa quando existem dois desejos humanos confrontados. O que o ser humano deseja é ser desejado por outro ser humano. Isso significa ser reconhecido pelo outro. O ser humano quer que os outros lhe atribuam um valor destacado, um valor próprio, que o diferencie das outras pessoas. Isto é o que define a condição humana. Portanto, segundo Hegel, o mais característico do ser humano é se impor diante dos outros. Só quando o outro indivíduo o reconhece como alguém autônomo cria-se a autoconsciência. Por sua vez, as autoconsciências constroem lutas entre os sujeitos: 

- eu, sendo sujeito, quero ("inconscientemente") te submeter, te tornar escravo... você luta para se afirmar, ser sujeito, e também quer me submeter...  dessa luta entre dois sujeitos (que, ao mesmo tempo, querem ser senhor, submeter x outrx... e se transformam em escravos para serem senhor) vai acontecer "algum" tipo de relação, inclusive a "não relação"... e o tempo todo estamos vivendo relacionalmente essa dialética: "o senhor é escravo do escravo", e "ao escravo falta a consciência, por isso seu fazer é para o senhor, para mudar de posição, ser o senhor"... com a consciência caminhamos para a superação dialética... o ser livre, ser sujeito... que não é estático, definitivo... melhor dizendo, seria a consciência que nos permite "ver" essa "cobra que morde o rabo" e "virar a chave" para relações mais simétricas e mais bonitas.

- Não podemos (e não devemos) contar com a certeza do reconhecimento dx outrx - nem das mães, como querem que acreditemos. Imaginem numa relação íntima:  um dos pares só contará com a certeza do reconhecimento do outro se o transformar num "objeto", num ser domável e previsível. E esse movimento, embora um tanto comum, costuma "acabar com o amor", petrificá-lo, como já conversamos com o filósofo Francesco Alberoni no seu livro "Enamoramento e amor". 

Na certeza do amor (reconhecimento) podemos "tratar mal" as pessoas que mais amamos...  "A intimidade gera desprezo", "aprendemos" isso, faz parte da nossa cultura, como Erving Goffman diz no seu livro "A representação do eu na vida cotidiana". Mas nós acrescentamos: caminhando para a simetria nas relações (até com a mãe) a intimidade pode (e deve), também,  gerar delicadezas, admiração, carinho, enfim, amor... 

Do outro lado da mesma moeda temos a possibilidade de manipulação desse desejo de ser reconhecido, amado... muitas pessoas usamos ("de inconscientes o inferna está cheio", como diz um SBCense querido) de mecanismos -  como, por exemplo, seduções desnecessárias se queremos uma simetria na relação - que podem ser confundidas com o que podemos falar da manutenção de "delicadezas relacionais". Necessário distinguirmos, tanto na posição de agente como de recebedores, essas manipulações (ou delicadezas).

Ainda, outra manipulação (do desejo de reconhecimento) possível: fazer tudo para o outro com o objetivo de controlá-lo. "Ingrato é aquele que não se rende aos meus favores", já dizia Nietzsche. Filho ingrato, marido ingrato, mulher egoísta, funcionário desobediente... quem nunca ouviu, ou falou, ou pensou isso? 

Ainda, quando caminhamos da necessidade de reconhecimento para o desejo de ser livre, aprendemos a receber NÃOs, assim como dizer NÃOs aos outros dizendo SIMs para nós mesmos. Pois não topar o risco de dizer sim a mim mesmx e\ou de receber um não dx outrx me faz cair, retroceder, voltar a ser escravo. Precisamos aprender que receber um "não livre" pode me deixar triste num primeiro momento - mas me deixa livre, e isso é bom pra vida. 

Voltando ao autor da nossa unidade de leitura: 

Ele nos coloca duas formas de reconhecimento:

1. reconhecimento de conformidade - o reconhecimento por se conformar o máximo possível, aos usos e normas apropriadas à sua condição . ex.: no trabalho, se a sociedade já reconhece meu trabalho aparece menos a necessidade do reconhecimento de distinção. Apenas contento-me com o reconhecimento de conformidade, cumpro meu dever, sirvo à minha empresa. A simples submissão às regras já me traz uma imagem positiva de mim mesmo - eu existo - não desejo nem preciso ser excepcional para obter o reconhecimento.

2. reconhecimento de distinção (o mais forte, o mais belo, o melhor)

- o desejo de reconhecimento é igual nos dois tipos: a satisfação obtida na conformidade explica os sentimentos comunitários - por outro lado, o reconhecimento pela distinção gera o orgulho pessoal. As duas formas de reconhecimento são, muitas vezes, conflituosas: a distinção favorece a competição, a conformidade está do lado do acordo.

- Refletimos sobre "TUDO QUE ME SALVA PODE ME MATAR"... daí é que precisamos sempre estar atentos e fortes... para distinguir o que me prende, me torna escravo, e o que abre caminho para "ser livre"...

Outro aspecto que o autor aborda é sobre o desenvolvimento do reconhecimento (não sobre sua forma): primeiro precisamos do reconhecimento da nossa existência, o reconhecimento no sentido restrito; e, segundo, a confirmação do nosso valor (positivo ou negativo)

- Exemplo.: falem mal mas falem de mim - o desprezo é melhor do que se ignorar a pessoa... diferença entre rejeição e negação, desdém e ódio (ser detestado não desencadeia a morte do eu. "O ódio por alguém constitui sua rejeição: pode, no entanto, reforçar seu sentimento de existência; mas ridicularizar uma pessoa, não levá-la a sério, condená-la ao silêncio e à solidão, é ir muito mais adiante: ela se vê ameaçada de tornar-se nada".

"NÃO IMAGINE QUE TE QUERO MAL, APENAS NÃO TE QUERO MAIS..."

"Aceitar as situações mais humilhantes valem mais do que a falta de reconhecimento: "a escravidão torna-se desejável, se nos assegurar o olhar do outro"...

- Nessa questão, ou dilema: SER REJEITADO X SER IGNORADO, Todorov coloca a metáfora da Raposa e das uvas, uma lição bastante interessante... "A raposa pula, pula, para alcançar o cacho de uvas que ela tanto desejava... quando percebe que não conseguiria, ela abandona o objetivo com o argumento "estão verdes".

- E finalmente, Todorov reflete que podemos nos tornar a única fonte de reconhecimento (autismo, orgulhoso) - e ele cita o exemplo dos artistas,  o conflito entre "uma auto estima inquebrantável", e "a dependência do reconhecimento do público"... 

"Em nossos dias o sucesso é um valor social que procuramos ostentar - o prestígio não é o mesmo que a glória"

____________________________

SITUAÇÕES ASSIMÉTTRICAS E A BUSCA DE RELAÇÕES IGUALITÁRIAS (SIMÉTRICAS)


E, finalmente, Todorov nos mostra como o reconhecimento constrói assimetrias: queremos reconhecimento dos superiores, mas também dos inferiores - o senhor precisa do seu servo - (professor do aluno, etc.) Porém, nas situações igualitárias, simétricas, aparece com facilidade a rivalidade.

À primeira vista, a ideia do autor de associar rivalidade com relações simétricas nos causou perplexidade e resistência: COMO!..., se acreditamos que a busca de relações simétricas significa amadurecimento emocional e relações mais bonitas e prazerosas!!!

Porém, com o "exercício de paciência nietzschiana diante do que nos é mais antípoda", "ruminamos" sobre isso... com a ajuda preciosa do Hegel, tentando sair do "raciocínio maniqueísta" e exercitar a "inteligência dialética" chegamos a algumas reflexões que nos ajudam no caminho de "virar a chave":

. primeiro, como é mais fácil (e perigoso... e mais comum) fazermos, relacionalmente, o raciocínio maniqueísta (ou-ou) associado à idealização do amor - ou seja, ou amo incondicionalmente... ou odeio, ou desprezo...
 
. ora, somente fazendo o exercício de auto observação, constatamos que um sentimento não acontece de maneira "pura", está sempre permeado de inúmeras outras emoções. E as mesmas quando são negadas, reprimidas, é que podem destruir o amor...

. portanto, o movimento de humanização do amor, de todos os amores possíveis, em todos os níveis de relação... é que pode nos trazer, dialeticamente, a possibilidade de considerarmos a construção de relações simétricas... ao mesmo tempo que tomamos consciência da possibilidade, sempre, da rivalidade, ou seja, de estarmos praticando a relação senhor-escravo...

. ou seja, já que o reconhecimento é universal e inegável, durante toda a vida e em todas as relações, e essa "necessidade" começa assimetricamente, nas nossas primeiras relações mãe,pai-filho - e já que o reconhecimento nos faz reproduzir a relação senhor-escravo (tentar submeter o outro e|ou ser submetido)... e essa relação é tão contraproducente para uma vida "bonita", tão livre quanto possível ... 

. e já que, para nós, nosso amadurecimento se dá no sentido de  buscar relações simétricas...

. concluímos com a indagação: COMO estarmos sempre construindo no sentido da SIMETRIA, sem negar, sem estar, também, sempre, considerando essa nossa humanidade que é o desejo de ser reconhecidx?

. E terminamos por aqui, com mais indagações do que com respostas. Apenas com a convicção:

AMAR E SER LIVRE... HUMANAMENTE...  ESSA É NOSSA UTOPIA... 

Enfim... uma boa "virada de chave"...



Abraços carinhosos...





 


Conversas SBCenses: sobre alteridade e empatia

 

Tzvetan Todorov, filósofo e linguista, nasceu na Bulgária em 1939 e morreu em 2017, em Paris. Suas obras estão traduzidas em vinte e cinco idiomas. 

Roland Barthes (1915-1980)

Em Paris Todorov estudou Filosofia da Linguagem com Roland Barthes, um dos mais respeitados teóricos do estruturalismo. 

O estruturalismo, apesar de ser tomado como uma corrente de pensamento, é um modo ou método de análise das ciências humanas que teve sua origem na psicologia e perpassou a linguística, a sociologia, a antropologia e a filosofia no século passado, ganhando destaque entre intelectuais franceses. Basicamente a intenção do método estruturalista, para qualquer uma dessas ciência, é identificar estruturas gerais de um todo, analisando as suas partes.

Em sua obra: “ A conquista da América: A questão do outro ”, Tzvetan Todorov analisa a conquista da América sob a questão do outro, a qual ele estabelece como unidade de ação a percepção que os espanhóis têm dos índios nesse contexto de conquista, além de expor suas pesquisas a respeito do conceito de alteridade, existentes na relação de indivíduos pertencentes a grupos sociais diversos, cujo objeto central justifica-se na própria situação do autor, que é imigrante na França, um país onde supostamente a relação entre nacionais e estrangeiros é historicamente marcada por um xenofobismo não declarado.

“Se a compreensão não for acompanhada de um reconhecimento pleno do outro sujeito, então essa compreensão corre o risco de ser utilizada com vistas à exploração, o saber será subordinado ao poder.”

Com uma narrativa literária e muito fluente, Tzvetan Todorov tem por objetivo – devidamente explicitado no epílogo – fazer com “que se recorde o que pode acontecer se não se conseguir descobrir o outro”, isto é, Todorov busca através da apresentação da história da colonização da América discutir a questão da Alteridade.

“… compreender leva a tomar, e tomar a destruir… A compreensão não deveria vir junto com a simpatia? E ainda, o desejo de tomar, de enriquecer à custa do outro, não deveria predispor à conservação desse outro, fonte potencial de riqueza?”

O livro é dividido por capítulos em que o autor nomeia: Descobrir, Conquistar, Amar e Conhecer. E já em suas primeiras linhas percebe-se que essa titulação não é em vão. Todo o decorrer da obra é marcado pelo sangue, ambição e “cegueira”… É realmente uma obra escrita por um europeu arrependido que tenta retratar os abusos cometidos por seus antepassados. Para quem quer compreender a Conquista da América essa é uma leitura obrigatória.

Leitura fluente e impactante, nos transporta para o período pré-colonial da América e nos faz imergir nesse universo dolorido do nosso passado. Todorov não poupa palavras para descrever as mazelas impostas aos colonizados.

______________________________________________

Querida Rochelle, queridas pessoas que nos acompanham,

Muito feliz de ter tido oportunidade de falar sobre meu método, minha forma de trabalhar, como terapeuta, palestrante... e de viver, pois aplico o movimento TAP sempre na minha vida e nas minhas relações.

Então, fiquei de mostrar mais um pouco como se faz, um processo metodológico, e ai vai, me servindo, como exemplo, do autor acima e seu livro A conquista da América: A questão do outro, que nos ensejou, recentemente, um diálogo bastante interessante e construtivo sobre alteridade e empatia:

Diretrizes para leitura análise e interpretação de uma unidade de leitura e desenvolvimento do processo TAP (este é o título, que mais parece um livro do Jorge Amado - ou do Nietzsche... muito longo, porém elucidativo):

Primeiro,  defina a unidade de leitura...  pode ser um livro pode ser um capítulo pode ser um parágrafo pode ser um poema pode ser uma música, até uma frase;
Segundo,  pesquise sobre o autor, procurando situá-lo histórica e ideologicamente, dispomos agora do google para isso;
Terceiro,  pesquise, identifique,  a pergunta, a perplexidade, a interrogação,  do autor... o que o fez escrever aquilo, fazer aquele poema, aquele filme, aquela música... de que ele fala;
Quarto,  verifique com você mesmx o que você já sabe  sobre o assunto...  com antecedência;

Quinto passo: apreender a "unidade de leitura" procurando identificar a ideia central (o tema, como o autor|autora desenvolve - ou responde -  sua pergunta, sua perplexidade)... e daí apreenda também as ideias secundárias; 

Sexto passo: Começar a conversar com o autor, com outrxs autores, e com outras pessoas, sobre a "unidade de leitura" (aqui começa o movimento TAP): 
. verifique se você concorda totalmente, discorda totalmente, concorda em parte,  discorda em parte... do autor|autora - comece argumentar
. "escolha", melhor "verifique",  uma ou mais ideias do autor que podem ser o tema principal dele ou pode ser um tema secundário para ser afetado... aí você vai começar sua reflexão
. "ser afetado":  pegue o tema que você se afetou e comece a explorá-lo,  refletir sobre ele;
. Leve o tema que você se afetou, que te produziu reflexão, para a sua vida, verifique em que, na sua vida, nas suas relações, o autor|autora te modificou, alterou sua forma de pensar|sentir|agir...  
. Volte para você mesmx, reflita... e elabore... desse movimento pode resultar uma "obra" (um poema, uma música, um texto, uma conversa)... pois você já estará sendo SUJEITO... 

. Parabéns se você chegou até aqui... treine isso todo dia e você mudará sua vida, suas relações, sua visão do mundo e de si mesmx. 

Verifiquem que, no início do texto, já cumpri algumas etapas...

Continuando no processo metodológico e no movimento TAP, com o nosso autor em questão, Tzvetan Todorov,  fomos estimuladxs a conversar sobre o tema ALTERIDADE E EMPATIA, para além do que ele coloca no seu brilhante livro citado. 

Vimos que o tema principal do autor é a ALTERIDADE, com esse foco ele reflete sobre a colonização europeia da América... a dominação, a exploração... tudo a pretexto de que o "diferente" é "inferior". 

E nossa conversa foi sobre como isso se dá nos outros níveis de relação, relações pessoais, relações íntimas, ambiente de trabalho...

Num primeiro momento fomos aos conceitos: 

Alteridade é um termo abordado pela filosofia e pelas ciências sociais (sociologia, antropologia, ciências políticas, etc.). Em latim, a origem da palavra alteridade está na palavra  alteritas. O radical ALTER significa "outro", enquanto ITAS remete a "ser", ou seja, em sua raiz, alteridade significa "ser o outro". A alteridade é a qualidade ou estado do que é outro ou do que é diferente. Está relacionada com a capacidade de perceber a si mesmx ou a seu grupo social, não como o padrão, mas como "outro".

Empatia: O termo advém do grego EMPATHEIA, formado por EN-, “em”, mais PATHOS, “emoção, sentimento” . Aristóteles usava o termo "em-pathein" no sentido de "animação do inanimado". Na psicologia e nas neurociências contemporâneas a empatia é uma "espécie de inteligência emocional" e pode ser dividida em dois tipos: a cognitiva — relacionada com a capacidade de compreender a perspectiva psicológica das outras pessoas; e a afetiva — relacionada com a habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência alheia.

Encontramos diferenças na apreensão dos dois conceitos: tem gente que encontra semelhanças e tem gente que acha que são completamente diferentes. Praticando a alteridade, ou seja, respeitando as diferenças... sigamos:

  

Ambos (alteridade e empatia)  envolvem a capacidade de se colocar no lugar do outro, mas a empatia pressupõe compartilhar das mesmas emoções básicas e causas materiais, enquanto a alteridade depende do reconhecimento das diferenças. Ainda, ter empatia é um processo individual, enquanto a alteridade vai mais pro coletivo, ainda que praticada no nível relacional até (ou desde) os pares.

. "A alteridade é o reconhecimento de que existem pessoas e culturas singulares e subjetivas que pensam, agem e entendem o mundo de suas próprias maneiras. Reconhecer a alteridade é o primeiro passo para a formação de uma sociedade justa, equilibrada, democrática e tolerante, onde todas e todos possam expressar-se, desde que respeitem também a alteridade alheia."

. "A alteridade é o reconhecimento da individualidade e das especificidades do outro ou de um outro grupo. Exercer a alteridade é agir com empatia, respeito e tolerância".

. "No nível de relação íntimo, afetivo-sexual, extremamente necessário se faz a prática da alteridade: "amar o semelhante é um amor narcísico, amar a imagem de si mesmx". 

. "Por isso é que "amar dá trabalho!". E pouca gente se dispõe a isso, preferem "praticar" o amor romântico, idealizado, e ficar repetindo esse modelo por toda a vida".

. "Reconhecer o "lugar de fala" do outro significa praticar alteridade". 

. "E a "não alteridade" significa, tanto no plano macro como no plano micro, "exterminar"  o diferente, o que vem a ser o fascismo.   Ou "submetê-lo", o que vem a ser o autoritarismo, o machismo, a dominação". 

. "E as redes sociais estão aí para "explorar" ao máximo essa ambiguidade própria do humano... "Tudo que me salva pode me matar". 

E assim continuamos nossa conversa... 

Faça, também a sua reflexão ... e pratique alteridade... e empatia... dá trabalho, mas a vida ficará mais bonita...






Obrigada Rochelle... e abraços carinhosos a todas, todos e todes...

Santuza TU