segunda-feira, 23 de junho de 2014

Homenagem do SBC a Rose Marie Muraro




O SBC presta uma singela homenagem a uma grande mulher brasileira, que sempre fez parte da nossa galeria de SBCenses famosas: acaba de falecer aos 83 anos Rose Marie Muraro, patrona do movimento feminista...por mérito e por lei (Lei 11.261 de 30/12/2005 passada pelo Congresso Nacional foi nomeada Patrona do Feminismo Brasileiro). Suas ideias inspiraram também a "teologia da libertação", junto a Leonardo Boff, o que lhe custou a demissão da Editora Vozes e a censura pública por parte da Igreja Católica. “Rose definia sua luta como uma luta por um mundo solidário a tod@s, o que inspira todas as lutas por direitos humanos. Era clara em afirmar que não se trata de um conflito entre lados opostos, como os falastrões acusam para minimizar a questão”, disse o deputado federal Jean Wyllys, no face.

Rose Marie Muraro (Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1930 - Rio de Janeiro, 21 de junho de 2014) nasceu praticamente cega. Há pouco tempo desafiou os próprios limites quando, aos 66 anos, recuperou a visão com uma cirurgia e viu seu rosto pela primeira vez. "Sei hoje que sou uma mulher muito bonita."

Oriunda de rica família do Brasil nos anos 1930/40, aos 15 anos, com a morte repentina do pai e consequentes lutas pela herança, rejeitou sua origem e dedicou o resto da vida à construção de um novo mundo: mais justo, mais livre. Nesse mesmo ano conheceu Dom Helder Câmara e se tornou membro de sua equipe. Os movimentos sociais criados por ele nos anos 40 tomaram o Brasil inteiro na década seguinte. Nos anos 60, o golpe militar teve como alvo não só os comunistas, mas também os cristãos de esquerda.

A Editora Vozes foi um capítulo à parte na vida de Rose. Lá, trabalhou com Leonardo Boff durante 17 anos e das mãos de ambos nasceram os dois movimentos sociais mais importantes do Brasil, no século XX: o movimento de emancipação das mulheres e a teologia da libertação - até hoje, base da luta dos oprimidos. 

Para Boff, Rose Marie estabeleceu inovações analíticas “sem precedentes” sobre o estudo da mulher. Parte significativa de seus estudos foram reunidos no livro “Sexualidade da mulher brasileira: corpo e classe social no Brasil” (1996), considerado um clássico. — Ela introduziu a questão da classe social no estudo de gênero, foi a primeira mulher a estudar de forma sistemática a sexualidade da mulher brasileira a partir da situação ou classe social. — Ela inaugurou esse discurso, nem Freud ou qualquer analista europeu atingiram esse ponto. Tudo isso foi resultado de uma ampla e minuciosa pesquisa de campo, diz Boff.
 
Juntos, Rose Marie e Boff assinaram, em 2002, o livro “Masculino / Feminino”, onde investigaram juntos a relação entre os gêneros. — A Rose elevou a questão do gênero a um novo patamar, pois não considerava o masculino e o feminino como realidades que se contrapõem, mas como instâncias fundamentais, onde cada um é completo em si mas voltado para o outro, numa relação de reciprocidade e construção conjunta — diz ele ainda.
 
Nos anos 80, Rose e Boff vivenciaram a virada conservadora da Igreja. E em 1986, foram expulsos da Vozes, por ordem do Vaticano.  Motivo: a defesa da teologia da libertação, no caso de Boff e a publicação, por Rose, do livro Por uma erótica cristã.

Foi eleita, por nove vezes, A Mulher do Ano. Em 1990 e 1999, recebeu, da revista Desfile, o título de Mulher do Século. E da União Brasileira de Escritores, o de Intelectual do Ano, em 1994. O trabalho de Rose, como editora, foi um marco na história da resistência ao regime militar. Devido a este trabalho recebeu do Senado Federal o Prêmio Teotônio Vilela, em comemoração aos 20 anos da anistia no Brasil. Foi também palestrante nas universidades de Harvard e Cornell, entre tantas outras instituições de ensino americanas, num total de 40. Editou até o ano 2000 o selo Rosa dos Tempos, da Editora Record. Atualmente vinha dedicando-se ao Instituto Cultural Rose Marie Muraro, fundado em 2009.

Ao longo da vida, escreveu 44 livros — como “Os seis meses em que fui homem” (1993), “Por que nada satisfaz as mulheres e os homens não as entendem” (2003) — que venderam mais de um milhão de exemplares. Em 1999, ela contou sua história na autobiografia “Memórias de uma mulher impossível”, uma das três únicas autobiografias de mulheres da História do Brasil. Em trecho de documentário, lançado em 2009, Rose Marie explica: “O assunto mulher era um assunto sem importância para os militares e para a sociedade como um todo. O pessoal não sabia da existência do feminino. Ah, essa daí lida com mulher, essa daí não é perigosa, tem filhos pequenos, só tá na igreja, então essa daí não vamos perseguir. Já nos anos 60 eu dizia: eu também quero pôr fogo no mundo. Fui pôr fogo no mundo, fui ser editora. E eu vi que eram os livros que punham fogo no mundo”.
 
Então, gente... SBCenses... de todos os gêneros... em qualquer livro que você ler da Rose Marie você terá uma análise aprofundada da história humana, da sexualidade, da mulher. Peguei uma sinopse do “Feminino e masculino – Uma nova consciência para o encontro das diferenças”, publicado em 2002 e escrito por ela junto com  Leonardo Boff, para dar vontade de ler:  “...neste livro, Leonardo Boff e Rose Marie Muraro fazem uma análise profunda da sexualidade e mostram como os conflitos entre os gêneros podem levar à destruição da humanidade. É preciso estabelecer um convívio pessoal mais harmônico entre homens e mulheres, sem competição nem violência, e criar uma nova consciência, mais solidária. 'Feminino e Masculino' é uma obra provocadora, que questiona as grandes teorias patriarcais, a psicanálise freudiana e até a teologia produzida a partir do ponto de vista masculino. 

“O homem vê a mulher como se estivesse num frigorífico: um pedaço de nádegas, olhos grandes, cabelos pretos, seios fartos. Ele enxerga a mulher aos pedaços.”


 E mais um, também para instigar a leitura, acho que o seu último livro, publicado em 2011, trata-se de “Reinventando o Capital/dinheiro”
 Reinventando o...

Em Reinventando o capital/dinheiro Rose Marie oferece aos leitores leigos em economia uma leitura simples e direta sobre a história do capital/dinheiro. Ela mostra como está ocorrendo a transição entre o sistema capitalista e o novo sistema que a era da informação exige, assim como a situação entre economia e ecologia. E, de uma forma positiva e corajosa, aponta como é possível mudar a lógica da economia, do estado, das culturas e, principalmente, a lógica monetária, criando o dinheiro sustentável e solidário.A leitura de Reinventando o capital/dinheiro desmistifica o complicado mundo da economia e nos faz pensar que é possível mudar o panorama de crise atual se investirmos em valores sociais que possibilitem a criação de um novo paradigma, onde o altruísmo, a cooperação, a reciprocidade e a consciência ecológica ganhem lugar de destaque.
The Malleus...
 
Agora, merece atenção especial uma introdução, escrita por ela,  numa das últimas edições do livro “Malleus Maleficarum – O Martelo das Feiticeiras”, conhecem este livro? Não? Toda mulher deveria conhecer e, mais ainda, a “BREVE INTRODUÇãO HISTORICA”  que a nossa homenageada faz nesta última edição publicada do mesmo. Trata-se de uma esplêndida aula de história.


Um pouco sobre o livro: escrito em 1484 pelo inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger, o Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum) é um dos livros mais importantes da cultura ocidental, tanto para os leitores que se interessam pela história quanto para aqueles que estudam a história do pensamento e das leis. Documento fundamental do pensamento pré-cartesiano, bem como um dos mais importantes depositórios das leis que vigoravam no Estado teocrático, revela as articulações concretas entre sexualidade e poder, e por isso é uma peça única para todos aqueles que estudam a profundidade da psique humana e o funcionamento das sociedades. Durante quatro séculos este livro foi o manual oficial da Inquisição para caça às bruxas. Levou à tortura e à morte mais de 100 mil mulheres sob o pretexto, entre outros, de "copularem com o demônio". Esse genocídio foi perpetrado na época em que formavam as sociedades modernas europeias. Uma das consequências, apontadas pelos especialistas, foi tornar dóceis e submissos os corpos das mulheres 

Aqui, pequenos trechos da Introdução Histórica, prá acabar com essa péssima tendência que temos de “naturalizar” concepções completamente definidas historicamente, portanto, possíveis de serem mudadas. Vocês acham que o tal Malleus Maleficarum (escrito em 1484), não tem mais a ver com os nossos dias? Ledo engano... leiam ai...

“Era essencial para o sistema capitalista que estava sendo forjado no seio mesmo do feudalismo um controle estrito sobre o corpo e a sexualidade... Começa a se construir ali o corpo dócil do futuro trabalhador que vai ser alienado do seu trabalho e não se rebelará. A partir do século XVII, os controles atingem profundidade e obsessividade tais que os menores, os mínimos detalhes e gestos são normatizados. 

...vemos assim que na mesma época em que o mundo está entrando na Renascença, que virá a dar na Idade das Luzes, processa-se a mais delirante perseguição às mulheres e ao prazer. ...se nas culturas de coleta as mulheres eram quase sagradas por poderem ser férteis e, portanto, eram as grandes estimuladoras da fecundidade da natureza, agora elas são, por sua capacidade orgástica, as causadoras de todos os flagelos a essa mesma natureza. Sim, porque as feiticeiras se encontram apenas entre as mulheres orgásticas e ambiciosas, isto é, aquelas que não tinham a sexualidade ainda normatizada e procuravam impor-se no domínio público, exclusivo dos homens". 

Assim, o Malleus Maleficarum, torna-se a testemunha mais importante da estrutura do patriarcado e de como esta estrutura funciona concretamente sobre a repressão da mulher e do prazer. 

De doadora da vida, símbolo da fertilidade para as colheitas e os animais, agora a situação se inverte: a mulher é a primeira e a maior pecadora, a origem de todas as ações nocivas ao homem, à natureza e aos animais. 

Durante três séculos o Malleus foi a bíblia dos Inquisidores e esteve na banca de todos os julgamentos. Quando cessou a caça às bruxas, no século XVIII, houve grande transformação na condição feminina. A sexualidade se normatiza e as mulheres se tornam frígidas, pois orgasmo era coisa do diabo e, portanto, passível de punição. Reduzem-se exclusivamente ao âmbito doméstico, pois sua ambição também era passível de castigo. O saber feminino popular cai na clandestinidade, quando não é assimilado como próprio pelo poder médico masculino já solidificado. As mulheres não têm mais acesso ao estudo como na Idade Média e passam a transmitir voluntariamente a seus filhos valores patriarcais já então totalmente introjetados por elas.

É com a caça às bruxas que se normatiza o comportamento de homens e mulheres europeus, tanto na área pública como no domínio do privado.
A sociedade de classes que já está construída nos fins do século XVIII é composta de trabalhadores dóceis que não questionam o sistema. 

E a nossa homenageada termina sua Breve História fazendo uma análise das Bruxas atuais: “...agora, mais de dois séculos após o término da caça às bruxas, é que podemos ter uma noção das suas dimensões. Somente nos tempos de hoje é que estão se rompendo dois tabus que causaram a morte das feiticeiras: a inserção no mundo público e a procura do prazer sem repressão. A mulher jovem hoje liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio privado formam também os dois pilares da opressão feminina. 

Assim, hoje as bruxas não podem ser queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela primeira vez na história do patriarcado, para o mundo masculino, os valores femininos. Esta reinserção do feminino na história, resgatando o prazer, a solidariedade, a não-competição, a união com a natureza, talvez seja a única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva. 

Creio que com isso as nossas bruxinhas da Idade Média podem se considerar vingadas! Diz Rose, otimista...

Vá em paz, grande SBCense. Você deixou um tesouro para nós: sua luta e a herança de tudo o que você inspirou.

Beijos às bruxas e bruxos...

SantuzaTU

quarta-feira, 28 de maio de 2014

SBC E O EMPREENDEDORISMO - bicho de pé

Sim, o SBC é versátil e empreendedor (num sentido mais amplo, empreendedorismo na vida)... além de inclusivo, democrático, anárquico, ecológico... Tudo que é VIDA está incluído no SBC.

Então, depois do nosso super carnaval e da ressaca estamos aqui de novo prá contar prá vocês o novo projeto do SBC (ou melhor, o empreendimento em que o SBC está incluído e se inclui completamente): o BICHO DE PÉ, equipe de trekking... sim, o SBC está “trekkando”!!!


É muito bom, gente!!! eu acreditava que trekking era uma simples caminhada... não é!!! quer dizer, pode ser também, mas o trekking que estamos fazendo é competitivo, estamos atualmente participando do Circuito Mineiro de Trekking, promovido pela empresa Minas Trekking. Este Circuito acontece em Belo Horizonte e cidades do interior de Minas, com uma etapa por mês. Você fica conhecendo lindíssimas cidadezinhas a menos de uma hora de Belo Horizonte e que parecem um fim de mundo, tipo celular não pega, não tem internet e estacionamento tem... de cavalos... verdade, os nativos só andam a cavalo... esta é São Bartolomeu, distrito de Ouro Preto. Existem outros circuitos de trekking, por exemplo o Iron Adventure, que participar já está nos nossos planos.

Nosso último trekking foi em outro distrito também de Ouro Preto, Santo Antônio do Salto. Por que Santo Antônio do Salto? a história contada é que os tropeiros estavam passando por lá e uma imagem do Santo Antônio saltou do embornal (uma espécie de sacola que se usava atravessada no ombro, onde os tropeiros carregavam farofa, rapadura, provavelmente cachaça e alguns outros pertences...). Por isso.... saltou e ficou por lá... esses santos são espertos, porque o lugar é lindíssimo.

Então, a caminhada, geralmente de mais ou menos 4 horas, além de ocorrer por estes lugares maravilhosos, de você estar vendo paisagens nunca vistas, você estará passando pelo meio de rios, trilhas, matos, subindo montanhas, descendo, atravessando cercas, pântanos ainda não fizemos (rsrsrs). Mas é hard o negócio, gente... como estava dizendo, não é uma simples caminhada. Trata-se de “Enduro de Regularidade”, ou seja, temos que percorrer um percurso no tempo exato determinado pela organização do evento. O objetivo da competição é ser a equipe mais regular e não a mais rápida. Ao se inscrever, ou melhor, inscrever a sua equipe, vocês receberão uma planilha com o percurso, cheio de desenhinhos, siglas, que vocês devem decifrar, contagem de tempo, distância, velocidade e outras coisinhas... aí, temos na equipe três funções básicas: contador de passos (ou contadora); navegadxr e cronometrista. No nosso caso temos também uma coordenadora e outras funções (Chipeira, a pessoa que toma conta de um pen drive, temos PCs ao longo do caminho, quando se avista um PC essa pessoa tem que correr lá e botar o pen drive no PC que ele registra o tempo para a Central, quer dizer, a Central está anotando nossos passos e tirando pontos, ou melhor, no trekking a gente não perde pontos, ganha pontos, quanto mais pontos a gente ganha pior a gente fica... por exemplo, perder um PC custa 800 pontos e existe a lenda de que nossa marcadora, da primeira vez que ela viu o PC ficou tão afobada que em vez de apertar o botão do registro de dados apertou o botão de desligar a coisa... aí foi um auê danado, mas no final fica tudo resolvido, pois se não acontece isso não é ainda o final. Ah, tem também o PC virtual, que é quando uma pessoa está segurando o PC, não entendi ainda porque justamente estes se chamam "virtual".

Como todo esporte, o trekking tem também sua linguagem própria (vai ver essa coisa do “virtual” faz parte desta linguagem). Por exemplo umx membrx novx na equipe se chama “carrapato”. A equipe inclui quantos carrapatos queira, nossa coordenadora foi de carrapato numa primeira vez, para aprender as coisas, e então formamos a equipe Bicho de Pé. Os nomes das equipes são também super interessantes: Equipe Phoda-se, Equipe Vai que eu Chego, Equipe Kdê o Neutral (que é o ponto de descanso mais ou menos no meio do percurso, com água e frutas, que a gente fica doido prá chegar...) e por aí vai.

Dizem que participantes de trekking são os mais variados tipos de pessoas, olha se não é o SBC. Idades tem todas... e tem as equipes super competitivas, que vão antes do dia prá ver o percurso, se preparar, essas geralmente perdem menos pontos e ganham os troféus (sim... Tem troféus!!!). São também dessas equipes xs contadorxs de passos que, no dia da competição, ficam lá com as caras seríssimas dando uns passos ao lado de uma trena colocada no chão... até o povo daquelas equipes que vão prá cidade um dia antes e tomam todas e quase não acordam no dia seguinte, o dia da competição... não sei se vomitam pelo percurso... também não vi ainda gente desmaiada. Mas já vi o cara já na quinta cachaça (lá em Santo Antônio do Salto tem uma ótima!!! Um real a dose!!!) dizendo que achava que não tinha álcool na dita cuja, ele não estava sentindo nenhum foguinho... dizem que foi até a nona... imagina o nível alcoólico!!!). Aí vocês vão dizer: no Bicho de Pé deve ter só desse tipo!!! Erraram!!! acredito que uma equipe deve ser diversificada, no Bicho de Pé tem todo tipo de pessoa, mesmo porque se tivesse só de um tipo não sairia, não é? Na nossa equipe tem até uma "águia". É assim: no meio da caminhada, quando as forças estão acabando, um membro da equipe grita: O HOMEM PÁSSARO!!! (lembram disso? a voz é igualzinha!) e aí a pessoa faz o som do canto da águia... é lindo!!! rsrsrs... como ela descobriu esse talento? a pergunta que não quer calar...



E, claro, tem as conversas SBCenses maravilhosas, alegres e profundas... sobre o Amor Livre... livre de padrões, livre de amarras, livre de preconceitos, livre de máscaras e representações... O Amor Livre em todos os níveis de relação significa uma bela mudança de paradigma... sim, porque não somente nos relacionamentos afetivo-sexuais, mas também entre amigxs, na família, no trabalho (...) existe o romantismo, aquele que faz a gente idealizar a relação e cobrar dx outrx a reciprocidade desta idealização, o que acaba sendo bobo, pq não caminha para tentar construir uma relação mais "honesta", onde se expressam desejos, emoções, até mesmo os mais inconfessáveis... e se pratica a escolha... sempre... é desse paradigma que o SBC quer viver, construir, essa é a orientação de vida pelo sentido estético, o resto é padrão... em todos os níveis de relação... e é sobre o Amor Romântico que o SBC quer trocar experiências agora, para combatê-lo e construir o Amor Livre. Vejam nosso próximo post...

Beijos a todxs, e quem quiser entrar pro Bicho de Pé entre em contato, temos um trekking uma vez por mês...

quarta-feira, 26 de março de 2014

Tristezas de um Carnaval





 Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano

Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano




Pois é... Tem o Chico Buarque prá ajudar a gente a transformar as tristezas e desenganos em poesia... e jamais perder a capacidade de nos indignar... a pedidos e com a permissão da pessoa denunciamos mais uma vez o machismo estrutural que permeia nosso mundo. Porque tem que ser denunciado, sempre... é tão sutil que abre uma ferida de todo tamanho e ainda por cima fica a sensação de que estamos ou exagerando, muito sensíveis, ou interpretando mal, ou doidas, que mulher nunca se sentiu assim?

Então, relato o fato como me foi contado: ela tinha, há uns meses atrás, pegado um fogo daqueles, estava em sua casa com amigos... no outro dia acordou sem memória... mas com um sentimento muito estranho, o de ter sido violentada. Ficou sabendo que todos tinham ido embora e tinha ficado uma pessoa, um amigo. Procurou essa pessoa: Queria conversar com você sobre o que aconteceu, podemos? ele respondeu se esquivando, quando você quiser, pode marcar... ela não teve mais coragem de falar com ele, embora quisesse muito desvendar: teriam transado? ela teria permitido, gostado? Resolveu elaborar por conta própria, evitar se sentir culpada... não conseguiu ter raiva da pessoa, apenas um certo cuidado com ela... talvez um dia conversassem e pudessem até rir juntos, afinal eram amigos...

Pois bem... não é que na terça de carnaval, numa situação também de todo mundo de fogo, estava até acontecendo uma cena de piropagem entre ela e uma outra pessoa, quando ela vai ao banheiro e é abordada pelo cara na porta dizendo: sabe aquele dia? você queria conversar comigo, né? pois fique tranquila que eu fiz o teste de HIV e tá tudo ok.

O quê? como? foi aí então que a ficha caiu... eu a encontrei em prantos, entre perplexa, indignada, estarrecida, envergonhada... sentimentos fortes se conflitando, segundo ela me disse... Verdade!!! na hora até eu pensei: não teria sido cuidado da parte dele? veja como a gente fica!!! É bem provável que ele, e inúmerxs outrxs (o X serve para homens e mulheres), digam isso, sem perceberem de imediato a violência em dobro (ou potencializada).

Gente! o machismo estrutural tem que ser denunciado todo dia!!! Precisamos todxs criar cada vez mais consciência e agir para que possamos viver um mundo melhor. Creio que não existe, ainda,  nenhuma mulher que não tenha uma ferida do machismo estrutural, mesmo que ela não tenha consciência a ferida está lá.

Todxs nós sofremos e reproduzimos o machismo estrutural, comecemos por admitir isso, já disse e repito, tenho medo de pessoas que dizem não ser machistas, não ser preconceituosas... essas são perigosas, pois reproduzem o pior mal, o da alienação, o mal fica "banalizado", tomando emprestado o termo da Hanna Arendt em outro contexto. É o mal da ignorância, do não pensar, ao não pensar reproduzimos... e podemos reproduzir crueldades que, segunda ela também, tem a ver com mediocridade.

E ter consciência disso nos faz responsáveis... sim... responsáveis pela reprodução ou pelo combate... vamos escolher o combate? vale a pena... e continuamos a vida, pois vIDA é ida, nos perdoando como humanos que somos e lutando... sempre.


Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade

No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança


Abraços carinhosos a todxs...

TU

sexta-feira, 7 de março de 2014

PRECONCEITO NÃO!!! LIBERDADE SIM!!!

 

Começamos nosso desfile exatamente às 15 horas (coisa raríssima pro SBC) do memorável dia 4 de março de 2014, com nosso hino de Paz (porque guerreamos pela paz). Foi cinco vezes PRECONCEITO NÃO!!! e cinco vezes LIBERDADE SIM!!! com a maior energia... E em seguida: Liberdade, liberdade! Abre as asas sobre nós! E que a voz da igualdade, seja sempre a nossa voz!... e se ouviu o rufar dos tambores e o nosso carro de som (guiado por SBCenses ilustríssimas!!!) saiu ao som do nosso Hino: Agora é hora! é a hora do SBC...

E todo mundo participava, já tinham sido distribuídos os nossos chocalhos ecológicos, esse ano envolvidos pelos adesivos que ficaram MARAVILHOSOS!!! Todo mundo faz parte da bateria do SBC e se sente da diretoria, esse é o espírito SBCense, todo mundo (e cada um...) é importantíssimo!!! Somos pessoas importantes, estamos fazendo história!!!
Foto: Bloco SBC Coletivo no Padre Eustáquio


E com garra, força e raça rodamos algumas ruas do Padre Eustáquio, ao som de marchinhas e marchas-rancho, sendo muito bem recebidos pelos moradores, alguns jogavam água com a mangueira e era uma delícia... até a Praça Sagrados Corações, onde fizemos o prometido: o resgate da tradição do carnaval, o Entrudo, guerra de cheiros (no nosso caso cheiro bom), que foi proibido por Jânio Quadros depois que um doido jogou alguma coisa que queimava... SBC é cultura e história... enfim, algumas pessoas não gostaram mas a maioria adorou, era um cheiro delicioso de capim cidreira (até me pediram a receita: compra-se no Mercado Central, tem prá mais de 40 cheiros, os cítricos são os melhores, e se dilui em água com um álcool especial que tem na mesma loja das essências). Ah!!! E teve gente que, ao receber o saquinho de chup chup com a água cheirosa (que era prá estourar o saquinho nas outras pessoas) estourou o mesmo com o dente e bebeu!!! Ninguém foi entrevistado prá saber se era bom o gosto...

E da praça voltamos para o Bar do Bolão do Choro, onde já nos esperavam um montão de gente que tinha ficado lá ou chegado depois e estavam também ao som de banda super bacana, tocando também marchinhas e marchas rancho (e samba ótimos  claro...). Fizemos o percurso em 3 horas, como previsto, a idéia de sair e voltar pro mesmo lugar foi excelente, mas me parece que a maioria ainda reclamou da volta meio longa, sabem como é, o SBC é "de mamando a caducando...". Pensaremos numa volta menor no ano que vem, rsrsrs, tem gente que acha que devia ser só uma voltinha ao redor de si mesmo... Todo mundo agora dando a sua volta!!!! kkkkk


E as fantasias? Ótimas, super criativas, até as camisetas, tinha uma assim: tem paciência comigo porque eu tô TONTO!!!
Pode? este mesmo da camiseta batizou a fantasia da outra (que fazia uma homenagem às empregadas domésticas, uma classe que sofre muito preconceito no nosso país): "hoje o patrão me dá um aumento"!!! rsrsrs... na sexta, no nosso pré carnaval, a mesma fantasia se chamava: "você quer me contratar prá ver s'eu cuzinho?"... s'eu lavo... passo... kkkk... 

Por falar em sexta, no nosso pré carnaval, enquanto estávamos nos juntando na praça encontramos com um bloquinho que tinha vindo também ensaiar... aí veio o carinha barbudo e com um tomara que caia lindinho que ele tinha que levantar toda hora pois tinha esquecido dos limões, então estava caindo... rsrsrs... Muito prazer, nós somos do bloco “O pior bloco do mundo”! O prazer é todo nosso! Nós somos do SBC,  o “segundo pior bloco do mundo”! Claro que ficamos amigos de todo mundo do PIOR BLOCO DO MUNDO, nos identificamos imediatamente... rsrsrs... e eles distribuíam pequeninos adesivos de uma bostinha, sim, um cocozinho!!! Tipo esse bloco é uma bosta!!! Lindxs, todxs... amamos... 




E tem o neguim lindo que adora se fantasiar de Marilyn Monroe, seu sonho... ao final ele toma duas caipirinhas feitas com os limões (os peititos), e mais algumas cervejas... e se diverte com sua namorada lindona, quebrando preconceitos e beijando na boca (ou vice versa).
Foto


E ficamos por alí, no quarteirão fechado da Vila Rica, tomando umas e ouvindo as marchinhas e conversando, e piropando, lógico... nosso post do carnaval de 2012 (5 de março de 2012)... sobre níveis de alcoolismo, foi bastante lembrado... rsrsrs... isso foi  até mais ou menos dez horas, acho que foi essa hora que eu fui...

E os jornais da quarta feira, todos engrandecendo essa grande “festa popular” que é o carnaval da nossa cidade. Realmente, esse ano fizemos uma grande apropriação do nosso espaço, do espaço do cidadão, as ruas. Vale a pena um trecho do Editorial do jornal O tempo: “Enquanto foi administrado pelo poder público, Belo Horizonte não teve Carnaval. Foi preciso que o governo demonstrasse sua incapacidade para que a comunidade assumisse o encargo, se é que a festa seja uma carga. Como refletiu um antropólogo, quando o Estado ou o mercado conduz o Carnaval, a festa perde sua originalidade e vira espetáculo. O exemplo mais acabado disso são as escolas de samba do Rio e São Paulo. ... O Carnaval de rua, resultado de uma vontade coletiva e espontânea, transforma o espaço público de lugar da utilidade em lugar da invenção. Por uns dias, a cidade recupera a memória, o afeto e a cordialidade.” 

Também citando outro antropólogo: “O resgate do espaço público é o resgate de uma consciência coletiva da grandeza de construir e apropriar da sua história, da auto-estima de um povo, da consciência de que somos nós que fazemos o país”. Grande!!!

E o músico Pablo Castro também escreveu bonito a acertadamente: “Não deixa de ser uma expressão de inconformismo, de ousadia e de perspicácia a maneira como o carnaval belorizontino hoje se confunde com as lutas sociais, promovendo, através dessa catarse dionisíaca coletiva, uma outra forma de se estar na cidade”. É isso!!!
 

Claro que houve também os casos tristes, de perdas, de homofobias, de machismo estrutural, como sempre... e não é que a vida é assim? E, a cada dia, escolhemos combater essas coisas (sem alienação), e, ao mesmo tempo, viver a vida no que ela nos oferece de melhor...

Desses casos conversaremos em outro post...

E quem tiver mais fotos ou filmes postem aí no blog ou no face Sbc coletivo... aguardamos e obrigada a todxs

Beijos carinhosos e abraços oxitocinados!!!

SantuzaTU